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Bastiões de concursando

Quem são os professores que, pela didática, atraem centenas de candidatos a cargos públicos - e ganham muito bem para prepará-los para as provas

Dominique Lima - Redação Publicação:21/02/2014 14:58Atualização:21/02/2014 15:47

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
 

FERNANDO MOURA

 

Origem: São Paulo (SP)
Em Brasília desde 1973

Idade: 43 anos

Disciplinas: português e redação

Tempo de docência:
23 anos

Onde ensina: Instituto Fernando Moura

O que foi importante na evolução da carreira: “Segurança em sala de aula, profissionalismo, continuação dos estudos, dedicação e compreensão com os alunos”

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As diferenças entre um professor de curso para concurso e de todos os outros se notam antes de a aula começar. No caminho da porta da sala ao tablado, ele costuma ser parado algumas vezes, interrompido por vários alunos de olhares ansiosos, atentos a cada expressão enquanto ele responde suas dúvidas. Ao fim da aula, a fila daqueles com questões sobre a matéria costuma ser ainda maior. Não é pouca a pressão que enfrenta um candidato a cargo público no Brasil. Em 2013, foram cerca de 10 mil vagas em cargos públicos federais e mais de 1 milhão e 100 mil inscritos. E quem prepara tal quantidade de alunos também acaba sob o turbilhão, exercendo, entre muitas funções, a de para-raios das dificuldades inerentes à competição acirrada. Para o treinamento certeiro, no entanto, mestres têm sido muito bem recompensados pelos esforços. Prestígio, boa remuneração e reconhecimento nas respectivas áreas profissionais são louros daqueles que sobressaem no mercado.


A tarefa de se estabelecer nesse meio não é fácil. Muitas vezes, a rotina e a disciplina exigidas do docente chegam a ser maiores do que as do sobrecarregado concursando. O professor de português e redação Fernando Moura dá exemplo de rotina atribulada. No mercado há mais de duas décadas, ele iniciou seu trabalho concomitantemente na Secretaria de Educação do GDF, ensinando a alunos do então segundo grau, e em cursinhos para concurso. Há cinco anos, está à frente de instituto de ensino que leva seu nome. Nos 20 anos de carreira, somou à graduação e à pós-graduação em letras o curso de direito. O intuito foi aprofundar o conhecimento numa das áreas que mais caem nos certames.

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
 

JOÃO TRINDADE

 

Origem: João Pessoa (PB)
Em Brasília desde 2005

Idade: 27 anos

Disciplina: direito constitucional

Tempo de docência: 10 anos

Onde ensina: IMP Concursos

Sobre os clichês que sofrem professores e alunos de cursinho:
“Só se mantêm professores que realmente gostam do que fazem e alunos compromissados. Digo com segurança, concursandos de nível médio muitas vezes estão mais preparados que alunos de cursos de pós-graduação”

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Além da capacitação contínua, as longas horas – seja em salas de aulas, seja fora delas – são norma na vida do profissional. A análise para interposição de recursos em provas, um momento de tensão para alunos, em que a nota é passível de reavaliação, está entre os mais estressantes também para o professor. “Não são raras as vezes em que passo a noite em claro checando redações para ajudar os alunos com recursos”, conta.


Em Brasília, tornou-se rotina de concursandos enumerar os melhores professores da cidade. Certo caráter subjetivo faz a lista variar, mas alguns nomes se tornam constantes e a procura por determinados profissionais, contínua. Assim, no valioso mercado alimentado pela esperança de mais de 10 milhões de inscritos em concursos públicos das três esferas por ano no Brasil, os 40 cursos para concurso do DF têm os professores como maiores aliados na busca por ocupantes para os espaços ofertados em carteiras. Quarto colocado em número absoluto de cursos para concursos entre os estados brasileiros, o Distrito Federal se destaca também na qualidade do corpo docente, oriundo, em grande parte, dos órgãos públicos. Por isso mesmo, principalmente na área jurídica, o docente é ou foi em algum momento concursando.

