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Mês das mães | Capa »

Nascidas em Brasília

A primeira geração de mulheres que vieram ao mundo em solo candango já é avó. Mães e filhas contam como é viver a maternidade em diferentes fases da capital

Dominique Lima - Redação Publicação:09/05/2014 12:22Atualização:09/05/2014 14:52

Aos 54 anos, Brasília é bisavó. Muitas de suas primeiras filhas, nascidas antes mesmo da inauguração ou no início da década de 1960, agora são avós. Elas cresceram brincando em meio às obras e desbravando o cerrado. Mais tarde, levaram as filhas para os amplos espaços dos pilotis e das áreas verdes de Lucio Costa. Agora, as duas gerações compartilham experiências sobre a maternidade em fases diferentes da capital.

O número de brasilienses natos cresce. De acordo com o Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem mais de 1,7 milhão de pessoas nascidas no Distrito Federal. Entre elas, estão os membros da família de Gábia Sales, de 49 anos. Ela tem três filhas, uma neta e um neto, todos brasilienses. Seguindo os passos dos patriarcas desbravadores, muitas das mulheres da família dela mudaram-se de Brasília para conquistar espaços em outras cidades, estados e países. Ficaram na capital Gábia e a filha mais velha, Talita, de 28 anos, que desbrava outro caminho: o da maternidade.

 Gábia Guimarães Sales, de 49 anos, com a  filha Talita Ribeiro, 
de 28, e os netos,  Isabela Ribeiro, de 2 anos, 
e Artur Ribeiro,  recém-nascido  
Lugares frequentados pela família ao  longo das três gerações: 
Parque da Cidade,  pontos turísticos diversos, entre eles a Praça 
 dos Três Poderes, Memorial JK, Espaço Lucio  Costa, entre outros.
  
Brasília por Gábia: 'Amo demais essa cidade,  seus prédios e pessoas. 
Meu maior orgulho é  apresentar a capital para os amigos que vêm  de fora.'    (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)

Gábia Guimarães Sales, de 49 anos, com a
filha Talita Ribeiro, de 28, e os netos,
Isabela Ribeiro, de 2 anos, e Artur Ribeiro,
recém-nascido

Lugares frequentados pela família ao
longo das três gerações:
Parque da Cidade,
pontos turísticos diversos, entre eles a Praça
dos Três Poderes, Memorial JK, Espaço Lucio
Costa, entre outros.

Brasília por Gábia: "Amo demais essa cidade,
seus prédios e pessoas. Meu maior orgulho é
apresentar a capital para os amigos que vêm
de fora."


Mãe de Isabela Ribeiro, de 2 anos, e Artur, de menos de 1 mês, ela conta que já vê os filhos viverem muitas das experiências infantis que vivenciou quando pequena, seja no Parque da Cidade, seja nas visitas ao zoológico, lugar preferido de Isabela, aonde vai sempre acompanhada dos avós. As lembranças de infância de Gábia também se encontram em muitos dos endereços que estão na memória da filha e na realidade dos netos, embora com algumas diferenças.

“Subia no foguete do Parque Ana Lídia, frequentava a Água Mineral. Quando mais velha, ia a pé do Cruzeiro até o Conjunto Nacional para namorar. Fui à inauguração da piscina de ondas, no Parque da Cidade, e ganhava roupas novas costuradas pela minha mãe todo ano para a Festa dos Estados”, relembra Gábia, hoje servidora pública da Polícia Federal.

Mãe e filha contam que estudaram em escolas classes do Distrito Federal e que consideram muito boa a educação que tiveram. Talita demonstra, no entanto, dúvida se os filhos teriam a mesma formação de gerações atrás.  “Realmente minha vida tem sido muito brasiliense. Brinquei de bola, andei de bicicleta, estudei na Universidade de Brasília (UnB), trabalhei em embaixadas e finalmente me tornei servidora pública da minha universidade”, conta Talita, que é formada em letras.

A família toda frequentava os espaços da UnB quando a filha mais velha passou no vestibular. Para Gábia, é desse orgulho, de ver a filha formada, que é feita a maternidade, além das muitas incertezas diárias. “São dois lados fortes, dois extremos. Um de plena alegria, o de gerar um ser, de ser parte dessa magia linda do universo. O outro da preocupação. O de saber que nem tudo está nas nossas mãos, dos perigos que os filhos passam”, explica.
No novo apartamento, decorado com delicadeza e salpicado de brinquedos infantis, Talita ouve a fala da mãe e completa a sua visão sobre a maternidade com o mesmo sorriso largo de Gábia: “Sobre ser mãe, só consigo enxergar a mudança para melhor na minha vida. É uma delícia”.

