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Riqueza ameaçada

Antigos casarões e monumentos de Planaltina resistem à intimidação do tempo devido ao esforço de alguns moradores para preservar a cidade

Kely Almeida - Redação Thaís Paranhos - Redação Publicação:10/03/2014 16:23Atualização:10/03/2014 18:37

As casas de adobe sinalizam a importância de Planaltina para Brasília: rico patrimônio ainda sem o devido reconhecimento (Zuleika de Souza/CB/DA Press)
As casas de adobe sinalizam
a importância de Planaltina
para Brasília: rico
patrimônio ainda sem o
devido reconhecimento
A cerca de 40 km da capital federal há um pedacinho da história do Distrito Federal que remonta a bem antes de 1960. Brasília surgiu da terra vermelha e da vontade dos trabalhadores, mas já havia no Planalto Central quem ocupasse essa terra. Onde foi demarcado o quadrilátero do DF já havia habitantes no fim do século 18. A região onde hoje está localizada Planaltina viu bater à porta a modernidade com a transferência da capital do país.


Tantos anos depois, a cidade, que completa 155 anos em 2014 e ainda tem ares interioranos, resiste ao tempo e ao descaso dos governantes para se manter de pé. Não a cidade grande, com sérios problemas de invasões e de violência, mas a dos antigos casarões e monumentos que resistem devido ao esforço de alguns moradores em preservar a cidade que guarda a história de Brasília, ainda desconhecida por muitos moradores da capital.


Um passeio pelo Setor Tradicional de Planaltina rende ao visitante informações e detalhes históricos sobre a região. Desde os primeiros habitantes até a chegada da Missão Cruls para demarcar a área da capital, passando pela colocação da pedra fundamental – marco inicial da transferência da capital para a região.

Simone dos Santos Macedo, presidente da Associação dos Amigos do Centro Histórico de Planaltina, comemora a reforma da igreja de São Sebastião, mas reclama que o acervo ainda não está no lugar ( Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Simone dos Santos Macedo, presidente da Associação dos Amigos do Centro Histórico de Planaltina, comemora a reforma da igreja de São Sebastião, mas reclama que o acervo ainda não está no lugar

Há uma praça onde os idosos gostam de passar as tardes e os casais de namorados passeiam; uma pequena igreja e as casas de adobe em volta fazem o local parecer uma pequena cidade histórica do interior de Goiás.


É certo que faltam à região estrutura para os turistas e guias com explicações sobre cada uma das estruturas, mas com a boa vontade dos moradores, já é possível perceber a importância de Planaltina para Brasília.


Depois de muito brigar, a população conseguiu a reforma da Igreja de São Sebastião, no Setor Tradicional, construída no século 19. As rachaduras na parede demonstravam o abandono e o descaso com a construção em adobe, cujo principal material é o barro. A reforma ficou pronta em outubro. A presidente da Associação dos Amigos do Centro Histórico de Planaltina, Simone dos Santos Macedo, comemora a vitória, sem, contudo, deixar de fazer críticas à forma como o trabalho foi feito. “Apesar das pendências, foi a nossa maior conquista. Eles (governo) inauguraram a obra, mas o acervo ainda não voltou para cá”, reclama.

Patrimônio imaterial de Brasília: a folia de reis, tradicional em Planaltina, é realizada entre os dias 1º e 6 de janeiro de cada ano (Zuleika de Souza / CB / DA Press)
Patrimônio imaterial de Brasília: a folia de reis, tradicional em Planaltina, é realizada entre os dias 1º e 6 de janeiro de cada ano

O Museu Histórico e Artístico de Planaltina também passa por melhorias desde outubro do ano passado. “Foi feita uma reforma horrorosa há cerca de cinco anos, mas não do jeito que deveria ter sido feita, em forma de restauro. Diante dessa situação, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) recomendou que o trabalho fosse refeito”, conta Simone. Mesmo com essas obras, a presidente da associação se preocupa com o futuro dos monumentos centenários. “Não é só restaurar e pronto, precisa haver um plano de manutenção. É necessário um plano de políticas públicas para trabalhar a educação patrimonial e a preservação da nossa história”, completa.


A igreja de São Sebastião e o Museu Histórico e Artístico de Planaltina são os dois prédios tombados pela Secretaria de Cultura. Sem uma regra para outras construções, a área antiga da cidade sofre um acelerado processo de descaracterização. As paredes de adobe dão lugar ao tijolo e ao cimento. As fachadas perdem as características coloniais aos poucos. As casas que resistem no formato original sofrem com a ação do tempo.