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)

ANDRÉ LUÍS DE CARVALHO

 

Origem: Resende (RJ)
Em Brasília desde 1999

Idade: 48 anos

Disciplinas: administração financeira e orçamentária, direito constitucional e direito administrativo

Tempo de docência: 12 anos

Onde ensina: Cathedra

Importância da experiência em sala de aula para a carreira no Tribunal de Contas da União, onde
é ministro-substituto:
“A área de docência me mantém atualizado. Poder de síntese e capacidade de equilibrar as visões teórica e prática também são melhoradas com a experiência em sala de aula”

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Professor há 26 anos e dono de cursinho com milhares de alunos, José Wilson Granjeiro usa a experiência em sala de aula e as opiniões dos candidatos para selecionar o corpo docente de sua escola. “Não basta ter conhecimento sem didática ou ter didática sem energia. São várias características que fazem um bom professor. E muitos ficam pelo caminho. Não preenchem requisitos no curto prazo. Ou perdem a motivação ao longo do processo, que é difícil”, explica.


O professor de direito constitucional João Trindade, de 27 anos, acredita que parte de seu sucesso – suas turmas raramente reúnem menos de 200 alunos – se deve à experiência que acumulou ao se submeter à rotina de estudo para concursos. Por anos, antes mesmo de se formar em direito, dedicou horas diárias à preparação para certames diversos. O primeiro cargo público veio em 2004, quando passou para técnico em química da Universidade Federal da Paraíba, seu estado de origem. “Nada a ver com a minha área, mas era o concurso disponível para meu perfil naquele momento”, explica.


Logo em seguida, em 2005, tornou-se servidor do Ministério Público da União, em Brasília. Mudou-se para a capital federal e passou a lecionar em cursinhos de direito constitucional. Nunca parou, no entanto, de estudar nas horas vagas. No ano passado, conquistou a única vaga para consultor legislativo do Senado em sua área de especialidade. “Sei que a minha história e o cargo que exerço servem de estímulo para os meus alunos”, diz o professor, que apresenta os próprios métodos de estudo em aulas.


O número elevado de candidatos e a evolução das provas para nomeação em cargo público – obrigatórias de acordo com a Constituição de 1988 – fizeram das seleções processos cada vez mais complexos e concorridos. Com isso, as exigências sobre os profissionais responsáveis por preparar os candidatos também aumentaram. Além de conhecimento de todo o conteúdo cobrado na sua área, um professor precisa se manter atualizado em relação a como as bancas têm cobrado esse conhecimento. Em 2013, foram 65 concursos na esfera federal, e os professores precisam estar atentos para já ter na segunda-feira, já que quase todo domingo há provas realizadas, as respostas justificadas para os alunos.

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)

ANDERSON FERREIRA

 

Origem: Brasília (DF)

Idade: 30 anos

Disciplinas: administração financeira e orçamentária

Tempo de docência: 11 anos

Onde ensina: IMP Concursos e Cathedra

A que credita seu destaque na docência da disciplina:
“Credito à facilidade em transmitir
de forma simples o que nos livros e na legislaçãoé transmitido de forma mais técnica e complexa”

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Os 16 anos de experiência do professor de raciocínio lógico e matemática financeira Antonio Geraldo o ensinaram que estar muito bem atualizado faz toda a diferença na carreira que escolheu. “Sempre persegui o objetivo de me tornar o melhor professor, o mais atualizado, fazer com que minhas aulas fossem úteis. Para isso, estudei muito aquilo que a banca gosta de cobrar. Esse se tornou meu principal slogan”, diz. Formado em engenharia de redes pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre em matemática pela mesma universidade, ele conta que optou pela docência por conta das boas perspectivas que o trabalho exercido durante a graduação lhe proporcionou.


Diretor acadêmico de uma das escolas muito procuradas por alunos, formada por corpo de 30 professores e 7.200 alunos, ele não hesita ao descrever o que se deve procurar em um bom professor: “Primeiramente, aquilo que todo mestre deve apresentar: boa dinâmica em sala de aula, a proficiência, atualização em relação ao conteúdo. Soma-se ainda paciência para administrar a ansiedade de alunos submetidos a cargas desumanas de pressão”. O conhecimento comprovado por meio de artigos e livros na área em que atua é outra maneira de legitimar a presença em sala de aula e assegurar a confiança dos alunos, segundo o professor Granjeiro.


