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POLÍTICA | ELEIÇÕES »

O ano de promessas vem aí

A campanha eleitoral abrirá, em 2014, a temporada de discursos, nos quais os políticos apresentam suas ideias para resolver os problemas da cidade. A convite de Encontro Brasília, especialistas dizem o que é fundamental discutir

Matheus Teixeira - Redação Publicação:26/02/2014 14:33Atualização:26/02/2014 14:44

Engarrafamentos tornaram-se constantes: desviar percursos de caminhões e investir no transporte público são as únicas soluções (Breno Fortes/CB/D.A Press)
Engarrafamentos tornaram-se constantes: desviar percursos de caminhões e investir no transporte público são as únicas soluções
 

As eleições estão chegando e, com ela, a enxurrada de promessas de políticos em busca de votos. Prometer além do que podem é praxe; cumprir as promessas de campanha já não é tão comum assim. Encontro Brasília ouviu representantes da sociedade civil e especialistas para saber deles quais seriam os pontos essenciais de áreas já consideradas, pelo senso comum, prioritárias: saúde, educação, segurança, trânsito e combate às drogas.


A necessidade de aprofundar tais temas decorre de uma realidade inquestionável: aquela capital segura, com escolas e hospitais públicos tidos como referências de qualidade, sem os engarrafamentos típicos de grandes metrópoles, já não existe mais. Portanto, para que o Distrito Federal não perca mais pontos no quesito qualidade de vida, é importante tomar medidas urgentes.


Enquanto o uso de drogas for apenas um caso de polícia, cenas assim vão se repetir: é urgente tratar o dependente químico (Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Enquanto o uso de drogas for
apenas um caso de polícia,
cenas assim vão se repetir:
é urgente tratar o dependente
químico
Entre os especialistas, é unânime a ideia de que investir em educação é dar um passo importante para se resolver uma série de problemas. Nesse cenário, ganha força a necessidade de ampliar a atenção especial às crianças. O presidente do Sindicato dos Professores do DF, Washington Dourado, acredita que sucessivos governos não tiveram os cuidados necessários com a educação básica e é hora de voltar os investimentos para a área. “É a base para a vida e o primeiro passo para que o aluno continue estudando. Precisamos de um projeto de longo prazo, com valorização dos profissionais e melhoria na estrutura das creches”, defende.


Angélica Brunacci, vice-presidente da Associação de Pais e Mestres da Escola Parque 304 Norte, tem duas filhas matriculadas no colégio. Ela vive de perto a realidade da escola e acrescenta outro ponto a ser solucionado com urgência: a falta de profissionais. “Precisam contratar mais professores. Existe a estrutura, mas falta pessoal”, queixa-se. Segundo ela, o governo não tem uma política de reposição de mestres. “Se alguém se aposenta ou sai de atestado médico, os alunos ficam sem aula por dias”, conta. Na rede pública, é comum docentes com especialização em determinada disciplina ministrarem aulas de outra. “Professor de matemática dando aula de ciências é o que mais tem”, relata Angélica.


Falta de leitos e excesso de pacientes não são os únicos problemas da saúde: 
a grande questão é como atrair os médicos para trabalhar fora do Plano Piloto (Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Falta de leitos e excesso
de pacientes não são os
únicos problemas da saúde:
a grande questão é como
atrair os médicos para
trabalhar fora do Plano Piloto
Investir em escolas públicas não traz benefícios somente para a educação. As políticas de combate às drogas não surtem efeito e o consumo de crack se alastra porque não se investe em prevenção, entre outras medidas. Governos não sabem direcionar os recursos, segundo a professora de direito penal da UnB, com diversas pesquisas na área de entorpecentes, Beatriz Vargas. “As autoridades têm que entender que este é um problema de saúde pública. O foco não pode estar na contratação de mais policiais. A política de repressão, proibicionista, fracassou, e a prova está aí na rua”, afirma. Para ela, o Estado tem de investir em locais de atendimento psicossocial, de recuperação dos viciados, além de educação e atividades culturais para que jovens não caiam na tentação, nem entrem para o tráfico.


