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O fim das curtidas

O Facebook perderá a maior parte dos usuários até 2017, segundo estudo de uma universidade americana. Não se pode ter certeza se a tese vai se confirmar, mas é fato que há muita gente, inclusive brasilienses, deixando a rede

Braitner Moreira - Redação Publicação:21/03/2014 16:45Atualização:21/03/2014 17:03

 

Diariamente, uma infinidade de pessoas ao redor do mundo dedicam 600 milhões de horas ao Facebook. O cálculo é simples. A maior rede social da história da internet conta com 1,2 bilhão de usuários ativos. Cada um deles passa, em média, 30 minutos por dia com a página aberta, segundo os principais serviços de monitoramento de tráfego de dados.


Esses números excepcionais, contudo, podem estar próximos de ruir. Em fevereiro, pesquisadores da Universidade de Princeton publicaram um estudo no qual concluíram que o Facebook atingiu o ápice de usuários. Por meio de um modelo epidemiológico, deduziram que, até 2017, 80% das pessoas cadastradas na rede social vão fechar suas contas.


Caso a previsão da instituição esteja correta, os usuários vão se desinteressar pelo site à medida que outras pessoas o deixarem. “Ideias, assim como doenças, espalham-se infectando pessoas antes de morrerem”, escreveram os pesquisadores. Avaliado em US$ 142 bilhões e com 6,7 mil empregados, o Facebook retrucou, afirmando que o mesmo modelo epidemiológico levaria ao fim a Universidade de Princeton.


Carolina Orbage 'abriu mão' de seus 800 amigos: 'No início, essa privação era bem difícil. Agora, já consigo ver que foi uma boa decisão' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Carolina Orbage "abriu mão" de seus
800 amigos: "No início, essa privação era
bem difícil. Agora, já consigo ver
que foi uma boa decisão"
Hoje, falar sobre a morte do Facebook parece um contrassenso. Ainda mais no Brasil, único país do mundo no qual nenhum outro site é mais acessado do que o criado por Mark Zuckerberg, que suplantou, sozinho, três gigantes – MySpace, Orkut e MSN. Mas já é possível localizar pessoas que abandonaram a rede social e não planejam retornar.


A diminuição da privacidade a cada nova reforma da plataforma tem afugentado usuários. Mas a principal reclamação de quem abandona a rede é a falta de comunicação com os amigos mais próximos e a relação superficial com desconhecidos. “As pessoas substituíram o contato pessoal pelo contato no Facebook. Eu conhecia uma pessoa, era amiga dela na rede e a  encontrei na fila do cinema. Ele curtia minhas fotos, mas quando me viu na rua virou a cara”, conta a cientista política Mariana Zewe.


Aos 25 anos, Mariana trabalha durante o dia e faz pós-graduação. Hoje, não consegue imaginar como passava até duas horas por noite navegando em fotos, postagens e comentários. “Eu perdia muito tempo. Para mim, foi um alívio ter saído, não me faz falta nenhuma. Quem quiser falar comigo, me ligue. O contato ali é muito superficial”, opina. O tempo livre, antes empenhado no computador, agora é usado para ver TV, fazer comida e dar atenção aos gatos de estimação.


O “hábito noturno” dos usuários do Facebook não é segredo. De acordo com a empresa de análise de dados Union Metrics, o horário de pico da rede social ocorre por volta das 22h, principalmente no domingo e na quarta-feira. “Eu já morava sozinho e, às vezes, deixava de sair porque perdia a vontade. Era mais confortável ficar no computador sem fazer nada”, comenta Max Emmanuel, de 17 anos. Ele estuda para o vestibular – quer cursar economia – e abandonou o site há dois anos. Diz não ter dúvidas de que foi a melhor escolha para evitar desperdício de tempo livre.


“No início, o Facebook era muito importante para mim, o maior veículo de comunicação que eu tinha”, recorda o rapaz, que era modelo em Maringá (PR) quando fechou a conta. “Demorei um pouco a perceber que perdia muito tempo naquilo sem ver nada de bom. Não estou exagerando, tudo ali era 0% útil para mim.”

