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Mercado verde

Por ter academias lotadas e um amplo campo de trabalho para nutricionistas, não é de se surpreender que em Brasília haja uma grande concentração de casas de alimentação saudável. Como funciona e onde se concentra esse negócio?

Cecília Garcia - Redação Publicação:28/02/2014 15:02Atualização:28/02/2014 16:14

Produtos naturais, integrais e voltados para as intolerâncias alimentares estão em alta: comércio em expansão (Divulgação)
Produtos naturais, integrais
e voltados para as intolerâncias
alimentares estão em alta:
comércio em expansão
A alimentação natural está notavelmente em alta na capital do país. Interessante que, diferentemente dos outros ramos de negócios, nesse, os donos dos estabelecimentos acreditam no que vendem e geralmente são consumidores do que comercializam. A novidade agora é que o mercado busca, fora do eixo Asa Norte / Asa Sul, novos lugares para a expansão.


É o caso de Mariana Dória. A soteropolitana veio morar em Brasília há quatro anos, assim que se casou com um brasiliense. Ao chegar à cidade, como consumidora, reparou que existiam poucas lojas que vendiam produtos naturais. Em Salvador, já conhecia a franquia Mundo Verde e resolveu então colocar seus conhecimentos de administração em prática. Montou, pouco depois, sua primeira loja da rede.


O local escolhido foi o Lago Sul. “Eu vi um grande mercado aberto. Lá não havia lojas especializadas”, conta a empresária. Com o ponto de início decidido, a segunda parte foi procurar nutricionistas parceiros e novos produtos para comercializar. Mariana, sempre que pode, coloca itens regionais no catálogo de produtos do estabelecimento, desde que tenham todos os certificados necessários. Desse modo, seu leque de venda vai de frutas desidratadas a produtos para o cabelo e suplementos alimentares.

Cerca de 400 clientes passam por dia em cada loja da Shizen, rede comandada por 
Márcio Mikami (à frente na foto): mais de 4 mil produtos à disposição  (Fotos: Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press )
Cerca de 400 clientes passam por dia em cada loja da Shizen, rede comandada por Márcio Mikami (à frente na foto): mais de 4 mil produtos à disposição

Hoje, o investimento deu retorno e a loja dobrou de tamanho. Tudo nela é voltado para o sustentável: o uniforme é feito em tecido de garrafa PET, a madeira utilizada no revestimento é reciclada. Depois dessa, mais uma loja foi montada. Dessa vez, em um shopping na Asa Norte, que também está em processo de expansão. O crescimento das lojas, para a empresária, reflete a realidade da cidade. “Em Brasília, as pessoas são instruídas, cuidam-se, têm acompanhamento de nutricionistas, praticam esportes. É uma tendência irreversível. Elas querem qualidade de vida.”


Outro local que está começando a ser procurado pelos empreendedores para a criação de novos estabelecimentos voltados para a alimentação saudável é Águas Claras. Lá foi o ponto onde, em abril de 2013, o Empório Sustentável abriu as portas. Ocupando o equivalente a duas lojas do bloco comercial em que está localizado, o local recebe de 100 a 150 visitantes por dia. Parte disso deve-se, conforme explica a gerente, Marcella Carvalho Freitas, à boa localização. “Aqui não havia tantas lojas do gênero, pelo menos não tão grandes e com muitas academias por perto. Era diferente do Plano Piloto”, conta.

Pronativa, a empresa de José Ventura e sua filha Daquini, distribui produtos naturais para mais de 100 lojas em Brasília: 'Estamos sempre renovando o nosso catálogo', diz o pai (Fotos: Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press )
Pronativa, a empresa de José Ventura e sua filha Daquini, distribui produtos naturais para mais de 100 lojas em Brasília: "Estamos sempre renovando o nosso catálogo", diz o pai

A loja tem como carro-chefe itens sem glúten e sem lactose, mas comercializa produtos integrais, orgânicos, florais, voltados para as intolerâncias alimentares e até mesmo objetos esotéricos. Uma estratégia que o estabelecimento adotou para sua consolidação foi contratar como gerente uma nutricionista. Assim, Marcella, além de um trabalho de administração diário, pode dar orientação, direcionamento aos clientes que chegam à loja. Para o futuro, a empresa planeja a criação de um e-commerce.


A nutricionista Ros%u2019Ellis Moraes  trabalha o conceito de alimentação viva no restaurante Girassol: self-service, lanches, um bar de sucos, empório, cursos e um livro (Fotos: Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press )
A nutricionista Ros%u2019Ellis Moraes
trabalha o conceito de alimentação
viva no restaurante Girassol:
self-service, lanches, um bar de sucos,
empório, cursos e um livro
Márcio Mikami aproveitou o bom momento do mercado e expandiu seus negócios. Dono da Shizen, que hoje conta com quatro lojas – as duas primeiras localizados no Plano Piloto e ampliou a rede com mais duas no Sudoeste –, está no ramo desde 2007. A família do empresário tinha um espaço comercial disponível, mas não sabia o que fazer com ele. Ele conta que, nessa época, o ramo de alimentação saudável estava muito forte, em crescimento. Aliou isso à característica familiar, influenciada pela matriarca, em buscar a saúde preventiva. “Fomos conhecendo os concorrentes e vimos que em Brasília havia lojas especializadas em chás, em produtos para diabéticos, empórios orgânicos, mas não havia uma que contemplasse toda essa variedade”, conta Márcio.