Bicentenária: a igreja de São Sebastião começou a ser construída em 1810 como pagamento de uma promessa (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Bicentenária: a igreja de São Sebastião começou a ser construída em 1810 como pagamento de uma promessa

A Casa de Câmara e Cadeia, por exemplo, local onde o juiz trabalhava e onde ficavam os presos, preocupa quem defende o patrimônio da cidade. Com largas rachaduras, o lugar já recebeu a visita da Defesa Civil, que acompanha as aberturas na parede. “Talvez seja o segundo prédio mais importante de Goiás em razão de sua arquitetura, mas o primeiro andar já foi destruído”, lamenta Simone.


Prédios tão importantes como a antiga prefeitura e o casarão da Dona Negrinha, uma casa amarela que está com as portas fechadas há anos, desde que a moradora morreu e os filhos deixaram a região, também carecem de atenção do governo. “Precisamos de incentivos como Paracatu (MG) e Pirenópolis (GO) tiveram para ser o que são hoje. O Estado vem com uma política de registrar, mas o que vem depois? O patrimônio precisa de nós para se manter vivo, precisa da comunidade dentro dele, parece que o adobe interage com as pessoas”, completa.


Apesar de todo o tesouro erguido em Planaltina, não há programa de guia na região. A Secretaria de Cultura do DF justifica que isso é de responsabilidade dos donos do patrimônio. Ao poder público, fica a função de garantir que a estrutura original não se perca. Em caso de reformas, mudanças ou restaurações nos pontos históricos, é a pasta que analisa os projetos, emite parecer e acompanha o andamento dos procedimentos.


É na região de Planaltina que fica o Vale do Amanhecer, reduto espiritual que abriga a doutrina da sergipana Neiva Chavez Zelaya, mais conhecida como Tia Neiva (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
É na região de Planaltina que fica
o Vale do Amanhecer, reduto
espiritual que abriga a doutrina
da sergipana Neiva Chavez Zelaya,
mais conhecida como Tia Neiva
E para manter as construções erguidas antes mesmo dos primeiros prédios da capital federal, é preciso monitoramento e cuidados. Porém, a preservação e vistoria dos pontos de Planaltina ainda é falha. Com quadro de pessoal limitado, a Defesa Civil do DF não consegue fazer visitas com frequência na cidade. O trabalho do órgão é feito de acordo com as demandas. Ou seja, inspeções só são feita se moradores ou visitantes detectarem algum tipo de problema.


Para quem ainda não conhece, é possível fazer um rápido roteiro pelos principais pontos históricos. Além dos antigos casarões, outros monumentos da cidade merecem destaque. Foi nos domínios de Planaltina que a Missão Cruls, liderada pelo belga Luiz Cruls, se fixou para estudar a região e demarcar a área onde seria erguida a futura capital do país. Foi lá também que, em 1922, foi colocada a pedra fundamental, que marcou o início da mudança da capital.


O morro da Capelinha é um espetáculo natural à parte. Lá, todos os anos, centenas de atores encenam a morte e ressurreição de Jesus Cristo no feriado da Semana Santa, festa que já faz parte do calendário oficial da cidade.


O patrimônio imaterial da cidade é outro aspecto que chama a atenção na cidade centenária e exala religiosidade. Planaltina recebe, todos os anos, milhares de fiéis durante as manifestações religiosas. Tanto que a folia de reis, realizada entre 1º e 6 de janeiro de cada ano, foi considerada patrimônio imaterial de Brasília. A região tem ainda o Vale do Amanhecer, reduto espiritual que abriga a doutrina da sergipana Neiva Chavez Zelaya, mais conhecida como Tia Neiva.

Tombado pela Secretaria de Cultura, o Museu Histórico e Artístico de Planaltina, como toda a área antiga da cidade, sofre um acelerado processo de descaracterização ( Zuleika de Souza / CB / DA Press)
Tombado pela Secretaria de Cultura, o Museu Histórico e Artístico de Planaltina, como toda a área antiga da cidade, sofre um acelerado processo de descaracterização

A igreja de São Sebastião começou a ser construída em 1810 como pagamento de uma promessa. Os moradores da região pediram ao santo que acabasse com uma epidemia que os assolava na época e, em troca, ergueriam o templo. No início, foi construída uma capela em adobe e palha. A paróquia só ficou pronta em 1880. A igreja foi tombada pelo Governo do Distrito Federal (GDF) em 1982 e, dois anos depois, passou por reforma. O último restauro ficou pronto em outubro do ano passado.


Já a casa onde hoje funciona o Museu Histórico e Artístico de Planaltina foi construída no início do século XX. Não se sabe ao certo quem foi o morador, mas o local conserva alguns objetos da época, como a cadeira de um dentista. Sabe-se, no entanto, que a estrutura serviu de moradia até 1973, quando foi desapropriada. O GDF tombou a construção em 1987. O local recebe visitas de estudantes de escolas da cidade, mas ainda não conta com guias especializados nem descrição completa do acervo.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017