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Nos tempos da Missão Cruls

Cento e vinte anos depois da expedição que demarcou o quadrilátero onde se instalaria a capital do Brasil, Encontro Brasília refaz parte do trajeto para mostrar a tradição que resistiu ao tempo

Renato Alves - Redação Publicação:13/05/2014 10:15Atualização:13/05/2014 13:35

Sessenta anos antes de Juscelino Kubitschek ordenar o início da construção de Brasília, um grupo de cientistas brasileiros e europeus desbravou o Planalto Central para registrar tudo o que havia na região e demarcar o quadrilátero onde deveria ser erguida uma cidade planejada, a nova capital do país. Feito de 1892 a 1894, sobre lombo de burro, contando apenas com o vasto conhecimento dos expedicionários e equipamentos rústicos, esse trabalho resultou em um precioso documento. Chamado de Relatório Cruls, ele contém mapas, descrições da fauna, da flora e das riquezas minerais da região, além de fotografias.

Casarão antigo em Formosa: existem pelo menos 390 edificações com mais de 100 anos e em estilo colonial, em um raio de até 200 km de Brasília (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
Casarão antigo em Formosa: existem pelo menos 390 edificações com mais de 100 anos e em estilo colonial, em um raio de até 200 km de Brasília
Composta por 21 pessoas, a Comissão Exploradora do Planalto Central ficou mais conhecida como Missão Cruls por causa do seu líder, o astrônomo e geógrafo belga Louis Ferdinand Cruls. Ela demarcou uma área de 14,4 mil quilômetros quadrados, considerada adequada para a futura capital, batizada de Quadrilátero Cruls. Décadas depois, outras expedições encarregadas de explorar e demarcar a área onde seria construída Brasília usaram os dados da Missão Cruls e atestaram a precisão das informações. Agora, 120 anos depois da confecção do Relatório Cruls, Encontro Brasília refaz parte do trajeto da missão pioneira.

Dentro do quadrilatéro demarcado por Cruls, resta pouco do registrado pela missão. Mas ainda há cenários e prédios iguaizinhos aos eternizados pelas lentes do francês Henrique Charles Morize.

Pouco antes da passagem da Missão Cruls, a escravidão movia a economia de boa parte do Brasil. Na segunda metade do século 19, Goiás vivia o ciclo de ouro. E esse período da história ainda está presente nos descendentes dos escravos, na culinária, nos casarões coloniais e em ruínas de megaconstruções erguidas com muito suor e sangue. Encontro Brasília contou ao menos 390 edificações com mais de 100 anos e em estilo colonial, em um raio de até 200 km de Brasília. São igrejas, casarões, presídios desativados e antigos armazéns. No DF, os prédios ficam em Planaltina e no Park Way. Em Goiás, eles estão nas áreas rurais e urbanas de Cidade Ocidental, Corumbá, Formosa, Luziânia e Pirenópolis.

Fachada do Museu Couros, em Formosa:  nome remete ao primeiro povoamento da  cidade (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
Fachada do Museu Couros, em Formosa:
nome remete ao primeiro povoamento da
cidade
O ex-marceneiro Leônidas da Silva Pires,  fundador do Museu Couros: 
em busca de  patrocínio para reabrir o espaço à visitação (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
O ex-marceneiro Leônidas da Silva Pires,
fundador do Museu Couros: em busca de
patrocínio para reabrir o espaço à visitação
Os primeiros povoamentos do Entorno surgiram em função da colonização das terras dos índios da etnia Goyá (grafia antiga) e da corrida ao ouro no Brasil. Mais antigo dos núcleos urbanos da região, Pirenópolis, distante quase 140 km de onde seria erguida a nova capital, começou a ser ocupado em 1727, quando bandeirantes portugueses fundaram as Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte. Os desbravadores já sabiam da existência do ouro, tanto que, logo após montar acampamento, se lançaram à cata do metal no leito do rio das Almas. Oriundos do Norte de Portugal, região do Porto, e da Galícia, em sua maioria, os portugueses logo trataram de construir casas e igrejas, formando um arraial. A ainda imponente Igreja Matriz, cartão-postal do município, eles construíram entre 1728 e 1731.

