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ESPECIAL ANIVERSÁRIO | CULTURA »

Cultura global

Diretores de festivais - já concebidos com o caráter internacional - contaram a Encontro Brasília quais desafios e motivações envolvem a realização desses eventos

Larissa Leite - Publicação:02/05/2014 14:49Atualização:05/05/2014 10:25

Luciana Martuchelli, diretora do Solos Férteis - Festival Internacional de Mulheres 
no Teatro: 'A nossa proposta é trazer de fora não apenas a excelência, mas o legado, as conquistas, a resistência dessas mulheres'
 (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
Luciana Martuchelli, diretora do Solos Férteis - Festival Internacional de Mulheres no Teatro: "A nossa proposta é trazer de fora não apenas a excelência, mas o legado, as conquistas, a resistência dessas mulheres"
Uma capital do mundo que acolhe os mais expressivos cineastas, escritores, atores, dançarinos, músicos, artistas plásticos. Muitos apostam que o crescimento de Brasília transformará a cidade em um grande centro cultural. E não é conversa de fim do expediente: é a conclusão que advém do trabalho diário de diretores de festivais internacionais que promovem, além de entretenimento, um cenário de crítica e transformação por meio da arte. Os festivais costumam ser anuais ou bianuais e estão espalhados ao longo do calendário de eventos do Distrito Federal.

Não há uma fórmula pronta para essa magia acontecer. Para garantir a presença dos artistas de fora, inúmeros arranjos são feitos. Os festivais abrem um período de inscrições para que projetos enviados de todo o mundo sejam avaliados por uma curadoria. Além disso, diretores recebem ofertas de governos, embaixadas, escolas de idiomas e diversas outras instituições, que querem ver os seus países representados em festivais na capital do Brasil.

Existem também os convites, feitos a partir da busca por profissionais em outros eventos. Para vir a Brasília participar dos festivais, o artista pode ter nenhum, algum, ou total apoio com os custos de viagem e apresentações na cidade, depende do orçamento disponível, considerado insuficiente pela maioria dos organizadores.

O produtor cultural Nilson Rodrigues conduz  dois festivais em Brasília, a Bienal Brasil do  Livro 
e da Leitura e o Brasilia International  Film Festival (BIFF): 'Brasília foi pensada para ser uma provocação' (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
O produtor cultural Nilson Rodrigues conduz
dois festivais em Brasília, a Bienal Brasil do
Livro e da Leitura e o Brasilia International
Film Festival (BIFF): "Brasília foi pensada
para ser uma provocação"
“O espírito criativo e o pensamento moderno fundaram Brasília, bolada para ser uma cidade inventiva, um centro de referência. Isso não pode ser uma província, foi pensada para ser uma provocação sobre as grandes questões da humanidade”, defende o produtor cultural Nilson Rodrigues. É com o intuito de “honrar” essa vocação que ele afirma conduzir dois dos mais novos eventos internacionais da capital, a Bienal Brasil do Livro e da Leitura e o Brasilia International Film Festival (BIFF). A segunda edição da bienal, que acontece este mês, já traz números grandiosos no currículo.

Na primeira edição, foram contabilizados 250 mil visitantes que geraram uma movimentação financeira de aproximadamente R$ 9 milhões. As expectativas para a segunda bienal são de crescimento, com uma perspectiva de público de 300 mil pessoas. “Se o processo civilizatório possibilitou às pessoas produzirem coisas refinadas esteticamente, isso deve ser um direito de todos”, afirma Rodrigues. A bienal contará com cerca de 180 convidados – 30 deles internacionais – e homenageará o escritor uruguaio Eduardo Galeano e o paraibano Ariano Suassuna.

Quando o assunto é cinema, o diretor geral do BIFF deixa clara a sua pretensão: “Estamos trabalhando para nos tornar um dos mais importantes festivais internacionais de cinema da América Latina”. Para isso, além de receber as inscrições dos filmes, abertas este mês, Nilson Rodrigues frequenta outros festivais, como os consagrados Festival Internacional de Cinema de Berlim e o Festival de Cannes, convidando outras obras e divulgando o BIFF.

