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Cachos soltos

A popularidade de sites e perfis nas redes sociais com mulheres que resolveram se libertar das regras do cabelo liso demonstra mudanças no comportamento - e na cabeça - do público feminino

Adriana Caitano - Publicação:07/05/2014 14:14Atualização:07/05/2014 15:47

Janaína Braga diz que estava sempre insatisfeita tentando ter o cabelo liso: 'Agora eu me sinto bem mais livre, bonita e feliz', diz a recém-libertada da chapinha (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Janaína Braga diz que estava sempre insatisfeita tentando ter o cabelo liso: "Agora eu me sinto bem mais livre, bonita e feliz", diz a recém-libertada da chapinha
“Em terra de chapinha, quem tem cachos é rainha”, diz o nome de um dos populares perfis do Facebook destinado a mulheres que resolveram nadar contra a corrente, desafiar os padrões de beleza e assumir de vez os naturais cabelos cacheados. É da internet que vêm o principal estímulo e as dicas que elas utilizam para enfrentar o que antes as impedia de soltar as ondas ao vento: o preconceito. Mais do que quebrar o protocolo, elas encaram a atitude como sinônimo de liberdade e elevada autoestima.

Desde criança, aos primeiros sinais de que suas madeixas teimavam em se desprender do couro cabeludo, elas aprenderam que existiam no mundo apenas dois tipos de pessoas, as de cabelo bom e as de cabelo ruim, como ainda costuma ser rotulado o fio crespo. Quem não tinha os fios lisos, pena, teria de se adequar. Era aí que, mesmo com pouca idade, elas eram submetidas a intensos e agressivos tratamentos químicos que prometiam deixá-las dentro do padrão.

Essa é a história, por exemplo, da química Janaína Braga, de 25 anos. Aos 8, ela teve os fios alisados pela primeira vez e, dependente do produto, só se livrou dele em agosto de 2012, quando decidiu mudar. “Tudo o que eu fazia não tinha mais efeito, um custo alto no salão. E gastava dinheiro à toa, porque estava sempre insatisfeita com meu cabelo”, comenta.

Aos poucos, ela foi cortando a parte que não era natural até ter os fios uniformes. O chamado processo de transição durou cerca de um ano, até ela se acostumar com o novo visual. “Agora eu me sinto bem mais livre, bonita e feliz, as pessoas estão elogiando, me dizem que estou melhor”, descreve.

Aracéli Tomasi não tem mais tanto trabalho  para desembaraçar o cabelo da filha Natália:  'Ela antes queria liso igual ao das colegas  da  escola, mas, com o corte certo, ela se sentiu  bonita assim', conta a mãe (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Aracéli Tomasi não tem mais tanto trabalho
para desembaraçar o cabelo da filha Natália:
"Ela antes queria liso igual ao das colegas da
escola, mas, com o corte certo, ela se sentiu
bonita assim", conta a mãe
Os fabricantes de alisantes que se cuidem. O número de mulheres como Janaína, que estão encerrando seu relacionamento com o cabelo artificialmente liso e a chamada “chapinha”, é cada vez maior. Ainda não há estatísticas, mas a popularidade de sites e perfis nas redes sociais denota que algo tem mudado na cabeça do público feminino.

Páginas como o Parei de Usar Chapinha” acumulam milhares de seguidoras. A blogueira Rayza Nicácio virou uma celebridade na rede por ensinar as mulheres com cachos a cuidar dos cabelos e até a cortá-los sozinhas em vídeos tutoriais, alguns chegam a 300 mil visualizações.

Outro perfil na rede social, o Truques de uma Cacheada, da consultora de vendas Morgana Gonçalves, tem quase 12 mil seguidoras. Ela conta que, desde 2012, ajuda meninas que, como ela, passaram pela transição entre alisamentos e os cachos assumidos, fase em que muitas quase desistem. “Eu ensino como fazer para ficar diva nesse período, minha maior realização é ver meninas que eram escravas de produtos químicos se tornarem livres, aceitando sua verdadeira identidade, sinto gostinho de missão cumprida”, relata a pernambucana.


Em Brasília, a proliferação de cachos já é nítida em quase todos os ambientes. As cacheadas, principalmente as recém-assumidas, estão nas principais badalações da cidade e há alguns eventos em que elas dominam, como a festa Melanina, que acontece periodicamente há mais de dois anos.

