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As novas vocações da capital

Que costumes mudaram a cara da cidade que não tinha esquinas? Eventos ao ar livre, gratuitos e cheios de personalidade têm inovado a rotina dos brasilienses

Leilane Menezes - Colunista Publicação:07/03/2014 17:09Atualização:07/03/2014 17:47

'Descobrindo novos clichês': o que é a nova cara de Brasília? Poderia ser uma piscina inflável como ponto de encontro em uma bela tarde de sol? (Daniel Ferreira/CB/DA Press)
"Descobrindo novos clichês": o que é a nova cara de Brasília? Poderia ser uma piscina inflável como ponto de encontro em uma bela tarde de sol?
 

A figura de um menino que brinca debaixo do bloco ou a do forasteiro que maldiz a cidade, com saudades de casa, não é mais o resumo do que é o brasiliense. Brasília passou de fase. Deixou de ser expectativa juvenil para tornar-se adulta. Chegará aos 54 anos em breve. Se fosse uma pessoa, teria cabelos brancos e o rosto levemente mapeado por experiências, as bem-sucedidas e as não realizadas, e teria tempo de sombra para se reinventar.


Brasília aprendeu que reclamar sem apontar soluções é não ter nada a oferecer. Em lugar de taxativas queixas daqueles que não se acostumam a viver por aqui, surgem ideias, declarações de amor, muito além de qualquer tentativa de emoldurar o céu azul ou a cor dos ipês. Brasília não é só pastel na rodoviária, quibe em barzinho ou pôr do sol, embora tudo isso orgulhe e remeta à casa.

Frutas disponíveis a qualquer hora, de graça: a cidade se mostra em coisinhas especiais cotidianas que só quem vive aqui sabe (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Frutas disponíveis a qualquer hora, de graça: a cidade se mostra em coisinhas especiais cotidianas que só quem vive aqui sabe

A capital é também lugar de dormir à sombra das árvores, depois do almoço. Basta dar uma volta depois do meio-dia para encontrar gente esticada na grama, para aproveitar as vantagens de viver em uma das cidades mais arborizadas do país. Além da sombra, é possível colher frutas a qualquer hora, de graça. Manga, amora, jaca e pitanga são algumas das variedades. A estudante da Universidade de Brasília (UnB) Gabriela Bandeira criou um mapa para indicar onde está cada tipo de fruta. Bastou olhar para cima para descobrir que a Asa Norte é rica em pitangas e o Cruzeiro, em pés de jaca. Gabriela incluiu as informações em um guia turístico diferente. “Quis desmistificar Brasília e mostrar essas coisinhas especiais cotidianas que temos e só nós sabemos”, explica a universitária, em entrevista ao site da UnB.


Quem aprecia as delicadezas candangas talvez tenha percebido que os jardins urbanos estão sempre floridos. São 620 canteiros espalhados nas áreas públicas, repletos de zínias, petúnias, camomilas e dálias, entre outras espécies. Todo ano, o Departamento de Parques e Jardins (DPJ) da Novacap planta 5 milhões de mudas produzidas pela empresa.

Sempre florida: mais de 600 canteiros espalhados nas áreas públicas ficam repletos de zínias, petúnias, camomilas e dálias (Lucas Pacheco/Esp CB/ DA Press)
Sempre florida: mais de 600 canteiros espalhados nas áreas públicas ficam repletos de zínias, petúnias, camomilas e dálias

Aos poucos, a cidade encontra novas maneiras de se apresentar. Ganha peculiaridades que serão vistas como “a cara de Brasília”, onde quer que estejam seus admiradores. “Era natural que levasse um tempo até que a geração nascida aqui começasse a mostrar sua cara. Chegou a hora de descobrirmos o que a cidade tem de bom, qual é a sua vocação”, afirma a publicitária Júlia Hormann, nascida e criada no DF e idealizadora de eventos culturais gratuitos e ao ar livre, como Picnik e o Quitutes da Orla, voltados para celebrar a relação entre as pessoas e a cidade. Neles, gente de todas as idades se encontra para conhecer novos chefs de cozinha, artistas locais ou apenas apreciar a paisagem. Uma das edições do Picnik recebeu financiamento coletivo (quando o público faz doações pela internet) e tornou-se um minifestival de música independente.


