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Entrevista | Helena de Lima »

"A vantagem é participar da história"

Comandante do exército de voluntários da Copa do Mundo em Brasília, Helena de Lima explica como será o trabalho das 1,5 mil pessoas que se inscreveram para trabalhar durante o evento."A Copa vai ser um sucesso!", garante

Teresa Mello - Publicação:16/06/2014 15:00Atualização:16/06/2014 16:06

'Na hora, não sentimos dor nos pés ou 
nas pernas, 
nem fome.  
O voluntário 
só trabalha 
fora do estádio. 
Ele está ali para ajudar, não para ver futebol' (Minervino Júnior/Encontro/ DA Press)
"Na hora, não sentimos dor nos pés ou nas pernas, nem fome. O voluntário só trabalha fora do estádio. Ele está ali para ajudar, não para ver futebol"

Assim como os seguranças de grandes espetáculos musicais, que ficam colados ao palco, mas de costas para ele, os voluntários do Distrito Federal estarão a postos fora do Estádio Nacional Mané Garrincha durante o maior evento do futebol mundial. Serão mantidos, pelo menos, a 400 metros de distância do gramado, onde os torcedores vão vibrar com grandes jogadas e viver momentos de euforia e de frustração. Com uniforme verde-bandeira, identificadas com crachá e foto, as equipes não estarão ali para ver os seis jogos da etapa do Mundial em Brasília, mas, sim, para ajudar.


Prestarão informações aos turistas e aos moradores do DF, darão atenção especial a idosos e cadeirantes. Estão sendo treinados a exibir o sorriso, a praticar a gentileza e a ficar sempre alerta para situações de emergência. Nesses casos, acionam o Corpo de Bombeiros, os coordenadores, o Samu.


Nesta entrevista a Encontro Brasília, a coordenadora-geral do Programa Brasil Voluntário no DF, Helena de Lima, fala sobre a atuação dos 1,5 mil selecionados e mostra-se otimista em relação à Copa do Mundo. Mas, em caso de qualquer tumulto, a ordem é dispersar.

 


Em 15 de junho, no primeiro jogo da Copa do Mundo no Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, Suíça e Equador, onde estarão os voluntários do DF?

Eles estarão na rodoviária do Plano Piloto, entre a Torre de TV e a Funarte, no estacionamento 13 do Parque da Cidade, na rodoferroviária velha, que é um bolsão de estacionamento. Estarão também no aeroporto internacional, nos CATs (Centros de Atendimento ao Turista) e no Centro Aberto de Mídia (CAM, montado na Ala Norte do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, com espaço para a imprensa não credenciada, telões, assessoria, etc.). Eles estarão ainda na Fan Fest, no Taguaparque (eventos simultâneos e gratuitos para a população assistir aos jogos em telões e aproveitar shows musicais). Na praça do Relógio, em Taguatinga, vai ter um grupo de voluntários para indicar onde é o Taguaparque.
Haverá também os voluntários da Fifa (de camiseta azul com detalhes em amarelo nas mangas) e o GDF anunciou a contratação temporária de estudantes de hotelaria e turismo para atuação como guias. Isso pode confundir o turista?
Os voluntários do GDF/governo federal estarão diferentes dos da Fifa, uniformizados com calça e camiseta na qual estará escrito:“Voluntário: Posso ajudar?”, e agasalho – tudo na cor verde-bandeira. Usarão boné e crachá com foto.

Quando começa o trabalho deles?

No Centro de Mídia, vai começar em 10 de junho e seguir até 13 de julho. Na Fan Fest, vai de 12 de junho a 13 de julho. Nos demais lugares – rodoviária interestadual, rodoferroviária, Funarte, Torre de TV, estacionamento 13 e nos oito CATs (dois no aeroporto, dois no Setor Hoteleiro Norte, um no Setor Hoteleiro Sul, na rodoviária interestadual, na Torre de TV Digital e na praça dos Três  Poderes e na Fan Fest), eles atuarão nos dias dos jogos, que são 15, 23, 26 e 30 de junho e 5 e 12 de julho. O trabalho dos voluntários no aeroporto se estenderá por 21 dias, porque inclui a véspera do jogo, o dia da partida e depois dela.

E em outros locais, como atrações turísticas, metrô e pontos de mobilidade urbana?

Na estação do metrô da rodoviária do Plano Piloto, haverá um grupo de voluntários, e na Plataforma D – onde estarão os ônibus que levarão os torcedores até a Torre de TV e a Funarte –, teremos nossa equipe nos seis dias de jogos.

Haverá monitores para cada grupo? Como eles serão identificados?

O GDF é o responsável pelos coordenadores de grupo. Então, teremos, em média, de três a quatro coordenadores entre a Torre de TV e a Funarte, e também no estacionamento 13. Teremos um deles percorrendo todo o Parque da Cidade em dias de jogos, porque haverá quatro voluntários em cada estacionamento. Na Fan Fest também.

Qual é a carga horária deles?

