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Cultura | Cinema »

Assistir para refletir

Estima-se que Brasília tenha aproximadamente 40 cineclubes em funcionamento. A ideia dos espaços é divulgar a produção audiovisual brasileira e a brasiliense e proporcionar debates sobre os filmes

Larissa Leite - Publicação:03/04/2014 14:16Atualização:03/04/2014 14:41

O Club 906, que funciona na 904 Sul, conquistou o público com o projeto Cineme-se: filmes e música: exibição de curtas brasilienses e balada (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
O Club 906, que funciona na 904 Sul, conquistou o público com o projeto Cineme-se: filmes e música: exibição de curtas brasilienses e balada
 

Sobem os créditos do filme. Ainda está escuro, mas o público se levanta rapidamente. Algumas pessoas checam os celulares, outras arriscam um despretensioso “você gostou?”. Em meio ao burburinho, as respostas surgem sem esforço. Quantos estarão excitados com o que acabaram de assistir? E quantos outros se aborreceram, discordaram, concordaram, tiveram dúvidas, alimentaram sonhos, assumiram o papel do herói ou o do vilão? Para um grupo de pessoas, assistir a um filme é apenas o início de uma experiência coletiva. Um pretexto para trocar ideias. Eles são cineclubistas, que ocupam com telas e projetores diferentes espaços da cidade e buscam ir além do entretenimento, ao instigar: reflita em voz alta.


A ideia é fazer com que o indivíduo que assistia ao filme passivamente ocupe um papel de sujeito consciente e participante na experiência audiovisual. A bandeira, vista como romântica e utópica por uns, é adotada com comprometimento por outros. “O cineclubismo é uma poesia que foi engolida pela modernidade, pela tecnologia”, avalia o cineasta Pedro Lacerda, presidente da Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV). Para Lacerda, a atual possibilidade de assistir a filmes gratuitos pela internet inibe a evidência dos cineclubes.


O cineasta, professor de cinema e programador do Cine Brasília, Sérgio Moriconi, defende o cineclube como um espaço com potencial de orientar o público. “A internet é um saco sem fundo, o indivíduo pode se mediocrizar. O cineclube serve para você não tatear às cegas. É elaborada uma programação com filmes para provocar o debate, uma compreensão melhor da vida.”

A trupe do cineclube Jiló na Guela, Vitor Sarno (em pé), Thomas Patriota (E), André Flexa e Renato Flit (D): exibições no Balaio Café e, agora, produção de filmes (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press
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A trupe do cineclube Jiló na Guela, Vitor Sarno (em pé), Thomas Patriota (E), André Flexa e Renato Flit (D): exibições no Balaio Café e, agora, produção de filmes

Enquanto se discute sobre o papel dos cineclubes na atualidade, eles seguem se reinventando. Em Brasília e no seu entorno, o programa filme com debate pode ser feito de graça, em projetos que têm como sedes escolas, universidades, associações, instituições públicas, organizações, bistrôs, bares, etc. Apesar de ainda não ter filiado oficialmente os cineclubes da região, a União de Cineclubes do DF e Entorno (UCDF), criada em 2012, aponta a existência de aproximadamente 40 cineclubes em funcionamento. A maioria implementada a partir de uma política nacional, o Programa Cine Mais Cultura – criado em 2006, interrompido em 2010 e retomado ano passado. De acordo com o Ministério da Cultura, o DF foi beneficiado com a implementação de 84 cineclubes. Os espaços receberam um kit com uma tela de projeção, um aparelho leitor de DVD, uma mesa de som, caixas de som e microfones sem fio.


Ao apoiar a exibição não comercial de filmes, a política nacional visa democratizar o acesso ao cinema nacional. Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), as exibições de filmes no país estão cada vez mais concentradas em shopping centers: de 2009 a 2012, o número de salas em shoppings cresceu 27,2%, enquanto os cinemas de rua reduziram em 14,6%. O Ministério da Cultura pretende, com a retomada do Programa, fortalecer as redes locais, apoiar os cineclubes e a difusão da produção audiovisual brasileira. Atualmente, de acordo com a Secretaria de Educação do DF, de 77 escolas beneficiadas com o kit, apenas 35 oferecem sessões de cineclubes para a comunidade com periodicidade.

Aluizio Carvalho (esq), Ana Arruda, Pablo Feitosa (dir. sentado) e Norlan Silva: cineclubistas 
com muito orgulho (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Aluizio Carvalho (esq), Ana Arruda, Pablo Feitosa (dir. sentado) e Norlan Silva: cineclubistas com muito orgulho

O Cineclube Cine-Teatro EIT é um dos espaços na ativa. Vinculado ao Centro de Ensino Médio EIT, em Taguatinga, o espaço é conduzido pela professora de sociologia Flávia Felipe.“A presença de um cineclube vai além de ver filmes. É desenvolver olhar crítico e reflexivo sobre o conteúdo de sala de aula. E é uma superferramenta de diálogo com a comunidade”, diz. O cineclube impulsionou atividades de teatro, dança, produção e edição de vídeos. “As pessoas ficam sabendo que a escola é um espaço que cultiva atividades culturais com os alunos e nos procuram”, conta.


A rede de cineclubes no DF será usada, este mês, na estratégia de exibição do filme Plano B, do diretor Getsemane Silva. O documentário foi uma das três produções do DF selecionadas para a mostra competitiva do 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, de 2013. Lançado no festival, Plano B conquistou o Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal como melhor longa-metragem. O filme conta a história do documentário Contradições de uma Cidade Nova (1967), censurado pelos próprios patrocinadores por mostrar os contrastes entre os subúrbios de Brasília e o projeto modernista de Lucio Costa. Por 10 dias, a partir de 21 de abril (aniversário de Brasília), o filme será exibido em cineclubes de todo o DF, com a expectativa de atingir um público de 5 mil pessoas.

