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Capital da vaidade masculina

Investimento dos homens em procedimentos feitos em clínicas estéticas, plásticas e de nutrição cresce a cada ano e mostra que o preconceito está com os dias contados

Leilane Menezes - Colunista Publicação:01/04/2014 14:56Atualização:01/04/2014 15:13

Daniel Toledo investe R$ 600 por mês no quesito beleza e fez fotos para um calendário: 'A vez do homem ogro já passou' (Fábio Moraes/Divulgação)
Daniel Toledo investe R$ 600 por mês no quesito beleza e fez fotos para um calendário: "A vez do homem ogro já passou"
 

Encontrar outros homens na sala de espera de spas, salões e clínicas estéticas torna mais fácil assumir: aquela gordura na lateral do abdômen incomoda, os cabelos brancos fazem xom que eles evitem o espelho e um rosto mais jovem não seria nada mau. Homens, seja uma figura pública, seja desconhecida, não estão imunes aos padrões de beleza, gostam de cuidar da aparência e, para isso, ultrapassaram as barreiras impostas pelos preconceitos de gênero.


A presença masculina nos estabelecimentos ligados à beleza aumentou no Distrito Federal, segundo profissionais do setor. Em uma das clínicas de estética da capital, há cinco anos, os homens representavam de 10 % a 15% dos clientes. Hoje, a parcela chega a 30%. “Eles começam na depilação a laser e na limpeza de pele, mas partem para outros tratamentos. As mulheres levam os maridos, que acabam gostando”, diz Cristiana Rech, da Duohaus, onde o investimento médio dos homens em procedimentos de beleza é de R$ 3 mil por cliente.

O empresário Osvaldo Oliveira faz peeling e outros procedimentos: 'Uma mulher como a minha merece um homem bem cuidado ao seu lado' (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
O empresário Osvaldo Oliveira faz peeling e outros procedimentos: "Uma mulher como a minha merece um homem bem cuidado ao seu lado"

A vontade de estar na melhor forma física movimenta também os consultórios dos profissionais em nutrição. O nutricionista esportivo Clayton Camargo atende homens e mulheres que desejam baixar o percentual de gordura e aumentar o rendimento nos esportes, desde 2007. Hoje, os homens representam 52% de sua clientela. “Meu público não é sedentário, são homens e mulheres que já passaram dessa fase e são muito disciplinados, ligados em suplementação e novas tecnologias, seja por saúde, seja por vaidade. O vaidoso em si se preocupa com todos os detalhes de um conjunto corporal e tem como meta sempre reduzir o percentual de gordura”, afirma.


Para atingir tais objetivos, muitos optam por um estilo de vida ultrassaudável. Os campeões de bons resultados posam para fotos que ilustram calendário feito pela empresa de Camargo e distribuído gratuitamente. “É uma forma de homenageá-los e de incentivar outras pessoas a conquistar histórias de superação”, afirma o nutricionista.

O personal trainer Moizés Júnior investe em depilação e tratamentos para reduzir 
gordura localizada: a profissão e o incentivo da noiva justificam os gastos (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
O personal trainer Moizés Júnior investe em depilação e tratamentos para reduzir gordura localizada: a profissão e o incentivo da noiva justificam os gastos

O estudante de educação física Daniel Flávio Toledo, de 31 anos, foi um dos escolhidos desse ano para a sessão de imagens, no Estádio Nacional de Brasília. Há quatro anos, ele gasta em torno de R$ 600 por mês, fora os investimentos em alimentação adequada e consultas, para se sentir mais saudável e bonito. Daniel frequenta academia de ginástica seis vezes por semana, abriu mão da bebida alcoólica, leva sempre com ele a comida feita em casa, visita o dermatologista pelo menos uma vez por ano e já esteve em centros estéticos. “Sou vaidoso sim, não o mais vaidoso de todos, mas sou. A vez do homem ogro já se foi há muito tempo. Tenho namorada, mas me cuido principalmente para mim mesmo, para me sentir bem. Considero um investimento para minha saúde”, diz.


