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NAS TELAS | José João Ribeiro »

A praia dos meninos heróis

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:23/06/2014 10:04Atualização:23/06/2014 10:23

Polêmicas à parte, o cinema artesanal do diretor Karim Aïnouz é sempre marcado pela coragem e pela intensidade. O belíssimo Praia do Futuro ainda confirma a coerência de uma carreira sólida e invejável, bem à frente dos colegas contemporâneos. Festejado desde a estreia com Madame Satã e O Céu de Suely, Karim, em seu novo longa-metragem, escolhe uma história rasgadamente masculina, permeada por sentimentos fortes, viscerais, desde o começo com uma paixão avassaladora, até o abandono, incapaz de prever as drásticas consequências futuras. Com tanta ambição, apresentando imagens de tirar o fôlego, é lamentável reduzir Praia na categoria de filme gay. Assim como o recente Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, surge uma oportunidade de debater o preconceito burro, a caretice, além da descerebrada homofobia, com a iniciativa de projetos tão sinceros, recortados com tanto afeto, para atingir a todos os nichos do público.

 

Wagner Moura, em cena de A Praia do Futuro: atuação fantástica deixa para trás o célebre personagem Capitão Nascimento (Califórnia Filmes/Divulgação)
Wagner Moura, em cena de A Praia do Futuro: atuação fantástica deixa para trás o célebre personagem Capitão Nascimento

Acima disso, Praia do Futuro enche de orgulho os que torcem pelo cinema nacional, não tropeçando nas armadilhas de, por exemplo, se autoexplicar a todo tempo, para valorizar ao máximo as pausas da câmera, os silêncios e toda a rica expressão corporal, meticulosamente ensaiada. Sem querer desmerecer o nacionalismo, necessário e valioso, Praia do Futuro, coprodução entre o Brasil e a Alemanha, incorpora o nosso sotaque com o melhor do padrão europeu.


O salva-vidas Donato (Wagner Moura) não se satisfaz, de alguma forma, com seu ofício diário, na ensolarada praia do Futuro, ponto obrigatório no turismo da capital cearense. Na primeira cena da produção, logo de cara, o bombeiro falha na tentativa de socorrer um afogamento, muito comum em mar tão traiçoeiro. Este é o estopim para “O Abraço do Afogado”, primeira e fundamental parte do filme de Karim Aïnouz. Ao procurar o companheiro da vítima, o turista alemão Konrad (Clemens Schick), na emergência de um pronto-socorro, para prestar satisfações do falecimento, Donato ainda não sabe que sua vida mudará radicalmente, a partir de uma relação forte, com carga infinita de excitação, que surgirá desse primeiro contato.


Seguir, simplesmente, a lógica do amor e de uma promissora e pacífica convivência, na fria Berlim, não se desdobrará, necessariamente, em consequências serenas. Pelo contrário, Donato deixa para trás uma família e, principalmente, um irmão caçula, Ayrton (o incrível Jesuíta Barbosa, na terceira e última parte de Praia), que alimentava uma admiração cega pelo irmão primogênito, a quem compara com a figura do Aquaman, dominador soberano de todo e qualquer mar.


Praia do Futuro tem múltiplas qualidades, a começar pelo brilhante roteiro, com trama simples e universal, assinado por Karim, juntamente com Felipe Bragança. Difícil não se impressionar com a beleza original da fotografia de Ali Olcay Gözkaya, que mexe, remexe e abusa, com extrema competência, das tonalidades marcantes e opostas de Fortaleza e de Berlim. E, novamente, com a preparação de elenco a cargo da controversa Fátima Toledo, Wagner Moura prova ser o verdadeiro titã.


Felizmente, ele próprio se reconhece um “bicho de cinema”. Em seu melhor trabalho, Wagner, sem intenção, colabora para o esquecimento, principalmente para aqueles que rejeitam, da estampa fascista e populista do Capitão Nascimento. Qualquer impressão antiga da truculência rasa fica no passado.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017