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Cultura | Perfil »

Curumim modernista

Reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes artistas de Brasília, Francisco Galeno assimilou como ninguém o espírito modernista da cidade

Severino Francisco - Publicação:07/04/2014 14:10Atualização:07/04/2014 14:22

Segundo Galeno, sua escola é ao ar livre: 'A minha pintura tem alegria, desejo de felicidade do povo, da alma brasileira. É o lado bom do Brasil' (Zuleika de Souza/CB/DA Press)
Segundo Galeno, sua escola é ao ar livre: "A minha pintura tem alegria, desejo de felicidade do povo, da alma brasileira. É o lado bom do Brasil"
 

A arte de Galeno é uma festa brasileira para os olhos. Ela esplende com a alegria de cores, o engenho e as texturas da cultura popular, recriada sob lentes modernistas. Não foi programado para ser artista, mas, sem saber, a arte lhe havia sido transmitida pelo sangue. Descende de uma família de artesãos piauienses da região do Delta do Parnaíba. O avô fabricava canoas, o pai é marceneiro e a mãe fazia renda em bilros. Mas, aos poucos, depois de se mudar para Brasília, como se fosse um quebra-cabeças lírico, as peças foram se encaixando.


O Parnaíba invadiu Brasília e Brasília atravessou o Parnaíba em um entramado que lembra a urdidura das rendas tecidas pela mãe ou os grafismos indígenas: as casinhas coloridas e os edifícios de curvas audaciosas de Niemeyer, as canoas e os carrinhos de lata de sardinha, os carretéis das costureiras e as pipas, a composição dos prédios das superquadras e os barracos dos candangos, os camaleões do Piauí e os calangos do Cerrado, as pipas e as fiações de luz dos postes, os casebres e a pirâmide do Teatro Nacional, as dunas de areia e os espaços brancos de silêncio da capital modernista. A pintura se desdobrou em esculturas, painéis, objetos, instalações, roupas e até desenhos para calçadas.


Nada indicava que ele se tornaria um dos mais importantes artistas de Brasília Em 1965, quando tinha 8 anos, Francisco Galeno chegou, no meio das nuvens de poeira, para morar no acampamento da construtora Silvisan, firma em que o pai trabalhava. Encontrou uma cidade espacial com prédios brancos de formas inusitadas que davam a impressão de proximidade, mas estavam sempre longe se tentava caminhar até eles: “Veja só a minha ignorância de menino do interior: eu pensei que era por causa disso que Brasília era uma cidade moderna”, lembra Galeno.


 (Fotos: Divulgação)
Athos Bulcão disse que só o fato de habitar Brasília deveria educar os moradores cotidianamente para o cultivo da arte. Nem sempre isso acontece. Mas, no caso de Galeno, a cidade funcionou mesmo como uma grande escola ao ar livre. Com sua inquietação de curumim arteiro, paulatinamente, ele assimilou o espírito modernista ao vivenciar a arquitetura de Niemeyer, os painéis de Athos Bulcão, as banderinhas de Volpi e a pintura de Rubem Valentim, inspirada nos signos do candomblé e da cultura afrobrasileira. Com isso, aprendeu a valorizar a sua vida de menino nordestino e a olhar para os objetos, as brincadeiras e as festas da infância sob o foco de lentes modernistas e construtivistas, marcada pelas formas geométricas, a síntese, a abstração e a estilização das figuras em detrimento de uma representação realista.


Em vez de jogar a sua experiência embaixo do tapete e copiar a última moda de Nova York ou Paris, Galeno se aprofundou na memória e na vivência de brasiliense da periferia: “Percebi que, para encontrar um caminho próprio, tinha de olhar para dentro de mim, recuperar a minha infância às margens do rio Parnaíba. Então, comecei a trabalhar com os carretéis que a minha mãe usava, com os anzóis do meu pai, com os carrinhos de lata que a gente fazia”.


O cineasta Vladimir Carvalho escreveu que Galeno escapou, espetacularmente, das estatísticas de mortalidade infantil que assolam o Nordeste. Mas, paradoxalmente, isso não significou uma infância triste. Ele cresceu feliz com os brinquedos e as brincadeiras de meninos pobres, mas ricos em invenção: “Tive a sorte de nascer às margens do rio Parnaíba. Nem sei como aprendi a nadar; caía no rio e me virava. Minha família organizava festas de bumba-meu-boi e reisado. A minha pintura tem essa alegria, esse desejo de felicidade do povo, da alma brasileira. É o lado bom do Brasil”.


A cor que se irradia com tanta vibração na obra de Galeno sempre apareceu espontaneamente e é expressão de sua infância batida de luminosidade, dunas, rio, oceano e festas populares: “A minha arte é calcada nos elementos do que vivi e manuseei nos tempos de menino. A rede a tarrafa, a canoa e a pipa ficaram gravadas em minha cabeça. Estou amarrado a isso. Tenho que mostrar a minha alma. Aquilo tem história, significado e peso de realidade”.


