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CULTURA | MÚSICA »

Entre o hobby e a profissão

Integrantes de bandas covers de Brasília contam como é interpretar artistas que eles idolatram

Cecília Garcia - Redação Publicação:30/04/2014 16:05Atualização:05/05/2014 10:23
Ao encarnar a cantora britânica Amy  Winehouse, Elis Nunes se empolga: 'Ela tinha um carisma incrível', diz a fã e intérprete (Raimundo Sampaio/Encontro/DA PRESS)
Ao encarnar a cantora britânica Amy
Winehouse, Elis Nunes se empolga: "Ela tinha
um carisma incrível", diz a fã e intérprete

Tudo começa pelos cabelos. O aplique, que costuma dar certo trabalho, vem primeiro. Depois, cachos dão o toque final à cabeleira. A maquiagem, marca característica da produção, é feita com cuidado. Para finalizar, o figurino entra em cena. É necessário, em média, uma hora e meia para que a transformação seja completa e, assim, Elis Nunes encarna a cantora britânica Amy Winehouse. 

Filha de maestro, a musicista toca trompete desde os 8 anos, já tocou em bandas regidas pelo pai, teve grupos de pop rock e, hoje, além da vida de cover, integra a Brasília Popular Orquestra (Brapo). A ideia de fazer o tributo a Amy surgiu no primeiro show aberto que fez em Brasília, em 2011. Sua banda tocava um pouco de tudo, mas em virtude da morte recente da cantora, resolveu colocar três músicas dela no repertório, com direito a caracterização. A empolgação e o reconhecimento pelo público foram tão marcantes que os incentivou a montar um repertório exclusivo da cantora. Em 7 de abril de 2012, aconteceu o primeiro show cover.

Para realizar um bom tributo, é necessário ser fã do artista homenageado, e Elis demonstra isso muito bem. Das canções, a intérprete não titubeia ao citar In My Bed, do álbum Frank, como sua preferida. Na estética, gosta de seu jeito exuberante. “Não falo apenas da maquiagem ou dos cabelos, mas de sua performance no palco. Ela tinha um carisma incrível, mesmo quando fazia aqueles passinhos meio desajeitados”, brinca.



Covers do ídolo: Lucas Gama, Gabriel Farias, Lucas Vinícius 
e Jeison Vieira encarnam diferentes fases de Michael Jackson (Raimundo Sampaio/Encontro/DA PRESS)
Covers do ídolo: Lucas Gama, Gabriel Farias, Lucas
Vinícius e Jeison Vieira encarnam diferentes fases
de Michael Jackson
Quem se aventura a personificar Michael Jackson também tem pela frente o desafio da caracterização. Roupas diferentes para cada uma das fases artísticas do astro e a maquiagem são os pontos-chave nesse processo. Mas o que realmente impressiona é a construção artística, a reprodução dos passos de dança que eram tão marcantes no Rei do Pop. Lucas Gama, Gabriel Farias, Lucas Vinícius e Jeison Vieira encaram esses desafios. São tão fãs que, hoje, tem como profissão ser cover de Michael Jackson.

Eles fazem de tudo. Festa de criança, casamentos, formaturas, aniversário de 15 anos, eventos coorporativos, festas temáticas. Basta um telefonema para que um pouco do Rei do Pop se faça presente por meio deles. Não só as roupas, o canto e a dança, os rapazes aderem a nomes artísticos para que seu personagem seja completo. “É normal ter um quando se faz cover do Michael. Chega a ser um ponto de identificação do nosso personagem e um modo de separar a vida pessoal”, explica Lucas Vinícius.

Para Jeison Vieira, conhecido artisticamente como Michael Jeison, a vontade de viver como o artista vem desde criança. “Eu acredito que não é só no meu caso. Nessa idade, a gente gosta do Michael Jackson, aí vem aquela coisa de começar tentando fazer uns passos e, quando menos se espera, está se apresentando.” No entanto, esse processo, mesmo que natural, nem sempre resulta em aceitação por parte da família, quando o ser cover se torna uma profissão para esses rapazes. “No início é complicado, os pais meio que desacreditam. Mas com o passar do tempo, quando veem que dá certo, todo mundo acaba apoiando”, comenta Jeison.


