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TURISMO | CURIOSIDADE »

Cidades gêmeas

Chandigarh, no norte da Índia, guarda muitas semelhanças com Brasília. Projetada por Le Corbusier uma década antes da capital brasileira, a cidade também foi pensada para ser símbolo de mudança

Juliana Marinho Pires - Redação Publicação:20/06/2014 11:45Atualização:20/06/2014 14:44

Transitar pela rodoviária de Chandigarh, com seu amplo pilotis, pilares e paredes de concreto aparente, deixa qualquer brasiliense com crise de identidade, salvo pela invasão de mulheres vestidas em lindos sáris, homens de bata com longos bigodes e a quantidade de supostos transeuntes deitados pelo vão principal o dia inteiro à espera de algo que nunca chega. Todos observam você com um típico olhar penetrante, curioso e longo. Choca ao mesmo tempo que fascina.

Depois de conhecer a cidade, você tem a certeza de que Le Corbusier deixou suas marcas em Brasília, mesmo sem participar de sua construção. Lá no Oriente, mais especificamente no norte da Índia, existe a Brasília das Índias, ou sua cidade gêmea. Chandigarh, capital de dois estados – Punjabi e Haryana – foi encomendada ao pai do modernismo, Le Corbusier, uma década antes da versão sul-americana. O país acabava de se separar do Paquistão, em 1947, pós-independência da Inglaterra, e a região – que passou por divisão de território – precisava de uma capital.


O verde entremeado por concreto, os amplos espaços, as ruas largas, a setorização: são muitas as semelhanças entre Chandigarh e Brasília (Juliana Marinho Pires/Divulgação)
O verde entremeado por concreto, os amplos espaços, as ruas largas, a setorização: são muitas as semelhanças entre Chandigarh e Brasília

Como pensou Jawaharlal Nehru, primeiro-ministro da nação recém-emancipada, “deixemos que essa seja uma nova cidade, símbolo da liberdade na Índia, isenta dos hábitos do passado, uma expressão da nossa fé no futuro”.

Juscelino Kubitschek também preconizava nossa capital como signo de mudanças e esperanças para um novo Brasil. O modernismo se encaixava como uma luva para esse propósito de revitalizar e inovar ao mesmo tempo. Cidades ímpares e reciprocamente pares entre si. Nem outros centros planejados mundo afora, como Washington (EUA), Camberra (Austrália), Kyoto (Japão) ou mesmo Palmas, em Tocantins, se assemelham-se tanto como os dois. Proximidade temporal da construção de ambas, influência de Le Corbusier na obra do amigo e colega Oscar Niemeyer, além das condições políticas, podem ser algumas das razões lógicas.

Os pilotis amplos da rodoviária da cidade  indiana: projeto parecido com a rodoviária  do Plano Piloto (Juliana Marinho Pires/Divulgação)
Os pilotis amplos da rodoviária da cidade
indiana: projeto parecido com a rodoviária
do Plano Piloto
Ao visitar Chandigarh, o brasiliense sente uma mistura de emoções: de um lado, uma forte sensação de pertencimento e identificação, de outro, completa estranheza e falta de intimidade com a ocupação do espaço, feito por uma cultura absolutamente exótica aos olhos estrangeiros. Isso acontece quando o ambiente de concreto, totalmente planejado, construído a partir de linhas estáticas e impessoais, toma forma própria por meio de seres de carne e osso. Percebemos que, assim como nós, os indianos ocupam os espaços coletivos de maneira bem diferente da ideia inicial dos arquitetos modernistas.

Chandigarh foi considerada recentemente a cidade mais limpa da Índia em pesquisa do governo. Diferentemente de outras localidades, os pedestres, carros e tuk-tuks (mototáxis de três rodas) não precisam se alternar entre entulhos de lixo e vacas sagradas. O ambiente reflete a população: 87% é alfabetizada e tem um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país. Apesar de a maioria da população praticar o hinduísmo, a região é um reduto dos siquistas – religião originada a partir de elementos hindus e islamitas. É comum andar pelas ruas e ver homens trajando turbantes, marca dos siques. Esse único aspecto já é capaz de nos depertar do sonho de estar em Brasília do outro lado do mundo.

Conhecida por lá como “A Cidade Bonita”, apresenta o maior número de veículos da Índia. Não é de se estranhar. Lá, como a sua cidade gêmea, foi planejada para carros. Ruas largas entremeadas de áreas verdes povoam todos os setores da cidade e o trânsito flui sem maiores solavancos. Ainda tem um lago artificial, o Sukhna Lake. Nos arredores dele, passeiam famílias ao entardecer e nos fins de semana. Em uma rápida olhada no mapa, percebemos logo que Chandigarh tem um formato peculiar, mas um tanto diferente do avião que pousou inabalável no Planalto.

