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NEGÓCIOS | EXPORTAÇÃO »

Luxo sustentável

Artesãos e artistas de Brasília descobriram o cerrado como rica matéria-prima. Respeitando o meio ambiente, conseguem produzir peças que atraem a atenção de países estrangeiros

Cecília Garcia - Redação Publicação:08/04/2014 13:41Atualização:08/04/2014 14:08

Luiz Galvão começou a exportar seus produtos nos anos 1990: 'Nunca abati uma árvore para realizar o meu trabalho' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Luiz Galvão começou a exportar seus produtos nos anos 1990: "Nunca abati uma árvore para realizar o meu trabalho"
 

Obra de Luiz Galvão: ele trabalha com 52 espécies diferentes de madeira (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Obra de Luiz Galvão: ele trabalha
com 52 espécies diferentes de
madeira
Pequenina, mas que pensa grande. Assim Roze Mendes define sua empresa, a Flor do Cerrado. Há mais de 10 anos fazendo produtos artesanais variados, todos à base de folhas do bioma, o empreendimento saiu de Brasília para o Brasil, Estados Unidos e Europa. Todas as peças são de criação própria e o primeiro passo para a sua confecção é a coleta de folhas.


Hoje, a empresa trabalha com mais de 20 espécies de plantas. Entre setembro, depois do período de queimadas, e o fim de fevereiro, a matéria-prima é recolhida e passa por um processo de esqueletização. “A gente trabalha dentro de um sistema ecologicamente correto. Queremos que o cerrado seja sustentável, não só que gere renda com os seus recursos. Toda nossa produção é feita de forma consciente, em que tudo é aproveitado.” Roze costuma dizer que é uma invasora do cerrado. Por isso, se lá tem uma folha comida, rasgada ou seca no chão, ela recolhe para suas peças. Mas nunca agride uma árvore para isso.


O tingimento das folhas para a confecção das peças ocorre de duas formas. Uma delas é muito semelhante à usada em roupas, mas bem menos agressiva. A outra, “vinda da época da vovó”, é natural. O alvejamento das folhas é feito por troca de água e a coloração é conseguida usando urucum, açafrão, casca de caju, entre outros. Esse processo, mais natural, demora e é mais dispendioso, mas um único cliente, na França, absorve toda a produção.

O segredo do sucesso das peças de Galvão lá fora: design, acabamento e a não agressão ao meio ambiente (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O segredo do sucesso das peças de Galvão lá fora: design, acabamento e a não agressão ao meio ambiente

“Muitos artesãos reclamam que não conseguem exportar, mas eles não conhecem o cliente. Você precisa saber para quem está exportando.” A artesã explica que, na Europa, por exemplo, por ser um lugar frio, as mulheres jamais usarão colares iguais aos nossos. “Para lá se vende muito broche, detalhes para bolsas, mas não colares. Procuro ver também a paleta de cores que cada lugar usa.”


Como Roze, um empreendedor sustentável é aquele que pensa nos clientes e nas pessoas que trabalham com ele, em sua qualidade de vida. Pensa também no lucro, é claro, mas sem que, para obtê-lo, agrida o meio ambiente. São pessoas que inserem a sustentabilidade nas suas práticas, desde a produção até o produto final. Flávia Barros, gerente da Unidade de Acesso a Inovação e Tecnologia do Sebrae-DF, explica que, ao contrário da crença popular, a inserção desse pensamento dentro do processo produtivo nem sempre encarece o produto final. “Quando ensinamos a otimização de recursos, a não desperdiçar insumos, aumentamos a margem de lucro porque diminuímos os custos da produção.”

Com o auxílio do Sebrae e junto a outras mulheres, Dirce da Silva fundou a cooperativa Flor do Ipê: bordados com temática do cerrado encanta estrangeiros (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Com o auxílio do Sebrae e junto a outras mulheres, Dirce da Silva fundou a cooperativa Flor do Ipê: bordados com temática do cerrado encanta estrangeiros

Essas atitudes, inclusive, como ressalta Flávia, não são mais um diferencial no mercado. Já há uma pressão dos consumidores para que as empresas e empreendedores individuais cumpram os quesitos de responsabilidade socioambiental. “A sustentabilidade abre portas para exportação em determinados países, onde essas questões são mais fortes, onde ter um selo ou uma certificação ajuda na entrada de produtos”, comenta Flávia.