Max Emmanuel abriu mão de 2,5 mil contatos: 'Não estou exagerando. Tudo ali era 0% útil para mim' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Max Emmanuel abriu mão de 2,5 mil contatos: "Não estou exagerando. Tudo ali era 0% útil para mim"

A maior parte dos 2,5 mil contatos que Max havia feito na rede social se perdeu com a exclusão do perfil. “Os meus amigos ainda me ligam e me mandam mensagem. Os outros eram só conhecidos, não me fizeram falta”, diz.


A perda de jovens usuários tem sido comum no Facebook. Dados do centro de pesquisa Pew mostram que 8% das pessoas abaixo de 29 anos fecharam suas contas no site nos últimos dois anos. Nessa faixa etária, cada usuário ativo costuma ter cerca de 300 amigos. A partir dos 65 anos, a média cai para 30 relações.


Com 800 amigos quando cancelou o Facebook, a estagiária de direito Carolina Orbage também superava essa média. “Tanta gente que via minhas fotos e eu nem conhecia bem”, lembra. A conta da universitária, que ficava aberta no computador “entre três e quatro horas por dia”, durou quatro anos. Há sete meses longe da rede, ela jura ter superado a abstinência. “No início, essa privação era bem difícil, porque a maioria dos meus conhecidos conversava por lá. Agora, já consigo ver que foi uma boa decisão”, observa.


Sem vontade de voltar ao Facebook, Carolina aguarda uma nova rede social. Se pudesse, faria um pedido ao idealizador: mais privacidade. A superexposição a fez “tomar aversão” pelo site de Zuckerberg. “Eu percebi que qualquer pessoa que me procurasse poderia ter acesso ao meu perfil, não só à minha foto. Além disso, eu passava o dia inteiro bombardeada por informações que não me levavam a lugar nenhum, já que eu não trabalho em site de fofoca”, critica.


O costume de checar, curtir, publicar e compartilhar foi ocupado por estudo, palestras e estágio. “Nem sei como eu tinha tempo livre para o Facebook. Minha atenção e meu foco aumentaram, sem contar que recuperei o tempo que perdia com minha família e meus amigos”, comemora.  Longe da rede, conseguiu evitar o que o psicólogo espanhol José Antonio Luengo chama de “atenção parcial contínua”, quando a mente fica ligada em muitas coisas, mas tem dificuldade em solidificar o que foi visto.

A cientista política Mariana Zewe economizou duas horas por dia ao fechar sua conta: 'Para mim, foi um alívio ter saído' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
A cientista política Mariana Zewe economizou duas horas por dia ao fechar sua conta: "Para mim, foi um alívio ter saído"

O início da debandada dos usuários nem faz cócegas a um império erguido há apenas 10 anos, mas já capaz de manobras financeiras como a que adquiriu o programa de mensagens instantâneas WhatsApp por US$  16 bilhões. Ainda assim, há quem se alinhe à Universidade de Princeton para sustentar que a “era do Facebook” se aproxima do fim. “É possível enxergar sinais de que um êxodo é inevitável. Será o maior da história da tecnologia social”, prevê o produtor Chrys Bader, ex-funcionário do Google.


Para Bader, os usuários filtram cada vez mais o que postam na rede social, pois sabem que nela encontram suas ligações familiares, profissionais e afetivas. Isso, segundo ele, desumanizou o site. “Uma grande parte das pessoas está saturada, não consegue mais conviver com o Facebook, mas segue ativa mesmo assim”, avalia. Apesar disso, a empresa não terá de lidar com o fracasso. “O Facebook nunca mais vai ser ‘cool’, mas pode comprar o que é ‘cool’. Fez isso com o Instagram, com o WhatsApp, e vai fazer com o Snapchat”, aponta.

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Saiba como encerrar sua conta

 

Existem duas opções. A primeira delas é desativar por um tempo indeterminado. Essa escolha significa que a linha do tempo desaparece do Facebook. Outros usuários não poderão procurar por você, apesar de que algumas informações, como mensagens enviadas, continuam visíveis. Não é possível, além disso, apagar fotos postadas por outras pessoas.


A alternativa mais contundente é excluir a conta de forma permanente. Assim, não será possível reativá-la nem recuperar qualquer conteúdo: todos os dados serão perdidos para sempre - é o que promete o Facebook. Antes de jogar tudo para o alto, no entanto, demora pouco tempo copiar as fotos publicadas.

 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017