Não faz muito tempo, o brasiliense apropriou-se das ruas. Respondeu ao convite de paredes em branco, escutou o chamado para espalhar poesia e outras tantas reflexões, em passagens subterrâneas, muros e onde houvesse vazio. “As pessoas estão ocupando mais as ruas. Brasília está criando sotaque e essa construção passa pela intervenção urbana, pela apreciação do céu”, afirma a atriz Patrícia Del Rey, integrante do Coletivo Transverso, um dos grupos mais reconhecidos nessa área.

No atual carnaval de rua de Brasília, uma das atrações é o bloco Babydoll de Nylon, no qual os homens saem vestidos com a peça feminina (Luis Xavier de França/Esp. CB/DA Press)
No atual carnaval de rua de Brasília, uma das atrações é o bloco Babydoll de Nylon, no qual os homens saem vestidos com a peça feminina

O Cara de Paisagem, um dos trabalhos mais recentes do Transverso, é a expressão da nova Brasília. Trata-se de um boneco desenhado com a figura de uma praia ou de montanhas no lugar do rosto. Cansado da atitude blasé, não raramente citada como característica marcante do povo daqui, o coletivo chama os habitantes candangos à mudança de hábitos. “As pessoas são estimuladas a se manter num estado neutro, sem muita variação de humor ou exposição de opiniões. Para se proteger do choque da cidade, o homem blasé torna-se anônimo, distanciado. É como se ele se privasse do seu potencial sensível e subjetivo, para não ter choques emocionais. Esse olhar parado lembra paisagem, que pode ser bela, mas é estática. Nós pregamos o movimento. E esperamos que o blasé dê espaço para o sorriso”, explica Patrícia. Outras intervenções do Transverso estamparam: “Sou sua pessoa amada por três dias” e “Voltar é ter o prazer dos lábios rachados pelo beijo da seca”.

Artistas como Ju Borge, O Gurulino e a Andaime Cia de Teatro fazem parte do mesmo time, o de pessoas que colocam sua arte a serviço da construção da identidade brasiliense.


O brasiliense apropriou-se das ruas: há belas formas de se apresentarem novas ideias e declarações de amor (Minervino Júnior/Encontro/DA Press )
O brasiliense apropriou-se das
ruas: há belas formas de se
apresentarem novas ideias e
declarações de amor
Apesar de ser jovem, Brasília é cercada de clichês. Como a ideia de que não há esquinas por aqui. O dicionário Houaiss usa a capital para dar significado ao termo que se refere ao encontro de duas ruas. Por extensão de sentido, esquina pode ser um “ponto de encontro de pessoas ociosas, para conversar, comentar os assuntos do momento. Exs.: o assunto era comentado em todas as e. Brasília é uma cidade sem e.”. O dicionário engana-se.


A área verde em frente à Objeto Encontrado, na 102 Norte, faz o papel de esquina. Já recebeu feira de artes, feira erótica, encontro de famílias modernas, diversas exposições e até uma festa aberta, com piscina inflável, cheia de adultos de sunga ou biquíni. A loja é administrada pelos irmãos Lucas e Bebel Hamu, nascidos em Goiânia. O café funciona há um ano e meio. Fazer eventos começou como estratégia de divulgação.


“Hoje, nós nos estabelecemos no mercado e decidimos continuar com a programação. Quando cheguei a Brasília, eu me surpreendi com a quantidade de festas de graça, ao ar livre. Tenho ouvido muitos comentários a respeito dessa nova vocação da cidade”, afirma Lucas. Haverá novas edições das feiras, das exposições e também da festa na piscina, o maior sucesso da casa. “Foi de longe nosso evento mais popular. É incrível como essas ideias atraem as pessoas”, diz Lucas.

