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Tem de ser forte!

Barras, flexões e corridas, sob condições adversas e tensão psicológica. Quem já passou pelo temido teste de aptidão física, que chega a reprovar 40% dos candidatos a bombeiros e policiais, ensina como se preparar

Fred Bottrel - Colunista Publicação:31/03/2014 13:21Atualização:31/03/2014 13:49

Fernanda Echamede, agente de polícia, se preparou durante três meses para a prova física do concurso : 'No começo, não conseguia e entrei em desespero' (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Fernanda Echamede, agente de polícia, se preparou durante três meses para a prova física do concurso : "No começo, não conseguia e entrei em desespero"
 

André Vidigal não conseguiu completar a corrida no tempo estipulado: 'Não fiz um acompanhamento específico' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
André Vidigal não conseguiu completar
a corrida no tempo estipulado: "Não fiz
um acompanhamento específico"
Até onde se sabe, o poeta Juvenal não tinha nenhum interesse em fazer concurso para se tornar centurião no Império Romano, lá pelos anos 120 d.C. Autor da máxima “mente sã e corpo são”, Juvenal não podia supor que 20 séculos depois inspiraria milhares de aspirantes a bombeiros, agentes e policiais militares em treinamento duro, para se equilibrarem entre teoria e prática e, então, conseguirem a sonhada vaga de emprego na capital dos certames. Os testes de aptidão física (TAF) movimentam o mercado fitness em Brasília e são vilões para muitos dos aspirantes a vagas na segurança pública - o índice de reprovação nessa etapa crítica chega, em alguns casos, a 40%.


Entre cláusulas de regimento interno, macetes de raciocínio lógico e complicadas questões de língua portuguesa, a barra, as flexões abdominais, a corrida e a natação aperecem como desafios vencidos somente à base de muito treino e determinação. E os sustos do cronograma são uma pegadinha fácil para os desavisados. Em ano eleitoral, que espreme os concursos no primeiro semestre, o planejamento para a preparação física adequada deve ser a principal preocupação do candidato, segundo especialistas e profissionais que já superaram a bateria de testes.


 Alex Oliveira começou a preparação para a prova física da Polícia Civil um mês 
e meio antes da prova: 'A sorte é que treinei jiu-jitsu por muitos anos' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Alex Oliveira começou a preparação
para a prova física da Polícia Civil um
mês e meio antes da prova:
"A sorte é que treinei jiu-jitsu
por muitos anos"
“O candidato costuma se preparar exaustivamente para as provas escritas sem ao menos se lembrar de fazer qualquer tipo de exercício físico. Quando percebe que há uma possibilidade de aprovação, corre em busca de um profissional para ajudá-lo na parte física. Mas, na maioria das vezes, essa procura ocorre cerca de 45 a 30 dias do TAF e dificulta muito qualquer tipo de melhora no desempenho das atividades necessárias”, explica o personal Pedro Vítor Guimarães, especializado em treinamentos desse tipo.


Foi o que ocorreu com Alex Oliveira, agente da Polícia Civil, que começou a preparação intensa para o condicionamento físico, focado no teste um mês e meio antes da prova. “A sorte é que treinei jiu-jitsu por muitos anos. Estava parado quando comecei a me preparar para o TAF, mas a memória do corpo ajuda”, diz o faixa-preta. O elemento mais importante para garantir a aprovação, segundo ele, foi o treinamento outdoor em condições climáticas diversas: “Só soube o horário da prova duas semanas antes, então tinha de estar preparado para tudo”. Encarou os 2,4 mil metros da corrida, sob o frio das primeiras horas da manhã, em 10 minutos (dois abaixo do tempo limite).


Quem treinou Alex, incluindo corridas em diferentes horas do dia, foi a personal Juliana Oliveira, que percebeu logo cedo esse nicho de mercado em Brasília. Ela conta que o clima, o solo e o ambiente podem atrapalhar na hora do teste. “É o famoso agora ou nunca. Claro que uma prova de manhã é bem melhor que à tarde por causa do clima seco de Brasília e o fato de o candidato estar bem mais descansado.”


