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Mamãe, quero ser prendada

Após brecha deixada pelo feminismo, jovens mulheres protagonizam o mercado de aulas para aprender o que a vovó fazia muito bem e que estava se perdendo

Jéssica Germano - Redação Publicação:13/03/2014 13:51Atualização:13/03/2014 17:13

A maioria das amigas de Luiza Cardoso faz cursos de língua, enquanto ela prefere aprender a costurar: aposta em aulas de costura que não teve em casa (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
A maioria das amigas de Luiza Cardoso
faz cursos de língua, enquanto ela
prefere aprender a costurar: aposta em
aulas de costura que não teve
em casa
A ordem dos ingredientes confunde. Acertar o ponto da carne e não deixar o arroz empapar soam como desafios, e pregar o botão daquela saia preferida ficou para a dona Maria, a costureira da quadra. Na era da instantaneidade de informações – e relações –, a dedicação a atividades manuais, cheias de cuidado e apreço, acabou pegando o fim da fila e se aglomerou atrás das demandas de inglês, pós-graduação e academia. Sentindo o vazio deixado pelas mães que se desvincularam dos serviços domésticos para se igualar aos homens, econômica e socialmente, no reflexo mundial da década de 1970, brasilienses vão em busca de formação para as áreas que facilmente se associam ao afeto das habilidades da avó. E são atendidas. De oficinas de modelagem e costura a arrumação do quarto e escolha correta dos legumes, o quadradinho oferece cada vez mais conhecimento manual para a geração cibernética.


“É que eu vou me casar.” A frase, em tom de justificativa, poderia não dizer muito fora de contexto. Mas o cenário reúne fogão, bancada, cortes de filé, apostilas, caneta e professora. E a sentença seguinte entrega o incômodo de Marília Leal, de 34 anos: “E eu não sei cozinhar nada”. Filha de mãe que desde cedo trabalhou fora de casa e pouco se dedicou ao ofício das panelas e temperos, a futura noiva se considera completamente parte da fatia de mulheres contemporâneas que se dedicaram à carreira em vez das prendas domésticas. “É o que acontece hoje em dia: você não convive com alguém cozinhando em sua casa e não tem disponibilidade de tempo para fazer isso, achando que sempre terá alguém por perto. E chega uma hora que você tem de ser você mesmo”, diz Marília, que é cirurgiã- -dentista, está fazendo mestrado, mas nunca aprendeu a preparar nenhuma receita na cozinha. Perfil bastante comum na sociedade atual.

Amanda Cavalcanti, de 16 anos, costurava os vestidos de suas bonecas e hoje faz aulas porque quer personalizar suas próprias roupas: afinidade com atividades manuais (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Amanda Cavalcanti, de 16 anos, costurava os vestidos de suas bonecas e hoje faz aulas porque quer personalizar suas próprias roupas: afinidade com atividades manuais

De acordo com um estudo da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, as mães americanas modernas estão fazendo 11 horas de trabalho doméstico a menos do que aquelas que tiveram filhos em 1965. A pesquisa aponta ainda que essas mulheres atualmente gastam sete horas a mais por semana com atividades consideradas sedentárias, como dirigir, assistir à televisão ou navegar na internet. Os resultados foram divulgados em dezembro e levaram em consideração 50 mil dias na rotina de mulheres da metade dos anos 1960 até 2010.


Há sete anos à frente de uma escola de culinária na 102 Norte, Mariana Rollemberg viu o conceito do Kaza Chique mudar por conta da demanda brasiliense. “A ideia inicial era trabalhar só com as domésticas, mas vimos que isso era uma fatia muito pequena da procura”, conta a empresária. Hoje, com a maior parte dos alunos donos de casa (sim, homens e mulheres) e uma média de 50% de mulheres com a faixa etária de 30 anos, ela vai além dos cursos de cozinha para iniciantes, que se desenvolvem posteriormente em temáticas específicas – o foco vai de massas a confeitaria. Aulas de como organizar closets, armários e área de serviço, utilizar utensílios gourmets e domésticos também estão na programação dos cursos.

A dentista Marília Leal faz curso para conhecer os segredos da cozinha, aos 34 anos: 'É que eu vou me casar', conta a aprendiz (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
A dentista Marília Leal faz curso para conhecer os segredos da cozinha, aos 34 anos: "É que eu vou me casar", conta a aprendiz

O de culinária inicial, mais procurado principalmente por noivas prestes a se casar, acontece ao longo de três sábados, com três horas/aula por dia. O que, segundo Mariana, faz com que todas as interessadas saiam sabendo fazer pelo menos o básico na cozinha: arroz, feijão, legumes, uma carne, um frango e um peixe. “É totalmente prático, todo mundo faz tudo o tempo todo”, conta parte da metodologia. Para Marília, aluna no curso específico para filés, a retomada dessas atividades, por meio de oficinas, é uma mudança de comportamento significativa. “Hoje, não existe mais a mulher que só trabalha ou só cozinha”, comenta.


“Houve uma quebra geracional”, explica a socióloga Lourdes Bandeira sobre o momento que a mulher atual vive. Especialista no comportamento feminino pela Universidade de Brasília (UnB), ela lembra que até a década de 1970 a formação desse público estava diretamente ligada ao espaço doméstico, com cursos de segundo grau (atual ensino médio) todos envolvendo a economia de casa. A partir do movimento feminista, esse comportamento foi interrompido, transferindo a grande maioria para o cenário público. “As filhas da geração de 1960, 70 e 80 já não foram mais socializadas para cuidar da casa. Sobretudo as que ingressaram cedo em cursos de línguas, que foram passar tempo no exterior, etc.”, diz.