O DJ Rafael Oops, do Criolina, é enfático: 'Nossa geração já provou que veio para mudar as coisas. O grupo de pessoas que amam Brasília, trabalham em Brasília e por Brasília, cresce a cada dia' (Lula Lopes/Esp.CB/DA Press)
O DJ Rafael Oops, do Criolina, é enfático: "Nossa geração já provou que veio para mudar as coisas. O grupo de pessoas que amam Brasília, trabalham em Brasília e por Brasília, cresce a cada dia"

Reinventar o uso dos espaços públicos tornou-se uma especialidade da capital. Em Brasília, ir ao museu nem sempre significa visitar exposições ou acervos, mas sim ir a uma festa ou show. O espaço aberto ao redor do Museu da República e da Biblioteca Nacional é o favorito de muita gente para a diversão, no fim de semana. Ao menos uma vez por mês, palcos são montados ali para shows e outros espetáculos. Aos domingos à noite, há aulas de zouk ao ar livre. A Secretaria de Cultura ainda não divulgou as atrações confirmadas para 2014.


Até feriados, as melhores oportunidades para viajar, começam a mudar de feição. Há pouco tempo, carnaval em Brasília era sinônimo de ruas vazias, a não ser pelo desfile das escolas de samba e pela presença de tradicionais blocos, como o Pacotão e o Galinho de Brasília. Em 2012 e 2013, novos blocos ganharam as ruas, com perfil inovador. Entre eles, Babydoll de Nylon, no qual os homens saem vestidos com a peça feminina, Bloco da Tesourinha e Aparelhinho, que circula no Setor Bancário Sul.

A reinvenção do uso dos espaços públicos, como o espaço aberto ao redor do Museu da República e da Biblioteca Nacional, garante diversão para muitos moradores da capital (Ana Laura Cartaxo/divulgação)
A reinvenção do uso dos espaços públicos, como o espaço aberto ao redor do Museu da República e da Biblioteca Nacional, garante diversão para muitos moradores da capital

A celebração brasiliense ainda é pequena, se comparada à de outras terras mais experientes em carnavalizar, porém, já se pode dizer que Brasília tem um animado carnaval de rua. O Aparelhinho, criação do projeto Criolina, sairá novamente na segunda-feira do feriado. Dessa vez, mais potente e equipado. O folião não corre atrás de um trio elétrico, mas sim de um carrinho com autofalantes.

“Durante muito tempo ficamos presos nos nossos apartamentos ou visitando constantemente o aeroporto. Nossa geração já provou que veio para mudar as coisas. O grupo de pessoas que amam Brasília, trabalham em Brasília e por Brasília, cresce a cada dia”, diz o DJ Rafael Oops, do Criolina.


Rafael faz parte de uma geração que viu os bares de Brasília fechando cada vez mais cedo e espaços públicos silenciosos. “A burguesia clama por silêncio nas entrequadras, tem a Lei Seca no trânsito sem a opção do transporte público, a ação desgovernada da Polícia Militar atacando crianças e idosos no carnaval de 2010 e 2011, a Agência de Fiscalização lacrando os espaços que lutavam para trazer cultura pra sociedade. O povo está indo para a rua tomar de volta o que é do povo: a rua”, avalia o artista.

Patrícia Del Rey (dir.), ao lado de Patricia Bagnienwski, é voz ressoante do Coletivo Transverso: 'Brasília está criando sotaque e essa construção passa pela intervenção urbana, pela apreciação do céu' (Zuleika de Souza/CB/DA Press)
Patrícia Del Rey (dir.), ao lado de Patricia Bagnienwski, é voz ressoante do Coletivo Transverso: "Brasília está criando sotaque e essa construção passa pela intervenção urbana, pela apreciação do céu"

Depois do sucesso em 2013, o Aparelhinho recebeu financiamento coletivo e cresceu. Na edição anterior, foram cerca de 3 mil foliões. A expectativa é bater esse número. “O bloco surgiu com dinheiro do nosso bolso e só funcionava com equipamentos emprestados. Após o nosso segundo carnaval, fizemos uma campanha de financiamento colaborativo. Pela primeira vez, o Aparelhinho vai sair com seu próprio equipamento de som. Ainda precisamos de apoio, pois ,mesmo com a ajuda do público, ainda não conseguimos comprar nossa própria bateria ou gerador”, explica Rafael. Renovam-se a agenda cultural e também o jeitinho brasiliense de transformar qualquer canto em esquina.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017