No mesmo período, bandeirantes rumavam para o que viria a ser Corumbá,  vizinha a Pirenópolis. Também atraídos pelo ouro, fixaram acampamento na margem esquerda do Rio Corumbá e, em 1730, fundaram o arraial de Nossa Senhora da Penha do Corumbá. Ergueram ranchos de pau a pique, com chão de terra batida e cobertura de palhas de buriti. Um deles virou capela. Os outros serviam de moradia aos bandeirantes e escravos. Coube aos negros plantar roças de cereais para abastecer o arraial. Acima dessas plantações, havia uma clareira na mata ciliar, onde hoje está a praça da Matriz, que servia de pasto aos cavalos.

Uma década depois, à procura de novas minas de ouro, o bandeirante Antônio Bueno de Azevedo partiu de Paracatu (MG), acompanhado de amigos e escravos, em direção a Goiás. Mas não tinha direção certa. Em 13 de dezembro de 1746, enquanto descansava às margens de um córrego, viu pepitas de ouro. No dia seguinte, ergueu um cruzeiro e dedicou as minas e o povoado a Santa Luzia, futura Luziânia. A notícia logo se espalhou. Em menos de um ano, o arraial tinha mais de 10 mil habitantes.

Como em Pirenópolis, a primeira grande edificação de Luziânia foi a igreja matriz, erguida em 1767. Mas só a população branca podia frequentá-la. Com isso, os negros construíram, em 1769, a igreja do Rosário. Os dois templos continuam de pé, mas apenas o dos negros mantém a estrutura original, restaurada  em setembro de 2013. Fica no ponto mais alto da rua do Rosário, onde se concentram os prédios históricos da cidade, hoje com mais de 160 mil habitantes.

Muito antes de atingir essa população, Luziânia viveu uma fuga em massa, devido ao declínio dos garimpos. A minoria branca ficou nas poucas casas do vilarejo e nas fazendas, que viviam da produção de cana-de-açúcar e da criação de gado. Os escravos formaram comunidades em volta delas. A mais famosa, a do Mesquita, fica na área rural da Cidade Ocidental, a cerca de 50 km de Brasília e a 25 km de Luziânia, onde descendentes dos senhores de engenho e dos escravos conservam a cultura dos ancestrais.

Na área rural da Cidade Ocidental, a menos de 50 km do moderno Plano Piloto, negros conservam hábitos dos bisavós. Criam frangos caipiras e porcos soltos, plantam milho e fazem doces em tachos de cobre no fogão a lenha. Em Luziânia, uma engenhosa obra para levar água ao município e uma igreja erguida e frequentada apenas pelos escravos continuam de pé. Em Pirenópolis, fazendas preservam instrumentos usados pelos funcionários traficados da África.

Mesmo construídos recentemente, os casa- rões guardam as características do ciclo do  ouro 
e da cana-de-açúcar: fachadas em cor  branca, janelões coloridos e grandes portas  de madeira (Monique Renne/CB/D.A Press)
Mesmo construídos recentemente, os casa-
rões guardam as características do ciclo do
ouro e da cana-de-açúcar: fachadas em cor
branca, janelões coloridos e grandes portas
de madeira
O povoado do Mesquita, na Ocidental, concentra algumas das mais fortes lembranças do regime escravocrata no Entorno. Lá, parte das 300 famílias negras vive como os ancestrais há 200 anos, sem luxo, conforto, assistência médica, comendo apenas o que tiram da terra, reconhecida como área remanescente de quilombo. O lugarejo cultiva goiaba, laranja, cana-de-açúcar e mandioca, entre outras culturas. Mas nenhuma é tão marcante como o marmelo, fruto usado na produção da marmelada, doce quase em extinção. O doce leva o mesmo nome: marmelada Santa Luzia — assim se chamava Luziânia, até 1943.

Dos tempos do arraial Santa Luzia, na área urbana de Luziânia, ainda há ruínas de uma grande obra de engenharia construída por 2 mil escravos no século 18. São nove dos 42 km de um canal feito para levar água de onde hoje é o Gama (DF) ao município goiano. Matas das encostas dos morros e serras da região do Entorno escondem os vestígios da construção bicentenária. A fenda tem 2 m de largura e 2,8 m de profundidade. O trecho preservado fica no Morro do Falcão, em Luziânia. Avistado de serras próximas, tem a forma de uma cicatriz horizontal. Chegar até ele é difícil e perigoso. O terreno é íngreme.

