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Dez perguntas para | Maria Alcina »

"Me chama de Diva, chama, meu filho"

Depois de duas décadas sem gravar, Maria Alcina lança disco, é reconhecida como uma das 100 melhores vozes do Brasil e estreia musical em Brasília

Ricardo Daehn - Redação Publicação:14/05/2014 14:54Atualização:14/05/2014 15:35

“Sou que nem Villa-Lobos: me botam pra fora da casa e eu volto pelo telhado”, define, às gargalhadas, a cantora Maria Alcina, enquanto revê a trajetória de artista inquieta e combativa nas últimas quatro décadas do Brasil. “Na minha casa, em Cataguases (Minas Gerais), tudo era muito batalhado. Sou daquela família em que os filhos eram criados para ajudar em casa. Eu sou uma operária que trabalha: não tenho frescura, não”, diz, aos 65 anos, a ex-agitadora de programas de auditório que, entre altos e baixos, sempre prezou a independência.

 

Sem esquema para obedecer, Maria Alcina surfa na onda de  quem está podendo: no momento, vive em Brasília, a convite, já que tem um papel no musical (atualmente encenado nos palcos do CCBB) escrito especificamente para ela. Eu Vou Tirar Você Deste Lugar – As Canções de Odair José, obra do dramaturgo Sérgio Maggio, vem numa corrente de belas vibrações: celebrada por revista especializada como uma das 100 mais marcantes vozes do Brasil, Maria Alcina não se acomoda, e engata os shows do lançamento do CD De Normal Bastam os Outros. “É um momento transformador na minha carreira”, demarca.

 

 

1 | ENCONTRO - Como foi a descoberta da música? Essa associação com elementos andróginos a incomoda?

MARIA ALCINA - Sempre cantei: fui descoberta, cantando no grupo escolar Coronel Vieira. Lá, tinha aulas de canto: íamos para o pátio para cantar os hinos e havia aquilo da coroação. Um dia, todo mundo foi cantar para ser selecionado, e a minha voz sobressaiu: era uma menina com uma voz muito grave. Então, toda vez que tinha canto, estava eu lá, toda buliçosa. Fui me formando, no sentido de ouvir música na rua. Só tínhamos rádio quando um tio ia passar férias lá em casa. Então, às 4h da tarde, ia para o quintal ouvir o piano que era tocado pelos vizinhos. Tenho a música como um elemento de vida – ela me protege. A música é minha amiga, e tenho gratidão por ela. Tudo o que sou e tudo o que tenho, devo à música. É natural, é dom – Deus dá o dom. Quanto à androginia, acho até graça. Na boate Number One (Ipanema), o dono da casa, Mauro Furtado, por exemplo, não me via, ele apenas ouvia uma pessoa cantar, e eu estava junto com um grupo de teatro. Então, quando ele viu aquela figura toda magrinha com aquela voz grave, ele não sabia se era homem ou se era mulher. Não sabia o que era “aquilo” (risos). Ele me contratou, na hora. Tenho uma voz rara, de contralto, uma raridade. Houve um tempo que ouvia muito que era andrógina. Quando eu estava careca, com uma roupa solta, eu mesma dizia: “Nossa, gente, mas é um travesti”. (risos)

2 | A senhora rompeu com o peso da tradição conservadora mineira, ao subir ao palco? Qual a sua relação com o poder?

Não sei o que é ruptura. Sei que canto. Quando chego ao palco, entendo que é lúdico, é fantasia. Tenho um jeito de ser que nem eu compreendo: quando vejo, estou fazendo. Minha saída para a música foi toda natural: claro, com percalços. A música nunca me desamparou, e também tive muitos amigos. Nem tive muita chance do “vou ou não vou?”. Venho de uma família em que se precisava trazer dinheiro para casa. Eu estava querendo música e mexendo com música e teatro, em Cataguases. Fui para o Rio e voltei para casa, quando me perguntaram pelo dinheiro... Sem ele, ouvi: “Então decide: ou fica, ou volta”. E eu saí atrás da música. Para pensar em família, em ruptura, em tradição? Nada: eu vou embora, tocar a vida para a frente. Com relação ao poder, não tenho nenhuma relação com ele, muito pelo contrário: não tenho, nem quero ter. Poder de quê? A única coisa que tenho é um microfone na mão e a minha alma de artista.

3 | Há limites para loucuras no palco, ao viver uma cafetina no musical Eu Vou Tirar Você Deste Lugar – As Canções de Odair José?