Foi justamente o empecilho para a aprovação do policial militar André Vidigal no concurso da Polícia Civil: “Não fiz um acompanhamento específico e não consegui completar a prova de corrida dentro do tempo, porque fiz o teste às 15h, sob um sol de rachar”. Ele lamenta, enquanto aguarda decisão judicial sobre recurso alegando problemas de isonomia na aplicação da prova, polêmica recorrente no TAF.

 

Para se dar bem

 

    1) Prepare-se com antecedência. Resultados físicos não surgem do dia para a noite

    2) Procure um profissional de educação física para acompanhamento do programa

    3) Alimente-se bem com supervisão de um bom nutricionista

    4) Descanse ao menos sete horas por dia para que o corpo possa assimilar toda a preparação
(física e intelectual) realizada no dia

    5) Simule as condições no horário da prova, para evitar surpresas como calor ou frio

 

Toda atenção é pouca

 

Com o mercado aquecido para as oportunidades, é importante, também, estar atento às picaretagens. “Desconfie de preços muito baratos ao contratar um treinador. Personal é um serviço caro”, diz a presidente do Conselho Regional de Educação Física (Cref), Cristina Calegaro. “A academia deve ter um quadro na entrada com a relação dos professores e dos estagiários ou a identificação dos estagiários na camiseta, e ter na entrada o certificado do Cref.” Em casos de autônomos, o aluno deve pedir a cédula de identidade profissional ou o número do registro no Conselho.

 

Ricardo Bandeira, agente de atividades penitenciárias: no curso dele, 154 pessoas pediram desligamento (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Ricardo Bandeira, agente de atividades
penitenciárias: no curso dele,
154 pessoas pediram desligamento
"Pede para sair"

 

Ao contrário de muitas das matérias teóricas, com vasto conteúdo, as exigências dos testes físicos não caem no ostracismo depois da aprovação. O agente de atividades penitenciárias Ricardo Bandeira conta que as provas recorrentes dos testes de aptidão física (TAFs), já dentro do órgão, são fundamentais e decisivas para escapar do famoso “pede para sair”, popularizado por Wagner Moura no filme Tropa de Elite. “É, de fato, uma avaliação de capacidade e condicionamento para o trabalho, que é bem puxado. Durante o meu curso de formação, 154 pessoas pediram desligamento, por não conseguirem acompanhar o ritmo”, conta.


O estresse de tensões psicológicas, recorrente na rotina policial, também é colocado em xeque no momento do TAF. “Toda etapa é um drama”, resume Fernanda dos Santos Echamede, agente de polícia. Ela praticava esportes e malhava desde os 17 anos, mas prestou concurso depois da chegada de duas crianças. Nunca havia passado próximo a uma barra e precisava provar para o examinador que sustentaria 10 segundos lá no alto: “No começo, eu não conseguia e entrei em desespero”.


Com três meses de preparo e o treino, com um personal, para fortalecer a musculatura das costas, Echamede perdeu 4 Kg, passou no teste e hoje esnoba mais de 30 segundos na barra estática.
Também houve pranto e ranger de dentes para a bombeira Jennifer Guelli: “Quando eu não conseguia os objetivos, durante a preparação, eu até chorava. Mas, na hora da prova, parece que brota uma adrenalina a mais. Eu me lembro de ver, durante a corrida, os outros candidatos desistindo, desolados, indo trocar de roupa mais cedo. Na barra, vários ficaram”.


Outra que sentiu na pele as lições de superação tão peculiares às práticas esportivas foi Lucylia Peixoto Boueres, que deve ser nomeada policial militar este mês. Ela havia tentado, anteriormente, uma vaga no concurso dos bombeiros e foi eliminada no TAF: “Eu tinha me preparado com personal e tudo, mas estava muito nervosa. E o psicológico é tudo”. Para a segunda oportunidade, não perdeu tempo, preparou-se com mais antecedência e fez vários simulados, para testar a tensão das condições da prova.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017