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Cultura | Debate »

Um terreno fértil para a cultura

Moradores da Asa Norte fazem campanha para construir um espaço cultural na área onde funcionava o centro de internação de adolescentes infratores

Larissa Leite - Publicação:23/06/2014 08:55Atualização:23/06/2014 10:18

Pedro Seabra, Roberto Seabra e Marcello Larcher: o trio que defende a criação de um centro cultural no lugar do antigo Caje (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Pedro Seabra, Roberto Seabra e Marcello Larcher: o trio que defende a criação de um centro cultural no lugar do antigo Caje

A pausa dos carros dá vida a um grande vaivém de pessoas que se reúnem para práticas esportivas e culturais. Assim é o domingo no Eixão do Lazer. Quem passou por ali em 18 de maio, na altura da 112 Norte, viu tecidos acrobáticos de circo misturados a fitas do esporte radical slackline, apresentações musicais, recital de poesias, leitura para crianças, árvore de ideias, lanche comunitário. O discurso dos presentes resumia-se na faixa fixada em frente à aglomeração, com os dizeres: “No lugar do Caje, queremos cultura!”. O chamado piquenique cultural, marcado pelas redes sociais, reuniu defensores da construção de um espaço cultural multiuso na 916 Norte, no local que abrigava o Centro de  Atendimento Juvenil Especializado (Caje), demolido no fim de março.



A prática de atividades circenses: outra ideia que surgiu 
no Piquenique Cultural para o lugar onde ficava o Caje (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
A prática de atividades circenses:
outra ideia que surgiu no Piquenique
Cultural para o lugar onde ficava o Caje
A intenção do movimento “Eu apoio o Centro Cultural da Asa Norte” é substituir o malsucedido exemplo de sistema socioeducativo do local por cultura, lazer e educação. O Caje, inaugurado em 1976 para abrigar até 162 adolescentes infratores, chegou a ter 470 internos e foi palco de fugas, rebeliões e mortes – em 38 anos, 30 adolescentes morreram na unidade de internação considerada, pela Secretaria da Criança do Governo do Distrito Federal (GDF), “uma construção ultrapassada e insalubre que não permitia a reinserção social dos internos nem a adequada execução das medidas socioeducativas”. Os adolescentes vêm sendo acolhidos por outras unidades, que prometem uma nova proposta de ressocialização. E no espaço de 63 mil metros quadrados que abrigava o antigo Caje, ainda sobravam entulhos e dúvidas, dois meses após a demolição.

 

No piquenique cultural realizado no Eixão, mais de 300 pessoas assinaram um abaixo-assinado em apoio à iniciativa. Em uma petição on-line, pela Avaaz, até o último mês pelo menos outras 100 pessoas assinaram um documento em prol do espaço. Além disso, organizadores do movimento, que conta com uma página na rede social Facebook, ainda estão colhendo assinaturas. Outro ato cultural em defesa do centro está programado para acontecer neste mês.


A primeira pessoa a lançar essa ideia na rede foi o jornalista Roberto Seabra, morador do Lago Norte. Em 25 de abril, ele escreveu um texto convidando amigos para se unirem à proposta de um “sonho”: “No  próximo sábado, será demolido o Caje, que não deixará saudades. (...) Mas o que será feito daquele espaço? Outro supermercado? Que tal construir ali uma biblioteca pública? Até hoje a Asa Norte ainda não tem a sua. Deixo aqui o apelo”. A ideia é que o espaço atenda não apenas os moradores da Asa Norte, mas também a população do Lago Norte, Varjão, Granja do Torto e Noroeste, entre outras áreas da região Norte.


O apelo de Seabra extrapolou sua lista de amigos. O empreendedor social João Paulo Barboza e cofundador da plataforma Superquadra Criativa esteve no piquenique cultural e propôs uma “árvore de ideias”. Quem passou pelo local recebeu mudas de plantas em troca de ideias para o espaço cultural, que eram fixadas em uma árvore. Entre elas, foram registradas a criação de um Museu da Criança e do Adolescente, espaço para incentivo à leitura e meditação, aulas de dança e teatro e um hackerspace, entre outras. “Não existe destinação melhor do que um centro cultural para aquele local. Foi a falta de educação e cultura que gerou o centro de internação. Vamos lembrar a memória dos adolescentes que estiveram ali instaurando uma cultura criativa e colaborativa naquele espaço”, defende João Paulo.


