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DEZ PERGUNTAS PARA | Bárbara Morais »

Os jovens e o fim do mundo

Autora brasiliense de livro juvenil sobre distopia se inspira na realidade brasileira para criar personagem que lida com o fato de ser diferente

Dominique Lima - Redação Publicação:17/03/2014 14:07Atualização:17/03/2014 14:22

'Conheço muita gente que leu Crepúsculo e, como o texto cita Orgulho e Preconceito, acabou lendo este livro em seguida. Uma coisa puxa outra' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
"Conheço muita gente que leu
Crepúsculo e, como o texto cita
Orgulho e Preconceito, acabou lendo
este livro em seguida. Uma coisa
puxa outra"
Crítica social e diversão constroem o equilíbrio de uma boa história que leva à reflexão, de acordo com Bárbara Morais, autora de A Ilha dos Dissidentes, primeiro livro da trilogia Anômalos. Com o intuito de trazer a mistura aos leitores jovens ou não, ela lançou, pela editora Gutenberg, a história de Sybil, uma adolescente com mutação genética que enfrenta desafios por ser diferente e viver num mundo de guerra. A brasiliense de 24 anos explorou o conhecimento adquirido nos cursos de economia – em que se graduará no ano que vem – e pesquisou sobre a natureza do preconceito para elaborar sua ficção juvenil de distopia.


Questões sociais vindas à tona hoje também estão presentes. Bem recebido pelo público, o livro é uma das formas de Bárbara se conectar com os fãs e expor sua veia literária. A participação em redes sociais e a manutenção do blog Nem um pouco épico são outras. Tanto na pluralidade de meios de que faz uso quanto nesta entrevista, ela trata com bom humor uma multiplicidade de assuntos. Sua rotina se divide entre a escrita, os estudos na universidade, planos para o futuro e o consumo de cultura pop. Ela lembra ainda a quem possa ter esquecido que, como em qualquer dos tempos passados, a juventude não está perdida. “Eu gosto da ideia de que o meu trabalho está afetando de maneira positiva várias pessoas.”

1 | ENCONTRO – Você acredita que Brasília é uma cidade literária, que tem grande número de leitores e estrutura de apoio a autores?
Bárbara Morais – Nossa cidade tem muitos leitores. Não estou muito por dentro dessa parte de divulgação literária, mas, no caso do meu livro, tenho o maior contato com os meus leitores pela internet. Em relação à literatura juvenil, há várias iniciativas legais na cidade, como o Clube do Livro DF, que promove dois encontros com crianças e adolescentes para conversas sobre os livros de maior sucesso entre eles, como Percy Jackson e Jogos Vorazes. E o pessoal gosta muito. São muito interessantes.

2 | Quais os prós e contras do uso da internet para novos autores?
Acho que o entrave é o mais fácil de enumerar: é que, se você não souber o limite desse uso para divulgação, pode ter um efeito negativo. Tem algumas opiniões que são polêmicas e você não pode contar para todo mundo. Porque é polêmico, não tem certo ou errado. E tem gente que se sente ofendida com quem tem opinião diferente. Mas eu vejo inúmeras vantagens. Você está muito mais próximo do leitor. E há efeito de rede. Uma pessoa segue você no Twitter, publica sobre você no Facebook. Daí um monte de pessoas passam a conhecer e procurar seu trabalho. É como o boca a boca, mas amplificado.

3 | Você tem uma rede social preferida?
Eu gosto muito do Twitter. Tem muita gente dizendo que o Twitter está acabando, mas não é verdade. Saíram várias matérias mostrando que os jovens preferem o Twitter porque os pais estão no Facebook (risos). Pessoas me conhecem pelo meu perfil, me seguem, gostam do que escrevo por lá e, por isso, decidem ler o meu livro.

4 | Você acha que leitores eletrônicos e e-books têm transformado o mercado editorial em que sentido?

Eu tenho um leitor eletrônico há dois anos. E acho que ele está tornando esse universo mais prático. Mas eu não acho que o livro vá desaparecer. Acho que eles são complementares. Se eu leio um livro que acho muito legal, vou querer tê-lo em casa para emprestar para as outras pessoas. Por outro lado, eu gosto muito de e-books porque eles não ocupam espaço. Você vai ter mil livros dentro de uma coisinha na gaveta e pronto. Não tem pilhas de livros espalhadas pela casa. E isso traz dinamismo para o mercado editorial, porque os e-books ainda não são muito mais baratos, mas eles são mais baratos que os livros físicos. No Brasil, ainda está engatinhando, muita gente não sabe o que é, mas eu acho que a tendência é ficar cada vez maior.

