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O lucrativo mercado das palestras

Falar em público virou profissão para algumas pessoas. Bons oradores ganham entre R$ 15 mil e R$ 20 mil por explanação. Celebridades costumam cobrar dez vezes mais

Cecília Garcia - Redação Publicação:18/06/2014 13:34Atualização:18/06/2014 14:33

Luana Veloso e Marcelo Cordovil, sócios da Casa de Palestras, são uma 
espécie de empresários dos palestrantes: 500 profissionais cadastrados (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Luana Veloso e Marcelo Cordovil, sócios da Casa de Palestras, são uma espécie de empresários dos palestrantes: 500 profissionais cadastrados
Em Brasília, é comum encontrar eventos que tenham como atração principal, no lugar de uma banda famosa ou uma celebridade, um palestrante. Isso não significa que ele não seja considerado quase uma celebridade também. Nesse mundo de palestras, há aqueles que se destacam por falar bem, os que ficam famosos por conta daquilo que falam e os que já eram conhecidos da grande massa antes mesmo de ingressarem no ramo.


Um exemplo disso é o médico Marcio Bontempo. Há 40 anos trabalhando como palestrante, já perdeu a conta de quantas ministrou ao longo de sua carreira, mas estima que o número esteja por volta de 10 mil. Nos anos 1980, por exemplo, chegava a fazer três ou quatro por dia. Hoje, graças à tecnologia, faz videoconferências transmitidas simultaneamente em vários lugares. Especializado em saúde pública e com pós-graduação em nutrologia, usa seus conhecimentos para tratar de saúde e alimentação tanto em Brasília como no resto do país, nos Estados Unidos e, mais recentemente, em Portugal.


Nas exposições, ele induz os participantes a levar alguma mudança real para suas vidas. “Quando pessoas se reúnem para uma palestra, há muita retórica. Tem aquela pompa, formalidade. A minha é de conscientização”, afirma. Se agora consegue falar para um grande número de pessoas, nem sempre foi assim. Muito tímido, o médico conta que tinha medo de falar em público. A situação só mudou na faculdade, quando começou a ministrar para pequenos grupos, até chegar, com empurrãozinho de amigos, a auditórios com mais de 5 mil pessoas.

 

“De lá para cá, fui me acostumando”, conta. Quem mais busca a palestra de Marcio são congressos, simpósios, faculdades de medicina e nutrição, além de eventos fechados para médicos. Eventos restritos só para os colaboradores de empresas, também chamados exposições in-company, são a especialidade da Casa de Palestras e compõem a maior parte da sua lista de clientes. O trabalho da empresa é apontar o profissional mais indicado para as demandas apresentadas. “Somos responsáveis por todo o processo contratual, como agentes artísticos. Nós cuidamos da carreira de palestrantes”, explica Luana Veloso, diretora de negócios e sócia da empresa, que faz consultoria nesse ramo há 15 anos. Em média, o negócio promove de oito a dez desses eventos por mês.



O médico Marcio Bontempo trabalha há  40 anos como palestrante: é requisitado para falar até nos Estados Unidos (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O médico Marcio Bontempo trabalha há
40 anos como palestrante: é requisitado
para falar até nos Estados Unidos
Mas esse nem sempre foi um segmento de destaque em Brasília. “Trabalhamos para a valorização dos talentos intelectuais. Hoje, dificilmente recebemos ligação de alguém que quer contratar um palestrante gratuitamente”, conta Luana.


Os clientes, por mais que às vezes não tenham noção de valor, sabem que há um custo para a contratação desse tipo de serviço. E as pessoas também começaram a ver as palestras como profissão, se não a principal, paralela. No banco de talentos da empresa, há mais de 500 profissionais cadastrados. São pelo menos cinco novos currículos por dia. “As pessoas estão mais interessadas em conhecer um novo palestrante, em fazer um investimento para ir a uma palestra. As próprias empresas estão investindo nisso.”