O cuidado com o festival é compartilhado com a diretora de programação Anna Karina de Carvalho e o curador José Carlos Avellar. A programação é feita de filmes inéditos no Brasil e tem como um dos diferenciais a mostra competitiva, com um prêmio total de R$ 100 mil. Além disso, a terceira edição passará a contar com um prêmio da Associação Internacional de Críticos do Cinema (Fipresci). O último BIFF recebeu mais de 220 filmes inscritos, de mais de 40 países. A programação deste ano ainda está sendo desenhada, mas a ideia já é alavancar o público, de 15 mil nas edições anteriores para 20 mil este ano. As noites de gala e as estreias da mostra competitiva serão realizadas no Cine Brasília.

Guilherme Reis, diretor do Cena Contem- porânea   - Festival Internacional de Teatro de Brasília: 
desde 1995, trouxe 81 espetáculos internacionais
 (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
Guilherme Reis, diretor do Cena Contem-
porânea - Festival Internacional de Teatro
de Brasília: desde 1995, trouxe 81
espetáculos internacionais
O Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília nasceu com o objetivo de trazer espetáculos interessantes para Brasília e, ao mesmo tempo, programadores de eventos que possam se interessar pela produção local e nacional e, até hoje, é motivado por ele. A diferença é que, após 19 anos e 14 edições, o diretor Guilherme Reis já não consegue atender a todas as mensagens que chegam ao seu e-mail, com convites para rodar o mundo e trazer o que há de melhor para a cidade. A evidência de que o festival se tornou uma referência no país é reforçada por números e pela presença do público, que costuma ocupar 90% das cadeiras dos teatros da programação. No ano passado, 19 espaços teatrais foram usados no DF. Desde 1995, o Cena já trouxe a Brasília 81 espetáculos internacionais, e de grupos nacionais e locais, entraram na programação 189 espetáculos.

O festival já contabiliza a apresentação de 167 grupos musicais e DJs. Com consagração e portfólio, Reis lamenta a batalha por recursos a cada festival: “A cada ano, tem de renascer, apresentar um projeto de novo e começar tudo do zero. É um processo de convencimento todo o tempo, mesmo depois de uma estrada muito grande”. O diretor ainda questiona a falta de investimento do empresariado local em cultura.

Enquanto o Cena Contemporânea conta com a tradição, o Solos Férteis – Festival Internacional de Mulheres no Teatro desfila viçoso o desejo de contribuir para uma cidade mais plural. O projeto bianual nasceu em 2010 e ganhou uma segunda edição em 2012. Para este ano, estão programados cerca de 20 artistas internacionais, nacionais e locais, além de mais de 60 participantes do Brasil e da América Latina. Isso porque, além dos espetáculos, um dos focos do festival é a formação. Diferentemente da maioria dos eventos, que costumam oferecer seminários, oficinas, debates, etc., o Solos Férteis quer investir em residências.

Ricardo Moreira, diretor do Festival Internacional de Bonecos de Brasília: 15 companhias já confirmadas  (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
Ricardo Moreira, diretor do Festival Internacional de Bonecos de Brasília: 15 companhias já confirmadas

Nesse formato, os participantes trabalham por um período mais longo, com uma orientação individualizada, materiais cênicos previamente elaborados. “A nossa proposta se trata de trazer de fora não apenas a excelência, que nós temos, mas o legado, as conquistas, a resistência dessas mulheres como inspiração para a nossa realidade no Brasil”, explica a diretora do festival, Luciana Martuchelli. Como o nome sugere, o festival é voltado para performances solo ou monólogos envolvendo mulheres – seja na atuação, direção, pesquisa, etc. Além disso, é vinculado a uma rede mundial de mulheres no teatro chamada The Magdalena Project, espalhada atualmente por mais de 50 países. “Nós precisamos de mestras vivas e, ao mesmo tempo, de um lugar para reforçar que as mulheres não são apenas as atrizes, mas as diretoras, autoras, pedagogas, pesquisadoras, transgressoras, criadoras de linguagens”, completa Martuchelli.

