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ENTREVISTA | MARIA PAULA »

De volta a Brasília

Em busca de qualidade de vida e devido à militância social, a atriz e apresentadora planeja um pouso na capital: "Aqui tem muitos lugares propensos à reflexão"

Gustavo T. Falleiros - Redação Publicação:24/03/2014 14:44Atualização:24/03/2014 14:58

'Sempre tive o lado glamour: entrevistava o Prince quando ele vinha ao Brasil. Mas tinha o lado da verdade nua e crua de acordar às 6h para atender os psicóticos, os esquizofrênicos' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"Sempre tive o lado glamour: entrevistava o Prince quando ele vinha ao Brasil. Mas tinha o lado da verdade nua e crua de acordar às 6h para atender os psicóticos, os esquizofrênicos"
 

Maria Paula surge na sacada e, por um instante, vemos uma menina sapeca fazendo pose. A breve alucinação não é de todo absurda. A casa no Lago Sul é a mesma da infância da apresentadora. Aquela varanda foi o primeiro palco de suas brincadeiras. E, inegavelmente, ela desafia a passagem do tempo com um entusiasmo de moleca.


A atriz e apresentadora Maria Paula está de volta a Brasília. Trata-se de um retorno tático para aninhar os filhos Maria Luísa e Felipe com os avós e fazer da capital um trampolim para projetos diversos. A mulher que simboliza o aleitamento materno no país e lutou pelo aumento da licença-maternidade sublinha as ideias estalando os dedos e não economiza sorrisos.
Assuntos como saúde, meditação, humor e militância são combustível para sua mente inquieta. Nesta entrevista a Encontro Brasília, ela repassa as origens candangas e as aventuras de hoje e sempre.

Você está voltando para Brasília?


A intenção é ficar mais aqui do que no Rio, mas mantenho minha casa lá (no Leblon). Vou ficar na ponte aérea, indo só para trabalhar, mas com a base aqui, porque quero ficar mais perto dos meus pais. Quando os filhos vão crescendo, a gente dá mais valor ao convívio com os avós. E eu viajo muito. Tenho três filmes para fazer este ano, entre eles, o longa do Radical Chic. Tem uma questão de qualidade de vida também. É ano de Copa do Mundo e o Rio de Janeiro está um caos. A cidade inteira em obra, uma confusão louca... Quer saber? Vou fugir para Brasília e esperar baixar a poeira.

Com que idade você se mudou daqui?


Saí com 17 anos. Fui para Londres estudar inglês. Quando voltei, fui direto para São Paulo. Aí comecei a trabalhar na MTV. Fiquei três anos. Depois fui para o Rio e lá fiquei até agora.

E já teve tempo de passear na cidade depois disso?


Já. Tenho descoberto uns lugarzinhos. Primeiro, os templos. Sou muito ligada à meditação, a filosofias orientais. Já fiquei sabendo que tem um templo da kriya yoga aqui, vou frequentar com certeza. Acho gostoso o próprio Templo da Legião da Boa Vontade, com um clima bom para passear com as crianças. Brasília tem muitos lugares propensos à reflexão. E, fora isso, tem a Chapada dos Veadeiros, que é minha paixão, vivo lá.

'Brasília é uma cidade única. Não tem nenhum outro lugar no mundo com tantas possibilidades de explorar a espiritualidade' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"Brasília é uma cidade única.
Não tem nenhum outro lugar no
mundo com tantas possibilidades
de explorar a espiritualidade"
O que mudou mais, você ou Brasília?


Tudo mudou. Eu mudei demais; a cidade também. A cidade da minha memória era pequena, pacata, bucólica. Mas acho que isso tem a ver com a imagem idealizada dos tempos de infância. Eu me lembro de sair sozinha de bicicleta e ficar a tarde inteira passeando. Tinha uma liberdade que sinto muita falta agora que estou criando meus filhos. No Rio, eles não ficam nem um minuto fora do meu campo de vista. Maria Luísa tem 9 anos. Na idade dela, eu já saía pelo lago. Então, uma das coisas que busco, nesse retorno, é essa tranquilidade.

