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ESPECIAL ANIVERSÁRIO | PRESERVAÇÃO »

Guardiões do patrimônio

Brasilienses incorporam o papel de defensores do tombamento, fiscalizam o trabalho do governo e protestam contra a descaracterização do projeto de Lucio Costa. Para eles, amar a cidade é sinônimo de protegê-la

Leilane Menezes - Colunista Publicação:24/04/2014 12:28Atualização:30/04/2014 14:29
Integrantes do Movimento Urbanistas por Brasília: sociedade de olho na preservação do patrimônio (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Integrantes do Movimento Urbanistas por Brasília: sociedade de olho na preservação do patrimônio


As feições de certas cidades se parecem. Um endereço pode estar na região Norte ou na Sul, se for nome de rua. Só Brasília tem suas escalas, somente ela responde por SQS, CLN ou SCLRN. Mesmo quando vista do alto, Brasília não se passa por outra. Para mantê-la inconfundível, é necessário preservar o projeto original, em benefício da atual geração e das próximas. Brasilienses sem medo de brigar contra a descaracterização do Plano Piloto são a esperança de que, no futuro, novos olhares possam admirar as particularidades da capital, dona do título de Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Muito além das estruturas físicas, há quem entenda a importância de preservar os símbolos e a cultura. O titular da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (Prodema), Roberto Carlos Batista, considera a batalha maior do que uma questão profissional. Nascido em Brasília, em 1966, o promotor tem raízes no solo candango. Formou-se em direito pela Universidade de Brasília (UnB), onde também concluiu mestrado. Atualmente, cursa doutorado na Universidade de Sorbonne, na França. “Saio daqui por um período, mas volto. A cidade oferece condições de qualidade de vida pouco comparáveis a outras capitais”, afirma o promotor, fruto do casamento de um motorista pernambucano com uma funcionária pública goiana, que vieram para Brasília atraídos pela fartura de oportunidades.

A Prodema monitora com atenção especial o cuidado com os trabalhos de Athos Bulcão. Batista convidou a Inframérirca, responsável pelas obras do Aeroporto Internacional de Brasília  Presidente Juscelino Kubitschek, a assinar Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), com garantia de manter os azulejos do artista em paredes dos terminais. A intenção era evitar que as peças tivessem o mesmo destino de outros originais de Athos Bulcão, como os painéis demolidos no Palácio do Planalto, no Clube do Congresso (902 Sul) e na área de um posto de gasolina.

Titular da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa  do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural,  Roberto Batista critica: 'Falta cuidado das   instituições públicas' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Titular da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa
do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural,
Roberto Batista critica: "Falta cuidado das
instituições públicas"
Batista atua em várias frentes, desde 1994. A maioria das demandas é de questões ambientais. “Somos seis promotores e direcionei meu trabalho ao patrimônio, porque percebi a questão deixada de lado. Falta cuidado nas instituições públicas com as obras que representam Brasília”, diz. As batalhas do promotor não se limitam a esse tema. Ele deseja trazer de volta a Festa dos Estados, em formato original, e “não aquele comércio de mau gosto que fez a tradição desaparecer”. Trabalhou também pela manutenção do Teatro Oficina Perdiz, oficina de carros e espaço cultural, em atividade há mais de 20 anos. Ele está à frente de projetos de preservação de acervos fotográficos da história de Brasília e da instalação do Museu do Automóvel (retirado da antiga sede e sem lugar para funcionar). “A preocupação com o que é imaterial não pode ser menosprezada. A Prodema investiga, convida os responsáveis para conversas e, quando não há acordo, inicia ações judiciais”, explica.

