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CULTURA »

Cidade-inspiração

Da música às artes plásticas, da dramaturgia à fotografia, a capital continua a entusiasmar produções artísticas

Jéssica Germano - Redação Publicação:30/04/2014 10:31Atualização:30/04/2014 14:10

Os versos musicados na Colina declararam: “nesse país, lugar melhor não há”. Em meio a narrativas fortes e insistentemente recorrentes, Clarice, a escritora ucraniana mais brasileira de todos tempos, eternizou: “Construções com espaço calculado para as nuvens [...] Nunca vi nada igual no mundo”.

O pernambucano Alceu Valença profetizou que um dia iria encontrar Brasília, enquanto na canção do Natiruts um surfista do Lago Paranoá questiona: “Pra quê que eu quero o mar se tenho o lago pra mim?”.

Entre declarações como a de Djavan, que dimensionou amor entre a linha do Equador e o céu... os eixos desenhados por Niemeyer viraram rimas, frames, telas.

De moto ou de camelo no Parque da Cidade ou na figura da Suzana “eixosa” de Nicolas Behr, o Planalto viu filhos e forasteiros renderem homenagens à capital.

Em um aniversário a ser comemorado com conquistas importantes de identidade – já temos carnaval e cacoetes próprios! –, a capital de monumentos amadurece como musa e continua a inspirar. Buscando contar o que moveu e povoa a cidade de céu aberto, um espetáculo musical, um painel pintado de homenagens e uma exposição de rostos exploram, ainda, essa atual veia produtora. “Se tirasse meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem”, declarou Clarice Lispector, deixando brechas para a inspiração de outros artistas.

'Este trabalho é sobre o sonho humano. Fala  sobre capacidade que a gente passa a ter de  sair da terra para construir algo grande', diz  Carlos Bracher, no início dos trabalhos para a  tela Das letras às estrelas, JK: De sonhos ao  sonho de Brasília (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
"Este trabalho é sobre o sonho humano. Fala
sobre capacidade que a gente passa a ter de
sair da terra para construir algo grande", diz
Carlos Bracher, no início dos trabalhos para a
tela Das letras às estrelas, JK: De sonhos ao
sonho de Brasília
Nas artes visuais

A primeira vez que Carlos Bracher pisou em território candango foi em 1968. Desde então, foram as visitas anuais (quase religiosas) que perpetuaram a relação brotada ainda na juventude com a história de Juscelino Kubitschek e o fascínio imediato pela cidade que o presidente, filho de Diamantina (MG), fundou. “As nuvens, o céu de Brasília e a arquitetura ainda hoje me surpreendem”, diz o pintor de 78 anos, também mineiro. Com um painel dividido em três partes – construtores, candangos e artistas da cidade –, pintado no último mês de março para celebrar os 50 anos do Sindicato dos Construtores Civis do Distrito Federal (Sinduscon), Bracher fez sua mais recente obra inspirada na capital. Mesma energia que o moveu ao longo da produção de uma coletânea publicada em 2007 e resultado de 66 pinturas, textos e aquarelas feitas na e sobre capital. “Eu fiz uma série, das mais importantes da minha vida, sobre Brasília”, dimensiona o lugar que a cidade ocupa na sua arte.

Para o artista, que contou com a presença da filha de Lucio Costa, Maria Elisa, na primeira pincelada da tela retratada nesta matéria, uma filosofia guiou a ideia originária de JK e ainda hoje instiga os que chegam à capital federal. “Este trabalho é sobre o sonho humano. Fala sobre capacidade que a gente passa a ter de sair da terra para construir algo grande.”



Das letras às estrelas, JK: De sonhos ao sonho de Brasília

Acervo permanente, com visitação das 8h às 18h, de segunda a sexta, no Espaço de Eventos do Sinduscon-DF (SIA Trecho 2/3, lote 1.125, 3º andar)

No teatro

O início da narrativa tem tom familiar, mas instiga. A descrição do sonho de Dom Bosco sobre uma terra prometida, escondida entre montes, é o ponto de partida do espetáculo montado pela primeira vez em 2006 e selecionado para 2014 pelo programa de incentivo às artes da Secretaria da Cultura do DF. Entre recortes históricos e sensoriais, 12 atores contam, em um musical misto (cenas de texto se alternam às canções), a estrutura da cidade. Desde a chegada e permanência difícil dos primeiros candangos até a transformação nas relações e percepções que a cidade causa aos que convivem com ela. “Ela é a protagonista. É o que nos inspira, o que nos provoca, ouvinte, o nosso carrasco”, explica Adriana Lodi, diretora do De carne, osso e concreto, ao lado do elenco.