 Mônica Cardoso, de 45 anos, com a filha  Marianna 
Cardoso, de 24, e a neta Letícia  Cardoso, de 6 meses  
Lugares frequentados pela família: Parque  da Cidade, 
colina da UnB, 408 Norte, clubes  
Brasília por Mônica: 'A cidade passou de um  lugar de vida simples para uma cidade urbana  e complexa, ainda com oportunidades para  comerciantes e empresários.'   (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)

Mônica Cardoso, de 45 anos, com a filha
Marianna Cardoso, de 24, e a neta Letícia
Cardoso, de 6 meses

Lugares frequentados pela família: Parque
da Cidade, colina da UnB, 408 Norte, clubes

Brasília por Mônica: "A cidade passou de um
lugar de vida simples para uma cidade urbana
e complexa, ainda com oportunidades para
comerciantes e empresários."

A opinião é similar à visão de Mônica de Paula, de 45 anos. Mãe de Marianna Cardoso, de 24 anos, e Anna Carolina Cardoso, de 19, e avó de Letícia, de 6 meses, ela se preocupa com a violência que afetará a liberdade de sua neta. “Fui criada em espaços abertos e podia sair por aí sozinha. Minha filha cresceu num meio mais perigoso, em que eu preferia acompanhá-la. Minha neta vive num tempo em que estamos mais presos”, compara. Ela também acha que aproveitou, na juventude, uma época única da cidade. Mônica cresceu na 408 Norte, onde nasceu a banda brasiliense Capital Inicial. Viveu na companhia dos jovens da Colina e da cultura do rock, fez parte dos caras-pintadas.

Com um sotaque carregado de resquícios do som carioca, ela diz que acredita, no entanto, que, apesar dos problemas de cidade grande e das diferenças culturais entre gerações, os mesmos valores mantêm a família próxima. A brasiliense se diz muito feliz em ver que a filha cria a neta com o foco no desenvolvimento de princípios que contribuam com a sociedade, como a educação que recebeu. Um sentimento que descreve como a sensação de missão cumprida com relação a Marianna. “A religião também tem papel importante nesse processo”, acrescenta.

A filha, Marianna, revela que, apesar de não esperar ficar grávida apenas quatro meses depois de se casar, ela se surpreendeu com as descobertas que fez sobre si mesma a partir da maternidade. “Desde que soube da gravidez, passei a lutar pelo bem-estar da minha filha, preocupando-me com todos os cuidados do pré-natal, com o parto, com tudo o que possa fazer para garantir que ela tenha uma vida completa”, diz.

Para Mônica, ser avó tem sido uma experiência gratificante. Há uma liberdade maior, visto que as responsabilidades financeiras e os cuidados diários dão lugar à possibilidade de curtir o desenvolvimento da neta. “Tenho tempo para ser avó, bancária, padeira e comerciante”, comemora. O zelo e o amor pela neta são incontestes. Ao ver Letícia vindo em sua direção, as palavras se perdem e a voz diminui, o sorriso é inevitável e os braços se abrem para pegar o bebê no colo. A criança responde da mesma forma.

Elaine de Souza, de 50 anos, com as filhas  Nivaine, de 30, 
e Elaine, de 25, além das  netas, Pietra Sofia, de 2 anos, 
e Valentina  Liz, de 3 meses (filhas de Nivaine)
 
Lugares frequentados pela família: Parque  da Cidade, 
Jardim Botânico, Asa Norte, Pla-  naltina
 
Brasília por Elaine: 'A cidade que eu tanto  amo. Muito cresceu 
e muito melhorou, prin-  cipalmente no Entorno.' (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
Elaine de Souza, de 50 anos, com as filhas
Nivaine, de 30, e Elaine, de 25, além das
netas, Pietra Sofia, de 2 anos, e Valentina
Liz, de 3 meses (filhas de Nivaine)

Lugares frequentados pela família: Parque
da Cidade, Jardim Botânico, Asa Norte, Pla-
naltina

