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Por que não amigos?

Histórias de cães, gatos e donos que aprenderam a viver em uma (quase) perfeita harmonia

Maria Fernanda Seixas - Redação Publicação:21/03/2014 16:05Atualização:21/03/2014 16:29

 (Divulgação)
 

Foram necessários uma virada de século, a mudança de milênio e alguns milhares de vídeos no YouTube para derrubar o velho mito de que cães e gatos são inimigos. A lenda da rixa entre tais bichos, disseminada em clássicos da literatura infantil e nos desenhos animados, perdeu força com os exemplos constantes de amizades entre canídeos e felinos que pipocaram na rede mundial de computadores. São inúmeras filmagens caseiras, reportagens, fotos e relatos de profissionais e de pessoas que perceberam que eles não se odeiam e podem se tornar grandes amigos. A possibilidade de bom relacionamento entre os antigos adversários tornou-se um incentivo aos que tinham vontade de ter um gato, mas não o faziam por ter um cachorro, e vice-versa.


O protetor de animais Daniel Nek, por exemplo, sempre foi do time dos cachorros. E, exatamente por isso, imaginou que jamais criaria um gato. Adotou a cadela Filó há cerca de três anos e planejava uma segunda adoção para fazer companhia à cadelinha. Até o dia em que sua mulher desceu para passear com a Filó e, enquanto caminhavam, um filhotinho de gato cruzou a calçada, sozinho, e despertou imediatamente a simpatia da moça. O casal resgatou o gato e pôs anúncios na internet à procura do dono.


“Na hora que ambos estavam em casa pela primeira vez, Filó ficou pulando querendo cheirar o bichinho. O gato ficou na defensiva e mostrava as garrinhas com pequenos rosnados, bem arisco mesmo. No começo, o gato acuou a cachorra, que até desviava com medo do gato. Ele era bem menor que ela, mas muito abusado”, lembra Daniel.

Com alguns limites e pouca interferência dos humanos: os cães Lana e Zeus se tornaram amigos íntimos de Bee (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
Com alguns limites e pouca interferência dos humanos: os cães Lana e Zeus se tornaram amigos íntimos de Bee

Para a boa convivência, porém, Daniel se muniu de informações virtuais e conselhos de amigos. A lição de casa teve bom resultado. Nos primeiros dias, quando o casal saía de casa, não permitia que a dupla ficasse no mesmo cômodo. Deixava o gatinho em um quarto e a Filó solta no resto da casa. “O objetivo é separá-los para que eles fiquem se cheirando por debaixo da porta. Assim, eles se acostumam com a presença um do outro em casa, familiarizando-se com o cheiro. Como eles já tinham se visto, os deixávamos separados apenas quando saíamos de casa”, conta.


Além desse cuidado, o casal usou músicas baixadas na internet conhecidas por acalmar animais. Quando precisavam sair, deixavam o som tocando. “Parece bobagem, mas acredito que a música ajudou a deixar os dois menos ansiosos.” O tempo passou, o dono não foi localizado e o gato ganhou o nome de Barnabé.


Enquanto isso, Filó continuava suas investidas de aproximação e, aos poucos, conquistou Barnabé. “Os dois vivem correndo pela casa, ficam o dia inteiro um atrás do outro, brincando. Percebemos que o gato realmente está sendo uma companhia para Filó, que ficava muito só em casa, principalmente durante a semana, quando trabalhamos”, diz. “O engraçado é perceber que o gato vai ficando meio cachorro e o cachorro meio gato. O Barnabé olha pela janela quando estamos chegando e anuncia a nossa presença com miados. E a Filó ficou mais ousada em explorar territórios”, completa Daniel.


Mesmo com o bom convívio, os cuidados para a preservação da harmonia da casa ainda são necessários. “Quem domina a comida e a nossa cama é a Filó. Deixamos a ração do gato no alto para a cadela não comer, além de alimentarmos os dois separadamente, para evitar brigas e também impedir que eles comam a comida um do outro. Gato tem de comer a ração de felinos e o cachorro, a de caninos, pois as quantidades de proteínas e nutrientes para cada um são diferentes”, alerta.