Diretora do espetáculo'I'll be there', Célia Porto reúne artistas da cidade para produzir números musicais (Raimundo Sampaio/Encontro/DA PRESS)
Diretora do espetáculo"I'll be there", Célia Porto
reúne artistas da cidade para produzir números
musicais
Coordenando todos eles em uma grande homenagem ao astro pop está Célia Porto, diretora do espetáculo I’ll be there. O projeto reúne artistas da cidade, e de fora também, fazendo números musicais. “São vários intérpretes do cenário brasileiro cantando, cada um, uma música do Michael em um projeto coletivo. Já virou uma vitrine de talentos. Estamos sempre trazendo gente nova.”

Há cinco anos, desde o primeiro aniversário de morte de Michael Jackson, e já na sexta edição, o projeto foi idealizado por Célia, que trabalha com covers do artista. Durante o espetáculo, cada um tem a chance de mostrar seu trabalho solo. A diretora artística faz a seleção dos intérpretes. Quem realiza o trabalho de cover geralmente manda material para ela, que avalia e remaneja as participações. “O que não falta em Brasília é cover do Michael”, comenta. Neste ano, serão cinco Michael Jacksons adultos e três crianças, incluindo seu filho Rênio, de 11 anos, que se transforma no artista desde os 6. “O que eu acho mais legal é não existir competição entre eles. Quando um não pode, indica o outro para trabalhos. Estão sempre juntos.”

Diferentes na caracterização, mas igualmente dedicados na parte musical, estão as bandas de rock que fazem tributos na cidade. Uma delas é a Ledbetter. Composta por baixo, duas guitarras, vocal e bateria, os integrantes estão juntos desde 2005, tocando o som da banda norte americana Pearl Jam. Para eles ficarem prontos para o palco, como brinca o baixista Pablo Caiato, bastam a calça jeans, camiseta e All Star. Isso na estética. Musicalmente, ensaiam uma vez antes de cada show.

Para o baixista, a cena cover da cidade tem melhorado nos últimos anos. Quando começaram, os lugares para tocar eram mais restritos. Aos poucos, o cenário foi crescendo e, hoje, em sua opinião, o público prefere os covers. “Eles dão mais retorno para as casas de show. Ultimamente, quem faz um trabalho benfeito, não tem de que reclamar de falta de espaço”, comenta.  Isso é o que impulsiona as duas ou três apresentações por mês. Na verdade, eles faziam mais shows, mas, como a banda é um hobby, sem deixar de lado a qualidade musical, estava começando a atrapalhar o emprego dos integrantes. “Somos todos engravatados”, diz Pablo Caiado.

Para os integrantes da Ledbetter, que tocam Pearl Jam, a cena cover da cidade tem melhorado: 'Quem faz um trabalho benfeito não reclama de falta de espaço', diz o baixista Pablo Caiato (à frente, esq.) (Bruno Pimentel/ Encontro/ DA PRESS)
Para os integrantes da Ledbetter, que tocam
Pearl Jam, a cena cover da cidade tem
melhorado: "Quem faz um trabalho benfeito
não reclama de falta de espaço", diz o baixista
Pablo Caiato (à frente, esq.)
O público da Ledbetter é composto em parte por fãs da banda americana ou do tributo e em parte por pessoas que vão aos locais em busca de diversão. Por isso, a playlist mescla músicas mais desconhecidas, para os fãs mais aficionados, e canções mais famosas, como a Last Kiss. “É nessa hora que todos param para prestar atenção e cantar juntos”, explica Pablo, que, é claro, também faz parte da legião de fãs. A paixão pela banda norte-americana começou na adolescência e segue até hoje. “Dei muita sorte na vida, musicalmente falando. Quando começou o movimento grunge, eu era adolescente, por isso acompanhei a banda desde o início.”

O produtor musical Márcio Leal explica que, a partir dos anos 1980 e 1990, houve uma queda na produção autoral do rock em todo o país. “Atualmente, o público gosta de algo que já conhece. Até as bandas que trabalham o autoral colocam junto o cover.” Enquanto isso, os tributos animam as festas em bares, pubs e festivais da cidade. “Os covers de Brasília são muito bons. Os músicos gostam do que fazem, não tem aquela de ‘não estou fazendo a minha música’. Eles gostam de homenagear as bandas.”

Desde 2007 no ramo, Márcio trabalha na produtora Homem da Marreta, que promove diversos eventos musicais e culturais relacionados ao rock, contando em especial com a presença dos covers. Ele e os sócios buscaram um nicho que até então era pouco explorado. Baladas com rock’n’roll, sem ser aquelas voltadas para os “bate-cabeça”. Ele conta que tributos ao Queen, Janis Joplins, Rush e Pink Floyd, por exemplo, são sucesso certo nas festas que promove.
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017