Seus irmãos moram aqui?


O Cyro e a Cinira. A Guta é a única que mora em São Paulo. Mas ela vem muito, então tem sempre reunião, alguém fazendo churrasco. A gente vai ao cinema juntos, com uma reca de 20 crianças. Lá no Rio, tenho um círculo de amigos grande, mas a família faz muita falta. A Cinira é uma influência fortíssima — acho que estudei psicologia por causa dela. Ela clinica e faz trabalho voluntário no hospital do câncer da Abrace (Hospital da Criança de Brasília José Alencar). Há anos, ela tira um dia da semana para fazer o atendimento das famílias, das crianças em estado terminal.

Você também tem uma atuação social forte…


Esse é um dos motivos de estar me mundando para Brasília. Agora mesmo estou em contato com a ministra Eleonora Menicucci (Secretária de Políticas para as Mulheres). Este semestre, vamos fazer coisas bacanas. Sou muito engajada nas questões femininas e a ministra está com uma campanha nova, que é uma política para detentas. A gente quer fazer salas de gestação dentro dos presídios. Sabe-se que o vínculo afetivo do bebê é estabelecido nessa fase precoce de vida e, no presídio, fica muito comprometido. Queremos um ambiente propício, com silêncio e respeito. Como a ministra é uma mulher que passou por isso — o leite dela secou por causa da tortura na prisão —, ela tem a sensibilidade à flor da pele para o tema. Quando procurei a ministra, imediatamente os olhos dela brilharam e começamos a trabalhar juntas. Além disso, sou da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano do Brasil. Cada conquista é combustível para eu ficar mais pilhada.

É seu principal projeto este ano?


Tenho vários. O cinema no Brasil está bombando... E tem o programa Saúde por aí (uma nova temporada está em negociação), que fala de saúde de uma forma muito diferente. Acho maravilhoso quando consigo fazer a interface das várias Marias Paulas — a psicóloga, a apresentadora de tevê, a cronista. É quando consigo atingir mais pessoas. Estou, inclusive, com um projeto de consultoria. Eu, que já viajei o mundo todo e sei o caminho das pedras, vou ajudar quem também está em busca de autoconhecimento. Sou gente que rala: acordo às 6h da manhã e, quando as crianças dormem, ainda vou para o computador escrever.

É interessante que você pensa em rede…

Totalmente, tanto que sou uma das conselheiras do www.umagotanooceano.org, uma plataforma para linkar todo mundo: Greenpeace, ISA (Instituto Socioambiental), Médicos Sem Fronteira etc. Estamos fazendo um banco de talentos de todos os tipos, para quem quer colaborar e não sabe como. Nossa primeira grande campanha será lançada em 19 de abril e é sobre territórios indígenas. Por isso, é bom estar em Brasília. Qualquer coisa, bato na porta da Marlova (Jovchelovitch Noleto), diretora (da área programática) da Unesco no Brasil. E ela me acolhe. A mesma coisa com a ministra. O poder está aqui. Então, quando algum grupo precisa de representatividade, já sabe que estou disponível.

Você tem várias bandeiras e se posiciona muito francamente. Já foi vítima de algum patrulhamento?


Muito. As pessoas se incomodam quando você se coloca contundentemente. Acontece que sou muito responsável. Não entro em confusão com opiniões levianas, nem atacando ninguém. Sou cheia de opinião, sim, e me expresso muito bem. Eu sou uma comunicóloga — há 20 anos aprimorando a arte de comunicar. Óbvio que isso aborrece. Só que a gente vive num país democrático. Quando vejo uma injustiça sendo feita, tenho direito de me levantar, juntar meu grupo e reclamar.

'Digamos que o poder mude e venha outro partido: não vou ter o menor problema de bater na porta da próxima ministra. Meu trabalho é apartidário' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"Digamos que o poder mude e venha outro partido: não vou ter o menor problema de bater na porta da próxima ministra. Meu trabalho é apartidário"

Houve alguma posição que você retrocedeu, mudou de opinião?


