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Democracia no asfalto

A principal avenida de Brasília consolidou-se como espaço livre para passeios e também para a prática de esportes aos domingos e feriados

Matheus Teixeira - Redação Publicação:12/03/2014 14:55Atualização:12/03/2014 17:00

Pedestres curtem o Eixão nos fins de semana: 14 km de liberdade para ir e vir como quiser (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Pedestres curtem o Eixão nos fins de semana: 14 km de liberdade para ir e vir como quiser
 

Um tocando bateria, outro vendendo imóvel e um terceiro, evangélico, espalhando a mensagem divina. A cena parece improvável. Mas, no Eixão do Lazer, ela acontece. A principal avenida da capital, que vai de uma ponta a outra do Plano Piloto, ganha outra feição aos domingos e feriados, das 6h às 18h. Há 22 anos, os carros em alta velocidade dão passagem a skatistas, corredores, ciclistas, patinadores, vendedores ambulantes, pregadores e a qualquer um que deseje um espaço de livre manifestação ou de, simplesmente, lazer.


Ao longo de duas décadas, o número de frequentadores do Eixão cresceu com a população. Foi justamente o aumento no movimento que motivou, por exemplo, os corretores de imóvel Rogério Ushoa e Maxylei Farias a fixar estande ali. “É um ótimo ponto para venda”, garante Rogério. Seu parceiro acrescenta que é um dos melhores lugares da cidade. “A maioria das pessoas que caminha no Eixão mora no Plano Piloto, logo, tem um bom poder aquisitivo”, acredita.

Heitor Queiroz, com sua filha, Julia, e a amiga dela, Lara Silva: frequentador assíduo do Eixão (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Heitor Queiroz, com sua filha, Julia, e a amiga dela, Lara Silva: frequentador assíduo do Eixão

Mais recentemente, o boom do skate levou um novo público ao Eixão: maior e mais diversificado. Rafael Cardoso, antigo frequentador e skatista, logo que percebeu uma frequência maior, aproveitou a oportunidade. “Faltava alguém que trouxesse uma água de coco, um açaí. Comecei a vender para o pessoal e não parei mais”, conta. Ele não é o único. Ao longo das asas Sul e Norte, há mais de 20 barraquinhas de comércio de bebidas e comidas.


Presença certa na altura da 115 Norte é a da turma dos Longbrother. A reunião de amigos skatistas começou no Parque da Cidade e, quatro anos atrás, foi transferida para o Eixão. E o que começou como um encontro de colegas ficou sério. Hoje, o grupo monta uma estrutura com vários obstáculos e oferece aulas de skate. O empresário Júnior Vidiri é integrante dos Longbrother e exalta a amizade da turma. “Nós somos muito amigos e o grupo cresce a cada ano”, conta. Ele acredita que, como a via não é movimentada aos domingos, não custaria nada ao governo deixá-la fechada até as 22h. “Não prejudicaria o trânsito e para nós seria uma maravilha”, completa.

O empresário Júnior Vidiri é integrante dos Longbrother e gostaria de ver o horário ampliado até 22h: 'Não prejudicaria o trânsito e para nós seria uma maravilha' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O empresário Júnior Vidiri é integrante dos Longbrother e gostaria de ver o horário ampliado até 22h: "Não prejudicaria o trânsito e para nós seria uma maravilha"

Heitor Queiroz não é um dos Longbrother, mas se arrisca no skate e elogia a turma. “Essa galera é muito gente boa. É só chegar que eles nos ajudam, dão dicas.” Ele costuma levar a filha para andar de patinete no local, mas Júlia só pensa no skate. “Já dei patins, patinete, roller, mas ela só quer saber do skate. É meio perigoso, mas ela está ficando boa”, orgulha-se.


Daniele Oliveira é outra que se encantou pelo skate. Ela costumava correr no Eixão e sempre passava pelos skatistas. Nunca teve coragem de andar sobre as quatro rodinhas, até que um amigo a convenceu. “Foi amor à primeira vista e, ao passo que fui evoluindo, fui me apaixonando ainda mais. Agora, nem penso em acordar domingo para correr, só quero saber de skate”, conta.

Oficina móvel e aluguel de bicicleta: um dos negócios proporcionados pelo Eixão do Lazer (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Oficina móvel e aluguel de bicicleta: um dos negócios proporcionados pelo Eixão do Lazer

Rafael Cardoso, skatista e dono de uma barraca, com Yan Moura, cliente: já são mais de 20 vendedores ambulantes
 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Rafael Cardoso, skatista e dono
de uma barraca, com Yan Moura,
cliente: já são mais de
20 vendedores ambulantes
Assim como acontece em grandes parques, como o Ibirapuera, em São Paulo, e em várias praias, há um ano também é possível alugar bicicleta no Eixão. É só chegar na altura da 108 Norte e pagar R$ 20 pela hora. Darilan Deives faz propaganda do próprio negócio: “A pista é lisinha, o local é ideal para andar de bicicleta, e quem não tem uma ou mora longe e não tem como trazê-la é prejudicado. Por isso, viemos para cá”, afirma. E ele diz que o movimento é intenso. “Alugamos mais de 50 bicicletas por dia”, garante.


Os 14 km de extensão da avenida, inaugurada no mesmo ano que Brasília, convidam ao comércio, ao lazer, mas também a cenas inusitadas. No exato local que separa as asas Sul e Norte, no chamado Buraco do Tatu, pode-se ver uma delas, a cada primeira segunda-feira do mês. Um grupo de bateristas se reúne bem ali para fazer um som. Kaká Barros, baterista profissional, queria tocar na rua mesmo, em algum lugar que pudesse promover o instrumento e o seu trabalho. No começo, tentou na parada de ônibus em frente ao Clube do Choro, mas a proximidade com que os coletivos passavam e a falta de espaço o fez mudar de local. “Surgiu a ideia de ir para o Buraco do Tatu e dali não saímos mais. Estamos há três anos e só falhamos três vezes, e foi por causa das reformas na Rodoviária”, conta.

Flávio Caixeta e Kaká Barros tocam bateria no Buraco do Tatu: chamam a atenção de quem passa por lá (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Flávio Caixeta e Kaká Barros tocam bateria no Buraco do Tatu: chamam a atenção de quem passa por lá

Um dos companheiros de Kaká e também profissional do instrumento, Flávio Caixeta diz que o prazer de tocar no Eixão o faz levantar da cama domingo pela manhã: “Podemos fazer todo o barulho do mundo, porque não há vizinhos para reclamar. Além disso, por ser coberto, a acústica é muito boa”, exalta. O número de pessoas que param no local para ver o que está acontecendo é enorme. “Alguns curiosos querem escutar o som; outros já nos conhecem, passam buzinando e nos incentivando. O clima é muito bacana”, diz Kaká.

Corretores de imóveis também marcam presença: visibilidade boa para um público com poder aquisitivo (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Corretores de imóveis também marcam presença: visibilidade boa para um público com poder aquisitivo
 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017