Apenas com picaretas e pás e o auxílio de burros e carros de boi no transporte do material, os negros começaram a abrir o canal em 11 de abril de 1768. Eles desviaram a água de uma das cachoeiras do ribeirão Saia Velha, no lado brasiliense da atual divisa entre DF e Goiás. Ao longo do canal, os negros levantaram dois aterros para o nivelamento do terreno, um com 500 m de altura e 3 m de profundidade e outro de 1,5 m de largura e 5 m de altura. A cada quilômetro de canal, os escravos fizeram um declive de 1 m. Com isso, as águas desviadas do Saia Velha ganhavam força para transpor alguns trechos de subida e circular os morros até chegarem ao destino, a mina de ouro do Cruzeiro. Ela ficava na parte alta da então Santa Luzia. Sem água, a mineração era impraticável.

Para aumentar suas fortunas, quatro fazendeiros decidiram canalizar o Saia Velha. O projeto criou polêmica e inveja entre os demais fazendeiros da região. Um deles, o major José Pereira Lisboa, falava para quem quisesse ouvir que “a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro, não em rego ou canal, mas em cabaças”. Logo o comentário chegou aos ouvidos dos financiadores da obra, que mandaram acelerar a construção, concluída em 11 de setembro de 1770.

Em meio à polêmica, houve muita festa e confusão na inauguração do canal. “Quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e a água jorrou barulhenta pela rua do Rosário abaixo”, contou o historiador goiano Gelmires Reis em um dos seus 28 livros sobre Luziânia. Com a água, rolaram cabaças, que produziram um ruído original. Os moradores da rua, entre eles o major Lisboa, acordaram com a cantoria de mais de 100 escravos.

Sentindo-se insultado, Lisboa pegou uma arma de fogo e foi para a rua. Encontrou no caminho o juiz José Rodrigues Costa. Lisboa trocou a espingarda por uma espada, partiu para cima do juiz e arrancou-lhe a peruca. Acabou preso. O Rego das Cabaças perdeu a utilidade com o declínio da mineração, entre o fim do século 18 e o início do século 19. As atividades econômicas se voltaram para uma agricultura de subsistência e pecuária extensiva.

A proprietária da fazenda Babilônia, em  Pirenópolis,Telma Lopes Machado: casarão  restaurado e a imagem de Nossa Senhora  da Conceição, de 1830, preservada (Iano Andrade/CB/D.A Press)
A proprietária da fazenda Babilônia, em
Pirenópolis,Telma Lopes Machado: casarão
restaurado e a imagem de Nossa Senhora
da Conceição, de 1830, preservada
Nenhuma propriedade traduz melhor os tempos do ouro e da cana-de-açúcar no DF e no Entorno do que a Fazenda Babilônia. Na área rural de Pirenópolis, ela faz jus ao nome devido à sua grandiosidade. Descendentes dos antigos donos ainda preservam a fachada e todos os cômodos estão como há mais de 200 anos. Ao redor, nos fogões a lenha e nas imensas mesas de madeira maciça, eles cultivam, cozinham e comem os pratos que eram consumidos pela família do senhor de engenho e seus escravos.

A fazenda teve origem como um engenho de cana-de-açúcar batizado de São Joaquim, no fim do século 18, quando os proprietários não moravam nela. Entre 1800 e 1805, escravos construíram o imponente casarão em estilo colonial, com o dinheiro do comendador Joaquim Alves de Oliveira. Em pouco tempo, ele transformou a propriedade na maior empresa agrícola de Goiás do século 19. O comendador era dono do povoado Minas de Meia Ponte, a atual Pirenópolis.
 
Com quase 300 mulas, a tropa de Joaquim de Oliveira levava produtos da Babilônia e de outras propriedades de Goiás ao restante do Centro-Oeste. Dos tempos áureos, a Babilônia mantém impecavelmente conservado o casarão-sede. Grossos esteios e vigas de madeiras, com paredes de adobe e pau a pique, sustentam o prédio de 2 mil metros quadrados. Até as dobradiças das portas são feitas de madeira. Os pregos usados na construção, principalmente nos assoalhos, são quadrados, feitos manualmente em bigornas. Muros de pedras ainda cercam o casarão. Erguidos pelos escravos, eles também circundam o curral, outras construções da propriedade e cruzam boa parte do pasto.

Na sede da fazenda, destaca-se ainda a capela — toda original —, na varanda, que acompanha toda a frente da casa. No altar, estreito e ao fundo, um pequeno nicho com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. “Da sala vê-se o altar. Era também uma maneira de contemplar as mulheres, que assistiam às missas acomodadas na sala. Os homens assistiam em pé, na varanda. Apenas o padre ficava no interior da capela”, conta Telma Lopes Machado, de 66 anos, integrante da quarta geração de proprietários da Babilônia.

