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MÊS DAS MÃES | COMPORTAMENTO »

Licença para mudar

A realidade de mulheres que descobriram a verdadeira vocação depois de ter filhos: além de mais tempo com os bebês, as novas profissões permitem que elas se sintam mais realizadas

Thaís Cieglinski - Redação Publicação:09/05/2014 15:36Atualização:09/05/2014 15:52

As sócias Romina Belotti e Maria Juliana Hosken dizem que são mães, antes de tudo: 'Essa é, e sempre será, a minha primeira profissão', diz Maria (dir.)
As sócias Romina Belotti e Maria Juliana Hosken dizem que são mães, antes de tudo: "Essa é, e sempre será, a minha primeira profissão", diz Maria (dir.)
A maternidade costuma despertar todo o tipo de dúvida na cabeça de uma mulher. Creche ou babá? Alopatia ou homeopatia? Deixar chorando no berço ou aninhar no colo? Nos últimos anos, no entanto, o desafio de manter a carreira depois de dar à luz tornou-se um dos principais dilemas. Preocupadas em trabalhar sem ter que abrir mão de estarem próximas dos rebentos, muitas mulheres têm feito adaptações na rotina ou simplesmente trocado de carreira.

“Sempre pensei que eu seria uma mulher de negócios antes de qualquer outro papel na minha vida, mas, hoje, sou mãe antes de tudo. Essa é, e sempre será, a minha primeira profissão”, conta Maria Juliana Hosken. Formada em educação física, ela hoje divide o seu tempo entre o filho Daniel, 1 ano e 9 meses , e a paixão pelo design de festas e de interiores. Há cerca de dois anos, ela deixou para trás uma carreira de seis anos como personal trainer e professora de natação e abriu, com uma sócia, o Arquitetas de Sonhos, um ateliê especializado em criar e executar projetos para festas de aniversário, casamento, chás de panela, batizados, além de quartinhos para bebês.

A ideia de aventurar-se em um novo mercado surgiu pouco tempo depois do nascimento do garoto. Seis meses antes de Daniel completar o primeiro aninho, Maria Juliana começou a planejar a comemoração. “Sempre fui apaixonada por decoração e arquitetura. Em festas e eventos da família, sou sempre a escalada para decorar e mimar as festas. Desenhei cada peça da festa, da decoração aos 2 mil docinhos”, lembra. Durante a preparação do evento, amadureceu a ideia de tornar-se uma empresária. “Nesse período, criei a marca, logo, site, blog, etiquetas e montei meu ateliê dentro de casa.”

 

Karla Torres é analista de sistemas e hoje traba- lha com doces, acompanhando o crescimento da  filha Luisa: 'A maternidade me trouxe uma  espécie de prudência na hora de fazer  minhas escolhas'
Karla Torres é analista de sistemas e hoje traba-
lha com doces, acompanhando o crescimento da
filha Luisa: "A maternidade me trouxe uma
espécie de prudência na hora de fazer
minhas escolhas"
Em pouco tempo, os primeiros trabalhos começaram a aparecer e a jovem mãe viu que precisava de ajuda para atender bem os clientes. E não foi difícil escolher a sócia, Romina Belotti. As duas se conheceram nas aulas de exercícios do pós-parto e logo perceberam que tinham muito em comum. “Vi muita semelhança com nossos projetos e visão artística, somado ao fato de estarmos passando por momentos muito parecidos em nossas vidas pessoais, com bebês da mesma faixa etária”, destaca Romina, mãe de Theo, 1 ano e 8 meses.

Advogada formada pela Universidade de Brasília (UnB) e com um curso de design de interiores no currículo, ela atua como técnica judiciária no Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios, mas sonha em deixar o serviço público para viver apenas dos trabalhos no ateliê. “A maternidade nos traz uma coragem e uma força antes, a vontade de sermos sempre o melhor que podemos para os nossos filhos. Foi a oportunidade de tirar da gaveta o meu sonho e executá-lo”, conta Romina.

Maria Juliana enumera as vantagens de ter o próprio negócio, como a possibilidade de administrar o tempo que dedica ao marido, ao filho e a casa. Mas, para ela, o grande benefício é mesmo estar mais próxima de Daniel, hoje. “Tenho a alegria de ver cada evolução do meu bebê, de poder levá-lo à natação, de sentar no chão para brincar e de amamentar até hoje. Certamente não seria assim se eu trabalhasse em uma empresa. Como autônoma, tenho essa liberdade”, pontua.

No caso de Luíza Diener, as coisas aconteceram quase que por acaso. Antes mesmo de engravidar do primeiro filho, Benjamim, hoje com 3 anos, criou um diário  virtual, o Potencial Gestante. “Curtia blogs sobre gestação e maternidade e queria, de alguma forma, pertencer a esse mundo. Nove meses depois, fiquei grávida”, conta a jovem, que cursou engenharia florestal na UnB, mas não concluiu a graduação. A página na internet, que começou com um hobby, passou a receber muitas visitas e, em pouco tempo, ofertas de patrocínio. “De maneira alguma pretendia e sequer pensava que um blog pudesse dar algum retorno financeiro. A ideia foi amadurecendo quando empresas começaram a me procurar para anunciar”, diz.