O público de spas, clínicas e salões de beleza, em Brasília, é composto principalmente por homens que não se encaixam em estereótipos e recusam o rótulo de metrossexuais, pois são moderadamente vaidosos. Nos bairros mais nobres, a clientela masculina é ainda maior e procura serviços mais variados, de acordo com o Sindicato dos Salões de Barbeiro, profissionais autônomos na área de beleza e institutos de beleza para homens e senhoras do DF. “A procura aumentou sim, até porque os homens estão se sentindo mais à vontade para procurar uma depilação, não só de peitoral e costas, mas de corpo todo. Sem falar em hidratação, limpeza de pele e tirar sobrancelha. As pessoas sentem-se cada vez mais livres para gostar do que quiserem. É um dos reflexos da luta contra o machismo”, diz a presidente do sindicato, Elaine Furtado.

Os políticos estão entre os mais vaidosos: o senador Fernando Collor de Mello faz luzes para garantir o tom grisalho à la Richard Gere (Monique Renne/CB/D.A Press)
Os políticos estão entre os mais vaidosos: o senador Fernando Collor de Mello faz luzes para garantir o tom grisalho à la Richard Gere

Morador do Lago Sul, Osvaldo Oliveira, de 60 anos, é dono de uma empresa de carga aérea e não poupa investimentos quando o assunto é cuidar da aparência. Frequenta uma clínica de estética há três anos, no bairro onde mora. É adepto do peeling facial e de outros procedimentos. “Faz bem ao lado masculino. O corpo é a morada do espírito, tem de cuidar dele. O tempo mudou e as pessoas viram que cuidar do corpo e da mente é essencial. Quero envelhecer bem e aproveitar a vida, que é tão maravilhosa”, diz.


Osvaldo tem cinco filhos e está no terceiro casamento. A atual mulher é 30 anos mais jovem. Segundo ele, outra razão para se manter em forma. “Uma mulher que se cuida, bonita como a minha, não merece um homem malcuidado a seu lado. Principalmente depois de uma certa idade, o homem tem de estar sempre bem-vestido, bem-arrumado e cheiroso”, ensina Osvaldo.


O empresário leva uma vida saudável, com alimentação regrada, sem glúten, mas com algumas exceções para churrasco e vinho, no fim de semana. Frequenta academia de ginástica duas vezes por semana e joga futebol uma. Vício, apenas em perfumes. “Gosto de variar”, afirma.


A vaidade está presente em todas as faixas etárias. O personal trainer Moizés Júnior, de 28 anos, investe em sessões de depilação e tratamentos para reduzir gordura localizada, além dos treinos pesados na academia, para manter a boa forma. “Gosto de me cuidar, mas também preciso estar bem por conta da minha profissão. Como vou incentivar meus alunos se eu for descuidado com a minha saúde e com a aparência?”, questiona.


O senador Renan Calheiros e o implante capilar polêmico: ele teve de ressarcir a viagem feita com avião do governo para a realização do procedimento (Bruno Peres/CB/D.A Press)
O senador Renan Calheiros e o implante
capilar polêmico: ele teve de ressarcir
a viagem feita com avião do
governo para a realização do
procedimento
Moizés começou a frequentar clínica de estética por incentivo da noiva, Mariana Sandes. Em menos de dois meses, perdeu 4 cm de abdômen, ao usar um aparelho que age por meio da aplicação de um gel e de sucção. “Ainda existe um preconceito com homens que fazem tratamento de beleza, mas eu não me importo. Se fosse pela Mariana, eu faria muito mais tratamentos, mas faço o que acho necessário”, afirma.


Políticos e outros homens públicos representam uma boa parcela dos clientes desses estabelecimentos. A relação entre vaidade e poder é íntima. O expediente continua depois do horário comercial, em alguns dos consultórios dermatológicos mais requisitados de Brasília.
Quando não há (quase) ninguém por perto, homens poderosos confessam suas insatisfações ao médico. Alguns gostariam de ter menos rugas ao redor dos olhos. Para esses, há alívio nas agulhas de Botox. Outros desejam a cabeleira dos tempos de juventude. Nada que um implante fio a fio não resolva.


Essas e outras técnicas são cobiçadas por homens de várias classes sociais e profissões, especialmente entre aqueles vistos frequentemente na televisão e em páginas de jornal. “Pessoas conhecidas publicamente marcam horário no fim do dia, para não serem vistas, não gostam de falar desse assunto e são discretas”, afirma o dermatologista Gilvan Alves, que não revela identidades, por razões éticas.