A muda da estudante de ciências sociais da Universidade de Brasília (UnB) Isadora Dias foi trocada pelo pedido de um espaço para aulas de circo e de um muro de escalada. “Faltam espaços públicos para a prática de esporte em Brasília. Tem coisas que podemos fazer na rua, mas outras precisam de estrutura. A cidade está próxima de um dos maiores picos de escalada do país e não temos lugar para treinar”, diz Isadora. O músico e atleta Leonardo Galvão, campeão brasiliense em 2011 de slackline (esporte radical baseado no equilíbrio), também defende o espaço multiuso: “Queremos espaço para cultura e prática de esportes. O slackline tem crescido muito em Brasília, mas ainda precisamos de um espaço seguro e coberto para evitar lesões, já que o impacto com o chão é comum no esporte. Esse lugar ainda não existe na cidade”.


O músico e atleta Leonardo Galvão, campeão brasiliense em 2011 
de slackline: 'Queremos espaço para cultura e prática de esportes' (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
O músico e atleta Leonardo Galvão,
campeão brasiliense em 2011 de
slackline: "Queremos espaço para
cultura e prática de esportes"
O jornalista Marcello Larcher, que faz parte da coordenação do movimento, também integra o grupo D30RPG, que promove encontros para divulgar e ensinar jogos de tabuleiro no Distrito Federal. Segundo ele, o grupo já chegou a reunir 350 pessoas, mas é carente de espaços apropriados para a atividade. “Iniciamos nossos encontros em salões de prédios, mas o grupo aumentou e se tornou, além de um ambiente de entretenimento lúdico, um espaço educativo para crianças, jovens e adultos”, explica Larcher. Enquanto o jornalista montou um espaço de orientação de jogos a crianças no piquenique cultural, um recital de poemas contou com a participação do cantor, compositor e poeta brasiliense Newton Lima, que defendeu um lugar acessível à arte na região: “A Asa Norte não tem um lugar que abrigue a produção cultural de Brasília. Cinema, poesia, artes visuais, estão carentes de espaços e as pessoas estão carentes de acesso à cultura”. A escritora, contadora de histórias e mediadora de leituras Alessandra Roscoe reforça: “A cultura é a nossa esperança. Queremos um espaço vivo de cultura em Brasília. Se for uma biblioteca, que ela tenha espaços de interação e não seja apenas um lugar de estudo”.


Os  organizadores do movimento “Eu apoio o Centro Cultural da Asa Norte” destacam a falta de espaços culturais públicos na região, em contraste com a Asa Sul, que conta com o Cine Brasília, o Espaço Cultural Renato Russo e a Biblioteca Demonstrativa de Brasília. A subsecretária da Política do Livro e da Leitura da Secretaria de Cultura do GDF, Ivanna Sant’Ana Torres, teve conhecimento do movimento como moradora da Asa Norte, mas logo apresentou aos organizadores o projeto Bibliotecas do Cerrado, coordenado pela secretaria e aplicado, atualmente, na Biblioteca Nacional de Brasília e nas bibliotecas públicas do Cruzeiro e do Núcleo Bandeirante. O projeto tem o objetivo de tornar bibliotecas públicas centros de convivência, com oferta de leitura e atividades culturais e sociais para crianças, jovens, adultos e idosos. Ivanna afirma que a secretaria não conta com um projeto específico para o espaço antes ocupado pelo antigo Caje, mas, caso a instalação de uma biblioteca pública vinculada ao GDF seja realizada, o projeto apresentado pode atender aos anseios da sociedade civil. “Nós apresentamos a eles a nossa concepção de biblioteca pública: um centro de convivência, uma referência para comunidade em termos de informação e cultura, com espaço para exposição, cineclubes, debates, oficinas, estudos. E que tenha um pertencimento por parte da população”, afirma a subsecretária.