 O que existe é uma oportunidade, e que ela seja bem-vinda. É trabalho, um meio de crescimento. Há preparação corporal, vocal, há direção de cena. Todos fomos preparados. Cheguei meio fora de forma, e, agora, não entro mais no palco, entro é no cabaré. Cheguei ao ponto, mas ainda há um tanto para fazer. É lindo esse movimento do teatro, de te deixar disponível. É um trabalho que está me colocando para cima, estou mais esperta, impulsionada. Há algo que me trouxe para Brasilia, para eu ‘re’: rever, remontar. Tem algo de mágico nesta vinda.

'Quando eu estava careca,  com uma  roupa solta, eu mesma dizia: 'Nossa, gente, mas é um travesti''
"Quando eu estava careca,
com uma roupa solta, eu
mesma dizia: 'Nossa, gente,
mas é um travesti'"
4 | Mas sua relação com Brasília, no passado, não foi das melhores, não é?

Nada! Houve um problema quando, nos anos 1970, vinha fazendo uma caravana com shows pelos estados, por causa do Miss Brasil. E terminou aqui, onde foi o concurso. Eu tive problema com a censura: eu e o Raul Seixas quase tiramos a TV Tupi do ar, pelo comportamento, que, nas palavras dos militares, trazia à tona o toque subversivo. Nos meus atuais shows, as pessoas que estiveram lá dizem: “Você saiu escoltada pela polícia!”. Eu não tenho na minha memória. Sei é que teve um babado, entrei, rolando, como doida, com a roupa transparente, meio seminua. Respondi a processo. Queriam saber por que cantava daquela maneira; o que significava o gesto tal. Na época, o Jards Macalé comia uma rosa no palco, fazendo um happening (risos). E eu entrei com a rosa na mão, passando pelo corpo, toda sensual (risos). Eles queriam saber o que significava aquilo. Fui explicar que estava homenageando o Jards (às gargalhadas): o que era pior, porque ele também tinha sido censurado. Naquele momento, vivíamos a ditadura, então, comportamento era uma arma, uma coisa que agredia.

5 | Como tem sido a nova passagem pela capital?

Estou aqui desde 24 de abril, e gostando muito. Há um carinho humano do dia a dia, tudo com muita delicadeza. Vou morar aqui até 1º de junho, e estou maravilhada. A cada saída, fico louca com essa coisa aberta, esse céu, essa vegetação! Eu fico quietinha, só olhando. O verde é um fascínio. Depois de estrear o musical, quero passear na cidade. Por enquanto, é tudo muito intenso. Já vi, pela tevê, a feira da Torre de TV, e estou programando ir lá. Voltando ao musical, nunca pensei nesse magnífico encontro com as músicas do Odair José, em que todo o elenco está cantando. É um momento transformador na minha carreira de cantora: estou como atriz, com um grupo novo, de garotos de 20 anos. É renovador para a minha vida profissional, que começou com uma pessoa, que escutei num show, e disse: “Para aqui, eu vou”. Era o Gilberto Gil. Um dia, escutei Procissão do Gilberto Gil. Disse: “Caramba! Aí tem coisa”. Foi a música que me deu o norte. Ali vi quem eu era, uma menina, uma operária, com essa
voz. Essa música rompeu com qualquer uma das minhas dúvidas. Gilberto Gil me deu a régua e o compasso.

6 | Como se deu a retomada do teatro?

Esse musical de agora, especificamente, veio de um convite. Sérgio Maggio disse que escreveu o papel para mim. Eu já fiz um musical, Luluxa, escrito pelo Nuno Leal Maia. Isso foi nos anos 1980, no Teatro Bandeirantes. Foi um infantojuvenil. Depois, fiz trabalho com balé num grupo de São Paulo. Com o Gasparetto, também fiz algumas peças no Espaço Vida e Consciência. Eram de temática espírita. Fui por trabalho: adoro o Gasparetto, mas não sou espírita. Eu participava das palestras e fiz cursos dos temas dele. O contato era para eu ter um entendimento do que faria no palco. Foi uma época de amizade não apenas com ele, mas com a comunidade. Veio um aprendizado muito grande. Tenho uma formação católica, mas gosto da temática espírita, do entendimento que eles têm da Bíblia. Preciso reencontrar o Gasparetto. Com o Gasparetto, foram cerca de quatro trabalhos. Há bastante tempo, não fazia teatro, apesar de ter convites. Neste retorno, há um toque de amizade, um açúcar e um afeto com o diretor Sérgio Maggio.

