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De Lolita a Lulu

Liziane Guazina - Articulistas Publicação:28/01/2014 14:23Atualização:28/01/2014 14:25

'Nas prateleiras dos desejos comercializáveis na internet, tanto faz classificar alguém por seu desempenho na conversa ou na cama, comprar um colchão ou escolher o hidratante mais barato' (Breno Fortes/CB/D.A Press)
"Nas prateleiras dos desejos comercializáveis na internet, tanto faz classificar alguém por seu desempenho na conversa ou na cama, comprar um colchão ou escolher o hidratante mais barato"
 

Os tempos de hoje andam mesmo complexos. Qualquer um pode escolher parceiros sexuais pela proximidade geográfica, via aplicativos em seu smartphone. Mas, ao mesmo tempo, homens podem se vingar de suas ex-namoradas publicando vídeos íntimos como se isso fosse aceitável socialmente. Em pleno século XXI, o comportamento sexual das mulheres ainda é motivo de controvérsias públicas, moralismos e censuras de toda ordem.


Uma das últimas polêmicas na internet refere-se a um novo aplicativo para celular. Nele, as mulheres heterossexuais podem verificar a classificação de “desempenho”, por assim dizer, de seus ex-parceiros, amigos, conhecidos (ou não), conferindo notas ao comportamento deles durante um relacionamento para que outras interessadas possam checar se estão entrando “numa fria”.


Muita gente ficou incomodada com o aplicativo, não somente pela potencial exposição pública sem autorização e pela banalização dos relacionamentos, mas também em função da ideia presente no imaginário popular de que mulheres “sérias” não devem expor suas vidas amorosas. A percepção de que as mulheres devem se comportar dentro de determinados padrões socialmente construídos para terem o direito de serem respeitadas, particularmente, chamou-me a atenção.


Este e outros casos têm mostrado que a defesa da liberdade de expressão vem sendo usada no ciberespaço como recurso retórico para atitudes preconceituosas, machistas e claramente misóginas. A volta de moralismos, muitas vezes, ligados a religiões que impõem uma visão de mundo fechada ao desejo feminino tem colocado em risco um direito fundamental: o de ser dona da própria vida.


O debate sobre o aplicativo mostrou como as disputas de opiniões sobre questões de gênero na rede se fundamentam, muitas vezes, em estereótipos. Não deixa de ser irônico, em tempos como este, que poucos se lembrem do romance Lolita, do russo Vladimir Nabokov, escrito quando o autor se radicou nos Estados Unidos na década de 1950. Pois o romance de Nabokov causou furor na sociedade norte-americana daquele período, só que em termos diferentes ao que causa estardalhaço agora. Na obra, a pré-adolescente Dolores Haze, apelidada de Lolita, torna-se alvo de desejo obsessivo e doentio de um homem mais velho, Humbert Humbert.


O termo Lolita acabou ficando conhecido para designar uma jovem que não esconde sua sexualidade latente. Aliás, ficou tão famoso quanto aquele inspirado no livro A Mulher de 30 anos, do escritor francês Honoré de Balzac para falar sobre as mulheres mais maduras. Ali, Balzac conta a história da personagem Júlia (uma “balzaquiana”) e seus dilemas amorosos.


Tanto em Lolita quanto em A Mulher de 30 anos, as mulheres aparecem como objeto do desejo e posse masculinos. Porém, também tomam decisões sobre suas vidas. Todos os personagens sofrem e se enganam em busca de amor e reconhecimento – há vida e humanidade neles. Nabokov e Balzac, mesmo que tenham escrito sobre dilemas femininos muito tempo atrás, estão tão distantes dos julgamentos morais publicados nas mídias sociais quanto as mulheres brasileiras estão de manifestar sua sexualidade de maneira espontânea (e saudável) sem que, com isso, sejam virtualmente apedrejadas no espaço público digital.


Só com um olhar tristemente irônico é possível perceber como o deus-mercado é quem tem apontado as saídas para o exercício das liberdades individuais (mesmo que sem qualquer ética). Relacionamentos afetivos tornaram-se commodities, pessoas são brands, encontros são avaliados pelo nível de satisfação do “cliente”. Nas prateleiras dos desejos comercializáveis na internet, tanto faz classificar alguém por seu desempenho na conversa ou na cama, comprar um colchão ou escolher o hidratante mais barato. Vale o direito do “consumidor”.


Mas, para além da mercantilização dos amores, um aplicativo de celular pode provocar reflexões e servir para pôr em xeque a lógica padronizada de quem deve ser o sujeito e quem deve ser o objeto de afeto nas relações humanas.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017