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CULTURA | ARTES PLÁSTICAS »

A arte está nos detalhes

Em Brasília para desenvolver pesquisa de mestrado, a artista plástica paraibana Iris Helena vasculha a cidade com olhar de visitante. O resultado é um trabalho surpreendente

Sérgio Maggio - Redação Publicação:16/05/2014 12:00Atualização:16/05/2014 13:46

Iris Helena, artista plástica: 'A monumenta-  lidade de Brasília me faz cada vez mais  pensar nos detalhes, no ínfimo, no que  passa despercebido pelo olhar', revela (Minervino Júnior/Encontro/DA PRESS)
Iris Helena, artista plástica: "A monumenta-
lidade de Brasília me faz cada vez mais
pensar nos detalhes, no ínfimo, no que
passa despercebido pelo olhar", revela
Há cliente que nem liga para a segunda via de pagamento do cartão de débito. A artista plástica Iris Helena não faz parte desse grupo de pessoas. Ao contrário, fica de prontidão diante da máquina que cospe aquele frágil papel com tinta perecível ao tempo. A prova do seu consumo diário é guardada com esmero. Não vai demorar muito para que ela a transforme em arte. É sobre o simples comprovante de compras que registra as impressões visuais das cidades que percorre.

Brasília, onde desenvolve pesquisa para o mestrado, é a atual musa desposada pelos olhos atentos de cronista. Num artesanal álbum de fotos, estão lá os primeiros rastros da série Capital. A Catedral, o Congresso Nacional e os blocos da Esplanada dos Ministérios podem ser vistos sobrepostos às letrinhas que indicam o mapa de gastos da jovem criadora paraibana.

Ainda em processo de criação, cada obra da série Capital cabe na palma da mão. Ao relacionar as paisagens e os monumentos com informações íntimas sobre o seu cotidiano de consumo, é possível perceber a relação de Iris Helena com a Brasília que habita. "É uma cidade fantástica, que vai além do projeto planejado. A vida, aqui e acolá, desobedece aos traços urbanísticos. Decidi vir para cá para ter exatamente a experiência de viver num espaço onde o meu lugar natal não pode se encaixar facilmente às paisagens."

A Brasília de grandes escalas e traços modernistas é díspare à cidade-mãe, João Pessoa, lugar que inspirou Iris Helena a criar a série Lembretes, impressa em papel post-it. Diante da capital federal de horizontes largos e céu a perder de vista, ela riscou o território com os olhos e não viu nada que a remetesse à paisagem de casarios da infância. Enxergou, no entanto, a vida bucólica nas quadras do Plano Piloto. “A monumentalidade de Brasília me faz cada vez mais pensar nos detalhes, no ínfimo, no que passa despercebido pelo olhar”, revela.

Os olhos de Iris Helena vasculham o que se esconde nos vãos dos monumentos. O fluxo de pessoas que passa a hipnotiza. Dentro da bolsa, traz uma máquina fotográfica bem simples. Registra assim tudo que a empolga. No Conic, mirou a lente para as estantes de livros, feitas de caixas de frutas e legumes, do sebo do livreiro Ivan Presença. Vasculhou também as fendas e gretas para os subsolos. "Não me considero uma fotógrafa. A câmera é um instrumento para cristalizar o efêmero. É como se fosse um bloco de anotações."

Entre a materialização desse efêmero e a precariedade dos materiais que utiliza para fixá-los, desenvolve-se a poética de Iris Helena. Esse contraste propõe uma obra que é perecível ao tempo. Não vai demorar muito para que os trabalhos da série Capital se desbotem. As letrinhas vão desaparecer. A imagem fotográfica impressa em jato de tinta também vai desbotar. "A efemeridade, em meus trabalhos, está muito ligada a uma representação da passagem do tempo, a uma imitação dos mecanismos da memória. Como utilizo bastante a temática da paisagem urbana, o tempo e a memória são muito presentes. Tento fazer com o que a efemeridade e a fragilidade aparente do suporte potencializem essas características."

 (Arquivo pessoal)
Em sua série de fotoinstalação, Iris Helena utiliza-se de suportes não convencionais, geralmente manuseados no cotidiano, a exemplo de bulas, mapas, canhotos, notas fiscais e marcadores plásticos de página. Mas nada é mais impressionante que a série Zona de Conforto, desenvolvida quando Iris Helena morou em São Paulo. Era a primeira vez em que ela atravessava a fronteira da Paraíba. Na Pauliceia desvairada, teve uma forte crise de úlcera, acompanhada por um período de ansiedade. Foi medicada e passou a acumular as cartelas dos remédios receitados para o tratamento. Em suas andanças pela megalópole, passou a registrar o símbolo do que julgava mais opressor para sua itinerância: os arranha-céus. Não demorou em ter o estalo. Resolveu usar aqueles envelopes metálicos de cápsulas que ingeriu como suporte para impressão.

O resultado é inquietante. É possível relacionar o processo íntimo de tratamento da doença com o olhar de Iris Helena, que vasculha uma São Paulo imponente. "No trabalho, falo de minha subjetividade especificamente, mas procurando abordar experiências do mundo contemporâneo comum ao ser humano, que também vive na cidade e precisa de métodos artificiais, drogas e medicamentos, para resistir a essas ou outras situações de estresse que me são alheias."

São essas relações pessoais e poéticas que Iris Helena investiga na Universidade de Brasília desde 2013, onde faz mestrado no Instituto de Artes. Em pouco mais de um ano na cidade, participou de duas exposições. Uma delas curiosamente chamada de Brasilienses. Iris Helena acha graça disso, mas sabe que faz sentido, visto que sua investigação recai sobre a qualidade de habitar um território. Não à toa, desenvolve outro trabalho inspirado na cidade, chamado de Linha-tênue, que fala sobre o sentimento de pertencimento a um lugar. "Fui muito bem acolhida aqui. As trocas são constantes. Adoro Brasília e gostaria de ficar um pouco mais. Quem vai saber? Essas ideias ainda estão muito nebulosas para mim."

 

Mapa artístico


Alguns dos artistas brasilienses que impressionaram Iris Helena

 

 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017