Antonio Geraldo ressalta, ao falar do perfil generalizado dos concursandos que passaram por sua sala de aula, que muitos carregam não apenas suas expectativas, mas também a de toda a família. Estudam por anos, dividindo o tempo de preparação com o trabalho ou alguma etapa do ensino formal. Por vezes, são meses, anos à espera de publicação do edital do órgão dos sonhos para, então, lutarem com milhares por poucas vagas. O quadro leva a situações-limite, tanto para alunos quanto para seus professores, que colecionam histórias de superação e algumas de fuga ao bom senso.

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)

ANDRÉIA RIBAS

 

Origem: Rio de Janeiro (RJ)
Em Brasília desde 1974

Idade: 43 anos

Disciplina: gestão de pessoas

Tempo de docência: 7 anos

Onde ensina: IMP Concursos

Em que ser psicóloga auxilia na docência em cursinho para concurso:
“Ajuda a entender melhor as dificuldades que o aluno enfrenta. Ele passa por processo de amadurecimento importante durante os estudos. E adquire resistência à frustração”

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Fernando Moura lembra com facilidade das vezes que chegou a ser destratado por alunos, episódios geralmente relacionados à necessidade deles de conseguirem auxílio para interpor recursos. Mas também conta com orgulho a evolução daqueles que chegaram praticamente sem conhecimento algum da língua e conquistaram domínio suficiente para desbancar centenas de candidatos e conseguir a almejada vaga em órgão público.


Sobre as demandas específicas de alunos concursandos sobre seus docentes, o professor de direito administrativo Vandré Amorim é direto: “É preciso ser um pouco psicólogo, conselheiro em muitos casos”. Em sala de aula há uma década, o servidor do Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu perfil em rede social para atender aos alunos de maneira dirigida. Filho e irmão de ex-professores de cursos para concursos, ele acredita na importância do profissional para ser a “peneira do grande volume de conteúdo”.


Para a tarefa de preparar os alunos numa das disciplinas mais cobradas em prova, além das 35 horas por semana de trabalho no STJ, dedica 20 horas às salas de aula, em média. O total de 55 horas semanais em atividades profissionais, conta, era ainda maior até pouco tempo atrás. Isso porque decidiu não mais lecionar aos fins de semana, para garantir melhor qualidade de vida.

 

Uma escolha como a de Vandré, de diminuir o ritmo de trabalho, só é possível depois de anos de esforço, quando escolas e alunos aceitarão as restrições impostas em favor da experiência do docente. No caso de Fabrício Dutra, professor de gramática da língua portuguesa que se considera recém-chegado ao mercado brasiliense – mudou-se para a capital vindo do Rio de Janeiro há dois anos –, mesmo as turmas lotadas ainda não lhe permitem tal liberdade. Sua rotina de dedicação total à docência em cursos para concurso não lhe concede muitos domingos de folga. Em meses que antecedem concursos mais concorridos, como o do Banco Central, realizado no fim de outubro do ano passado, não há um dia inteiro, apenas turnos de folga. “Sei que preciso dessa dedicação total por, pelo menos, mais alguns anos para conseguir meu espaço”, revela.


Fabrício sabe que as exigências são elevadas. A volumosa carga horária é parte. Mas a necessidade de conquistar os alunos pode exigir ainda mais esforços. As escolas são rápidas em atender os desejos dos candidatos matriculados. Não são raras as vezes em que um professor é destituído depois da primeira aula, por exemplo. Um abaixo-assinado com o número suficiente de assinaturas costuma bastar para tirar um professor de sua turma. Para construir diferencial, Dutra optou por adotar métodos inovadores. As estratégias, que incluem canções e brincadeiras, sevem ainda para lutar contra a má impressão que o português costuma ter entre os alunos.


Continuar sob tanta pressão parece mais fácil entendendo que as recompensas para professores também se elevaram nos últimos anos. As remunerações variam, mas salários de R$ 15 mil a R$ 30 mil são possíveis. Um professor pode chegar a receber R$ 40 mil para ministrar um curso específico, com duração de dois a três meses. No entanto, a regra são vencimentos um pouco abaixo disso, numa média de até R$ 10 mil. O que, ainda assim, configura valores mais altos que o salário médio do professor brasileiro.