 Além do curso de culinária, Mariana Rollemberg oferece aulas de como organizar closets, armários e área de serviço: os alunos aprendem, entre outras coisas, a utilizar utensílios gourmet (Fotos: Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Além do curso de culinária, Mariana Rollemberg oferece aulas de como organizar closets, armários e área de serviço: os alunos aprendem, entre outras coisas, a utilizar utensílios gourmet

Lourdes lembra, porém, que o fato de entrar no mundo público não desabilitou por completo as mulheres da veia doméstica. Algumas tiveram contato, ainda que pouco, dentro de casa e usaram isso como estímulo. Foi o caso de Taís Rocha, jornalista e artesã, que aproveitou os estímulos da mãe para aflorar o lado lúdico dos bordados, recortes e colagens. “Mesmo não sendo artista plástica, sempre me incentivou a ser criativa”, conta Taís, que hoje dedica à fanpage Made with love, no Facebook, todo o material que aprendeu a desenvolver a partir de uma oficina de encadernação manual conhecida como As Papeleiras. O interesse pelas técnicas aflorou tanto que foi preciso expulsar o marido do quarto-escritório para transformá-lo em ateliê, todo decorado com as produções próprias, que não param um dia sequer. “Quando você quer aprender a pregar um botão, pode ver um vídeo no Youtube. Mas e aquele contato com a sua mãe, com a amiga vizinha?”, tenta traduzir a sensação que buscou ter quando procurou as aulas com perfil mais intimista.


 Taís Rocha fez uma oficina de encadernação manual e diz que retomou os estímulos da mãe para aflorar o lado lúdico dos bordados, recortes e colagens (Fotos: Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Taís Rocha fez uma oficina de encadernação
manual e diz que retomou os estímulos
da mãe para aflorar o lado lúdico dos
bordados, recortes e colagens
“A maioria não sabe nada”, conta a empresária Laila Ferriche sobre o perfil das alunas que chegam buscando aulas de modelagem, corte e costura na Latina Engenharia de Moda. O interesse genuíno, porém, supera qualquer falta de habilidade: “Acaba sendo uma superação: entrar aqui sem saber nada e ver uma peça pronta”, descreve Laila, que junto à amiga de infância Ana Cristina Oliveira ministra as técnicas de ponto e costura no ateliê, na 115 Norte.


Interessadas pelo mundo dos tecidos e design de roupas desde pequenas, as sócias-proprietárias encontraram na Latina um caminho para suprir a carência de cursos na capital. “Começamos a perceber meninas novas tendo esse interesse”, lembra Laila. Com três anos e meio de funcionamento, o espaço ganhou foco mais abrangente ao investir em linguagem e metodologia próprias para esse público.


Foi a afinidade com as atividades manuais e o interesse por personalizar as próprias roupas que fizeram com que Amanda Cavalcanti, de 16 anos, procurasse o curso oferecido por Laila e Ana Cristina. Acostumada a fazer o dress code das próprias Barbies quando pequena, ela tem o registro forte desse tipo de habilidade na geração mais velha. “Ah, todo mundo tem uma máquina guardada em casa. A avó sempre sabe costurar, é da época”, acredita. E lá se vão três anos de aulas – inclusive durante as férias – e uma habilidade que cresce cada vez mais. Palavras das próprias professoras.
Luiza Cardoso, de 15 anos, pretende cursar moda na faculdade e já aposta ter nas aulas de costura o conhecimento que não conseguiu ter em casa. “A maioria das pessoas faz curso de línguas mesmo”, diz, referindo-se às atividades de outras adolescentes no tempo livre. Para ela, porém, o investimento é igualmente construtivo. “Cada vez mais, estou vendo pessoas trabalhando com essas áreas”, observa.

As empresárias Ana Cristina Oliveira e Laila Ferriche têm um ateliê de ponto e costura e estão 
de olho na demanda: 'Começamos a perceber meninas novas tendo esse interesse', diz Laila (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
As empresárias Ana Cristina Oliveira e Laila Ferriche têm um ateliê de ponto e costura e estão de olho na demanda: "Começamos a perceber meninas novas tendo esse interesse", diz Laila

Para a socióloga Lourdes Bandeira, o resgate das atividades que costumeiramente eram desvalorizadas e consideradas “naturais” das mulheres é totalmente legítimo, principalmente se tratado de maneira mais elaborada e sofisticada, como inspira o século atual. “São tendências que são recuperadas e reconhecidas pelo mercado, que abre vagas com escolas e cursos para preencher esses espaços”, explica.”

 

DESDE CEDO

Autonomia na cozinha: os alunos da chef Alessandra Brant têm lições sobre alimentação saudável e natural (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Autonomia na cozinha: os alunos da chef Alessandra Brant têm lições sobre alimentação saudável e natural

A ideia surgiu para resgatar o princípio da alimentação saudável e natural, mas tem mais cara de diversão. Talvez por isso as aulas da chef Alessandra Brant conquistem tantos adeptos novinhos e adolescentes. Com a oficina Arca do Sabor, a professora apresenta os alimentos, explica as receitas e executa de perto com cada um, começando a inserir a autonomia na cozinha ainda na infância. Para começar, a única exigência é que o pequeno já tenha coordenação motora. De resto, o que vale é o incentivo dos pais. “Comer é uma coisa muito primitiva, muito básica. Você poder fazer sua comida, com todos os seus temperos, é uma coisa fantástica”, estimula Alessandra, que acredita: “A criança que desenvolve isso consegue levar essa bagagem para o resto da vida”. 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017