Brasília por Elaine: "A cidade que eu tanto
amo. Muito cresceu e muito melhorou, prin-
cipalmente no Entorno."
 Maria Luiza Dantas, de 54 anos, com a filha  Gabriela 
Dantas, de 30, e o neto Samuel,  de 5 anos
 
Lugares frequentados pela família: Parque  da Cidade, 
Esplanada dos Ministérios, Praça  dos Três Poderes
 
Viver em Brasília por Maria Luiza: 'Brasília  é uma cidade linda, 
onde se vê a história  acontecer.'   (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)

Maria Luiza Dantas, de 54 anos, com a filha
Gabriela Dantas, de 30, e o neto Samuel,
de 5 anos

Lugares frequentados pela família: Parque
da Cidade, Esplanada dos Ministérios, Praça
dos Três Poderes

Viver em Brasília por Maria Luiza: "Brasília
é uma cidade linda, onde se vê a história
acontecer."

O entusiasmo também é visível nos olhos de Elaine de Souza, de 50 anos, mãe de Nivaine Oliveira, de 30 anos, e de Elaine das Neves, de 25. “Fui muito precoce. Aos 19 anos, eu me casei; aos 20, tornei-me servidora pública e, aos 23 anos, era mãe de quatro crianças. Perdi dois filhos, um logo ao nascer e outra anos mais tarde, em um acidente. Tive muita sorte de ter o apoio da minha mãe, das filhas e do meu marido na época”, conta Elaine, a matriarca.

Agora, a vida ganhou um novo brilho, com a chegada das netas, Pietra Sofia, de 2 anos, e Valentina Liz, de 3 meses, filhas de Nivaine. “Ser avó é ter alegria de mãe duas vezes. Poder conviver com os netos, ver que criou as filhas bem e que elas agora cuidam dos seus filhos. É também amadurecer”, descreve.

Para Nivaine, a experiência da maternidade transformou a visão que tinha da mãe. Ela conta que sempre teve muito amor e respeito por Elaine, mas que as decisões da mãe fizeram mais sentido depois de ter as duas filhas. “Sempre admirei a iniciativa da minha mãe de propor atividades que envolviam contato com a natureza, por exemplo. Acho que é preciso haver equilíbrio de estímulos na criação dos filhos”, diz.

Unanimidade entre as mulheres da família Souza é o fato de a infância ter sido única porque foi vivida na capital federal, apesar dos anos de vida que as separam. Brasília tem um bem maior, que é o resultado positivo de todas as suas misturas. Assim acredita a matriarca Elaine, que considera o caldeirão cultural uma das maiores virtudes da cidade. As filhas concordam: “Muitas vezes, quando estou fora da cidade, sou reconhecida como brasiliense. Gosto muito quando isso acontece. Não me imagino morando em outro lugar”, diz Nivaine.

O senso de pertencimento à capital federal é compartilhado por Márcia de Paula, de 50 anos. Moradora do Riacho Fundo, onde trabalha, vive o sonho de infância de ser policial. Ela vê na atividade aspectos de cuidado que têm ressonância com a maternidade. Além das patrulhas, é responsável por projetos sociais com idosos e pessoas em situação de risco. Ela enxerga relação entre a criação que teve na capital federal e a escolha profissional. A vida em comunidade suscitou nela o desejo de ser protetora. Mas não foi apenas o sonho de uma carreira na polícia que Márcia conquistou. Ela também foi mãe cinco vezes e avó, duas.

Na infância, Márcia ouvia histórias de um pai candango apaixonado por Brasília e pela ideia da nova capital. Lembra-se da descrição do Fusca de Juscelino e da festa anual da CEB (Companhia Energética de Brasília), onde o pai trabalhava. “Uma vez, a Beth Carvalho cantou na festa. Foi um alvoroço”, conta, rindo.

A violência é o tema que diminui um pouco o entusiasmo dela. Márcia sabe que cresceu com liberdade e segurança, coisas que não existem mais. E reclama de não haver mais um senso forte de vizinhança e cidadania. “As pessoas ficam desconfiadas e fechadas. Os filhos e netos não usufruem da cidade livremente.”

