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CULTURA | PERFIL »

Com a luz de Brasília nos olhos

Francisco Alvim é um diplomata e poeta que escolheu a capital para morar. Iniciado por Drummond, devoto de Dalton Trevisan, colega de Guimarães Rosa, confessa a admiração por outro ídolo: Lucio Costa

Severino Francisco - Publicação:24/06/2014 10:26Atualização:24/06/2014 12:10

O poeta mineiro/carioca/brasiliense Francisco Alvim é o que se poderia chamar de uma pessoa elegante, espiritualmente elegante. Ele ganhou o título nobiliárquico de “Príncipe da Poesia Marginal”, que ostenta com leveza e senso de humor carioca, sempre engatilhado: "Não sinto responsabilidade nenhuma com esse título”, comenta, matreiramente, Chico. “Você já viu algum príncipe marginal responsável? Me sinto coroado e leve, leve e coroado."


Chico Alvim vive hoje no Lago Norte, cortejado pelos beija-flores (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Chico Alvim vive hoje no Lago Norte, cortejado pelos beija-flores

Mas que ninguém se engane, o ser dele é mineiro, agudo, metafísico, angustiado, moral e crítico. Chico abriga contrastes surpreendentes. Ele é a pessoa mais gentil e, simultaneamente, o autor da poesia mais implacável com as ridicularias, as mesquinharias, as perfídias e os desejos inconfessáveis de cada um. Chico é uma espécie de Dalton Trevisan da poesia a destilar ironia, drama e farsa com sua antilira. No poema intitulado Argumento, ele diz simplesmente: “Mas se todos fazem”. O não dito é tão ou mais importante do que é dito em seus versos, que ficam ressoando na cabeça.

Ele é reconhecido como um dos grandes poetas brasileiros vivos e escolheu Brasília para morar depois da aposentadoria como diplomata pelo Itamaraty. Sempre foi um leitor apaixonado de ficção e devoto dos contos de Dalton Trevisan. Ao mesmo tempo, nunca se sentiu motivado pela construção de enredos. "Poesia, para mim, é o antienredo, é um pouco a pele das coisas, aquilo que se vê e que se toca; se entrecho há, é crivado de furos. É um lance de tons sonoros, plásticos, psicológicos; um ritmo que sugere emoções, sentimentos, que se faz numa linguagem entrecortada, que tende para o sumário e o inconcluso. A elipse de Dalton é uma ferramenta e tanto para operar esse tipo de jogo, de escrita vazada."

Chico foi colega de Guimarães Rosa no Itamaraty, no Rio de Janeiro, de 1965 a 1967. Rosa gostava de convidar os diplomatas intelectuais jovens para ler a sua obra e opinar com toda a franqueza: “Ele era, efetivamente, uma pessoa de grande sensibilidade, ficava perturbado com acontecimentos aparentemente banais”. Rosa tinha uma classificação singular das categorias e nuanças de mineiro. O do barro era o sertanejo, boiadeiro, alegre, boêmio, extrovertido, viajante, apreciador de mulheres e de bebida. Rosa se considerava um mineiro do barro. Havia também o do ferro e Carlos Drummond de Andrade é o personagem que encarna essa vertente, marcada pelas montanhas, pelas escarpas, pelos caminhos pedregosos, pela paisagem moral e pela meditação metafísica. Existe, ainda, o do ciclo do ouro, desconfiado, arguto, estrategista.


 (Arquivo CB/DA Press)

Rosa não chegou a formular uma categoria para nomear a Zona da Mata, onde Chico nasceu. Mas ele próprio arrisca que é um ambiente de melancolia, talvez similar ao de Pernambuco. O escravismo foi pesadíssimo por aquelas paragens: “Acho que trago isso no meu sangue”, pondera Chico. “Mas, por outro lado, é algo que não me deixou fora do Brasil. Essa angústia, essa insegurança, essa iminência de algo perigoso, escuro e, por vezes, sinistro”. No poema Depois da Abolição, ele registra: "Eu vi/os filhos do Barão de Porto Novo/louros olhos azuis/descalços na estrada/maltrapilhos/cantando em francês".

Chico nasceu na cidade de Araxá, onde o pai foi prefeito, mas, aos 2 anos, mudou-se com a família para o Rio e ficou até os 9. Morou em Belo Horizonte até os 13, retornou ao Rio e saiu de lá diplomata aos 30 rumo a Paris. Dois anos mais tarde, estava em Brasília, onde viveu de 1975 e 1995: “Meu apelido no Rio era mineiro e em Minas era carioca. Mas a minha mineiridade é menos de território do que de família”. Ele colocou um pouco do silêncio de Minas em seus versos: "Apenas: uma sala especial/onde ficarão apenas/o depoente, os membros da comissão de inquérito, o cardiologista/e a equipe de televisão/para a transmissão em pool".