Admiradora clara do que Brasília oferece às suas crias, ela incentivou, desde o início do projeto, a busca lúdica por referenciais nos espaços oferecidos pela capital. “A produção deles passou a ser muito potente poeticamente”, diz. Segundo ela, todos os atores participaram da construção do roteiro alinhado. Sobre possíveis questionamentos de a fonte inspiradora secar, a dramaturga resgata o que percebeu em oito anos de pesquisa: “Poderíamos fazer mais 25 mil espetáculos sobre Brasília que não faltaria assunto”.

'A gente podia fazer mais 25 mil espetáculos sobre Brasília que não ia faltar assunto', declara Adriana Lodi, diretora do espetáculo De carne, osso e concreto (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
"A gente podia fazer mais 25 mil espetáculos sobre Brasília que não ia faltar assunto", declara Adriana Lodi, diretora do espetáculo De carne, osso e concreto

De carne, osso e concreto

Elenco: Amanda Sintra, Daniela Diniz, Eli Moura, Jéssica Cardoso, Leandro Menezes, Luisa Duprat, Márcia Regina, Pedro Mesquita, Rafael Toscano, Roberto Cardoso, Tatiana Bevilácua e Vinícius Santana

Datas: De 24 de abril a 4 de maio, no Sesc Garagem; e de 8 a 11 de maio, no Sesc Ceilândia, com sessões às 16h e às 19h, de quinta a domingo.

Na fotografia

Serão 50 rostos. 50 biografias de moradores ou pessoas que, de alguma forma, fizeram história em Brasília. Da ideia, que nasceu em 2009, veio a aprovação no Fundo de Apoio à Cultura e, consequentemente, a viabilidade de expor o que a inquietação artística sempre inspirou.“Eu queria fazer uma exposição das pessoas que fazem parte da cidade”, explica Alexandre Fortes, citando nomes de brasilienses nascidos ou que conquistaram tal título. Fotógrafo e diretor audiovisual, ele percebeu a constituição da capital desde cedo e quis mostrar isso para os forasteiros que chegam até aqui apenas com a ideia da monumentalidade de Niemeyer.

Entre a missão de contar a história de Brasília com parte de seus personagens marcantes – Oswaldo Montenegro, Ernesto Silva, Ellen Oléria, Ari Cunha e Gilberto Salmão são alguns da lista –, Fortes buscou a linha que ligava esses rostos ao lugar sobre o qual quis falar. Neles, o fotógrafo encontrou um ponto central. “Todos eles sentem que a cidade os abraçou e permitiu que entrassem e fizessem parte dela”, relata. Ao mencionar a conversa prévia às fotos que teve com cada um (e inspirou uma pequena biografia que se junta aos retratos na exposição), ele constata sua teoria, que vai além das críticas de cidade fria e solitária: “O que predomina muito nas histórias é a hospitalidade de Brasília”, conta.

O fotógrafo Alexandre Fortes diante de uma mostra que vai para a exposição A cara de Brasília: segundo ele, todos os fotografados sentem que a cidade os abraçou e permitiu que eles fizessem parte dela (Alexandre Fortes / Divulgação)
O fotógrafo Alexandre Fortes diante de uma mostra que vai para a exposição A cara de Brasília: segundo ele, todos os fotografados sentem que a cidade os abraçou e permitiu que eles fizessem parte dela

A cara de Brasília

Onde: De 15 a 25 de maio nas estações do Metrô da 102 Sul e Centro Metropolitano.

De 25  de maio a 5 de junho nas estações da 108 Sul e Furnas (Samambaia).

De 5 a 15 de junho nas estações da 112 Sul e Águas Claras.

Exposição completa e aberta ao público a partir de12 de junho, em um ponto central do Plano Piloto a ser definido.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017