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Para comer à vontade

Risotos, hambúrgueres, crepes e fondues estão entre as opções de rodízios inusitados que fazem sucesso nos restaurantes de Brasília

Braitner Moreira - Redação Publicação:20/03/2014 15:28Atualização:20/03/2014 15:39

A chef Ticiana Werner serve até 13 sabores de risoto em seu rodízio, mas sugere que a pessoa vá curtir, conversar, tomar um vinho: 'Minha proposta é servir para degustação, não para um estivador' (Fotos: Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
A chef Ticiana Werner serve até 13
sabores de risoto em seu rodízio, mas
sugere que a pessoa vá curtir, conversar,
tomar um vinho: "Minha proposta é servir
para degustação, não para um
estivador"
Passar mais de duas horas em uma mesa em noite de rodízio não é mais exclusividade de grupos de jovens esfomeados que disputam quem come mais pedaços de pizza em menos tempo. Em Brasília, esse tipo de serviço tem se consolidado em restaurantes nos quais há alguns anos só era possível fazer pedidos à la carte.


Os responsáveis pelas casas até tentaram alterar a denominação, e os rodízios tornaram-se sequências, festivais, degustação. Para a maior parte dos clientes, no entanto, qualquer uma dessas definições traz um valor agregado: comer à vontade sem precisar se preocupar com o preço de uma conta preestabelecida. Tal oportunidade abriu espaço para rodízios inusitados na capital federal. Na Asa Sul, por R$ 39,50, é possível experimentar até 13 sabores de risoto: camarão com manga, frango com pimenta jalapeño, carne seca com abóbora, alho-poró com damascos e assim em diante.


“Já tentei todo tipo de prato à la carte para desbancar o rodízio, mas nunca consegui”, conta a chef Ticiana Werner, dona do empório que leva o próprio nome. Depois de dois anos com o serviço, ela não vê mais possibilidade de abandoná-lo. Em uma noite, até 100 clientes são atendidos. “É interessante porque dá a oportunidade de experimentar vários sabores diferentes. Mas a pessoa tem de vir curtir, conversar, tomar um vinho. Minha proposta é servir para degustação, não para um estivador”, completa.


'Quinta-feira não é nosso dia de mais lucro, mas ainda assim compensa por ser um bom chamativo para novos clientes', conta Léo Sousa, gerente do Johnnie  Burgerda Asa Sul (Fotos: Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
"Quinta-feira não é nosso dia de mais
lucro, mas ainda assim compensa por ser
um bom chamativo para novos clientes",
conta Léo Sousa, gerente do Johnnie
Burgerda Asa Sul
Para o rodízio funcionar, a cozinha prepara um sabor de risoto por vez e os clientes são servidos à medida que os pratos ficam prontos. Com tantas opções de sabores e o difícil ponto do prato, o desperdício é grande. A cada noite, até 6 kg de risoto são jogados fora, sempre com ingredientes caros, tais como arroz arbóreo, filé mignon, camarão e bacalhau.


No Johnnie Burger, as sobras são contornadas com a cobrança de uma taxa de desperdício. Com um cardápio de sete sanduíches, dois tipos de cachorro-quente e cinco opções de entrada às quintas-feiras, o cliente pode pedir o que quiser. O prato chega à mesa cerca de 10 minutos depois, idênticos aos dias nos quais não há promoção. Após a “vigilância”, o restaurante passou a desperdiçar menos ingredientes.


Tantas opções de hambúrguer disponíveis a R$ 32,90 valorizam o rodízio para quem tem muito apetite, certamente. Mas a casa também fica satisfeita com o resultado. “Nós prezamos muito a divulgação boca a boca, então é um bom chamativo para novos clientes. Claro que não é nosso dia de mais lucro, mas ainda assim compensa”, avalia Léo Sousa, gerente da unidade da Asa Sul. Há um ano com o serviço na casa, ele comanda a distribuição de cerca de 200 sanduíches por noite.


Brasília ainda tem opções para quem quer se esbaldar em comidas que, até alguns anos atrás, não eram servidas dessa forma. Crepe, fondue, tapioca e frutos do mar, por exemplo, tentam desbancar o churrasco, a pizza e as culinárias japonesa e mexicana.