7 | A Rolling Stone, recentemente, a colocou entre as 100 melhores vozes do Brasil. Como se sentiu pelo reconhecimento?

Foi maravilhoso! Quando eu voltar para São Paulo, vou entrar no mundo da internet e fazer um agradecimento. Saiu também uma matéria sobre meu novo CD (De Normal Bastam os Outros), e está escrito assim: “Diva” – e aí, fala de mim. Eu fico louca. Fico vaidosa, no sentido de serem inesperados esses acontecimentos. Isso, pela minha não desistência, diante de tantos perigos. Então, sempre olhava a revista e pensava: “Não, aqui eu nunca vou chegar”. Um dia, eu chego, e dessa forma! Em 2014, em que estou voltando a gravar, é que consigo me perguntar por que eu fiquei 20 anos sem gravar. Nem consigo entender o motivo. Aí vem a revista, cita esse fato, o sucesso popular. O artista não existe sem estar gravando todo ano, mas eu nunca tive essa necessidade e, aos pouquinhos, eu fui parando de fazer shows. Também, eu cantava em tudo que era lugar (risos). Diziam: “Canta em cima de uma lata de querosene!”, e eu cantava! Eu não deixei passar, nada, não!

 

'A única coisa que tenho é um microfone na 
mão e a minha alma de artista'
"A única coisa que tenho é um microfone na mão e a minha alma de artista"

 

8 | Você não teve filhos, mas como teria sido a Maria Alcina mãe?

Não tenho nem ideia... Acho que eu seria muito apegada: seria uma coisa maluca. Deve ser magnífico ser mãe. Exatamente pelo tamanho desse posto. Transfiro isso para o público. Eu sempre penso que formamos um público que nos acompanha, que nos acolhe, tem algo de ser mãe... Quando o público acompanha, apoia, no sentido de sair de casa para assistir ao artista, ele dá a chance de formação de uma carreira... Por isso, eu acabo transferindo um pouco essa relação materna para o público: ter a carreira dedicada a esse filho. Uma coisa bonita.


9 | Quais são seus vícios e suas virtudes? E como reage ao que seja grotesco, como a existência do preconceito racial?

Sou careta, não tenho vícios. Graças a Deus, tenho imperfeições: sou humana. Aproveito as oportunidades de observar, de acrescentar e até de não fazer nada. Gosto disso: sentir tudo, até o que seja ruim. Me falam “inveja branca”. Que nada! Gosto é da inveja preta (gargalhadas). Gosto de sentir ódio, querer matar alguém – posso matar, só um pouquinho, depois a pessoa vive, de novo…(risos). É gostoso, é necessário. Eu me seguro quando sinto coisas negativas. Isso tem de ser sentido por dentro, para nos organizarmos. Nós não somos monges. Precisamos sentir. Macalé tem uma música ótima para falar disso: Mal Secreto (risos). Quanto ao preconceito, estamos vivendo um momento de ebulição, e essa questão sempre esteve por aí. Mas agora tudo está mais às claras. Existem mais cuidados e mais leis para proteção. Nós temos de combater isso com atitudes, na forma da lei e impondo o nosso trabalho, a nossa personalidade. Para mim, é tranquilo, porque quem não gosta de mim deixa claro. Se acho que sou vista com preconceito, de modo recorrente, isso é algo que, acredito, deva ser resolvido com analista. Eu que resolva! Fico horrorizada é com a questão dos jogadores de futebol. Nos tempos de hoje, com a liberdade de expressão, com lei, com todas as informações, e o preconceito racial ainda existir é inconcebível!

10 | A senhora já foi empregada doméstica. Tirou algumaprendizado disso? E, agora, aceita o rótulo de diva?

Foi para sobreviver, e eu não sou ligada a essa coisa dramática. Sabe, se eu tiver de fazer uma coisa fora da música para estar na música, eu faço. Uma coisa é independente da outra. Também vejo ser cantora como um trabalho. Se me perguntam se gosto de ser chamada de diva. Eu gosto, sim. Chamam-nos de diva, mas também de porcaria. Junta tudo, e eu aceito tudo. Não nos chamam de tudo na vida? Eu lembro muito de Dercy Gonçalves, nesta resposta (risos). Para falar que eu sou uma m..., falam (risos). Então, chama de diva, chama, meu filho.

 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017