Os ônibus estacionados lado a lado na diagonal:  mais uma semelhança com o terminal de Brasília (Juliana Marinho Pires/Divulgação)
Os ônibus estacionados lado a lado na diagonal:
mais uma semelhança com o terminal de Brasília
A cidade corresponde a um corpo humano, cujo coração é o centro; os pulmões concentram os parques e as áreas de lazer; as vísceras, a área industrial. Na prática, o mapa é recheado de quadrados simétricos enumerados. Os setores – equivalentes às superquadras – deveriam ser autossuficientes, onde os moradores encontrariam de tudo, e o melhor, poderiam ter acesso a pé. Com o tempo, acabaram se especializando em determinados serviços, como alimentação, saúde, aparelhos eletrônicos. Isso soa familiar?

Outra característica comum às duas cidades é que ambas foram planejadas para ter 500 mil habitantes nos anos 2000. No entanto, ultrapassaram consideravelmente a projeção. A solução passou por aumentar o número de cidades ao redor de Brasília, e o número de setores, em Chandigarh, que, dos 30 programados na primeira fase da construção, conta hoje com 60 e, aproximadamente, 1 milhão de habitantes. Passear pelos setores é como estar na W3: sequências de pequenos blocos comerciais com estacionamentos próprios. Nesse momento, não se sente nem de um lugar nem de outro. Simplesmente, os espaços e as referências de ambos lugares, agora um só, estão dentro de você.

Apesar de acolher muitos ciclistas, alugar uma bicicleta em Chandigarh é muito difícil. Conseguido o feito, é só relaxar que a brisa, as suaves descidas e subidas se encarregam do resto, sem ciclovia. Mas atenção, como as distâncias são grandes, não dá para se empolgar. Alguns pontos turísticos da cidade precisam ser conhecidos de táxi, seja de quatro seja de três rodas. Transporte público não faz parte da lista dos pontos fortes do lugar. Assim como sua irmã das Américas, as rotas dos ônibus não abrangem todos os bairros e, nos pontos mais afastados ou incomuns, não chega. O metrô está previsto para 2018.

 

                                                 TANTO AQUI COMO LÁ

 

 

Um toque de sensibilidade e cor  na cidade modernista: visitantes  se encantam com as obras feitas  a partir de lixo do Rock Garden (Juliana Marinho Pires/Divulgação)
Um toque de sensibilidade e cor
na cidade modernista: visitantes
se encantam com as obras feitas
a partir de lixo do Rock Garden

 

 

UM JARDIM FENOMENAL

 

 

Em meio aos tons de verde e cinza, o Jardim de Pedra (Rock Garden) dá leveza e personalidade ao corpo humano. Tudo se desencadeou quando Nek Chand, inspetor rodoviário, começou a criar, a partir de 1957, esculturas com restos de materiais das obras de construção e demolições. Teve de realizar seu projeto em segredo, durante as noites, já que o local escolhido ficava em uma área de conservação ambiental. Somente 18 anos depois, o governo descobriu. Já era tarde. Sua obra já ocupava 48.500 m2 de estátuas, passarelas, quedas d’agua e jardins. Em 1976, o Jardim abriu as portas para visitantes. É considerado a melhor atração da cidade, tanto para turistas como para habitantes.

 

 

 

 

O Monumento da Mão, escultura  de  Le Corbusier, significa paz e  reconciliação: em meio ao verde  e à amplidão do espaço,  lembra a  área entre o Minhocão e a  Biblioteca da UnB (Juliana Marinho Pires/Divulgação)
O Monumento da Mão, escultura
de Le Corbusier, significa paz e
reconciliação: em meio ao verde
e à amplidão do espaço, lembra a
área entre o Minhocão e a
Biblioteca da UnB

 

 

 

SÍMBOLO DA CIDADE

 

 

 

Uma volta pelo Complexo do Capitólio – a cabeça do corpo humano –, onde se instala toda a parte política da cidade, como a Assembleia Legislativa e o Palácio do Governo, só pode ser feita com autorização prévia. A área é cercada e a segurança, reforçada. O símbolo da cidade fica ao lado, o Monumento da Mão, escultura de Le Corbusier, conhecida entre suas obras, que significa paz e reconciliação. Sem nada em volta, nem pessoas, em veículos, reinam o verde e a imensidão do espaço. Exatamente como estar na Universidade de Brasília (UnB), entre a Biblioteca e o Minhocão. Mais uma vez as sensações associadas às lembranças de toda uma vida e a paisagem do agora se sobrepõem. Algo familiar toca instantaneamente mente e coração.

 

 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017