O comendador morreu em 1851. Os herdeiros decidiram se desfazer da propriedade. Revendida, ela chegou à família de Telma, que faz de tudo para manter a propriedade produtiva e original.Arqueólogos goianos fizeram escavações há oito anos e encontraram restos da senzala e dos seus ocupantes. Telma e os parentes ainda guardam relíquias. Uma delas é a imagem de Nossa Senhora da Conceição, com 21 cm de altura, esculpida por José Joaquim de Veiga Valle. Nascido em Pirenópolis em 1806 e morto na Cidade de Goiás, em 1874, ele é a maior referência da arte sacra goiana.

Em uma área equivalente a 1.020 campos de futebol, a Babilônia mantém criações de cerca de 1,2 mil cabeças de gado. O que se planta serve de alimento aos donos, aos 14 empregados e aos turistas que pagam pelo café sertanejo, com até 40 itens. Com toda essa riqueza, a propriedade acabou tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1965. O órgão entregou a propriedade como nova, em 2008, após quase dois anos de restauro.

Fachada da Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário em Pirenopolis (Monique Renne/CB/D.A Press)
Fachada da Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário em Pirenopolis
Na área rural de Pirenópolis, restam cerca de 240 imóveis centenários, todos preservados no centro histórico tombado pelo Iphan em 1988. Mas outros 250 imóveis também fazem o visitante ter a sensação de voltar no tempo ao andar pelas ruas de pedra do município com mais de 280 anos e 22 mil habitantes. Mesmo construídos recentemente, os casarões de fachadas em cor branca, janelões coloridos e grandes portas de madeira têm as mesmas características do ciclo do ouro e dos tempos dos engenhos de cana-de-açúcar.

O fenômeno virou dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), em 2006. Comparando desenhos e fotografias dos séculos 19 e 20 com imagens recentes, a arquiteta Míriam de Lourdes Almeida, autora da pesquisa, concluiu que grande parte do perímetro tombado de Pirenópolis perdeu os elementos originais.

Os mais antigos e importantes prédios da cidade estão restaurados. Entre eles, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, construída em 1750 e transformada em museu de arte sacra. A Casa de Câmara e Cadeia, por sua vez, abriga exposições de artes. No entanto, mesmo bem conservada, a principal atração turística, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, tem pouco do modelo original, culpa do incêndio ocorrido em 2002, que destruiu quase toda a estrutura erguida entre 1728 e 1732. O Iphan o reconstruiu.

Há quase 300 anos, os bandeirantes passaram pela primeira vez por onde hoje é Formosa, a 70 km do Plano Piloto. Depararam-se com uma comunidade indígena do povo Crixá. O encontro entre portugueses e nativos está descrito na expedição de Anhanguera, em 1722. No documento, porém, há relatos da presença de estrume de vaca naquelas terras, o que indicaria a passagem do homem branco, trazendo gado. A comprovação oficial dos primeiros não índios no local, por meio de papéis guardados em Portugal, data de 1739. Eles estabeleceram fazendas de criação de gado, atividade que ainda move o município.

 Em Planaltina, no centro histórico: Igreja  São Sebastião é uma das poucas construções  preservadas (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
Em Planaltina, no centro histórico: Igreja
São Sebastião é uma das poucas construções
preservadas
Fora a presença de bois e vacas em pastos, pouco resta da Formosa do período colonial. Por muito tempo, casarões em estilo barroco, erguidos com madeiras nobres e telhas importadas, conservavam a história da região. Mas esse patrimônio está em extinção. Em janeiro de 2003, a prefeitura fez um levantamento das casas centenárias no município. Contaram apenas 15. No mesmo ano, duas foram demolidas.

A maior parte da memória está preservada apenas em documentos, moedas e utensílios guardados no Museu Couros, nome que remete ao período de povoamento de Formosa. Desbravada pelos moradores do arraial de Santo Antônio (Luziânia) que fugiam da malária, Formosa virou ponto de passagem de tropeiros e comerciantes. Eles acampavam em barracas de couro para vender seus produtos. Daí veio o nome de arraial dos Couros, mas não há consenso entre pesquisadores sobre a origem do nome. Além da versão dos barracos, alguns apontam que os moradores vendiam peles de animais selvagens.