5 | Muito se ouve sobre os jovens conviverem com informação demais e que isso seria negativo. Você concorda?

Existe informação demais, mas as pessoas aprendem a filtrar. Se o filtro é certo ou errado, eu não gosto de julgar. Porque, se alguém lê um livro considerado ruim, ela vai acabar procurando outros livros. Eu conheço muita gente que leu primeiro Crepúsculo e, como o texto cita Orgulho e Preconceito, acabou lendo este livro em seguida. Uma coisa puxa a outra. E um dos problemas de leitura no Brasil é justamente esse preconceito. Porque eu sou da opinião de que ler qualquer coisa é melhor do que não ler nada. Todo livro acrescenta alguma coisa.

6 | A questão da qualidade de uma obra muitas vezes esbarra no preconceito com certos gêneros. Você vê preconceito com o gênero juvenil?
Existe esse preconceito, e eu acho que ele vem dessa imagem que as pessoas têm desde o início dos tempos de que a juventude está perdida. E os livros para elas também. Mas ninguém conversa com os jovens para ver se isso é verdade. É a mesma coisa com os livros juvenis. As pessoas não param para ler. Tem livros desse gênero que são geniais. Livros com crítica social, que ajudam a lidar com problemas familiares. Tem temas até mais pesados e que conseguem ser tratados com a delicadeza necessária. É um preconceito, como todos, sem fundamentos. Claro que tem livro ruim, assim como tem livro ruim de tudo. Mas tem uns que são muito bons.

7 | Quais são as suas principais referências literárias?
Um dos meus livros preferidos é 1984 [de George Orwell]. E acho que foi isso que me levou a escrever sobre distopia. Eu era adolescente quando li Admirável Mundo Novo [de Aldous Huxley] e achei fenomenal. Eu gosto muito do Neil Gaiman, que faz quadrinhos e juvenis. Dos juvenis, eu admiro muito a Suzanne Collins, que é autora de Jogos Vorazes. Tem o John Green, gosto muito dos livros dele também. Ele tem um canal de vídeos com o irmão e quase todos são ótimos. Gosto muito da Richelle Mead, que escreve fantasia urbana sobre vampiros. Esses livros são superlegais. Você acha que a história vai ser boba e, de repente, você está chorando. Tem ainda o Terry Prachett, que não é muito conhecido no Brasil, apesar de ele ter 11 livros publicados aqui. Ele escreve uma fantasia superdoida. E gosto muito do Erico Verissimo.

8 | Como seu deu o processo de publicar o primeiro livro?
Eu sempre escrevi e não achava que tinha nada que era bom para publicar até eu conhecer a minha agente literária. Ela estava atrás de autores e eu conheço uma autora que trabalha com ela. Ela veio falar comigo e perguntou se eu estava escrevendo alguma coisa. Eu disse que sim – era A Ilha dos Dissidentes. Ela leu e disse que estava muito legal, que via potencial e disse que poderia me ajudar a publicar. E foi aí que eu vi que essa história, que eu estava escrevendo por diversão, poderia ser um livro. Nós acabamos caindo na Gutenberg, que é uma editora fenomenal.

9 | Como tem sido a resposta para o livro A Ilha dos Dissidentes?
Nossa, está sendo ótima. Teve muita repercussão em blogs literários. Volta e meia aparece alguém dizendo que adorou o livro. Temos um grupo no Facebook em que o pessoal coloca teorias sobre o livro. E as pessoas brincam que eu não posso copiar a ideia deles. Só que o enredo já está fechado, não vou adicionar nada. Mas é muito engraçado ver as teorias.

10 | Em que passo segue a produção da trilogia. Tem planos para outros projetos?

Eu estou na metade do segundo livro. Ele sai neste ano no segundo semestre, então eu tenho de entregar agora no primeiro semestre. Para outros projetos não faltam ideias, falta tempo [risos]. Mas tenho alguns planos para outros livros que não são da série Anômalos. E tenho também planos para fazer uma história em quadrinhos. Por enquanto, preciso ainda de um ilustrador.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017