A família teve um peso crucial na iniciação de Chico à poesia. Ele tinha 13 anos, estava meio perdido, sofrendo com o tédio e a solidão. Admirava muito a irmã mais velha, Maria Ângela Alvim, poeta, amiga de Carlos Drummond de Andrade. Quando tinha 23 anos, ela lançou o livro Superfície. Seis meses depois, apareceu uma resenha no Suplemento Literário de Minas Gerais falando com objetividade que não era uma obra definitiva, mas tinha a marca de uma poesia extraordinária. O autor era Drummond, sob pseudônimo, e a avaliação seria profética: ela morreu aos 33 anos, compôs uma obra pequena e densa. Como os versos "Rosas floresceram em meus cabelos./Negras rosas do Egito./Meu corpo espera há séculos/e a alma o presencia./Só a morte compreende".

 (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Maria Ângela passou a Chico um exemplar com poemas de Jorge de Lima, autografado pelo próprio autor: "A adolescência é uma idade em que falta critério e compostura. Minha irmã me revelou algo que ia além da estupidez que, em geral, é a vida. Foi uma tábua de salvação. Fiquei encantado com o poder da palavra, a linguagem metafórica e sensual de nordestino do Jorge de Lima. Aos 18 anos, descobri Carlos Drummond de Andrade e ocorreu em mim uma luta de gigantes entre ele e o Jorge".

No duelo de titãs, venceu Carlos Drummond de Andrade, com a sua linguagem descarnada, fragmentária, existencial, gaguejada, irônica, corrosiva e dramática: "Drummond representou, para mim, a opção pelo caminho moral. Não é o moralismo do certo ou do errado nem o bom comportamento. É a experiência humana e o risco de viver, de fazer escolhas. É a existência como nervo exposto. Mas, de vez em quando, evoco o gosto pela metáfora da minha formação de leitor de Jorge de Lima".

A nobreza de Chico é a do modernismo, uma nobreza da inteligência, da imaginação, da cultura, do espírito crítico, da elegância, do humanismo e do humor. Ele é casado há 51 anos com Maria Clara Alvim, professora universitária, irmã do cineasta Joaquim Pedro de Andrade e filha de Rodrigo Melo Franco de Andrade, intelectual mineiro que criou e dirigiu, durante 30 anos, o Iphan — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a partir de um projeto elaborado por Mário de Andrade. Chico e Clara se conheceram quando eram adolescentes, em Ouro Preto, e foram casados no civil pelo escritor Aníbal Machado: “É um vínculo modernista completo”, diverte-se Chico. Eles têm dois filhos: Joana, nascida em Paris e formada em artes plásticas em Barcelona; e Pedro, artista plástico e professor do Instituto de Artes da Universidade de Brasília.

Brasília ostenta uma luminosidade singular que, com certeza, pesou na decisão de se reinstalar, definitivamente, na cidade, em 2011, depois de se aposentar. Pensou no Rio, mas desistiu: "O Rio não é uma cidade fácil. O carioca sempre fará o gesto de ‘venha, me veja’, que quer dizer ‘não vá, não me chateia’."

Chico mora em uma casa aprazível no Lago Norte, com uma fachada de pedra inscrustada de plantas, que, em alguns momentos do dia, chega a atrair mais de 20 beija-flores: "Fiz há muito tempo um poema sobre a luz de Brasília. Estava no Eixão e, de repente, me veio uma sensação de felicidade imensa e gratuita. Era um jogo da luz com a sombra, mas uma sombra luminosa. O mundo virou um acontecimento em si mesmo. Me veio uma lembrança de pintura, e, no fim, evoquei a arte dos pintores da luz: Poussim, Guinnard. Lembrei-me da chegada de Dante Alighieri ao Purgatório, que é uma maravilha. A luz proporciona felicidade. É uma uma coisa muito importante porque a minha poesia é, frequentemente, escura e sombria".

 

 (Zuca Sardan/Divulgação)
Brasília deu a Chico a dimensão de Brasil. No Rio, nunca tinha se dado conta de que existia o sotaque catarinense, paraense ou maranhense. Quando desceu do avião no Planalto Central, Chico teve a sensação de que bebia um copo de água pura pelo nariz. Era o ar de Brasília: "Há um jogo de luz e sombra que apazigua. Há horas em que dá para sentir um isolamento do mundo, uma luz suave, pacificada, uma imensa beatitude. Em Paris, tive uma antecipação dessa experiência. No entanto, senti isso mais aqui do que em qualquer outro lugar".

Sem pretender corrigir Brasília, Chico aponta a dificuldade para a vida dos pedestres, apesar das vantagens de deslocamento por meio do carro: "Qual cidade do mundo você pode atravessar de uma ponta a outra em 15 minutos? Mas, ao mesmo tempo, vejo o pessoal que vem das cidades caminhando distâncias enormes para chegar aonde trabalham".

A luz e o céu são os aspectos que mais o entusiasmam em Brasília. E, neste sentido, ele atribui uma grande importância a Lucio Costa, que agiu como um escultor ao conceber a cidade: "Ele pousou Brasília sobre o cerrado com uma perfeição e uma harmonia impressionantes com o cosmos. Lucio Costa é um gênio absoluto. De repente, a cidade vira um ar, um sopro e flutua".

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017