Ney Barros adora rodízios: 'É uma oportunidade para conhecer melhor o cardápio dos lugares e saber o que pedir das próximas vezes' (Fotos: Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Ney Barros adora rodízios: "É uma oportunidade para conhecer melhor o cardápio dos lugares e saber o que pedir das próximas vezes"

Tanta opção criou clientes que se tornaram especialistas no assunto. “Sushi, churrasco, pizza, mexicano sanduíche, risoto... Só não conheço ainda o fondue, mas ainda vou lá conferir”, adianta o analista de sistemas Ney Barros, fiel ao estilo onde quer que pise. No dia em que foi entrevistado, devorou três sanduíches e uma porção considerável de batata frita. Deixou o restaurante às 22h.
Para Ney, porém, não basta comer muito. O ambiente é levado em consideração na hora de escolher a casa, assegura: “Dá para comer com tempo e paciência, longe dessa lógica insana do dia a dia. Além disso, é uma oportunidade para conhecer melhor o cardápio dos lugares e saber o que pedir das próximas vezes”. Clientes como ele não ficam menos de duas horas em uma mesa, geralmente acompanhados.


A nova cara do rodízio brasiliense permite que um ambiente romântico divida espaço com infindáveis sequências de comida. Valéria e Juno Sena, por exemplo, comemoraram os cinco anos de casamento no rodízio de risoto. “O lugar é charmoso e aconchegante. Para quem gosta de exclusividade, perfeito”, aponta ela. Como já estavam ali, melhor aproveitar todos os pratos à disposição. “Provamos de todos os sabores. E os antepastos também estavam uma delícia”, disse Valéria.
Os casais têm demonstrado fidelidade com a opção de comerem o quanto quiserem em lugares propícios para namorarem à noite. À luz de velas e com três varandas abertas, o Chez Fondue se destaca no meio. Por R$ 69 por pessoa, é possível experimentar cinco tipos do prato suíço.
“Sempre relutamos em fazer esse serviço porque todo o nosso produto é fresco, leva 20 minutos para ficar pronto. Aqui não é que nem uma pizza, que precisa de dois minutos no forno”, explica o proprietário da casa, Bruno Freitas. Por causa do tempo de preparo, ele prefere chamar o serviço de “festival” e ainda reluta em batizá-lo como rodízio.


Menos critérios teve a Crepe Royale, que oferece um ambiente romântico e uma cozinha fechada apenas por vidro. Mesmo assim, a casa banca o nome: rodízio. “Trabalhamos desse modo há seis anos, porque os clientes queriam experimentar vários sabores. Da forma como fazemos, abrindo todo o cardápio como opção, ninguém mais faz”, diz Tatiane Miranda, proprietária do restaurante da Asa Sul. É possível pagar R$ 43,50 ou R$ 48,90 por pessoa, dependendo do dia escolhido. São mais de 40 sabores, nenhum deles mais popular que o de filé mignon com cogumelos. Cerca de 60% dos clientes do restaurante escolhem essa opção.

Na Crepe Royale, cerca de 40 sabores - o cardápio todo - estão à disposição dos clientes no rodízio, que funciona todos os dias da  (Bruno Pimentel/Encontro/DA Pres)
Na Crepe Royale, cerca de 40 sabores - o cardápio todo - estão à disposição dos clientes no rodízio, que funciona todos os dias da

Ao mesmo tempo que atrai clientes vorazes, os rodízios também contam com aquelas pessoas que juram sempre se arrepender da escolha. “Vim só porque meu namorado insistiu bastante. Estou pagando mais para assistir ao prato alheio da minha frente ser atacado”, brinca a estudante universitária Andreza Lemos, que se sentou no rodízio de crepe para comer uma unidade e meia antes de se enfastiar.


Edmilson Mendes, o namorado dela, parou nos quatro crepes. O casal é, na verdade, uma “exceção”. Com a opção de comer o quanto conseguir, muitas pessoas costumam consumir mais de 2 mil calorias em pouco mais de uma hora – quase toda a energia recomendada para uma pessoa em 24 horas. “Em um rodízio, as pessoas geralmente não se sentem saciadas. Quase sempre o mal-estar gástrico é o responsável pelo fim do consumo”, afirma a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Centro Integrado de Terapia Nutricional (Citen).


Para a especialista, é importante saber dosar a quantidade de alimentos ingeridos em um curto espaço de tempo, pois o excesso pode se refletir no aumento de peso e em outros problemas de saúde para quem faz disso um estilo de vida.


À luz de velas e com três varandas abertas, o Chez Fondue é uma boa opção para casais que gostam de comer o quanto quiserem, por um preço fixo, em lugares propícios para namorarem à noite (Fotos: Bruno Pimentel/Encontro/DA Pres)
À luz de velas e com três varandas abertas, o Chez Fondue é uma boa opção para casais que gostam de comer o quanto quiserem, por um preço fixo, em lugares propícios para namorarem à noite

Cinco décadas de tradição

O primeiro rodízio brasileiro surgiu na década de 1960, em uma churrascaria de beira de estrada em Londrina. O nome utilizado nos dias de hoje ainda demorou a surgir, no entanto, no interior do Paraná, os clientes preferiam chamar a inovação de “espeto corrido”, nome que se popularizou no Sul do país.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017