É de 4 horas por dia, no máximo, trabalhando sete dias corridos ou alternados. Pode ser, no mínimo, sete dias e, no máximo, estamos tentando colocar 15 dias. Eles terão direito a um cartão alimentação no valor de R$ 20 por período de quatro horas. Haverá ainda um cartão para transporte. No fim dos trabalhos, a Universidade de Brasília (UnB) vai emitir um certificado de acordo com o módulo de ensino a distância que tiver sido feito pela internet. Não é obrigatório fazer todos os cursos. É possível escolher segurança, turismo, sustentabilidade, meio ambiente e primeiros socorros. É a preparação teórica, além do treinamento presencial ocorrido na Faculdade de Tecnologia da UnB, ministrado pelo Corpo de Bombeiros.

Quais as vantagens de trabalhar gratuitamente na Copa do Mundo de 2014?

Primeiramente, participar deste grande evento. Nós estamos sendo olhados por todos os cantos do mundo. O voluntário vai ter crescimento social, que é o outro lado da Copa, amadurecimento profissional, experiência, oportunidade de falar outro idioma. É um legado de conhecimento, ninguém vai poder tirar isso dele. Ser voluntário inclui treinamento para o trabalho. Porque eu acho que todo brasileiro já traz isso, essa característica de ajudar. E o voluntário vai ajudar tanto o visitante brasileiro quanto o estrangeiro.

'Brasília mudou totalmente, princi-palmente em mobilidade urbana. Não teria nada 
disso se a 
Copa do Mundo 
não fosse realizada aqui' (Minervino Júnior/Encontro/ DA Press)
"Brasília mudou totalmente, princi-
palmente em mobilidade urbana.
Não teria nada disso se a Copa do
Mundo não fosse realizada aqui"
O que lhe dá mais satisfação em ser a coordenadora-geral do Programa Brasil Voluntário no DF?

Eu adoro lidar com pessoas, sou professora há mais de 20 anos. Acho que nasci com essa vontade, sabe? De coordenar um grupo, principalmente, em um trabalho desse porte, de participar da história com o voluntariado, que é importante tanto na segurança quanto na mobilidade.

A senhora já deu aulas de quê?

Comecei como instrutora de laboratório de informática, fui contratada como professora, selecionada para implantar informática na educação em duas escolas particulares, treinando alunos desde o Jardim 3 até o nível médio com os professores. Era bem no início, quando a informática estava chegando. Depois, fui trabalhar em faculdade, em docência do ensino superior, dando aulas de TI (tecnologia da informática), orientadora e professora de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) tanto monografia quanto artigo. Hoje, eu estou com metodologia científica na faculdade.

Qual o percurso profissional até chegar à Secretaria de Estado Extraordinária da Copa, a Secopa?

Já estive no governo antes, como assessora na Câmara Legislativa, depois trabalhei no Instituto Brasileiro de Informações em Ciência e Tecnologia (Ibict). Em janeiro, fui convidada pelo secretário da Secopa, Cláudio Monteiro, para fazer parte da equipe.

 

Uma representante da Associação dos Guias de Turismo do DF afirmou que existem 40 profissionais na capital do país. O GDF autorizou a contratação de estudantes de hotelaria e de turismo durante a Copa. Que outras vantagens Brasília pode ter como cidade-sede?

A vantagem é participar da história, porque muitas cidades gostariam de participar, de ter esse estádio lindo, que já gerou muitas coisas boas, e também pelo legado que a Copa vai deixar para a população. Brasília mudou totalmente, principalmente em mobilidade urbana. Por exemplo, o Expresso DF, os viadutos, as passarelas, o balão do aeroporto, o próprio aeroporto. Não teria nada disso se a Copa do Mundo não fosse realizada aqui. Não teríamos nem os nossos voluntários.

O que a senhora recomenda aos moradores do DF para receber bem o turista?

Ser sorridente, ter carisma, atenção. Se não conseguir responder alguma dúvida, procurar encaminhar a pessoa. Ser gentil, hospitaleiro e bom anfitrião.

O que os nossos voluntários estão habilitados a fazer?

Eles passaram por treinamento presencial em 24 e 25 de maio. De acordo com a nossa experiência, e as necessidades na Copa das Confederações, em 2013, se tiver alguém caído, desmaiado, o voluntário já tem o telefone para chamar o Corpo de Bombeiros ou o Samu. Estão orientados para isso. Se uma grávida precisar de ajuda ou entrar em trabalho de parto, eles estão treinados para procurar alguém para socorrer. Há os primeiros socorros básicos, como falta de ar, e ainda os cuidados com os cadeirantes e os idosos. Ajudá-los a chegar até o local, mesmo se estiverem acompanhados; e ainda para descer dos ônibus e entrar com prioridade nos acessos ao estádio.

Em um possível tumulto, o voluntário vai interferir ou não?