Na visão do psiquiatra Raphael Boechat, o Estado não oferece suporte para o dependende químico que busca ajuda, pois falta vontade de gastar na construção de mais Centros de Atendimento Psicossocial (CAPs), que deveriam estar presentes em todos os hospitais. “É praticamente impossível o drogado se curar sozinho. A abstinência é muito grande e, no momento em que o Estado tem de se fazer presente e dar a assistência necessária para que ele não tenha uma recaída, ele se ausenta”, explica. Raphael acredita as autoridades estão demorando demais a entender e a encarar o problema das drogas como uma questão de saúde pública.


Não confundir o combate às drogas com o combate à violência é o primeiro passo para que a insegurança não continue a crescer. Manter a polícia próxima do cidadão, fazer com que as corporações estejam mais presentes nas áreas pobres para compreender a realidade daquele local, conhecer os problemas da comunidade são medidas importantes para enfrentar a violência. Essa é a opinião de Max Maciel, um dos coordenadores da Rede Urbana de Ações Socioculturais (Ruas), que faz trabalhos em locais carentes. “A polícia é o Estado, e o Estado só entra na favela quando tem alguma ocorrência policial. Não há uma política de aproximação. O que falam não é mentira: o povo tem mais medo da polícia que do bandido”, lamenta.

 (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)

O pesquisador e professor em segurança pública da Universidade Católica de Brasília (UCB) Nelson Gonçalves corrobora a opinião de Max. Segundo ele, falta policiamento nas ruas, principalmente naquelas mais pobres. “Deveria haver uma distribuição melhor dos gastos. Temos excelentes viaturas, por exemplo, mas faltam homens nas ruas para combater e para inibir a violência. O uso do dinheiro deveria ser feito de forma mais inteligente”, critica.


Em relação à saúde, o crescimento e o envelhecimento da população são fatores preponderantes para que o sistema público tenha ficado defasado. Apesar do deficit de 400 leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no DF, o professor de medicina da UCB Roberto Bell indica a falta de profissionais como a principal causa dos problemas de saúde pública no DF. “Os recém-formados não querem viver a realidade, trabalhar em Ceilândia ou Santa Maria. A solução que o governo achou para isso foi abrir concursos direcionados para cada região. O que aconteceu? Excedeu o limite de inscritos para o Plano Piloto, mas faltou gente para áreas carentes”, lembra. A preocupação de Marcos Gutemberg, presidente do Sindicato dos Médicos (Sindmédicos), é a mesma. Para atingir o número ideal de médicos por habitantes, 3 mil profissionais teriam de ser contratados. “Falta gente. O governo faz concurso temporário, aí expiram os contratos e ninguém é contratado”, diz.

 (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)

Outro problema crônico para o brasiliense é o trânsito. O crescimento assustador da frota fez o tráfego da cidade piorar consideravelmente nos últimos dez anos e já se fala em colapso até 2020. Cled Pereira, do Movimento Passe Livre, acredita que isso é resultado de vários anos de uma cultura de Estado que reduz impostos para a compra de automóveis e não investe em transporte coletivo. “Eles não dão a atenção necessária. E o pior é que há um erro de concepção: o transporte público não pode ficar nas mãos de empresários, que trabalham com a lógica de lucrar. Teria de ficar nas mãos do Estado, para o interesse do usuário vir em primeiro lugar”, propõe.


O pesquisador do Centro Interdisciplinar de Estudos em Transporte (Ceftru) da UnB Flavio Dias aponta uma das soluções pontuais para melhorar os engarrafamentos: a construção de um anel rodoviário traria ótimos resultados para o trânsito. “Os caminhões têm de passar por dentro da cidade para seguir caminho, o que acaba atrapalhando muito o trânsito.”

 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017