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ENTREVISTA | Pedro Simon »

"Time (PMDB) que não joga não tem torcida"

Eleitor declarado de Marina Silva, o senador gaúcho Pedro Simon admite encerrar a carreira política no fim deste mandato. Sem ilusões, acredita que "bons homens já morreram" e não poupa críticas nem ao próprio partido

Teresa Mello - Publicação:08/05/2014 09:32Atualização:09/05/2014 12:51

No gabinete, o senador divide-se entre  dois  amores: o Brasil ético 
e a coleção de  imagens de São Francisco (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
No gabinete, o senador divide-se entre
dois amores: o Brasil ético e a coleção de
imagens de São Francisco
Descendente de libaneses, Pedro Simon nasceu em Caxias do Sul (RS), mas não toma chimarrão. Aos 84 anos, casado, três filhos e uma neta, repassa 60 anos de vida pública, pontuada por fatos de destaque, como o movimento das Diretas Já, a campanha pela Anistia, pelo fim da tortura e da censura.


Hoje, o senador pelo PMDB vê com desgosto a atuação dos parlamentares e admite: “Nós fracassamos”. Sobre a compra da refinaria no Texas pela Petrobras, o assombro é ainda maior. Para ele, o fogo começou a arder quando a estatal deixou de exercer a vocação técnica para se politizar. Era incêndio anunciado.
O alívio chega graças à fé, à ética e à família, tripé que o sustenta pelos corredores largos do Senado e pelas estradas, às vezes, imprevisíveis da vida, como relata nesta entrevista a Encontro Brasília.

O senhor vai mesmo abandonar a vida política depois de 60 anos de carreira, iniciada nos movimentos estudantis e como vereador de Caxias do Sul?
A minha disposição é a de não concorrer à reeleição. Já dei meu trabalho, minha colaboração. Faço 85 anos no dia em que terminar o mandato (31/01/2015), 60 anos de vida pública e 32 anos de Senado. Mesmo não sendo candidato, pretendo fazer a campanha para Marina Silva e Eduardo Campos à presidência da República. Depois, vamos ver.

O que é a política para o senhor: um vício, uma paixão, uma necessidade?
Para mim, foi uma fatalidade.

Por quê? Seu pai queria que o senhor fosse médico, não é?
Eu seria um bom médico, um bom advogado. Eu fui deputado estadual (MDB, 1963) e terminaria ali. Mas, com a ditadura, caiu uma hecatombe, cassaram todo mundo, me botaram na frente e eu não pude sair. Até hoje, eu não pude sair. Desde cedo, entrei na vida estudantil, na UNE. Eu era um gurizinho quando Getúlio Vargas fez um comício na minha terra. Na morte de Getúlio, eu assisti a discursos de Tancredo Neves, de Oswaldo Aranha; na eleição de Juscelino, eu era presidente de centro acadêmico e fizemos um debate com os jovens de Porto Alegre e com Plínio Salgado, Adhemar de Barros. Existe uma foto de Juscelino, presidente, e de mim, ainda estudante, no Memorial JK, 60 anos atrás. Eu organizava a Semana Interamericana de Estudos Jurídicos e Sociais, aluguei um hotel inteiro por 10 dias e não tinha um tostão. O Paschoal Carlos Magno, homem de teatro, era um dos assessores de JK e me levou até ele. Eu disse: “Presidente, vai ser um congresso fundamental, vai reunir gente do mundo inteiro, etc., etc.”. E ele brincou: “Paschoal, é a obra mais importante do meu governo, você não me disse nada e precisa vir esse menino aqui me dizer?”. Eu morri de vergonha, mas JK me deu o dinheiro.

Em seu novo livro, Fé e Política, o senhor diz que o momento atual é o de defesa da ética, porque a falta dela é o maior mal da atualidade. E vem à tona o escândalo da Petrobras.
Neste momento, nós estamos atingindo o clímax com esse caso da Petrobras, a empresa mais amada, mais querida, fruto do nosso suor. Primeiro, disseram que nosso país não tinha petróleo, depois, foram ver, era lá no fundo, foi uma grande vitória. Politizar a empresa e dar emprego como se os nomes saíssem de uma caixinha é um descrédito. A classe política toda está no limbo. Vai haver um confronto entre PT e PSDB e eu não sei como terminará essa CPI.

'A melhor interpretação que se pode ter  da Dilma, com esse fato da Petrobras, é  de que ela é incompetente, fraquinha,  não tem capacidade' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"A melhor interpretação que se pode ter
da Dilma, com esse fato da Petrobras, é
de que ela é incompetente, fraquinha,
não tem capacidade"
O senhor é a favor da CPI?
Comissão Parlamentar de Inquérito é uma arma da minoria em qualquer país do mundo. A prova de que existe democracia é que um terço dos parlamentares pode criar uma CPI. É preciso ainda ter um fato determinado e um prazo de 180 dias. Instalada, o presidente pede para os partidos indicarem integrantes. A oposição vai indicar um terço, e os partidos do governo, dois terços. O presidente da CPI vai ser do governo; o relator, do governo; a maioria, do governo. E, como o comando é da maioria, a maioria pode fazer o que quer.