Já. Em vários momentos, as opiniões dos outros me fazem repensar. Isso está acontecendo sempre. O mais legal do Uma gota no oceano é que, ali, convergem vários pontos de vista. A mídia “normal” já expõe o ponto de vista do mainstream. Cada segmento que tem interesses financeiros envolvidos está muito bem representado. Esses, a gente não precisa se preocupar. Agora, quem está em posição de minoria ou vítima precisa de alguém que lhes dê voz. Qualquer opinião unilateral é burra.

E a política convencional? Já foi assediada para entrar em partido?


Já, mas tenho os dois pés atrás. Eu não pretendo. Acho que, como comunicadora, consigo chegar mais longe, inclusive politicamente. Seja qual for a ministra, vou bater na porta. Antes era a Nilcéa Freire (Secretaria de Políticas para as Mulheres), no governo Lula. Agora é a Eleonora Menicucci. Digamos que o poder mude e venha outro partido: não vou ter o menor problema de bater na porta da próxima ministra. O trabalho que faço é apartidário.

A proximidade com a família Suplicy mudou sua forma de encarar a política?


Claro que isso influencia, porque o Eduardo Suplicy é um ícone. Existem muito poucos políticos respeitados por todas as classes sociais, por todos os outros partidos políticos. É um homem muito especial. Tê-lo como avô dos meus fihos é uma honra. E tê-lo por perto é um privilégio. Inclusive, quando estou em dúvida, sempre busco os conselhos dele. Os da Marta também. É uma mulher muito bacana, com uma trajetória de luta feminina que eu respeito pra caramba. Fazer parte de uma família tão representativa obviamente amplia a minha cabeça, os meus horizontes. Mas minha veia politizada vem de muito antes.

Ficava preocupada na época do Casseta de não ser levada a sério?


O humor é uma das grandes formas de se falar coisa séria. Eu adorava fazer o Casseta & Planeta. Continuo fazendo humor neste momento mais sério. Uma coisa só reforça a outra. Sou uma pessoa muito doce. Quando pego pesado, é pela via do humor. Não boto dedo na cara de ninguém. Enfrento com gentileza e bom humor. Eu quero ampliar, somar, fazer pontes, ter gente para trabalhar junto. Existe uma imagem que, para mim, é um símbolo: o cardume. Milhares de peixinhos, todos nadando para o mesmo. Eles estão conectados energeticamente, têm uma comunicação telepática. Essa imagem de cardume em movimento, eu pego para mim como norte na vida. A gente precisa se movimentar que nem cardume. Sociedades de vanguarda são assim. Não precisa ficar dizendo: “Ó, vai fazer isso”.

Como começou sua busca espiritual?


Acho que foi quando escolhi Brasília para nascer. Brasília é uma cidade única. Não tem nenhum outro lugar no mundo com tantas possibilidades de explorar a espiritualidade. Existem todos os tipos de seitas, todos os tipos de templos. Eu, com 14 anos, já tinha sido sacerdotisa do Vale do Amanhecer, já tinha participado da Irmandade Cruz e Lótus. Com 17, que foi quando saí de Brasília, tinha um grupo de adolescentes na 309 Sul, que trabalhava com espiritualidade. Tra-ba-lha-va. Todo mundo era escoladaço, fazendo trabalho de desobsessão, trabalho energético.

O que mais a cidade proporcionou?


Nascer aqui influenciou muito, não só minha vida espiritual, mas a intelectual também. Conto nos dedos minhas amigas cariocas que são formadas. Em Brasília, quase todas minhas amigas de infância têm mestrado e doutorado. Por quê? É que o clima da cidade é outro. Foi determinante no meu destino. Uma cidade muito pacata, não tinha Rock in Rio, não tinha carnaval de rua. O que eu ia fazer? Ler, conversar, meditar, estudar. Sou muito sortuda de ter tido a cidade como base de caráter, base emocional. Brasília é uma cidade onde meu pai podia almoçar em casa todos os dias. Poucas cidades no mundo oferecem esse tipo de privilégio às crianças. Isso é luxo na última filigrana. Nunca fui milionária, meus pais nunca foram, mas considero minha vida cercada de luxo desde a primeira infância.