A cabelereira Isabela Ferrugem tem a agen-  da sempre cheia por ter se especializado em  cachos: 'Assumir o cabelo é uma questão de  atitude. O cacho natural e volumoso dá a im-  pressão de poder' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
A cabelereira Isabela Ferrugem tem a agen-
da sempre cheia por ter se especializado em
cachos: "Assumir o cabelo é uma questão de
atitude. O cacho natural e volumoso dá a im-
pressão de poder"
'Eu me sinto menos oprimida pelos padrões  estéticos', comenta a estudante Stela Regina  Lopes, frequentadora do Afro Nzinga, primei-  ro salão de Brasília focado em cabelos crespos (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"Eu me sinto menos oprimida pelos padrões
estéticos", comenta a estudante Stela Regina
Lopes, frequentadora do Afro Nzinga, primei-
ro salão de Brasília focado em cabelos crespos
De cabeça erguida e sem o menor pudor, do penteado preso até o chamado black power, elas demonstram que aquela história de “cabelo ruim” ficou no passado. No grupo do Facebook Crespas e Cacheadas do DF, elas organizam reuniões para troca de experiências e dicas. “Virou uma comunidade, vemos outra cacheada na rua, sempre há a troca de sorrisinhos, comemoramos a libertação da outra”, destaca Janaína Braga.

No Brasil, o que não faltam são referências. A cantora Vanessa da Mata e as atrizes Camila Pitanga, Thaís Araújo, Patrícia Pillar, Ana Paula Arósio, Paloma Bernardi e Débora Nascimento são algumas das estrelas que fazem questão de desfilar com as ondas naturais e acabam inspirando as fãs. “Aprendi a lidar com meu cabelo depois que aceitei meu tipo de beleza. Quando você assume seus cachos, a escova vira uma opção, não uma obrigação. Quanto mais juba, melhor”, disse Débora Nascimento em entrevista recente.

No DF, há uma fila de mulheres querendo aumentar o volume dos cabelos. A cabeleireira e DJ Isabela Ferrugem vive de agenda lotada e, por ter ajudado dezenas de cacheadas a se apaixonarem por suas ondas, acabou virando especialista e referência nesse tipo de corte. “Elas saem daqui mais felizes ao descobrirem que há opções e, se depender de mim, vou convencer uma a uma a perceber que assumir o cabelo é uma questão de atitude e que o cacho natural e volumoso dá a impressão de poder”, diz.

Um dos resultados de que Isabela mais se orgulha é o visual novo da pequena Natália Tomasi de Lima, de 8 anos. Cansada do trabalho que tinha ao desembaraçar o cabelo da filha, a mãe, a fisioterapeuta Aracéli Tomasi, fez relaxamento para alisar suas madeixas. “Ela antes queria liso igual ao das colegas da escola, mas, depois do corte, ela ficou mais feliz, se sentiu bonita”, conta a mãe, que está em processo de transição para também soltar a cabeleira.

Débora Nascimento declarou publicamente  seu amor pelos cachos: 'Quando você assume  seus cachos, a escova vira uma opção, não  uma obrigação. Quanto mais juba, melhor' (Divulgação)
Débora Nascimento declarou publicamente
seu amor pelos cachos: "Quando você assume
seus cachos, a escova vira uma opção, não
uma obrigação. Quanto mais juba, melhor"
Isabela Ferrugem lembra que a personagem Valente, do filme da Disney de mesmo nome, inspira meninas mais novas a assumir os cachos desde cedo. A menina ruiva solta o volume dos fios quando resolve viver as próprias aventuras.

Mas a libertação de alisamentos não tem idade. A professora Luzinete Almeida da Silva passou a vida tentando esconder o cabelo natural, com relaxamento, escova ou rastafári. “Minha mãe dizia que meu cabelo era alto e assanhado, aí eu disfarçava, mas não me sentia eu mesma”, relata. “No ano passado, soltei os cachos e, além de ver que era mais fácil cuidar, me achei linda.”

Ela e a estudante Stela Regina Lopes, que fez um corte radical – o chamado big chop – para deixar o fio natural ganhar volume para um black power, frequentam o Afro Nzinga, primeiro salão de Brasília destinado apenas a cabelos crespos. Depois de aprenderem a cuidar das próprias madeixas, elas visitam a cabeleireira Maria das Graças Santos, proprietária do estabelecimento há 21 anos, apenas para comprar produtos, pegar dicas e fazer penteados. Elas já entenderam que o segredo do cabelo cacheado e crespo é a hidratação. “Eu me sinto menos oprimida pelos padrões estéticos”, comemora Stela.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017