Luíza admite, no entanto, que o fato de querer ser mãe mudou suas perspectivas profissionais. “Vejo muitas pessoas que têm o plano de formar-se, arrumar um bom emprego na área, estabelecerem-se profissionalmente para só depois se casarem e, depois de curtirem casamento e carreira, terem filhos. Não vejo problema nisso, mas minhas expectativas sempre foram outras: casar-me primeiro, ter filhos, passar a primeira infância ao lado deles para então, quem sabe, pensar em carreira”, avalia. Além de textos sobre a rotina e os desafios da maternidade, o blog conta com uma loja virtual cheia de produtos fofos para bebês, pais e mães.

Luíza Diener fez um caminho diferente de outras jovens: quis casar-se primeiro, ter filhos, para depois pensar em carreira profissional
Luíza Diener fez um caminho diferente de outras jovens: quis casar-se primeiro, ter filhos, para depois pensar em carreira profissional
Enquanto para muitas brasileiras trabalhar em casa e conciliar o tempo com os cuidados dos filhos é uma novidade, fora do país o fenômeno consolidou-se nos anos 2000 e ganhou até nome: mompreneurs, que, em português, significa mães empreendedoras. São escritoras, webdesigners, promotoras de evento, fotógrafas, consultoras e estilistas. De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor 2013 – relatório que mapeia o nível de empreendedorismo no mundo –, a realidade de Maria Juliana, Romina e Luíza é cada vez mais comum no Brasil. Segundo a pesquisa, as mulheres são a maioria entre os empreendedores inicias brasileiro, representando 52,2% do total. Na Região Centro-Oeste, o índice supera a média nacional: 56,5%.

Os dados mostram que, depois de firmarem-se no mercado formal e conquistar bons salários, muitas mulheres lutam agora para conseguir mais qualidade de vida, o que inclui ter mais tempo ao lado dos filhos. Foi o que aconteceu com a analista de sistemas Karla Torres. Depois que a filha Luisa nasceu, em 2011, ela decidiu largar a carreira de 13 anos como servidora terceirizada em um ministério para dedicar-se à pequena. “Logo nos primeiros meses de vida dela, eu e meu marido começamos a pensar em como seria ideal que eu voltasse ao mercado de trabalho em uma atividade que desse para conciliar o papel de mãe e ao mesmo tempo ter uma fonte de renda e continuar a produzir”, diz.

Como sempre gostou de cozinhar, ela vislumbrou a possibilidade de abrir, em casa, uma confeitaria para produzir brigadeiros gourmet, cupcakes e docinhos de festa. Karla e o marido começaram a pesquisar sobre o mercado e concluíram que o negócio era viável, lembra. Após fazer alguns cursos de culinária, ela começou a receber as primeiras encomendas. “O negócio foi me envolvendo bastante e eu realmente me encontrei. Fiquei feliz, pois, consegui manter minha rotina com minha filha, amamentando, brincando com ela, tendo qualidade de vida e, aos poucos, conquistando o meu espaço no mercado de doces de Brasília.” Agora, ela já planeja abrir um ateliê da Kakau Gourmet. “A maternidade me trouxe uma espécie de prudência na hora de fazer minhas escolhas. Diante de qualquer proposta que recebo, o que vem primeiro é o que será melhor para mim e minha família”.

Mas nem tudo é cor de rosa no mundo das mães empreendedoras. Ter que lidar com as mudanças na rotina dos pequenos é um desafio para muitas delas, como confirma Maria Juliana. “Eu me estressava muito ter que fazer visitas, cumprir agenda de reunião com clientes, visitar o local do projeto, porque sempre levava o meu filho. Às vezes, pegava o horário do sono dele, ou ele ia de um canto a outro chorando no carro e, quando chegava ao local da reunião, eu tinha que amamentá-lo, acalmá-lo”, diz. O problema foi contornado com a divisão das tarefas com a sócia. Hoje, é Romina quem cuida do trabalho externo.

Mesmo para quem trabalha em casa, conciliar os dois mundos nem sempre é fácil. “É necessário ter muita disciplina, porque senão vira um trabalho sem fim. Licença maternidade, por exemplo, foi quase inexistente para mim. Os e-mails com trabalho chegam a todo instante, de manhã, à tarde, à noite, de madrugada, todos os dias da semana, incluindo feriados”, conta Luíza. A doceira Karla concorda, e conta que enfrentou momentos difíceis com o crescimento da empresa. “Em diversos momentos, precisei abrir mão do descanso ou do lazer com a família para trabalhar, mas sempre foi possível ter uma vida feliz e com qualidade.”

 

Para a pesquisadora do Centro de Pesquisa Aplicada da Mulher, Tânia Fontenele, 
as mães atualmente buscam satisfação profissional e o desfrute da maternidade
Para a pesquisadora do Centro de Pesquisa
Aplicada da Mulher, Tânia Fontenele, as mães
atualmente buscam satisfação profissional e
o desfrute da maternidade
EM BUSCA DE ALTERNATIVAS

O aumento da taxa de empreendedorismo feminino é um fenômeno nacional destaca Tânia Fontenele, economista, pesquisadora do Centro de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam). Para ela, o maior acesso à educação e ao mercado de trabalho e o sonho da maternidade é uma questão que vem inquietando a mulher de maneira mais intensa nos últimos 50 anos. “A mulher quer ascender na carreira e ter filhos, então busca mecanismos para ter a satisfação profissional e poder desfrutar a maternidade”, explica.


De acordo com a especialista, as facilidades do mundo de hoje impulsionam ainda mais essa tendência. “Claro que tudo depende da estrutura familiar, mas as novas gerações trazem propostas inovadoras e buscam alternativas. Hoje, os casais têm parcerias diferentes”, avalia.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017