Vozes que sozinhas não teriam vez agrupam-se para fazer mais barulho. Em 2011, arquitetos se uniram para formar o Urbanistas por Brasília. O movimento é  focado em divulgação e enfrentamento de questões relacionadas à preservação. Coletivamente, produzem-se textos, artigos e amplia-se o debate sobre as agressões ao patrimônio. São 200 profissionais e simpatizantes da causa. Entre esses, há 15 mais atuantes. “Temas surgem de acordo com a urgência. Protestamos contra os absurdos do PPCUB (Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico), em especial contra o projeto de construir estacionamentos na Esplanada”, relata Cristiano Nascimento, um dos representantes do grupo.

Protestos podem converter-se em resultados. Em 2011, o Urbanistas por Brasília convidou a população a se indignar com a ideia de construir um complexo hoteleiro na 901 Norte, com prédios de até 15 andares. A obra iria contra os usos previstos originalmente para as quadras 900. “Conseguimos frear esse projeto, mas sabemos que ainda há risco. Estamos sempre atentos. Não se pode deixar que a área tombada corra riscos”, diz Cristiano. As reclamações sobre cercas instaladas perto da plataforma do Congresso Nacional também surtiram efeito. Questionou-se a necessidade dos arames, que supostamente evitariam quedas. A cerca “apareceu” logo depois dos protestos de junho passado, quando manifestantes subiram no telhado entre as cúpulas.

O Urbanistas por Brasília engloba profissionais de diversas áreas, representantes de entidades, como o Instituto dos Arquitetos do Brasil — departamento DF (IAB-DF), e lideranças comunitárias. “O que nos move é a ligação afetiva com a cidade. Nascemos aqui, estudamos aqui e nos sentimos desafiados quando vemos projetos que surgem por interesses econômicos e políticos, que não respeitam a cidade, serem aprovados”, avalia Cristiano Nascimento, que ressalta a importância de Brasília para a arquitetura mundial.

Verônica Gomes e Heliete Bastos, conselheiras  da Asa Sul, com o busto de JK: contra a  construção de puxadinhos e estacionamentos  subterrâneos em espaços inadequados  (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Verônica Gomes e Heliete Bastos, conselheiras
da Asa Sul, com o busto de JK: contra a
construção de puxadinhos e estacionamentos
subterrâneos em espaços inadequados
Lideranças comunitárias são fundamentais no processo de preservação do patrimônio. Cabe aos moradores, às pessoas que usam o comércio, parquinhos e as quadras de esporte, diariamente, pensar a maneira de se relacionar com Brasília. O Conselho Comunitário da Asa Sul é presença garantida em audiências públicas, em reuniões nos gabinetes de políticos e de administradores, assim como nas votações da Câmara Legislativa. Verônica Gomes, advogada,  juntou-se a Heliete Bastos, professora, para garantir a melhor convivência entre pessoas e espaços, no bairro onde moram. A primeira é presidente do Conselho Comunitário da Asa Sul e a segunda, vice, atualmente.

Elas fazem coro contra a construção de puxadinhos, que descaracterizam a Asa Sul, embarreiraram estacionamentos subterrâneos em espaços inadequados e brigam pelo uso correto das quadras 700, onde não se pode ter hotéis nem comércios, embora muitos insistam em burlar as leis. “São muitas agressões contra Brasília em curso. Construções de condomínios irregulares, disfarçados de hotéis, à beira da orla do Lago Paranoá. A falta de ações concretas para viabilizar o acesso a essa orla aos cidadãos do DF são evidentes agressões que desvirtuam o conceito que permeou o projeto e a construção de Brasília”, lamenta a presidente.

As violações do plano urbanístico são a preocupação mais latente do conselho. "A ocupação irregular, consentida pelo GDF, na Área de Tutela do bem tombado, causa violentas distorções no Plano Urbanístico da cidade. O Park Sul, na EPIA, é um claro exemplo disso. A permanência de comércios irregulares nas quadras 700, também, infelizmente”, ressalta Heliete Bastos. Em 2012, o conselho, ao lado de outras entidades da Sociedade Civil Organizada, pediu e conseguiu uma visita da Unesco a Brasília. Uma missão de monitoramento foi enviada e teve encontros com organizações sociais. A comitiva deve retornar este ano, para continuar o diálogo sobre a manutenção do título concedido à cidade.