Os valores de contratação para um evento desse tipo variam muito. Marcelo Cordovil, outro sócio da empresa, explica que o fato de um palestrante ser conhecido influencia no cachê, não só se ele é um bom orador. “Por exemplo, um que era bom, se aparecer num programa de televisão, passa a cobrar quatro vezes mais”, explica. É a lei da oferta e da procura. “Ele sobe o preço para não fazer, porque tem outras atividades para realizar.” Contudo, o valor normal para um bom orador já conhecido varia de R$ 15 mil a R$ 20 mil. Claro que há exceções, como as celebridades, que podem cobrar até R$ 200 mil. “São pessoas que não têm agenda. É natural que elas aumentem o valor para que façam menos apresentações, mas mantenham a qualidade.”


Mesmo com tamanha procura na cidade, a maioria dos palestrantes não é de Brasília. Os que começam aqui quase sempre acabam se mudando, de acordo com Marcelo. Para os donos da Casa de Palestras, sua missão é fazer com que as empresas utilizem as palestras como ferramenta agregadora de valor para os participantes. Ele deixa de ser uma atração para a empresa, para aquele evento, e passa a ser um difusor de conteúdo.


Ary Ferreira Junior, do Sebrae, recruta profissionais para falar em Brasília:  'A palestra é uma ótima estratégia para beneficiar a maior quantidade de pessoas de uma só vez' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Ary Ferreira Junior, do Sebrae,
recruta profissionais para falar
em Brasília: "A palestra é uma
ótima estratégia para beneficiar
a maior quantidade de pessoas
de uma só vez"
O economista e consultor Roberto Rocha é um palestrante que se encaixa bem na categoria de palestrantes como agregador de conteúdo, mas entende que existem públicos para todos os tipos de exposições. “Para os que estão na mídia, que são famosos, há uma expectativa diferente. São públicos distintos para palestras distintas. O meu é muito mais focado no técnico, no profissional.” Seus clientes buscam a técnica, não só o entretenimento. “Algo que ajude no dia a dia do funcionamento da empresa.”


Para Roberto, a palestra é consequência da prática profissional do palestrante, é o repasse de conhecimentos. “O que já fez de importante, as dificuldades que superou. É contar a sua experiência, fruto do seu trabalho, e isso é fundamental para o palestrante.” Em suas explanações, trata de empreendedorismo, planejamento estratégico e finanças, isso tudo há 20 anos. Ele começou nesse meio quando trabalhou no Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresa) em meados da década de 1990. “Era quase uma obrigação explicar conceitos técnicos para os outros funcionários. Aí eu me vi apresentando para grupos menores, até que cheguei a maiores, em teatros”, conta.


Atualmente ministra duas ou três palestras pequenas por mês, e uma grande a cada trimestre. No fim do ano, a demanda aumenta por conta dos eventos nas empresas, que costumam contar  com palestras na abertura ou no encerramento.
No Sebrae-DF, o número de palestras promovidas é sempre grande. Ary Ferreira Junior, gerente da unidade de capacitação empresarial, conta que, só no primeiro semestre de 2014, estão previstas 40 palestras voltadas para diferentes setores. Ao longo do ano, mais dez explanações chamadas magnas estão previstas. Estas são maiores e trazem nomes conhecidos das mais variadas áreas. Já estiveram nessas palestras de grande porte pessoas como Bernadinho e Washington Olivetto. E todas elas, pequenas ou não, são sempre gratuitas.


Ary trabalha na instituição com soluções em educação, voltadas à capacitação dos empreendedores locais. O objetivo é sensibilizar inicialmente os participantes, que logo após passam por oficinas, cursos e consultoria. Ary explica que, para o Sebrae, “as palestras são uma ótima estratégia para beneficiar a maior quantidade de pessoas, de uma só vez, com informações precisas”.

 

Economista e consultor, Roberto Rocha fala ao público há 20 anos: empreendedorismo é um dos temas de que trata (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Economista e consultor, Roberto Rocha fala ao público há 20 anos: empreendedorismo é um dos temas de que trata
 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017