A filha mais velha de Márcia, Taynan Caroline, mãe de Amanda, de 9 anos, e Guilherme, de 1 ano, concorda com a mãe e acredita que as infâncias vividas em cada geração são muito diferentes nesse sentido. Seus filhos, sem maior espaço para brincar como antes, fazem dos eletrônicos um refúgio. “O que eu vivi na infância era muito diferente. Se eu não brincava na rua, pelo menos usava o quintal. E jogava mais esportes”, opina. Ser mãe, no entanto, ainda é universal, igualmente grandioso em qualquer tempo e espaço. Ela ama tanto que é difícil, conta. Difícil de descrever e de sentir. “Ser avó é ser mãe com açúcar”, define Márcia.


Márcia de Paula, de 47 anos, com a filha  Taynan Caroline, de 22, e a neta Amanda,  de 9 anos
  
Lugares frequentados pela família: Parque  
da Cidade, Vila Planalto, Riacho Fundo
 
Brasília por Márcia: 'Cidade dos sonhos dos  meus pais, uma mistura de muitas regiões  do Brasil.' 
 (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)

Márcia de Paula, de 47 anos, com a filha
Taynan Caroline, de 22, e a neta Amanda,
de 9 anos

Lugares frequentados pela família: Parque
da Cidade, Vila Planalto, Riacho Fundo

Brasília por Márcia: "Cidade dos sonhos dos
meus pais, uma mistura de muitas regiões
do Brasil."
A experiência de ser avó mudou a vida de Maria Luiza Dantas. Conviver com os netos deu-lhe uma perspectiva diferente sobre as novas gerações. “Os meninos de hoje nascem com um chip a mais”, brinca. Apesar das inseguranças, Luiza é otimista e enumera as mudanças positivas. O desenvolvimento de Brasília é uma delas. Ela lembra que seus pais foram chamados de loucos quando decidiram se mudar para a nova capital. Ouviam piadas sobre morar no brejo, na poeira. A escolha da cidade, no entanto, trouxe muitas conquistas: carreira estável, casa própria e ambiente seguro para a criação dos filhos.

Servidora pública há 35 anos, ela conta que a Esplanada é um de seus lugares favoritos na cidade. As praças entre os ministérios, muitas vezes subestimadas, são pontos que ama visitar, levar a família. Os filhos, Gabriela e Mário André, participaram com ela ativamente desse convívio com a área administrativa da cidade, que vai além do usufruto de seus espaços. “Acredito na vocação social de ser servidora pública e acho que parte dessa missão é lutar por direitos dos cidadãos. Participei de muitas ações, manifestações e sempre levei minha filha comigo”, conta Maria Luiza. Talvez por isso Gabriela tenha escolhido seguir carreira policial.

Apesar de acreditar que as lutas travadas não atingiram ainda o objetivo de melhor serviço público para a população, para ela é difícil não manter uma atitude positiva. A maior razão para os rompantes de otimismo são os netos, Gabriel Dantas, de 12 anos, e Samuel, de 5. Os jovens, ainda na infância, são capazes de desvendar aquilo que a avó não consegue. São sensíveis a temas que não faziam parte da juventude da matriarca, como o cuidado com o meio ambiente e o respeito aos animais. Até a maneira como os netos usam as palavras, as discussões que levantam surpreendem Maria Luiza. “Convivendo com eles, fico mais sensível, sou uma pessoa melhor. E tenho esperança sobre a sociedade que eles podem construir. Tenho feito o melhor que posso. Mas logo será a vez deles”, diz.

Isabel Spina, de 56 anos, nascida em hospital improvisado no espaço que viria a ser a capital federal dois anos mais tarde, acredita que, a cada geração, a maternidade enfrenta diferentes desafios. Em Brasília, o crescimento da cidade transformou a realidade das mães que agora criam os filhos numa metrópole. Se há mais opções, há também mais violência, dificuldades na área de saúde, congestionamentos. Na época em que teve as filhas, no entanto, havia outros desafios. Casou aos 18 anos e foi mãe jovem, aos 19. Com 23 anos, Isabel tinha três filhas e teve de lidar com as dificuldades de conciliar a carreira e a criação das meninas. Deu um tempo nos estudos até que a mais nova completasse 5 anos. Voltou, então, para a faculdade, formou-se e passou num concurso público. Trabalha há 24 anos no Superior Tribunal de Justiça.

