..
  • (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Beleza | Comportamento »

Entre tesouras e tatuagens

Elas abominam chapinhas, são donas do próprio salão e, com estilo único, atraem clientela sedenta por fugir do padrão sem abrir mão de qualidade

Teresa Mello - Publicação:23/06/2014 10:07Atualização:23/06/2014 10:17

Sônia Batista é proprietária do salão  Studio S, em Águas Claras: 'Se a cliente chega querendo mudar, não tem isso de só cortar dois dedinhos' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Sônia Batista é proprietária do salão
Studio S, em Águas Claras: "Se a
cliente chega querendo mudar, não
tem isso de só cortar dois dedinhos"
Precoces e talentosas, as cabeleireiras Sônia, Marina e Isabella têm entre 32 e 42 anos, são donas do próprio salão e deixam as cabeleiras da cidade voarem em estilo moderno, de acordo com o perfil da cliente. Atendem de crianças a velhos. O resultado? Quem vai uma vez vira freguês e ainda leva a família e os amigos.


Quando o corte ficou pronto, Guilherme de Paula Fernandes colocou os óculos pretos e amarelos e mirou-se satisfeito no espelho. Passava longe da timidez própria da idade. Aos 12 anos, o estudante nunca pisou em uma barbearia. Só corta cabelo com Sônia Batista, baiana nascida em Xique Xique há 38 anos e que trabalha com oito tipos de tesouras, a maioria japonesas e alemãs. “Ela faz vários cabelos de que eu gosto”, resume ele, acostumado a elogios dos colegas: “Nossa, ficou legal, radical”.


Na Asa Norte, o instrumento de Marina Praia, de 42 anos, é peça afetiva: foi-lhe dada pelo italiano Maurizio Mandala, de quem a paulista foi assistente por dez anos. Mandala ganhou a tesoura japonesa como prêmio em Londres. No Guará, Isabella Ferrugem, de 32 anos, acredita no dom para repaginar a clientela e prefere a simplicidade: tem um assistente na casa roxa que divide com a irmã estilista e corta com tesourinha comum vendida em farmácia.


Em comum, as três, que colecionam tatuagens e abominam chapinha, oferecem ambientação diferente dos salões padronizados e dividem o espaço com irmãs ou sócias. O preço médio do corte feminino é de R$ 80.


No último mês, Sônia Batista chegou de mais uma temporada de estudos, desta vez em Paris, com o mestre visagista Claude Juillard. Para ela, técnica é importante sim. Ver o que os especialistas fazem lá fora, observar as velhinhas de cabelo rosa-bebê pelas ruas, tudo isso é informação.


Ex-professora de corte e automaquiagem do Senac/DF, admite ser o orgulho do pai, dono de um salão na Asa Sul, onde começou aos 15 anos como auxiliar. Era garota-xampu. “É paixão desde criança”, garante ela, que, sete tatuagens e 23 anos depois, trabalha com a sócia, a administradora Rachel Balduíno, às margens da EPTG.


O ambiente branco, preto e prata destaca as divas Marilyn Monroe e Audrey Hepburn nas paredes. Não tem música de boate e a película no vidro encarrega-se de dar privacidade. “Cerca de 70% das clientes vêm tratar de queda capilar”, estima Sônia, atribuindo o problema ao excesso de química presente em relaxamentos, progressivas, selagens. “Depois de três aplicações, o cabelo começa a quebrar, porque a mulher não faz nutrição do bulbo”, analisa.

 

Além de tratamentos e cortes – ela prefere a lua crescente –, o talento de Sônia esquadrinha o rosto de quem ali chega. É a técnica do visagismo, “a arte da imagem”. Entram no diagnóstico o tom de pele, o formato do rosto, os olhos, a boca, o nariz. Por exemplo, quem tem testa grande não deve usar franja pesada. Já o rosto redondo recebe bem qualquer tipo de corte, complementado por um desfiado lateral. O oval pede franja leve.


“A franja estará em alta no inverno, assim como o cabelo curto, enquanto a coloração fica nos marrons, cobres e dourados”, antecipa. No curso de automaquiagem, a interessada é quem leva os próprios produtos. Aprende a usá-los e a explorar melhor o tom da pele. Mais uma dica: sobrancelhas estão mais marcadas e levam pitadas de sombra.


E, para quem morre de medo quando a tesoura trisca perto dos fios, Sônia é categórica: “Se a cliente chega querendo mudar, não tem isso de só cortar dois dedinhos”.