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)

ANTÔNIO GERALDO

 

Origem: Recife (PE)
Em Brasília desde 1997

Idade: 33 anos

Disciplinas: raciocínio lógico
e matemática financeira

Tempo de docência:
16 anos

Onde ensina: IMP Concursos
e Instituto Fernando Moura

Um bom professor de cursinho precisa: “Ter boa dinâmica em sala de aula, proficiência na área de atuação e saber administrar o escasso tempo para passar todo o conteúdo antes da prova”

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Fabrício Dutra, que conta ter sonhado em ser professor desde criança, algo raro em sua geração, vê os altos salários como mais que justos. Apesar de dizer que está longe de receber valores próximos do teto do serviço público, diz que vê com muita alegria as boas perspectivas para docentes e que, pelo menos por enquanto, não planeja se tornar servidor: “É estranho imaginar que a sociedade questione altas remunerações para certas atividades, como a docência. São profissionais muito importantes que precisam ser valorizados no país. Sejam eles de cursinho para concurso, sejam eles da fase de alfabetização”.


E vale a pena carga horária elevada e tamanha pressão pelo salário médio de até R$ 10 mil? “A remuneração não é o principal fator motivador para seguir uma carreira, não traz a satisfação pessoal no trabalho”, explica a professora de cursinho para concurso e psicóloga Andréia Ribas, que leciona gestão de pessoas, disciplina cada vez mais exigida nos certames. Para a professora, que se licenciou sem vencimentos de cargo na Secretaria de Saúde do GDF, o salário pode atrair, mas não mantém um professor em sala de aula. Frente à rotina extenuante e aos desafios de alunos cada vez mais exigentes, que rapidamente se recusam a receber aulas de um professor aquém das expectativas, são as vitórias pessoais com as quais contribui e o sentimento de renovação de conhecimento que mais a atraem para a carreira.


Também acredita que motivações, além do incentivo financeiro, são necessárias para se manter na carreira o professor Anderson Ferreira, que leciona administração financeira e orçamentária. Em salas de aula há 11 anos, ele se entusiasma ao lembrar-se da primeira vez que atuou. O nervosismo natural logo deu lugar ao sentimento de pertencimento: havia achado a atividade profissional de que mais gosta.

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)

VANDRÉ AMORIM

 

Origem: Jaciara (MT)
Em Brasília desde 2003

Idade: 31 anos

Disciplina: direito administrativo

Tempo de docência: 10 anos

Onde ensina: IMP Concursos

O que diferencia o professor que ensina candidatos a concurso público:
“Precisamos motivar um aluno que é desmotivado pelo mundo a todo momento”

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Concursando desde os 17 anos, Anderson decidiu deixar de lado a carreira pública e os estudos para concurso e se tornar professor em tempo integral depois de conquistar oito cargos ao longo de 11 anos. Sua experiência “quebrando a cabeça para estudar sozinho”, por conta da falta de dinheiro para pagar os estudos, valeu para a criação de estratégia própria, que acabou conquistando os alunos. Como muitos professores estabelecidos em Brasília, ele viaja constantemente para dar aulas em outras regiões do país. “Vejo que o nível dos candidatos e professores daqui é muito elevado, o que tem sido reconhecido Brasil afora”, relata. A capital federal figura entre as três principais cidades para se preparar para as provas, ao lado do Rio de Janeiro e de São Paulo. O status é natural, haja vista o número de órgãos e servidores sediados na capital do país e, consequentemente, o número de concursos.


Com tantos candidatos e servidores pela cidade, Vandré Amorim conta que encontrar um ex-aluno exercendo o cargo público, fato não raro em seu dia a dia, lhe traz grande alegria. Ele tem como colegas no STJ pessoas que estiveram em sua sala de aula. João Trindade tem inúmeras histórias de encontro com ex-alunos quando precisa de algum serviço público. Aeroportos, bancos ou a sede do Senado, onde trabalha, são alguns dos endereços onde costuma esbarrar em antigos candidatos, atuais servidores. Fernando Moura, que recebe média de 150 alunos por turma, também lembra quão gratificante pode ser ajudar pessoas empenhadas em alcançar objetivo cada vez mais difícil.