Se tiver algum tumulto, ele está orientado a dispersar para que isso não lhe cause problemas. É uma recomendação até de segurança para qualquer turista, qualquer morador de Brasília mesmo. E temos a Central de Voluntários para dar todo o apoio a eles, na administração do Parque da Cidade. Lá será a casa do voluntário.

Como será a comunicação entre eles?

Cada coordenador vai ter um telefone, que a UnB vai passar para eles, e, se o voluntário estiver precisando de alguma coisa, vai até o coordenador dele, que estará usando um uniforme diferente, na cor roxa. Ninguém mais vai usar essa cor, porque acredito que todo mundo estará de verde e amarelo.

Qual porcentagem dos selecionados é de bilíngues?

Nós não temos esse número, mas podemos adiantar que alunos do CIL (Centro Interescolar de Línguas) estão participando, além de outros que possuem proficiência em uma língua estrangeira. Principalmente, aqueles que ficarão no aeroporto e entre a Torre de TV e a Funarte, por onde passarão muitos turistas.

Quais são as outras características do pessoal?
A idade mínima é de 18 anos, e não há idade máxima. Escolaridade não é requisito. Há pessoas com deficiência. Temos uma coordenadora que é cadeirante, integrante do projeto Mãos que Ajudam. Existem outros portadores de deficiência que vão trabalhar no Centro de Mídia, local mais tranquilo, e na Central do Voluntário.

'Terão de 10 mil 
a 50 mil pessoas na Fan Fest. 
Os voluntários ficarão dentro do Taguaparque e na Praça 
do Relógio 
para orientar' (Minervino Júnior/Encontro/ DA Press)
"Terão de 10 mil a 50 mil pessoas na
Fan Fest. Os voluntários ficarão dentro
do Taguaparque e na Praça do Relógio
para orientar"
Quantos interessados se inscreveram no programa?

Foram 3.232 inscrições durante dois meses (de 14 de janeiro a 16 de março), sendo selecionadas 1,5 mil pessoas para cada uma das 12 cidades-sede. Em todo o Brasil, houve mais mulheres candidatas. Segundo a UnB e o Ministério de Esporte, as cidades com o maior número de inscritos no DF foram Brasília, com 660; Taguatinga, 322; e Ceilândia, 220. Mas tem gente de Goiânia e de Anápolis (GO) também.

O que prejudicou um candidato no processo seletivo?

A disponibilidade, porque nós precisamos de sete dias de trabalho no mínimo, em sequência ou alternadamente. E ter, no mínimo, 18 anos. Muita gente de 15 e de 16 anos queria participar.

O que o voluntário da Fifa vai fazer e o que o do GDF não poderá fazer?

O voluntário do GDF/governo federal ficará fora do Estádio Nacional. O da Fifa permanece no entorno e dentro do estádio, além de outros pontos da cidade.

Como será o esquema na Fan Fest, no Taguaparque?

Lá são esperadas de 10 mil a 50 mil pessoas. Os voluntários ficarão lá dentro do Taguaparque e na praça do Relógio, para orientar sobre o local. Acho que a maioria dos presentes vai solicitar serviços, tais como onde ficam os achados e perdidos, qual será o próximo show, onde encontrar primeiros socorros. Os shows vão das 10h às 22h, mas isso depende do dia. Haverá ocasião em que o último show será às 19h. Nosso pessoal vai trabalhar em três turnos, sendo que o primeiro começará às 10h.

Em eventos com grande aglomeração de pessoas, são traçadas estratégias para situações de risco e soluções imediatas. Dentro do enfoque do voluntário, o que poderia acontecer?

Nós fomos orientados pela segurança a trabalhar preventivamente, ou seja, não deixar acontecer. E nós temos os telefones e os nomes de todos os coordenadores. Então, o coordenador vai ligar imediatamente para a central de controle caso aconteça alguma coisa. Vamos trabalhar em conjunto com a segurança e eles vão nos proteger.

Como a senhora imagina esta etapa da Copa aqui em Brasília?

Eu sou otimista. Acredito que a Copa vai ser um sucesso e que vai ter voluntário em todos os cantos, preparado para dar todas as informações. Estou ansiosa, quero que tudo aconteça de forma perfeita, estou lutando para isso, apesar de poucos recursos físicos. Temos a nossa central, que é humilde, mas aconchegante. E, mesmo ela sendo assim, acho que nós vamos atender maravilhosamente bem.

Acredita que vai haver manifestações contrárias ao evento perto do estádio?

Pelo que sei, a segurança está trabalhando para isso não acontecer.

A senhora já fez algum trabalho voluntário?

Na Copa das Confederações, eu coordenei e resolvi problemas que apareciam. Por exemplo, se faltava um ônibus, eu ia atrás do DFTrans e, na mesma hora, eles ajudavam. Todos trabalhando em conjunto. Na hora, não sentimos dor nos pés ou nas pernas nem fome. O Programa Brasil Voluntário do GDF é puramente social. O voluntário está ali para ajudar, não para ver futebol. Tem de gostar mesmo.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017