Isabel Spina, de 56 anos, com as filhas  Michelle, de 36, e Fernanda, de 34, e os  netos Isabella, de 16 anos, e Dante, de 2
 
Lugares frequentados pela família: Asa  Norte, 
Parque da Cidade, escolas Sagrado  Coração de Maria, Nossa Senhora do Carmo,  Santa Doroteia e Notre Dame
 
Brasília por Isabel: 'Foram muitas transfor-  mações. De uma cidade pequena para uma  enorme. Tenho orgulho de ser daqui.' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Isabel Spina, de 56 anos, com as filhas
Michelle, de 36, e Fernanda, de 34, e os
netos Isabella, de 16 anos, e Dante, de 2

Lugares frequentados pela família: Asa
Norte, Parque da Cidade, escolas Sagrado
Coração de Maria, Nossa Senhora do Carmo,
Santa Doroteia e Notre Dame

Brasília por Isabel: "Foram muitas transfor-
mações. De uma cidade pequena para uma
enorme. Tenho orgulho de ser daqui."
Aos 42 anos, Isabel tornou-se avó. A neta mais velha, Isabella, tem 16 anos. Também é avó de Edu, de 8 anos; Stela, de 3, e Dante, de 2 anos. “Uma das grandes vantagens de ser mãe e avó cedo é a possibilidade de ser amiga das filhas e dos netos. Podemos conversar, sair e curtir os mesmos programas. Sempre tive a cabeça muito aberta. Acho que porque vivi uma infância e adolescência presa”, considera. Com momentos mais fáceis, outros de dificuldade, Isabel sabe reconhecer as alegrias vividas. E seja qualquer qual for a idade, acima de tudo, o maior trunfo da maternidade, segundo ela, é acompanhar as conquistas das filhas.

As histórias diversas das gerações de mães brasilienses têm um passado em comum. Todas começaram na coragem dos pais, homens e mulheres candangos que deixaram suas terras e compraram o sonho de Juscelino. O pai de Maria Luiza Dantas, de 53 anos, veio do Rio Grande do Norte, de onde saiu com 15 anos e, depois de passar pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, veio parar em Luziânia (GO), onde conheceu a mãe dela, nascida e criada na roça. Quatro meses depois, estavam casados e vieram morar no Núcleo Bandeirante, onde Luiza nasceu logo após a inauguração de Brasília, em julho.

O pai comprou um lote em Taguatinga, construiu um barraco de madeira com sala, quartos e cozinha. “Lembro-me do piso vermelhão, que vivia brilhando, encerado; das conversas dos adultos, que citavam os nomes dos lugares que eram pontos de referência: o Bar Estrela, a Farmácia Virgem da Vitória, o Hospital São Vicente de Paula, a Casa Nordestina, o Mercado Norte, o Mercado Sul, o Magazine Bi-Ba-Bô, a Pioneira da Borracha, as feiras livres”, conta.

O pai de Isabel Spina veio de ainda mais longe, do outro lado do Oceano Atlântico. O italiano aportou no Brasil no início da década de 1950, casou-se com uma mineira e mudou-se para o canteiro de obras que viria a ser a capital federal em 1957. Na cidade, abriu uma das primeiras lojas de pneus e, viúvo cedo, criou os cinco filhos na quadra 712 Sul. O pai de Isabel faleceu há alguns anos. Da infância, ela guarda as lembranças da vida numa cidade que estava nascendo. “Lembro-me das brincadeiras na rua, de comprar doces na Biju Paulista e do grande vazio que era a Asa Norte”, diz.

“Meu pai, pioneiro de Brasília, chegou a conhecer Juscelino, a quem admirava muito. Meu nome é uma homenagem à filha do presidente”, conta Márcia de Paula, de 50 anos. Os pais mineiros compraram o sonho da nova capital e vieram para a Vila Planalto. O pai tornou-se servidor da CEB e a mãe, cabeleireira. Do interior de Pernambuco, o pai de Elaine de Souza veio para Brasília em 1958. As habilidades de mecânico foram muito necessárias na nova cidade. Dois anos depois, trouxe a mulher. Tiveram 15 filhos, dos quais seis sobreviveram. Elaine, nascida em 1964, é a terceira.

Alguns anos depois, em meados da década de 1960, os pais de Mônica Cardoso vieram para a capital. Carioca radicado em Leopoldina (MG), o pai foi da primeira turma do Corpo de Bombeiros a ser transferida para Brasília. Amante de música, ele foi maestro da banda do Corpo de Bombeiros do DF. Dos cinco filhos, apenas Mônica nasceu na capital federal, em 1969, mas hoje todos moram na cidade.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017