João Maione, produtor do Celebrar Brasília:   evento multimídia 
que atrai turistas de fora  de Brasília e tem o apelo 
da preservação ao  meio ambiente (Raimundo Sampaio/Encontro/DA PRESS)
João Maione, produtor do Celebrar Brasília:
evento multimídia que atrai turistas de fora
de Brasília e tem o apelo da preservação ao
meio ambiente
Artes visuais, performances aéreas e música. A fórmula do festival Celebrar Brasília ainda se alia à educação ambiental e à recuperação de nascentes do cerrado. Desde 2009, o evento leva milhares de pessoas ao Complexo Cultural da República, incluindo turistas contabilizados pela produção do evento. Calcula-se que cerca de 10% do público total de 200 mil, são pessoas que vêm de fora de Brasília para ver as atrações. “É um evento muito diferenciado. Tem música, mas focamos na arte visual e na valorização de Brasília”, resume o produtor executivo, João Maione. Considerado um evento multimídia, as produções visuais são projetadas na cúpula do Museu Nacional da República. Este ano, o evento pretende atrair 60 mil pessoas, coletar três toneladas de lixo eletrônico e plantar mais de cinco mil mudas nativas do cerrado em áreas degradadas de nascentes do DF.

Outro evento conhecido em Brasília é o Festival Internacional de Bonecos de Brasília, a ponto de ter de dividi-lo em etapas, para dar conta da quantidade de apresentações que propõe. Na 12ª edição, ocorrida no ano passado, foram três fases para atender a nove regiões administrativas em palcos tradicionais de teatro e em escolas, parques e hospitais. A organização do evento define o festival como o maior do mundo, no gênero, em número de apresentações (cerca de 240, em 2013).

Idealizador e coordenador-geral do festival, o bonequeiro Ricardo Moreira é entusiasta ao falar sobre a quantidade de espaços a que as “brincadeiras” chegam. E, para ele, o trunfo do festival é a grande receptividade nas apresentações em escolas. “É um vento enorme, mas voltado prioritariamente para a educação. O papel da arte na educação não é necessariamente formar artistas, e sim contribuir para a formação do cidadão com sensibilidade, capaz de compreender e amar o outro”, defende Moreira. E, sim, o festival ainda alavanca a produção do DF, que conta com cerca de 25 grupos de bonequeiros, segundo o coordenador. A próxima edição já tem previstas 15 companhias internacionais, além de grupos das tradicionais variações populares brasileiras, como mamulengo, cassimiro côco, babau, joão redondo e mané gostoso, entre outros.


O SescFestclown - Festival Internacional de  Palhaços, é um sucesso absoluto: 11 edições em  Brasília e um público de aproximadamente  600 mil pessoas, sob o comando de Rogero  Torquato, intérprete do palhaço Totoia e  diretor do festival (Raimundo Sampaio/Encontro/DA PRESS)
O SescFestclown - Festival Internacional de
Palhaços, é um sucesso absoluto: 11 edições
em Brasília e um público de aproximadamente
600 mil pessoas, sob o comando de Rogero
Torquato, intérprete do palhaço Totoia e
diretor do festival
As crianças cresceram e continuaram acompanhando as atrações do SescFestclown – Festival Internacional de Palhaços, que já contabiliza 11 edições em Brasília e um público de aproximadamente 600 mil pessoas em torno da palhaçaria. Essa é a maior alegria de Rogero Torquato, intérprete do palhaço Totoia e diretor do festival. “A comunidade chamou para si o festival. Há uma geração inteira que acompanha o festival desde menino e agora começa a frequentar a programação adulta. Nós vemos famílias inteiras fazendo piquenique nos gramados das nossas arenas. É uma experiência incrível”, afirma Torquato.

Segundo o diretor, um dos objetivos do festival está em mostrar as várias facetas da palhaçaria, que vai além da provocação do riso. “Existe o palhaço de narizinho, mas também tem o palhaço punk, rebelde. Ou aquele que usa apenas terno e gravata. Não é só riso, mas também constestação”, defende. Os convidados do festival também se apresentam em escolas e diversas regiões administrativas.