Luiz Galvão começou a exportar seus produtos no final da década de 1990. “Mas nunca abati uma árvore para realizar o meu trabalho”, conta. O artista acredita que a saída de sua produção para o exterior iniciou por meio do corpo diplomático sediado em Brasília. Logo depois, começou a participar de eventos internacionais. Nascido em Porto Alegre, mas morador de Brasília há 35 anos, Luiz trabalha com madeira para desenvolver diversos produtos, de banquetas a painéis e esferas decorativas.


“Não vendo peça isolada. Vendo container e isso é permanente. Não é uma coisa assim, que vende uma peça hoje e outra só daqui a três meses.” Os Estados Unidos são o país que mais compra sua obra, seguido de Itália e França, todos mediados por uma exportadora. Alguns fornecimentos são compras anuais. Nessa modalidade, vende para vários outros países, como Espanha e Noruega. No máximo, 3% de sua produção ficam no mercado interno. O que é comercializado no Brasil fica por conta da relação direta do cliente com Luiz. “As coisas vão se desdobrando, não é algo que foi planejado. Os resultados é que nos fizeram chegar a esse padrão internacional.”

Com o auxílio do Sebrae e junto a outras mulheres, Dirce da Silva fundou a cooperativa Flor do Ipê: bordados com temática do cerrado encanta estrangeiros (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Com o auxílio do Sebrae e junto a outras mulheres, Dirce da Silva fundou a cooperativa Flor do Ipê: bordados com temática do cerrado encanta estrangeiros

Para o artista, o design das peças e o acabamento, seguidos por um rigor ecológico de não agressão ao meio ambiente, são os quesitos que resultam em produtos de alta qualidade e também de grande aceitação no mercado fora do país. A matéria-prima que usa é resultado de manejo sustentável. Hoje, o artesão trabalha com 52 espécies diferentes de madeira, algumas desconhecidas do mercado, como o tucumã, a muirapiranga, a itaúba preta e a amarela.


O artista trabalha com cerca de 150 pessoas entre marceneiros fixos treinados por Luiz, alguns outros terceirizados, além de famílias indígenas e ribeirinhas. Todos recebem o pagamento de acordo com o mercado internacional.

Há 10 anos, Roze Mendes abriu a Flor do Cerrado: hoje, exporta para os Estados Unidos e a Europa (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Há 10 anos, Roze Mendes abriu a Flor do Cerrado: hoje, exporta para os Estados Unidos e a Europa

Sustentabilidade é um conceito que não engloba apenas a preservação do meio ambiente. Há uma concepção social muito forte, ligada a um conjunto de ações que tentam melhorar a qualidade de vida das pessoas, sem que o ambiente sofra com isso. Uma iniciativa que busca essa sustentabilidade social é a promovida pela Flor do Ipê. A associação de mulheres, iniciada em 2001, faz bordados com temática da fauna e flora do cerrado.


Com o auxílio do Sebrae-DF, houve um fortalecimento do grupo, que passou a ter apoio especializado e cursos. Hoje, estão sempre em feiras na cidade, em São Paulo e em Minas, além de terem clientes cativas no exterior, algumas na França e na Itália. Uma das fundadoras do grupo, Dirce Maria da Silva, conta que essas consumidoras conhecem o trabalho por meio de parentes ou amigos no Brasil e passam a fazer encomendas. “Se a pessoa gosta do meu trabalho, faço de tudo para que ela receba”, conta.

A Flor do Cerrado trabalha com mais de 20 espécies de plantas: da coleta ao tingimento, todo o processo é ecologicamente correto (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
A Flor do Cerrado trabalha com mais de 20 espécies de plantas: da coleta ao tingimento, todo o processo é ecologicamente correto

As bordadeiras se reúnem uma vez por semana para buscar os trabalhos a serem feitos. Dessa forma, as artesãs não precisam deixar suas casas e ainda conseguem uma renda extra. Para algumas, é possível conseguir o sustento com as peças, todas feitas à mão ilustradas com ipês coloridos, emas e pequizeiros. Uma colcha de cama superking, toda bordada por artesãs, demora dois meses para ficar pronta e sai por cerca de R$ 2.500. Dentro do processo de produção, desperdício é inimigo. O tecido serve para fazer de colchas de cama a sachês e guardanapos. Os retalhos que sobram são usados para ministrar cursos à comunidade.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017