Dedicar-se ao trabalho comunitário é cansativo, mas recompensador. Trabalhar por uma cidade melhor para os filhos e netos vale o sacrifício. “Nosso desejo, no aniversário da cidade, é que ela não seja tratada como mercadoria, pelo governo e por grandes grupos econômicos. É preciso valorizar o título de patrimônio. Ao contrário do que o GDF tenta fazer parecer, a honraria não representa um castigo à cidade e, sim, um prêmio pela genialidade do povo deste país”, afirma Verônica Gomes.

Affonso Heliodoro, que trabalhou diretamente  com Juscelino Kubitschek: aos 98 anos, é um  guardião de relíquias e memórias da construção (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Affonso Heliodoro, que trabalhou diretamente
com Juscelino Kubitschek: aos 98 anos, é um
guardião de relíquias e memórias da construção
Memória também é patrimônio e merece ser preservada como tal. Esse mês, no dia 16, coronel Affonso Heliodoro, pioneiro e amigo de Juscelino Kubitschek, completa 98 anos. Permanece à frente da presidência do Instituto Histórico e Geográfico (IHG-DF), entidade ligada à conservação e museu sobre a história de Brasília, desde 1964. Ali, está exposta a primeira estação de rádio usada na cidade, para comunicação com o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Também estão guardados a cadeira onde Juscelino se sentou na primeira missa oficial; o jeep Maracangalha, que levou Bernardo Sayão e JK para visitar as obras de Brasília; a cadeira de barbeiro usada pelo presidente e a lápide de mármore que cobria a primeira sepultura de JK, no Campo da Esperança. Todo o acervo foi doado por pioneiros, como Affonso Helioro, idealizador desse trabalho.

Até pouco tempo atrás, o coronel ia diariamente à sede da instituição, na Asa Sul, mas com a saúde da mulher, Conceição, 92 anos, debilitada, Heliodoro prefere acompanhá-la de perto e diminuiu as visitas ao trabalho. Affonso não tem qualquer comprometimento físico, nem se perde entre as lembranças de quase um século de vida. Guarda nas paredes de casa e em armários do escritório lembranças muito vivas da história da capital. Emoldurou cartas enviadas a ele por JK, fotos e outros registros. Documentou o que viu e viveu em livros. Ele assina três biografias de JK, cada uma sobre uma época da vida do “presidente bossa nova”.

O coronel era amigo e funcionário de confiança de JK. Nasceram na mesma cidade, Diamantina (MG), e as mães dos dois eram amigas. Affonso, que perdeu o pai aos 7 anos e trabalha desde os 10, ingressou na vida militar aos 17. Chegou a subchefe do Gabinete Civil, dirigiu o Serviço de Verificação das Metas Econômicas do Governo e o Serviço de Interesses Estaduais. Os cargos pomposos escondem a relação de amizade entre Affonso e Juscelino. “Era eu quem desligava a luz do quarto dele quando ele ia dormir e quem o acordava pela manhã, para voltar ao trabalho. Nunca conheci ninguém como Juscelino, tão comprometido com o país, com um plano de governo inteligente e executado, além de ser um ser humano fantástico”, relata.

Tamanha admiração levou Affonso a servir ao presidente por toda a vida. O coronel administrou o Memorial JK, durante 16 anos. “Na noite da inauguração do memorial, roubaram meu carro, lá na porta. Fui o último a sair e cadê o carro? Lá fui eu pedir carona para ir para casa”, lembra Heliodoro, com o bom humor que lhe é peculiar. As mazelas de Brasília não são maiores que as de outras capitais, aos olhos de Affonso. “Os interesses de todo o país estão voltados para cá, por isso é importante que a gente debata, acompanhe o crescimento e converse com o governo. Sem nunca deixar de olhar para o nosso passado”, ensina.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017