Essa compra da refinaria texana pode minar as chances de Dilma à reeleição?
Esse negócio da Petrobras é um assunto muito sério. O primeiro problema foi que politizaram a Petrobras, os cargos foram dados em leilão. Assim como, hoje, o governo tem 39 ministérios, porque, como tem 35 partidos, tem de dar um ministério para cada um, quem não ganhou ministério recebeu uma diretoria da Petrobras. O Collor mesmo indicou três diretores das agregadas da empresa. Então, ela deixou de ter um comando central, uma organização e uma linha a seguir. Vive hoje um momento muito grave, muito difícil. Hoje, o valor das ações da estatal no mercado é metade do que era três anos atrás.


O que precisa ser feito?
É preciso uma análise profunda para ver o que aconteceu. Nós estamos vendo um bate-boca. A Dilma, na época da compra da refinaria no Texas, era presidente do conselho, que é o órgão mais importante. Ela presidiu essa reunião, deu o primeiro voto, e os outros votaram de acordo com ela. É preciso fazer uma limpa na Petrobras, um debate, um esclarecimento. Não pode ter cargo que se dá para companheiro político. É cargo técnico, com responsabilidade técnica. Era assim. É a primeira vez que tem uma realidade triste como essa na Petrobras. Em vez de fazer do caso palanque eleitoral, podíamos partir para uma terceira via, a do entendimento.

O senhor acredita que “os bons homens já morreram”, citando Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Miguel Arraes, Mário Covas. Quem admira atualmente?
Dê-me nomes que estejam à altura desses aí. Eu não vejo no Senado nem na Câmara algum parlamentar que os substitua. Nem nos governos de estado nem nas chefias de partidos. Por exemplo, a Dilma. Ela vendeu, e o Lula vendeu, que ela tinha uma capacidade de gerência espetacular. Votei nela no segundo turno; no primeiro, na Marina. A melhor interpretação que se pode ter da Dilma, com esse fato da Petrobras, é de que ela é incompetente, que ela é fraquinha, não tem capacidade. Uma presidente do Conselho da Petrobras comprar uma empresa de US$ 1 bilhão e errar porque o resumuzinho não veio direito? Então pede para ver, não vai revisar? E aqueles empresários que estavam ali, se fosse para comprar para eles, não iriam verificar duas vezes?


Como avalia o governo Dilma Rousseff?
O discurso do PT está superado. São 12 anos e o PT está aí, a cada dia mais, querendo tirar a Dilma para botar o Lula. E o Lula terminou o mandato dele com a condenação do Mensalão e ele está respondendo a um processo no Supremo. Está lá na gaveta, mas ele foi denunciado. O Lula fez coisas boas no governo dele: o Bolsa Família foi bom, uma nova classe pobre deu um passo adiante. Não dá para negar, mas, na base da ética e da moral, foi horrível, cheio de corrupção, de falta de pudor.

'Ninguém pode esperar que saia a reforma  política no Congresso Nacional. Nós fracas- samos. Chegamos a uma situação de incom-  patibilide. Há falta de competência' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"Ninguém pode esperar que saia a reforma
política no Congresso Nacional. Nós fracas-
samos. Chegamos a uma situação de incom-
patibilide. Há falta de competência"
O que aconteceu com a oposição no Brasil?

O PSDB nunca conseguiu ter discurso de oposição porque ficou oito anos no governo Fernando Henrique. E o PT seguiu os passos do PSDB e aprofundou. Nada mais igual do que o Fernando Henrique no governo do que o Lula no governo com o PT. FHC privatizou a Vale do Rio Doce, a maior empresa brasileira depois da Petrobras. Deu de graça. E o PT, que era um grande partido na oposição, foi para o governo e está pior do que o de Fernando Henrique. O PT reclamou que privatizaram a Vale e agora o PT não está privatizando os aeroportos, não quer privatizar os portos? Pelo amor de Deus! Depois da ditadura e até hoje, o que teve de positivo foi Itamar Franco, com a dignidade, a moralidade, a seriedade do governo dele, de dois anos e oito meses, e com o Plano Real. Isso ele fez.

E o PMDB?
O PMDB, infelizmente, não diz nada. Era o maior partido do Brasil. Teve uma época, em 1986, em que todos os governadores eram do partido, menos o do Sergipe. Na Constituinte, tínhamos maioria absoluta de senadores e de deputados, mas fomos nos desagregando e viramos um partido secundário, uma tábua auxiliar do Fernando Henrique, do Lula e da Dilma. Acho que o vice-presidente, Michel Temer, está fazendo um bom trabalho e tem ajudado muito. O partido, há 20 anos, não tem candidato à presidência, e time que não joga não tem torcida.