Foi em São Paulo que você se formou em psicologia?


Me formei com 21 anos em São Paulo, transferida para a Unip (Universidade Paulista). Entrei na UnB (educação física) e no Ceub (psicologia) com 16. Olha só: já sabia que queria cuidar do corpo e da mente. Infelizmente, não me formei nas duas vertentes. Comecei a trabalhar na MTV. Paralelamente, estava estudando e, no último ano, fazia estágio no Hospital Psiquiátrico Charcot, um dos mais barra-pesada do Brasil. Sempre tive o lado glamour: entrevistava o Prince quando ele vinha ao Brasil. Mas tinha o lado da verdade nua e crua de acordar às 6h para atender os psicóticos, os esquizofrênicos, a galera que precisava de ajuda séria. Fico muito amarradona de ver a trajetória da minha vida, conseguindo integrar os lados. Adoro estar linda diante das câmeras. A beleza e a delicadeza têm o seu lugar. Não sou uma pessoa rude, que acha tudo isso supérfluo. E, olha que delícia, que karma bom: as pessoas olham para mim e já dão uma gargalhada, seja numa favela, seja numa embaixada. Consegui entrar no inconsciente coletivo por essa via da risada. E ainda risada crítica, não é bobinha. É a risada de quem percebe o que está acontecendo e ri apesar do que está acontecendo. É risada com trilha sonora de Chico Buarque.

A acupuntura tem a ver com isso? (Maria Paula chegou a ter um consultório)


Tudo tem a ver com tudo, tudo está interligado. Procurei a medicina chinesa porque sabia que o fluxo energético tinha tanta influência quanto o fluxo emocional. Procurei a psicologia porque sabia que a gente não é só corpo. Sabia que é a mente que comanda o cérebro. Já tinha essa sacação desde muito nova. Eu queria emoções saudáveis.

Você chegou a tomar refúgio no budismo?


Sim. Budismo tibetano é um dos pilares da minha personalidade. Já fiz muito retiro. Tem um mestre, o (monge carioca Segyu Chopel) Rinpoche, que me ajuda muito. O bacana do budismo é que a deidade está dentro de você. Não é que nem as religões cristãs, em que você reza “para fora”. No budismo, você medita e pede para o seu eu superior.

Você foi casada com o João Suplicy, teve dois filhos. Como é voltar a namorar?


Ah, é maravilhoso. Estar apaixonada e ter ao lado uma companhia também apaixonada é a coisa mais linda do mundo. É o estado mais benéfico. Todo mundo fica bem ao lado de um casal de pombinhos enamorados.

Que mantra você deixa para os leitores?


Eu vou repetir o mantra que o Riponche traduziu para o tibetano: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Só com muita persistência se chega a algum lugar. A pedra dura são nossos padrões. Com muita água, muita meditação, muita inspiração divina, a gente vai quebrando os próprios conceitos para entrar no movimento, na impermanência. É bom desapegar para não sofrer. E que bom que é assim.

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Quem é

Maria Paula Fidalgo
43 anos


ORIGEM

 

Brasiliense, filha de Gilka e Wilson Fidalgo; mãe de Maria Luísa, de 9 anos, e Felipe, 5, frutos
do casamento com João Suplicy. Tem três irmãos: Cyro, Cinira e Guta. Namora Victor Valansi Garcez, de 23 anos


CARREIRA


É atriz, psicóloga, apresentadora de tevê, cronista, terapeuta de medicina chinesa. Foi VJ da MTV e humorista do programa Casseta & Planeta, Urgente!. Seu projeto televisivo mais recente é a série Saúde por aí, exibida no canal GNT. É a embaixadora da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano e mestre de cerimônia do Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017