Não apenas o mercado tem lucro com o aumento da exigência e competição nos concursos públicos, para muitos professores. Há benefícios para a máquina pública em receber para os quadros pessoas mais bem qualificadas. Ministro-substituto do Tribunal de Contas da União (TCU) e professor de administração financeira e orçamentária, direito administrativo e direito constitucional, André Luís de Carvalho acredita que concursos para a administração pública devem ser complexos. “O nível das provas é muito alto, o que é muito bom. Exige efetivamente conhecimento. Não é decoreba. A pessoa precisa ter base teórica e conseguir aplicar na prática. E nos concursos dos últimos dois anos, a prova discursiva tem ganhado força, o que é excelente”, explica.

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)

FACRÍCIO DUTRA

 

Origem: Rio de Janeiro (RJ)
Em Brasília desde 2011

Idade: 29 anos

Disciplina: português - gramática

Tempo de docência: 8 anos

Onde ensina: Grancursos

Por que se tornou professor de português para concurso: “Sempre tive o sonho de dar aula de português. Acho que a grande dificuldade da gramática é como ela é ensinada. Decidi adotar método diferente. E o português é um instrumento para mudar a vida das pessoas. É fácil enxergar esse aspecto dando aula para concursandos”

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Para o professor, que leciona há 12 anos e hoje é sócio de escola reconhecida como uma das melhores da capital, há algumas décadas o concurso tinha caráter de seleção, o que se opõe à realidade atual, em que se soma o caráter de preparação. Assim, chegam novos servidores já muito bem preparados para exercer suas funções. Porém, André Luís ressalva que, se o nível das provas aumentou, o acesso à informação também cresceu, o que facilita o treinamento dos candidatos. “Conhecer as decisões do Supremo, as leis em vigor é muito mais fácil hoje que há dez anos”, compara. Sobre as transformações nos certames durante os últimos 15 anos, o professor João Trindade reconhece que o sistema pode ser pesado, com volume desumano de conteúdo cobrado. “Mas, como a democracia, o concurso público é o pior sistema excluídos os demais”, analisa.


Afinal, antes de 1988, a entrada para o serviço público era por indicação, que abria espaço para escolhas injustas dos ocupantes de cargos públicos. Depois de 1988, o ingresso é apenas por concurso. Ao método constitucional de seleção, soma-se a procura pela relativa estabilidade de um cargo público e remunerações competitivas. O resultado foi um aumento exponencial da procura e, consequentemente, da concorrência. Essa equação obrigou os órgãos públicos, por meio das bancas contratadas para levar a cabo as provas, a exigir cada vez mais dos candidatos. “A tendência é de que as provas fiquem cada vez mais difíceis. É uma contingência com a qual devemos conviver”, pondera Trindade. Um efeito colateral ruim, segundo ele, é a existência do concurseiro, aquele concursando profissional, que entra num órgão pensando em estudar para ingressar em outro e deixa de lado o compromisso com o serviço atual. Contudo, os efeitos benéficos, em especial a profissionalização do serviço público, em muito superam os problemas, segundo ele.


Frente à realidade do universo dos concursos, entre cobranças e louros, o coro unânime está no fato de que professores, assim como seus alunos, não planejam ficar por longo prazo orbitando a dinâmica dos editais e provas. Mesmo os que veem na docência sua principal vocação confessam não imaginar chegar à idade de aposentadoria lecionando para candidatos para concurso. Fernando Moura ressalta que não acredita ser saudável manter a rotina atual por mais 30 anos. Antônio Geraldo faz planos de continuar a docência na academia e segue nos estudos para conquistar o doutorado. Fabrício Dutra pensa no tempo que pretende dedicar ao filho, hoje com 10 meses, nos anos a vir. E João Trindade admite que, apesar das dificuldades, não imagina deixar a sala de aula, mesmo que talvez não siga nos cursinhos para concurso por décadas: “Acima de tudo, ensinar traz um dinamismo para o dia a dia que não tem igual em atividade alguma”.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017