Essa e outras curiosidades estão documentadas no arquivo do museu construído pelo ex-marceneiro Leônidas da Silva Pires, com doações. No entanto, hoje, ele vê diminuir a ajuda. Desde outubro, mantém o museu fechado, após perder os dois funcionários cedidos pelo governo municipal para cuidar da segurança e da limpeza do casarão. Para manter o museu, Leônidas Pires e voluntários organizam eventos ao longo do ano. O maior deles resgata uma tradição dos tempos do Império. Realizada sempre em junho, a Feira da Moagem mostra aos visitantes como era a produção artesanal de alimentos na região nos séculos 18 e 19. Entre outras atrações, fiandeiras vão transformando o algodão em tecido, um trabalho centenário que requer muita habilidade nas mãos e nos pés.

Além de preservar objetos seculares, Pires é um bom contador de histórias. “Em 1726, o rei de Portugal mandou colocar aqui um posto fiscal para evitar o contrabando de ouro sem pagar o quinto devido ao reino português”, destaca. Naquela época, Santa Luzia — o segundo nome de Luziânia — era sede do julgado — o juiz municipal —, ao qual estavam vinculados dois arraiais: arraial dos Couros e arraial do Angico, na atual região de Brazlândia. O arraial dos Couros era constituído por 148 habitantes, 50 imóveis e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Mercês e Abadia. Havia ainda 39 fazendas de gado e seis engenhos.

Somente em 1843, Formosa foi elevada à categoria de vila e passou a se chamar Vila Formosa da Imperatriz. Em 1877, virou cidade. No mesmo ano, o visconde de Porto Seguro fez uma viagem ao Planalto Central para conhecer melhor a região e apontar, com mais propriedade, um local adequado à transferência da capital do Rio de Janeiro para o Centro-Oeste.

Em 28 de julho de 1877, o visconde escreveu, de Formosa, um ofício ao então ministro da Agricultura, conselheiro Tomás José Coelho de Almeida. Nele, estava o relato do êxito da viagem e da pesquisa, indicando o triângulo formado por três lagoas — entre elas, a Lagoa Feia — como um dos melhores locais para a transferência da capital. Para dar continuidade ao levantamento do visconde e sua equipe, a Missão Cruls chegou ao Planalto em 1892 e, entre outras coisas, destacou as belezas naturais de Formosa, como o Salto do Itiquira, que continua a encantar os visitantes.

 

 (Henrique Charles Morize/Arquivo Público-DF/Divulgação)
Para saber mais

No século 18, o governo português já cogitava a possibilidade de transferir a capital do Brasil para o interior — medida defendida em outros momentos históricos. Ainda no Império, o patriarca da Independência, José Bonifácio, defendia a transferência da capital para a mineira Paracatu. Na República, o artigo 3º da Constituição Federal de 1891 determinou a demarcação do território para construção da futura capital do Brasil. Em 1892, o então presidente Floriano Peixoto instituiu a Comissão Exploradora do Planalto Central, por meio da Portaria 114-A. Chefiados pelo astrônomo e geógrafo belga Louis Ferdinand Cruls, integravam a equipe pesquisadores, geólogos, geógrafos, botânicos, naturalistas, engenheiros e médicos, entre outros. De 1892 a 1894, eles fizeram estudos científicos até então inéditos no Centro-Oeste, mapeando aspectos climáticos e topográficos, além de estudar a fauna, a flora, os cursos de rios e modo de vida dos habitantes. Cruls voltou à região no segundo semestre de 1894 para concluir alguns estudos e definir a região exata de Brasília dentro dos 14,4 mil km2 demarcados pela comissão.

 

As igrejas fazem parte da história da passa-  gem da Missão Cruls pelas áreas que circun-  dam o Distrito Federal: as primeiras constru-  ções dos povoados (Henrique Charles Morize/Arquivo Público-DF/Divulgação)
As igrejas fazem parte da história da passa-
gem da Missão Cruls pelas áreas que circun-
dam o Distrito Federal: as primeiras constru-
ções dos povoados

 

Quem foi Louis Cruls


Antes da missão ao futuro Distrito Federal, o astrônomo e geógrafo belga Louis Ferdinand Cruls dirigiu o Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. Ele liderou outras expedições científicas importantes dos séculos 19 e 20, como a observação da passagem de Vênus pelo disco solar em 1882 e a conferência internacional que definiu o meridiano de Greenwich como referência para todas as nações. Nascido em Diest em 1848, Cruls morreu em Paris, a 21 de junho de 1908.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017