Começaram atendendo aos pedidos dos clientes. “Alguns pediam coisas que nunca havíamos escutado. Anotávamos num caderninho e corríamos atrás. Com isso, fomos ganhando nome.” E, com o tempo, foram se especializando mais. Chegaram a fazer consultorias com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) na parte financeira e de processos, por exemplo, além de contar com essa ajuda na área industrial, já que a empresa cresceu e passou a contar com uma parte de panificação.


A gerente do Empório Sustentável, Marcella Carvalho, explica que a localização da loja, em Águas Claras, é um sucesso: 'Não havia lojas tão grandes e tem muitas academias por perto', conta (Fotos: Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press )
A gerente do Empório Sustentável,
Marcella Carvalho, explica que
a localização da loja, em
Águas Claras, é um sucesso:
"Não havia lojas tão grandes e
tem muitas academias por
perto", conta
“O mercado de Brasília é muito bom. Acho que isso reflete bem a questão da renda. E, graças a Deus, todo ano cresce mais”, opina Márcio. Nas lojas, por onde passam cerca de 400 clientes por dia, em cada uma delas, estão à disposição cerca de 4 milprodutos. Entre eles, a maior procura é pelos sem glúten e sem lactose.


Hoje, a empresa não é mais familiar e Márcio tem planos para crescer ainda mais os negócios, com a criação de uma filial em Águas Claras. Além disso, quer que o crescimento atinja outro patamar. Desde o fim de 2012 tem a ideia de fazer da Shizen uma franquia e já tem um projeto piloto instalado em São Paulo. Estão se preparando estruturalmente para a expansão.


Um setor que se beneficia da ascensão do mercado de produtos naturais é aquele que abastece essas lojas. Uma delas, que tem seu depósito localizado em Sobradinho, é a Pronativa. A empresa familiar distribui, para mais de 100 lojas em Brasília, produtos naturais vindos principalmente da Amazônia, Ceará e da região Sul. As amêndoas, como as castanhas-do-pará e de caju, são as mais procuradas. Também os produtos que entram na moda ou aparecem na mídia, como a chia, logo são buscados pelos clientes. “Como nos propomos a ter produtos variados e ‘do momento’, como o goji berry, estamos sempre renovando o nosso catálogo”, conta o dono da empresa, José Ventura.


Os negócios começaram em maio de 2001, já com essa proposta de comercializar produtos naturais. “A ideia de trabalhar com produtos naturais como o açúcar mascavo, os orgânicos, as frutas da Amazônia, estava sempre na cabeça. Minha esposa é filha de índio, e em sua terra o pessoal sabe bem o benefício das plantas.” José se declara um naturalista não radical e conta que sempre gostou desse tipo de produto, que considera mais benéfico que os industrializados. “As pessoas estão realmente mais preocupadas com a saúde, mas em janeiro a busca aumenta, porque as pessoas querem recuperar o que acumularam em dezembro”, conta a filha do empresário, Daquini Ventura.

Mariana Dória, do Mundo Verde, viu um mercado aberto em Brasília: 'As pessoas são instruídas, cuidam-se, têm acompanhamento de nutricionistas, praticam esportes. Querem qualidade de vida' (Fotos: Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press )
Mariana Dória, do Mundo Verde, viu um mercado aberto em Brasília: "As pessoas são instruídas, cuidam-se, têm acompanhamento de nutricionistas, praticam esportes. Querem qualidade de vida"

Para quem tem pouco tempo, mas não abre mão da alimentação natural, uma alternativa são os restaurantes naturais. Um deles, há 13 anos no mercado, é o Girassol. Comandado pela nutricionista Ros’Ellis Moraes e suas duas filhas, o local oferece alimentação self-service, lanches, um bar de sucos, empório e também cursos. “Trabalhamos um pouco o conceito de alimentação viva, que não é só comer comida crua, ser vegetariano. É um vegetarianismo holístico. A preocupação é nutrir o organismo profundamente”, conta Ros’Ellis.


Nos cursos, como explica a nutricionista, é trabalhado o equilíbrio alimentar, com aulas sobre como organizar uma dieta balanceada para que não haja carência de nutrientes. “Temos esse propósito de fazer um trabalho educativo, de conscientização, de informar os nossos clientes, para que eles possam mudar a qualidade de vida deles”, conta. Além disso, todas as preparações que são feitas no restaurante são ensinadas nos cursos. A ideia de Ros’Ellis é que a pessoa possa fazê-las em casa, e a intenção de instruir as pessoas foi além, resultando no livro Alimentação viva e ecológica. Um guia para organizar sua dieta com sabedoria e receitas vivas deliciosas!, que é um passo a passo de organização de dieta, com dicas e receitas, em linguagem didática.


Para Ros’Ellis, é bom que esteja aumentando a quantidade de lojas desse segmento na cidade. Segundo a nutricionista, as pessoas hoje estão mais preocupadas com a alimentação, mas os problemas de saúde também aumentaram muito, como diabetes, obesidade, alergias e intolerâncias. “Pela quantidade de pessoas que temos em Brasília, o bom seria que todo mundo pudesse se alimentar de forma saudável. Há espaço para todo mundo. Todos podem se dar bem, desde que façam algo que acreditam.”

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017