Galeno trabalhou durante 10 anos no setor de licitação para compra de materiais do Banco Central. Em 1986, ganhou o Prêmio do Salão Nacional de Artes, comprou uma casa e passou a se dedicar com exclusividade à verdadeira vocação. O aprendizado com a arte em Brasília se desenvolveu de maneira bastante autodidata. Para superar a timidez, ele ensaiou uma carreira no teatro com os diretores Hugo Rodas e Humberto Pedrancini. Chegou também a estudar flauta na Escola de Música e pintura no Centro de Criatividade da 508 Sul, com a professora Maria Pacca, nos tempos em que o espaço era dirigido pelo artista plástico Luiz Áquila.


Embora tenha assimilado as lições da arte construtivista de Athos, Valentim e Volpi, teve pouco contato com eles. Certa vez, apareceu no ateliê de Rubem Valentim e o intempestivo artista baiano o recebeu com sete pedras nas mãos: “Se for para falar do seu trabalho, pode ir embora”. No entanto, pouco tempo depois, Valentim era jurado e concedeu a Galeno o prêmio em um salão de artes: “Com Athos Bulcão, eu tive conversas silenciosas”, lembra Galeno: “Mas com quem eu mais conversava era com o mestre Quincas. O trabalho dele me mostrou que eu poderia explorar a vertente da arte popular. Eu frequentava muito o ateliê dele e ficava observando como trabalhava”.

A arte de Galeno está na igrejinha Nossa Senhora de Fátima: ele refez uma parede pintada por Volpi, que fora apagada, e incluiu pipas, borboletas e uma Nossa Senhora com as cores quentes da cultura popular brasileira ( José Varella/CB/DA Press)
A arte de Galeno está na igrejinha Nossa Senhora de Fátima: ele refez uma parede pintada por Volpi, que fora apagada, e incluiu pipas, borboletas e uma Nossa Senhora com as cores quentes da cultura popular brasileira

O salto de reconhecimento nacional da arte de Galeno ocorreu graças a uma carta de recomendação da escritora e empresária Vera Brant para Ana Maria Niemeyer, filha do arquiteto Oscar Niemeyer e dona de uma famosa galeria de arte no Rio de Janeiro. Galeno levou a carta e umas pinturas de baratas e moscas. Ana Maria o recebeu muito bem, mas comentou: “Se você quiser morrer de fome, está no caminho certo”. Galeno mesmo comenta que era aquela história de contestação de gente da periferia. “Mas, depois, eu levei outra linha de trabalhos, que foi muito bem recebida no Rio. Ana Maria me ensinou coisas importantes para a arte e para a vida”.


O prestígio internacional veio depois que o Cerimonial da Presidência da República passou a adquirir os seus quadros para que os presidentes Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva presenteassem representantes de outros países com as suas gravuras. O presidente dos EUA, Barack Obama, foi a último a ser brindado com um quadro de Galeno.


Os destinos de Galeno e de Volpi se cruzariam em 2009 na igrejinha Nossa Senhora de Fátima. Galeno foi convidado a refazer, com a sua visão, uma parede pintada por Volpi, que um padre de poucas luzes apagou com uma demão de tinta. A versão do pintor piauiense não poderia deixar de incluir pipas, borboletas e uma Nossa Senhora com as cores quentes da cultura popular brasileira – o que provocou, à época, protestos das frequentadoras do templo.


Galeno construiu o seu caminho na contramão dos modismos e, ao mesmo tempo, atento às experimentações da arte contemporânea. A sua arte se desdobra em pintura, escultura, instalações e designer de roupas. Armado por esse olhar, quando as suas figuras saltaram dos quadros e ganharam a forma tridimensional das esculturas e dos objetos, conseguiu a proeza de aliar dois mundos aparentemente incompatíveis: a arte popular e a arte de vanguarda, a arte contemporânea e o artesanato. A arte conceitual de Galeno está enraizada em sua experiência e em seu êxtase de menino nascido e criado na região do Delta do Parnaíba piauiense.


Atualmente, Galeno vive dividido entre Parnaíba e Brasília. Decidiu voltar ao Piauí porque o artista precisa levar um choque para se renovar. Aprendeu isso lendo a história dos mestres da pintura. No auge da fama, Gauguin deixou Paris e se mandou para o Taiti: e foi lá que ele conseguiu realizar a sua melhor pintura. “As pessoas me perguntam o que eu vim fazer em Parnaíba e eu respondo: vim fazer mestrado e doutorado em minha vida. Não frequento o mundo virtual, não tenho computador. A felicidade, o conhecimento e a sabedoria estão redobrando. Antes, eu percebia a minha infância no Parnaíba como um passado e hoje estou vivendo dentro do sonho e vendo que ele é real.” E continua: “Vivo em uma cumplicidade total com o povo de lá. A gente fica rindo sem saber o porquê. Em Brasília ou em Parnaíba, estou em casa”.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017