 


Marina Praia (esq.), com a irmã Vania Praia, no salão que leva o sobrenome da dupla: 'Aparava cabelo das avós com tesoura de costura' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Marina Praia (esq.), com a irmã Vania Praia, no salão que leva o sobrenome da dupla: "Aparava cabelo das avós com tesoura de costura"
Quem chega à praia de Marina recebe um abraço gostoso e um capuccino. Na vitrine, há areia e conchas; a marquise é feita de palha; o guarda sol protege quem prefere esperar ao ar livre. O projeto da arquiteta Beatriz Álvares traduziu o gosto da cabeleireira: “Eu queria um salão com cara de pousada, à vontade”, explica.


Estrela-do-mar, jangada, peixes decorativos, tudo leva ao mar de Marina. Bem ali na Asa Norte. Uma cadeira azul-piscina, assinada pelo designer carioca Fernando Jaegger, completa o clima praiano.


Até mesmo no banheiro, há fotos e objetos do oceano. Paredes branquíssimas delimitam a área e dão serenidade à clientela. “Somos um salão bem eclético”, define Marina, mãe de João, de 8 anos. “Os carros-chefes são maquiagem e penteados, produção de fotos e publicidade”, acrescenta.


A história dela assemelha-se à das colegas. Aos 12, cortava a franja. E ia além: “Aparava cabelo das avós com tesoura de costura. Como ainda não tinha qualquer técnica, seguia o instinto”.


A experiência logo surgiria por meio de um convite para trabalhar com Maurizio Mandala: “Ele mudou o meu destino. Eu o considero mais um artista do que um cabeleireiro”. Dez anos depois, Marina quis conhecer outra praia. “Ela aprendeu tudo. Percebi que tinha talento e a convidei para ser minha assistente. Gostei da postura, da honestidade e da disposição dela”, elogia Mandala.


A irmã, Vânia, administra os ventos e as marés e ainda faz maquiagem e penteados. O reflexo no mar é nulo, mas Marina confessa que, para cortar, a lua nova é a favorita. “Ela dá uma renovada”, aposta.


Um traço da especialista é o corte a seco em cabelos cacheados: “Assim, você dá o formato que quer”, ensina ela, cujo maior prazer é proporcionar felicidade imediata e mudança de visual às clientes.


A tendência na areia cenográfica montada há dois anos e meio é bem variada. Vale tudo, desde o Chanel, passando pelo assimétrico, os efeitos de mecha e as cores vivas como o azul e o rosa. “É preciso ver o que combina melhor com cada um”, orienta. Os tons quentes são um hit, como acobreados, acastanhados, avermelhados.


A praia também atrai um público infantil. A advogada Renata Pagy, de 40 anos, comemorou os 6 anos da filha Júlia em um sábado à tarde. O espaço do salão foi reservado durante duas horas para dez amigas da aniversariante. “Elas vão ter um dia de perua”, animava-se a mãe, enquanto as meninas eram maquiadas, penteadas e escolhiam cores de esmalte. Sem faltar o brigadeiro, claro.

 

Cortes desfiados

 

Isabella Ferrugem, do Espaço Ferrugem: 'O que está na moda éaquilo que fica bem em você' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Isabella Ferrugem, do Espaço
Ferrugem: "O que está na moda é
aquilo que fica bem em você"
“Ela começou a cortar aos 12 anos no quintal da nossa casa”, lembra Rosângela Ferrugem, mãe e fã de Isabella. “Colocou um espelho e uma cadeira no barracão e cada um pagava o que queria.” Vinte anos depois, a cabeleireira faz a cabeça dos modernos em cortes desfiados e assimétricos, lisos e cacheados. “Aqui vem gente da música, do teatro, UnBetes”, enumera a profissional autodidata: “Nunca fiz curso, sou destemida. Nasci com o dom. Aos 11 anos, cortava o cabelo da filha do síndico”, lembra.


Hoje, a paisagem saiu do quintal e subiu pelas paredes do salão em forma de girassóis e de céu azul. “Ela é visionária no ponto certo e é uma menina com linguagem própria”, diz o antigo patrão Maurizio Mandala.


A lua nova, preferida para os cortes, não ilumina o salão. Nem precisa. Isabella preenche o espaço com imagens de Buda, santos e peças de brechó. “O que mais me agrada é a contribuição para a felicidade das pessoas”, percebe ela, nascida em Brasília e mãe de Guilherme, de 12 anos.
A característica básica da profissional são os cortes desfiados, em que o cabelo muda sem tirar no comprimento: “É o recorde de pedidos”, aponta. Tons de marrom e de cobre e o eterno Chanel são destacados como tendência da estação. “Mas o que está na moda é aquilo que fica bem em você”, conclui.

COMENTÁRIOS
Os comentários estão sob a responsabilidade do autor.

EDIÇÃO 55 | Julho de 2017