CORPO E MOVIMENTO

Algumas pessoas têm o privilégio de dizer que vivem o que sonharam para si. É assim com a mâitre de balé Gisele Santoro: “Eu vivo um sonho, e esse é um trabalho de ajudar essa garotada a realizar os seus sonhos. Não é justo não ter a oportunidade de realizá-los”. Santoro fala com emoção do Seminário Internacional de Dança de Brasília, que chega à 24 edição este ano. Ao longo dos anos, o seminário já ofereceu a soma de aproximadamente R$ 1 milhão em prêmios em espécie e possibilitou o ingresso de mais de 400 bailarinos brasileiros em escolas, academias e companhias internacionais. Os convites acontecem a partir da presença de representantes das instituições internacionais no seminário, onde podem observar participantes por um período de três semanas e, então, conceder bolsas de estudos – em 2013, elas foram distribuídas para escolas dos países Alemanha, Canadá, Espanha e França. “A minha meta é o aperfeiçoamento do bailarino brasileiro e ofertar bolsas de estudo no exterior é o nosso diferencial”, resume. Este ano, o evento irá homenagear o maestro Claudio Santoro, de quem a ex-bailarina é viúva há 25 anos. Santoro completaria 95 anos em 2014, que ainda marca os 35 anos de fundação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro.

Giovane Aguiar, diretor do Festival Interna-cional da Novadança, foi pioneiro na difusão e produção de videodança no país: média de público de 5 mil pessoas
 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA PRESS)
Giovane Aguiar, diretor do Festival Interna-
cional da Novadança, foi pioneiro na difusão
e produção de videodança no país: média
de público de 5 mil pessoas
A tradição buscada por Gisele se alia à inovação trazida por Giovane Aguiar na dança em Brasília. O Festival Internacional da Novadança, criado e dirigido por ele, foi um dos pioneiros na difusão e no incentivo da produção de videodança no país. Além de oferecer mostras de filmes no festival, aliando dança e tecnologia, a programação de espetáculos busca trazer à capital do país o que há de mais inovador no mundo. “A dança contemporânea feita até o início dos anos 2000 era muito contemplativa. Com a novadança, o movimento no espaço passa a ser influenciado pela resposta do público. Por isso, a improvisação é muito presente”, explica Aguiar.

Quando o festival foi criado, em 1996, a improvisação ainda era muito usada em pesquisas, mas pouco incorporada a espetáculos. “Quando (o festival) começou, foi muito revolucionário,  no sentido de que vieram pessoas trazendo linguagens e propostas que eram totalmente novas para a cidade. Então, os grupos de dança de Brasília mudaram muito ao longo desses anos”, afirma o diretor. A cada ano, o festival contabiliza uma média de cinco mil pessoas e, para 2014, estão previstas cerca de dez apresentações.

VERBAS PARA A CULTURA

Em Brasília, o fomento da política cultural conta com instrumentos como a dotação orçamentária em si, emendas parlamentares e o Fundo de Apoio à Cultura (FAC) – composto por 0,3% da receita corrente líquida do GDF. Em janeiro de 2013, foi sancionada a Lei de Incentivo à Cultura, que prevê descontos no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e Imposto sobre Serviços (ISS) para empresas que investirem em projetos culturais. Na ocasião, foi estimada uma verba extra de R$ 50 milhões para a cultura, a partir da iniciativa. No entanto, a lei ainda não foi regulamentada.

Segundo o subsecretário de Políticas e Promoções Culturais da Secretaria de Cultura do DF, Dorival Brandão, o apoio aos grandes eventos integra a política cultural do governo. “Temos festivais que acontecem em parceria com a secretaria e também temos investido na circulação artística a partir do FAC, que funciona por meio de editais e é uma maneira republicana da política desses recursos”, afirma Brandão. Em 2013, o fundo contemplou 272 projetos, que somaram um investimento de R$ 36,1 milhões – desses, R$ 2,4 milhões foram destinados a eventos consolidados (com mais de 10 anos), em que se encaixam alguns festivais internacionais. Do total dos recursos, 27,47% foi investido em projetos relacionados a música e 24,74%, em cinema/TV. Para receber investimento, projetos apresentados ao FAC passam por avaliação.

 

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017