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NAS TELAS | JOSÉ JOÃO RIBEIRO »

Deserto para os românticos

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:05/05/2014 10:31Atualização:05/05/2014 11:23
Filmes como Diário de Uma Paixão, que revelaram ao mundo talentos como Ryan Goslin (foto), não teriam o mesmo resultado de bilheteria: romantismo em baixa (Playart/Divulgação)
Filmes como Diário de Uma Paixão, que revelaram ao mundo talentos como Ryan Goslin (foto), não teriam o mesmo resultado de bilheteria: romantismo em baixa
O fraco desempenho nas bilheterias tem prejudicado os investimentos dos estúdios nas fitas caracterizadas pelo romance rasgado. Um filme bem açucarado como Diário de Uma Paixão, de 2004, que revelou para o mundo o ótimo Ryan Gosling, não teria o mesmo resultado, passados dez anos do seu lançamento. Bons filmes, assumidos por respeitáveis diretores, que privilegiam as histórias de amor, não têm conseguido atrair o interesse do público. E a tendência, talvez muito precipitada, seja apimentar o gênero, tão marcante para a sétima arte.

Um exemplo emblemático dessa atual e injusta rejeição das produções românticas foi a inspirada adaptação que o diretor Jason Reitman fez do best-seller da autora Joyce Maynard, Labor Day, que no Brasil recebeu o título de Refém da Paixão. O magnífico trabalho do elenco, encabeçado por Kate Winslet e Josh Brolin, não foi suficiente na sustentação do lucro, para a trama de uma dona de casa sequestrada, com seu único filho, que se apaixona por seu misterioso e carismático algoz. Nem mesmo se cogitou uma indicação no Oscar para Kate Winslet, em uma das mais elogiadas interpretações do ano passado.

Na comemoração do Dia dos Namorados nos EUA, o Valentine’s Day, em 14 de fevereiro, os lançamentos pensados para a data não surtiram os impactos do passado, como é o caso do assumido e estratégico Amor sem Fim (Endless Love). Todo estilizado, com fotografia de novelão e com elenco peneirado de beldades, o filme foi um retumbante fracasso. Com isso, a data de estreia no Brasil foi empurrada, obviamente, para o 12 de junho, na tentativa de que, em alguma parte do mercado internacional, aconteça um bem-vindo apelo.

Na ordem de enxugar os custos, faz uma imensa falta ao cinema os antigos romances de saga, à la Doutor Jivago e E O Vento Levou, uma excelente opção para levantar essa variedade de longas-metragens. Já falecido, um dos últimos que mergulhava nesse tipo de empreitada, o inglês Anthony Minghella, sabia dirigir megaprojetos como poucos. Ao cinemão clássico, com dramas antigos de amor, Minghella deixou um valoroso legado, com obras sensíveis como O Paciente Inglês e Cold Mountain em plenos anos de tanta pressa.

Com a intenção de afastar o fantasma do prejuízo e aguçar o interesse de uma novíssima plateia, Hollywood repensa o gênero dos casais apaixonados. À primeira vista, comédias mais apimentadas e adaptações literárias de cunho sexual devem se espalhar pelas próximas temporadas. A cartada definitiva já foi dada, com a escolha para o lançamento (muito aguardado), que inicia a adaptação do fenômeno Cinquenta Tons de Cinza, para as telonas, pelas mãos da cineasta Sam Taylor-Johnson, no próximo Valentine’s Day 2015. Fica a torcida para que a qualidade, o sentimento e o encanto do romantismo não se transformem na mais vulgar e barata moeda de troca.
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017