A estudante de ciências sociais Isadora Dias ganhou uma muda em troca de uma ideia: pediu um local para escalada (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
A estudante de ciências sociais
Isadora Dias ganhou uma muda
em troca de uma ideia: pediu
um local para escalada
O  último levantamento do Conselho Regional de Biblioteconomia (2008) aponta a existência de 714 bibliotecas no Distrito Federal, sendo a maioria delas bibliotecas públicas escolares (438). Na ocasião, o conselho registrou 28 bibliotecas públicas – atualmente, a Secretaria de Cultura contabiliza 27 unidades públicas. Já em 2011, a Gerência do Sistema de Bibliotecas Públicas do DF apontou que grande parte das bibliotecas públicas se encontrava em condições precárias de funcionamento, com acervos desatualizado e desorganizado, números insuficiente de servidores e falta de conexão à internet para uso do público.

 

Além  das bibliotecas públicas, a Secretaria de Cultura do GDF coordena outros 14 espaços culturais públicos. No último mês, no entanto, o órgão só apresentava a programação cultural de três espaços – Cine Brasília, Museu Nacional e Centro Cultural 3 Poderes – no site oficial. Diversos outros locais estão oficialmente fechados para reformas no mesmo momento, como o Teatro Nacional, o Centro de Dança, o Espaço Cultural Renato Russo e a Concha Acústica. A Secretaria da Cultura informou que outros 12 equipamentos públicos de cultura estão sendo construídos no DF, sendo sete por meio da Secretaria de Habitação, Regularização e Desenvolvimento Urbano (Sedhab) e três pela Secretaria de Obras. Em relação à proposta de construção de um espaço cultural na 916 Norte, a Secretaria da cultura informou à reportagem que “acha legítimo e apoia iniciativas para abrir espaços culturais que possam ajudá-la a cumprir seu papel de desenvolver a Cultura. No entanto, a demanda da sociedade precisa ser posta para o governo como um todo, já que o espaço, o terreno, não é da Secretaria de Cultura”.

 

Faixa com a frase 'Eu apoio o centro cultural' no Piquenique Cultural: 
moradores se reuniram para discutir ideias para o centro (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Faixa com a frase "Eu apoio o centro cultural" no Piquenique Cultural: moradores se reuniram para discutir ideias para o centro

 

Impasse do terreno

 

O Caje, demolido em março: já não havia as  mínimas condições de oferecer chances de ressocialização aos internos (Marcelo Ferreira/CB/DA Press)
O Caje, demolido em março: já não havia as
mínimas condições de oferecer chances de
ressocialização aos internos
O terreno onde ficava localizado o antigo Caje pertence ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT). Após a demolição do centro, a Secretaria da Criança – responsável pela execução das medidas socioeducativas no DF – deveria ter devolvido o espaço limpo e esvaziado  ao tribunal em até 30 dias. Até o fechamento da edição, o espaço ainda não havia sido entregue.


Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria da Criança, havia uma estimativa de até 60 dias para a completa limpeza do local. O serviço está sendo realizado pela Novacap. Logo após a demolição do Caje, o governo do Distrito Federal defendeu a construção, no lugar do antigo centro, de um espaço que atendesse à juventude brasiliense. Mas a atual gestão da Secretaria afirmou apenas que “cabe à Secriança devolver o terreno ao tribunal, o que deve ser feito brevemente, e o tribunal vai decidir sobre a destinação da área”.


A  assessoria do TJDFT informou que, quanto à destinação, o tribunal só irá deliberar sobre o assunto após a entrega do terreno. No entanto, quando a demolição da unidade de internação completou um mês, em 29 de abril, o gabinete da presidência do TJDFT enviou ofício ao governador  do DF, Agnelo Queiroz, solicitando a devolução do terreno, “que servirá para a implantação de outras unidades jurisdicionais”.


Para influenciar na articulação em prol da construção de um espaço cultural, organizadores do movimento “Eu apoio o Centro Cultural da Asa Norte” chegaram a redigir a minuta de um projeto de lei que “dispõe sobre a autorização de criação do Espaço Cultural de Múltiplo Uso da Asa Norte”.  O documento foi entregue ao gabinete do deputado distrital Wasny de Roure (PT), presidente da Câmara Legislativa do DF. Na justificativa do projeto, o movimento cita a Lei Orgânica do DF, que estabelece a garantia do desenvolvimento cultural do Distrito Federal mediante a “criação e manutenção, nas Regiões Administrativas, de espaços culturais  de múltiplo uso, devidamente equipados e acessíveis à população” (artigo 248). A assessoria de Wasny informou que o deputado está disposto a integrar a discussão sobre o assunto, por meio de reuniões com a Casa Civil do DF e com o TJDFT.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017