Desejar ser mais bonito custou caro ao presidente do Senado Federal, Renan Calheiros. Em janeiro, o político devolveu R$ 27.390,25 aos cofres públicos, por ter viajado em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), de Brasília a Recife, por motivos nada profissionais. O político foi ao Nordeste para fazer implante capilar, em 18 de dezembro de 2013. O senador certamente não esperava tamanha atenção, mas se tornou assunto comentado em todo o país.


Outro senador, Fernando Collor de Mello, é cliente de um salão de beleza, no Lago Sul. Lá, senta-se em uma cadeira bem diferente das do plenário e confia o cuidado dos cabelos outrora negros a uma das especialistas em tintura. O processo feito por Collor é conhecido como luzes invertidas, consiste em misturar alguns fios mais escuros aos brancos, para dar o tom grisalho, à la Richard Gere, exibido pelo parlamentar. De acordo com a assessoria de imprensa de Collor, ele não fala sobre assuntos pessoais.


Não é crime desejar – desde que se pague do próprio bolso – os cabelos de uma celebridade, a cútis de um galã de cinema ou o físico dos heróis hollywoodianos. Mesmo assim, no Congresso Nacional é difícil encontrar quem fale abertamente sobre o assunto. “Ser vaidoso não pega bem entre os políticos”, explica doutor Gilvan.


De acordo com a Associação Internacional de Cirurgia Plástica, homens são pacientes em 35% dos procedimentos médicos feitos por motivos estéticos. Já o consumo de cosméticos masculinos cresceu 163%, nos últimos cinco anos. Quando se mudou para Brasília, em 1970, o cirurgião plástico José Carlos Daher, aluno de Ivo Pitanguy, caiu nas graças de gente influente. “Políticos e grandes empresários viajavam para fora da cidade, quando desejavam fazer intervenções estéticas. Esse era o principal público, afeito à cirurgia plástica, pois vive de sua imagem”, afirma o cirurgião.
Daher ressalta que a função do médico nessa área é mediar os desejos do paciente. “Nós recusamos algumas cirurgias, pois, às vezes, não é correto ou possível atender as expectativas do paciente. O bom senso e a ética são primordiais”, avalia.


Homens de várias classes sociais e de diferentes perfis circulam pelos consultórios de cirurgiões plásticos. “O preconceito com relação aos cuidados estéticos masculinos diminuiu muito. Eles se sentem à vontade para procurar uma clínica, salões de beleza e também cirurgiões plásticos”, avalia.
Há 40 anos, as intervenções mais procuradas eram o rejuvenescimento facial e a rinoplastia. A partir dos anos 1980, a lipoaspiração tornou-se o carro-chefe das operações. Hoje, as cirurgias de ginecomastia (que reduz as mamas) e as de intervenções faciais são as mais procuradas. “Os pequenos procedimentos fazem uma grande diferença. A prótese de silicone mais usada entre os homens é a de panturrilha, mas temos também a do queixo, uma pequena bolinha, que faz toda a diferença no formato do rosto”, explica o médico.


De olho no mercado, o Sebrae-DF publicou recentemente lista com os 50 oportunidades de negócios mais promissoras em Brasília. Comércios que envolvem a vaidade masculina ocupam o 9º lugar na lista de serviços. A cidade ainda é carente de lugares pensados especialmente para agradar homens, mas há empreendedores ansiosos para preencher esse nicho.


A empresária Lilian Alves inaugurou em Águas Claras o primeiro salão exclusivamente masculino do DF, em dezembro de 2013. Ao entrar ali, o visitante logo percebe que não se trata de um salão de beleza comum. Há um bar com cervejas importadas e outras bebidas alcoólicas disponíveis. Os fãs de videogame podem escolher entre vários jogos, durante uma hidratação capilar ou retirada de cutículas. Durante o Campeonato Brasileiro, o salão exibirá os jogos e dará uma rodada de cerveja aos clientes. “Sábado é dia de jogo e dia de cortar o cabelo. As pessoas andam sem tempo, então pensamos nessa estratégia”, explica Lilian, disposta a experimentar soluções criativas para conquistar a exigente clientela.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017