“Acreditamos que o filme vai ter um alcance muito maior no circuito alternativo do que no comercial”, argumenta a produtora e programadora de mostras de cinema Ana Arruda. Segundo o diretor Getsemane, a obra incita o debate: “Quem assistir pela televisão, pode refletir. Mas, no cineclube, a oportunidade é mais rica. É como se fosse a continuação do filme. Ele não termina no último plano, e sim no diálogo após sessão”.

A professora Flávia Felipe (vermelho) coordena o cineclube da escola Eit, de Taguatinga, com a ajuda dos alunos: 'O cineclube é uma superferramenta de diálogo com a comunidade' (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
A professora Flávia Felipe (vermelho) coordena o cineclube da escola Eit, de Taguatinga, com a ajuda dos alunos: "O cineclube é uma superferramenta de diálogo com a comunidade"

Um dos principais exemplos recentes de uso de cineclubes em estratégia de lançamento é o documentário Terra Deu, Terra Come, dirigido por Rodrigo Siqueira. O filme entrou em cartaz simultaneamente nos cinemas e no circuito cineclubista do país. No circuito comercial, o filme contabilizou 2.389 espectadores, enquanto os cineclubes registraram um público de 11.727.
Para o diretor de comunicação da UCDF, Pablo Feitosa, um dos principais desafios do cineclubismo é evidenciar os espaços como grandes pontos de exibição: “Enquanto permanecer o pensamento de levar filme só para as salas comerciais, o cinema da região permanecerá sem a projeção que merece”.


O presidente da ABCV, Pedro Lacerda, afirma que os cineclubes podem ter um importante papel na distribuição de filmes. Mas, para isso, devem estar articulados com o setor produtivo. “O cineasta tem um empenho enorme em produzir um filme. Após esse processo, ele tem de ter um retorno palpável sobre a exibição, como uma estatística de público”, afirma. A Ancine não contabiliza dados de exibições em circuitos alternativos. “À medida que aumentamos oficialmente o público, aumentamos a nossa possibilidade de ter fomento para novas produções”, explica Lacerda.


A multiplicação de público para o audiovisual é um dos principais objetivos dos cineclubes. Mas, não raro, os envolvidos com os constantes debates transformam-se em produtores. É o que vem acontecendo com os integrantes do cineclube Jiló na Guela, há dois anos em atividade no Balaio Café, na 201 norte. Os exibidores filmam depoimentos de cineastas convidados do cineclube para um projeto sobre cineclubismo – entre eles, o documentarista Silvio Tendler – e iniciaram a produção de um documentário sobre o técnico-afinador de pianos Rogério Resende, fundador da Casa do Piano, no Núcleo Bandeirante. “O cineclube é uma escola. Quanto mais você vê os filmes, mais vai buscando conhecimento e fomentando a vontade de tornar o cinema mais do que um hobby. Foi natural começar a querer produzir”, conta Vitor Sarno, um dos seis integrantes do grupo. E, desde a estreia, o cineclube tem o diferencial de exibir apenas documentários. “Sempre achei o formato do documentário uma ferramenta interessante pra qualificar debates”, explica Thomas Patriota, um dos defensores da diretriz do espaço.


O debate aprofundado é buscado pelos integrantes do Cinebeijoca, no auditório do Memorial Darcy Ribeiro, na UnB. O professor de filosofia política e idealizador do cineclube, Alex Calheiros, esclarece que o cineclube foi aprovado como um projeto de extensão do curso universitário. “Além dos filmes, discutimos textos relacionados às obras e editamos uma revista especializada”, conta Alex. Parte dos sete estudantes da UnB envolvidos diretamente com a programação do cineclube começou a aprofundar o estudo do cinema por meio de projetos de mestrado.


A estratégia de adotar o cineclube como uma extensão também foi adotada pelo Cinefagia - Fome de Cinema, um dos poucos cineclubes que tem à disposição uma sala de cinema, localizada na unidade da 613/614 Sul do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). Ali, o debate costuma ir além da discussão pós-exibição. Estudantes que frequentam o cineclube costumam se revezar na elaboração de críticas dos filmes. “A disciplina está para além da sala de aula. O projeto é importante para o curso criar sua tradição”, afirma a professora de História do Cinema e coordenadora do cineclube, Patrícia Colmenero. Na programação, filmes contemporâneos.


Já os grandes clássicos são o foco de um novo projeto do Cine Brasília: a Cinemateca Livre. “Faremos sessões gratuitas, dedicada a filmes antigos, clássicos do cinema mundial”, explica o programador do espaço, Sérgio Moriconi. O projeto teve início no último mês com as obras de Federico Felini A Doce Vida e 8 e meio. Outra novidade, que teve início em dezembro, é o Cineme-se: filmes e música, que costuma encher o Club 906, no Clube da Asceb (904 Sul). O evento chega a reunir 400 pessoas por sessão. São dois curtas por dia, um do diretor brasiliense convidado, e outro de sugestão do cineasta. Além da exibição, o evento inclui uma balada, conduzida pelos DJs e produtores do evento, acompanhada por projeções de VJs.


Um dos espaços mais consolidados da capital, o Cineclube Bancário funciona há sete anos no Teatro dos Bancários (314/315 Sul). “O cinema é libertador”, resume José Garcia, idealizador do cineclube. “O que fazemos é dar uma ocupação a um espaço centralizado, capaz de beneficiar tanta gente com uma boa reflexão”, defende. No espaço, apenas filmes nacionais.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017