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ESPECIAL ANIVERSÁRIO | INCLUSÃO »

Tateando Brasília

Projeto de arte-educação leva deficientes visuais a conhecer monumentos e pontos turísticos da capital. Em alguns museus e instituições, eles tocam as obras

Paloma Oliveto - Publicação:25/04/2014 14:37Atualização:25/04/2014 15:35
César Achkar, idealizador do Brasília Tátil, com Flávio Luis e Paulo Luz: a beleza de Brasília ao alcance de todos (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS )
César Achkar, idealizador do Brasília Tátil, com Flávio Luis e Paulo Luz: a beleza de Brasília ao alcance de todos

Há muitas formas de enxergar uma cidade. Inclusive, sem os olhos. Com o tato, deficientes visuais redescobrem Brasília. Sentem suas formas, vislumbram as linhas arquitetônicas, assimilam os traços dos principais monumentos da capital. Graças a um projeto de arte-educação inclusiva, pessoas que perderam a visão ou já nasceram cegas podem vivenciar, plenamente, o lugar que escolheram para morar.

Partiu de um escultor a ideia de revelar a beleza de Brasília a quem, como ele, é deficiente visual. César Achkar tinha 29 anos e estava no último semestre da faculdade de artes plásticas quando percebeu que estava perdendo a capacidade de enxergar. Vítima de um tipo de retinose genética, uma doença progressiva, hoje, aos 50, ele tem apenas 5% de visão central. No começo, encarar a escuridão não foi fácil. Ele largou o curso, aposentou-se por invalidez e, dentro de casa, buscava maneiras de se ocupar.

Até que uma luz se acendeu novamente. Em 2005, César participou de uma oficina no Centro de Ensino de Deficientes Visuais, na Asa Sul, onde conheceu uma técnica de escultura em argila. Na época da faculdade, ele preferia desenhar. Mas, dessa vez, dar vida ao material terroso o conquistou. “Voltei a produzir, me animei e terminei o curso na faculdade”, conta.

César decidiu compartilhar a técnica. Na Associação Brasiliense de Deficientes Visuais (ABDV), instituição da qual se tornou presidente, ele montou oficinas para outros cegos. Ao mesmo tempo, estagiava na rede pública de ensino, no período de conclusão da licenciatura em artes plásticas. Para César, contudo, não era o bastante. “Um arte-educador não pode apenas produzir arte. Ele tem de levar conhecimento, contextualizar a arte”, explica. A solução não demorou a chegar. César foi procurado por uma turismóloga que queria levar deficientes visuais para visitarem a cidade. Juntos, eles colocaram a ideia no papel e se inscreveram no Fundo de Apoio à Cultura do DF. Em 2010, o sonho virou realidade. No ano passado, uma nova versão, coordenada exclusivamente pela ABDV, atendeu 440 estudantes, além de grupos de adultos com deficiência.

Para entrar na rota do Brasília Tátil, museus e instituições concordaram em deixar os visitantes tocarem as obras. Na Câmara dos Deputados, os visitantes puderam conhecer, com a ponta dos dedos, a escultura Anjo, de Alfredo Ceschiatti, o painel de azulejos de Athos Bulcão e a arquitetura do prédio, representada em uma maquete. “Todo mundo quer tocar, não só os deficientes visuais”, conta o presidente da ABDV. “Os depoimentos das pessoas são empolgantes. Uma disse: ‘Agora estou entendendo a cidade’.”
Cega de nascença, Valdecy Brandão só  conseguiu vislumbrar a ideia do plano piloto  por meio de uma gravura do projeto Brasília  Tátil: 'Acabei descobrindo a cidade' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Cega de nascença, Valdecy Brandão só
conseguiu vislumbrar a ideia do plano piloto
por meio de uma gravura do projeto Brasília
Tátil: "Acabei descobrindo a cidade"

Foi o que aconteceu com a telefonista aposentada Valdecy Brandão, de 52 anos, 50 deles em Brasília. Cega de nascença, ela tentava imaginar o Plano Piloto. “Diziam que era o formato de um avião, com as asas Sul e Norte, mas eu não conseguia idealizar”, relembra. Desde 2010, ela participa ativamente dos roteiros do Brasília Tátil. Conseguiu, finalmente, perceber o desenho de Lucio Costa, explorando uma gravura tátil reproduzida no material didático do projeto. “Acabei descobrindo a cidade”, diz. Os azulejos de Athos Bulcão também encantaram Valdecy. O formato das figuras geométricas foi impresso em papel especial e as texturas representam, para os deficientes visuais, as cores das obras.

Depois que se aposentou devido a uma tendinite, Valdecy começou a frequentar a Biblioteca Braille Dorina Nowill, em Taguatinga. Lá, ela dança, canta,  envolve-se em projetos culturais. É um dos lugares que a telefonista mais gosta de visitar. Parques e clubes também fazem parte da Brasília de Valdecy, que não cansa de admirar a arborização da capital. “Vejo Brasília muito verde e uma arquitetura linda”, relata.

A cidade do servidor público Paulo César Luz também ficou mais bonita depois que ele descobriu a arte. Cego desde os 9 anos, ele não conhecia suas habilidades de escultor e pintor, até participar de uma oficina na ABDV. Desde o ano passado, fabrica as próprias telas e as pinta usando uma técnica especial. “Para fazer pinturas figurativas, eu coloco uma massa por cima”, conta Paulo. Com papel machê, ele cria esculturas . “A arte é um outro mundo, é um remédio. Quando fazemos arte, passamos a ver tudo com outros olhos.”
Cegos conhecem pelo tato esculturas do  Itamaraty: projeto Brasília Tátil também  leva conhecimento e contextualiza a arte (ABDV/Divulgação)
Cegos conhecem pelo tato esculturas do
Itamaraty: projeto Brasília Tátil também
leva conhecimento e contextualiza a arte

Além de escultor e pintor, ele se tornou um apreciador.  “Sempre que posso, visito exposições.” Paulo acompanhou todas as visitas do Brasília Tátil. “Pude conhecer locais onde nunca tinha entrado, como o Itamaraty e o Congresso. Fico maravilhado com a arquitetura de Brasília”, diz. Agora, ele pensa em reproduzir alguns em papel machê. “Estou com uma ideia de fazer esculturas da Torre Digital e da Dom Bosco.”

Também por meio do livreto do Brasília Tátil, o laboratorista aposentado e agora artista plástico Flávio Luis da Silva, dec 45 anos, descobriu aspectos da cidade que não conhecia nem quando ainda enxergava. Há 16 anos, ele sofreu um traumatismo que atrofiou o nervo óptico. Naquela época, ele já admirava arte, mas não a ponto de visitar galerias, como costuma fazer atualmente. Também não sabia que tinha talento para criar, o que só descobriu quando perdeu a visão. A cegueira nos dois olhos não apagou as imagens que Flávio conserva na mente e às quais recorre quando planeja e executa suas obras — todas elas feitas para serem tocadas. O escultor defende uma ampliação de projetos que, como o Brasília Tátil, estimulem os deficientes visuais a contemplar a arte. “Nós vemos com o tato. Isso é muito importante para nós”, diz. “Muitas pessoas acham que o deficiente visual é incapaz. Por meio da cultura, nós rompemos isso fácil. Com a cultura, nós vemos igual a vocês”, conclui César Achkar.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017