Na época das Diretas Já, durante aquela ebulição toda, o senhor sofreu a perda de um filho e, no ano seguinte, da sua primeira mulher. Como sobreviveu a tanta dor?
Foi difícil, né? Foi difícil, porque... (pausa). Nós registramos a candidatura do Dr. Tancredo na Mesa do Congresso, porque a eleição era indireta e coincidiu com o feriadão de Finados. Naqueles dias em que o Congresso ia parar, a mesa se reunia e nós tínhamos medo de que a candidatura não fosse registrada. Eu fiquei de plantão em Brasília para garantir. Nós tínhamos combinado de ir para a praia e minha mulher foi com os três filhos. Quando saíam de carro, os dois mais velhos ficavam disputando pra sentar na frente, e o Mateus sempre viajava no banco de trás. Nessa vez, ela se irritou com a briga e chamou o Mateuzinho para ir na frente. Naquela época, não se usava cinto de segurança. Ela se acidentou, foi um acidente bobo, mas meu filho de 10 anos morreu. Minha mulher teve uma depressão longa e também morreu. Foi uma coisa tão trágica que eu fiquei seis meses sem sair de casa. Até que os médicos, os psiquiatras, me alertaram: ‘Você perdeu a mulher e o filho, mas os seus dois filhos que estão aí você vai perder também e a culpa vai ser sua’. Foi um choque, e eu me assustei mesmo. Deus me deu forças para superar o trauma e eu saí candidato ao governo do Rio Grande do Sul.

'Na primeira eleição do Lula, quem ganhou  foi o (publicitário) Duda Mendonça, que  pegou aquele Lula gordão, barbudo,  esculhambado 
e que perdeu três eleições  e o transformou no Lulinha Paz e Amor' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"Na primeira eleição do Lula, quem ganhou
foi o (publicitário) Duda Mendonça, que
pegou aquele Lula gordão, barbudo,
esculhambado e que perdeu três eleições
e o transformou no Lulinha Paz e Amor"
O senhor é católico, devoto de São Francisco. Segundo a revista The Economist, o papa Francisco seria um ótimo CEO de uma grande empresa. Como vê essa renovação da Igreja?

O papa Francisco foi uma bênção de Deus. A fé vive uma crise no mundo inteiro, um descrédito. Nos países da Europa, na Alemanha, por exemplo, o número de cristãos, católicos, luteranos, está diminuindo por causa da indiferença. Não acreditam em nada. Na Suécia, na Holanda, na Noruega, na Alemanha, a população tem boa casa, comida, educação, saúde, então, Deus fica pra lá. Eles vão ficando agnósticos. O papa Francisco vem dar um valor novo à nossa religião. Existem coisas graves, como a pedofilia, além do afastamento do Vaticano do mundo atual. Ele era cardeal de Buenos Aires, morava em apartamento comum, pegava bonde, ia aos bairros, às vilas, conversava com as pessoas. Agora, usa um anel simples e sapatos também. E praticamente fechou o banco do Vaticano, aquela bandalheira. É a primeira figura de destaque que apareceu neste terceiro milênio.

O novo livro é dedicado aos jovens. Por quê?

Nesta minha legislatura, eu tenho me dirigido muito aos jovens, tenho me preocupado muito com eles porque cheguei à conclusão de que a nossa geração, a classe política, nós não temos saída. Ninguém pode esperar que saia a reforma política no Congresso Nacional. Nós fracassamos. Chegamos a uma situação de incompatibilidade, de falta de competência, falta de caráter, falta de tudo. Nada vai adiante. Tivemos uma Constituinte bonita, feita no amor, não na guerra ou na morte. Eu comandei, no MDB, com o Dr. Ulysses, esse movimento das Diretas Já, da Anistia, da Assembleia Nacional Constituinte, do fim da tortura, do fim da censura, tudo isso deu certo, chegamos lá.

O que o eleitor deve fazer para votar bem em outubro?
Não é fácil a missão do eleitor. O pleito vai ser muito complicado. Mas, hoje, com a Lei da Ficha Limpa, que vai vigorar nesta eleição, está melhor, porque os condenados, os que têm ficha na cadeia não podem ser candidatos. Antes, o parlamentar só era condenado em última instância. Levavam-se anos, e o crime caducava. O outro é o Mensalão. O Supremo nunca havia cassado um deputado. Nós temos o foro privilegiado, e o processo ficava na gaveta do Supremo a vida inteira. Isso mudou, porque a gurizada foi para a rua protestar. E foram para cadeia presidente do PT, ministros, José Dirceu, presidente da Câmara...

A Lei do Marco Civil da Internet, sancionada em abril, pode influenciar nesta eleição?
É um outro aspecto novo e pode ser um complicador. O PT pegou 120 mil jovens para serem militantes eletrônicos: defender o PT e esculhambar os outros. E os demais partidos estão fazendo a mesma coisa. Uma coisa que existe nos EUA e devia ter aqui são os debates entre os candidatos à presidência cara a cara. É o que define a eleição. No Brasil, o que decide eleição é quem tem a melhor empresa de publicidade. Todo mundo sabe que, na primeira eleição do Lula, quem ganhou foi o Duda Mendonça, que pegou aquele Lula gordão, barbudo, esculhambado e que perdeu três eleições e o transformou no Lulinha Paz e Amor.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017