Na casa da estudante Raquel Andrioni, convivem seis gatos e dois cachorros (um boxer e uma vira-lata) em uma harmonia estabelecida e criada pelos próprios bichos. Eles brincam, divertem-se, estranham-se, provocam-se, mas nunca brigam. Raquel e sua família acreditam que quando se trata de leis de convivência entre os bichos, a interferência humana deve ser mínima.

Barnabé e a cadela Filó provam que cães e gatos podem viver bem juntos: rivalidade é mito (Daniel Nek/Divulgação)
Barnabé e a cadela Filó provam que cães e gatos podem viver bem juntos: rivalidade é mito

Os cuidados de Raquel se restringem ao momento da brincadeira. “Quando quero brincar com os cães prendo os gatos em outro cômodo, porque como os cachorros são grandes e gostam de correr, acabam atropelando quem está no caminho”, conta. A hora da comida também necessita de uma divisão formalizada. Cães comem no jardim e gatos dentro de casa. Mesmo que, vez ou outra, um consiga burlar a regra e coma a comida errada.


Raquel conta que por lá a relação entre os bichos vai muito além da boa convivência. “Todos se amam e são muito amigos. Bee certa vez passou um tempo fugindo de casa e nós não sabíamos para onde ela ia. Um dia resolvemos sair pelo quintal chacoalhando o pote de ração para chamar sua atenção. Ela miou e então a encontramos dormindo com o Zeus, o boxer. Esses dois se amam. Já a cadela Lana costuma dar banho na Bee, e a Bee gosta de limpar o ouvido do Zeus. É uma bagunça.”

Jurema, com Branquinha e seus gatos:  'A cadela se dá muito melhor com os felinos do 
que com os cães' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Jurema, com Branquinha e seus gatos: "A cadela se dá muito melhor com os felinos do que com os cães"

Meio cadela, meio gata

 

Jurema Campos adotou uma cachorrinha de rua em 2004. Três anos depois, resgatou um filhote de gato e o levou para casa sem medo de ser feliz. A empatia entre ambos foi imediata, como Jurema esperava. A boa convivência levou Jurema a adotar mais e mais gatinhos. Hoje são mais de seis felinos convivendo em paz com a cadela, que, garante a dona, se sente uma gata-alfa entre seus amigos felinos.


Sua reação mais inesperada foi quando Jurema trouxe para casa quatro filhotes de gato tão novinhos que precisavam de cuidados especiais -- mamadeira, leite especial, uso de bolsas d’água quente e massagens na barriga para estimular o sistema digestivo. “Como os gatos da casa os hostilizaram, rosnando para os novos filhotes, a Branquinha vigiava-os bem próximo à caixa, rosnando ou latindo para os que tentavam se aproximar dos filhotes. E ela também nos ajudava a reunir e segurar os gatinhos que tentavam andar para longe, quando estávamos dando a mamadeira”, relata.


O instinto materno era tão grande que, desde então, quando algum filhote resgatado das ruas chega na casa de Jurema, Branquinha assume a posição de mãe imediatamente, tratando os gatinhos como se fossem seus. “Ela os pega com a boca pela pele do pescoço, assim como fazem as mães caninas e felinas”, lembra.


Além de mãe, Branquinha também assumiu o posto de dona do pedaço. Mesmo se dando bem com os gatos, o tempo fecha quando ela está recebendo carinhos da dona e algum gato tenta disputar atenção. Branquinha também não gosta dos constantes sustos que os gatos pregam quando ela dorme. E se os gatos descolam alguma comida proibida, de insetos capturados à comida de gente, é Branquinha quem traça a refeição. Ainda assim, a cadela e os gatos nunca brigaram com arranhões ou mordidas.


A sintonia é tamanha que Jurema acredita que Branquinha acha que é uma gata. “Ela se dá muito melhor com felinos do que com cachorros, os quais ela ataca”, revela. A mesma inversão de comportamento acontece com seus gatos. Mendiguinho, o primeiro a chegar na casa, por exemplo, gosta de acompanhar Jurema e a cadela em passeios na coleira.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017