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Salto para a vida

Jovens brasilienses confessam o amor sem limites pelos cavalos. Hoje, eles são referência no hipismo nacional e ganham cada vez mais oportunidades no exterior

Ana Letícia Leão - Redação Publicação:22/07/2014 10:32Atualização:22/07/2014 10:32

Samanta Tiveron, de 15 anos, acumula títulos  desde 2009: 
montou em um cavalo pela primeira  vez antes de falar (Luis C. Ruas/Divulgação)
Samanta Tiveron, de 15 anos, acumula títulos
desde 2009: montou em um cavalo pela primeira
vez antes de falar
Haja o que houver, eles estão montados. Faça chuva ou faça sol, eles montam um, dois, quatro, e os mais experientes, até dez cavalos em apenas um dia, quase todos os dias da semana. São crianças, adolescentes e jovens de Brasília, a maioria baixinhos, mas que se tornam gigantes em cima dos animais. A ponto de se destacarem em competições internacionais, chamando a atenção de olheiros e de grandes nomes da equitação.

Eles começam a saltar pequenos obstáculos, em média, aos 8 anos, idade em que já estão autorizados a participar das primeiras competições. Muitas vezes, no entanto, a paixão pelos cavalos é despertada muito antes. Samanta Tiveron, de 15 anos, montou em um cavalo pela primeira vez antes mesmo de falar. Foi em Rio Verde, uma cidadezinha do interior de Goiás. Só sossegava depois de dar 15 voltas em cima de um jegue numa praça, e mesmo assim sempre queria mais. Ali, os pais já pressentiram a paixão da filha pela montaria.

Assim que pôde, foi a uma escolinha de equitação e, quando alcançou a idade mínima para o salto, não parou mais. Ganhou inúmeros concursos. Foi campeã por equipe do FEI Children Jumping Championships em 2013, na Argentina; bicampeã Brasiliense Mirim em 2012 e 2013, campeã brasileira por equipe em 2008, com apenas 9 anos; campeã brasiliense de Amazonas, e por aí vai.

 (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Como toda garota, tem o quarto enfeitado e colorido. Em vez de bonecas, Samanta espalha pelas paredes, gavetas e escrivaninha centenas de troféus, faixas e medalhas. Quando criança, os brinquedos preferidos eram cavalinhos de plástico. “Boneca, só se estivesse em cima de algum cavalo. Larguei a natação e o violino, não me identificava. Gostava mesmo era de montar”, conta. Sobre cavalos, o amor é tão grande que a jovem não consegue medir. “Não sei explicar o que sinto por eles. Acho que são tudo para mim.”

Para se manter como destaque no hipismo, a rotina de treinos é pesada. Atualmente com duas éguas (Upsakee e Carlota, seus xodós) e um cavalo (Carlucci, que fica em São Paulo), a jovem atleta treina, em média, duas horas e meia por dia, quatro dias por semana, na Sociedade Hípica de Brasília. “O corpo já não dói mais, me acostumei. Não são todos os dias que salto também, o cavalo precisa ser poupado”, explica.

Segundo os pais, André Tiveron e Cristine Martins Barbosa Tiveron, Samanta participa de pelo menos duas competições por mês e muitas são fora de Brasília. “Acabamos nos envolvendo com o hipismo e, quando percebemos o talento dela, virou um programa familiar”, conta Cristine.

 (TM FOTO & VIDEO/Divulgação)
Atualmente, Samanta se prepara para o Campeonato Sul-Americano da Juventude, que será em outubro, em Santiago, no Chile. Em sua categoria, a Pré-júnior, que salta 1,30 m, só dez brasileiros melhores classificados vão poder participar do concurso e disputar o título. “Não é uma seletiva fácil. Eles estão pegando pesando, a pista é complexa”, afirma. A competição chilena é o principal objetivo das equipes de alta performance que compõem as categorias de base de salto, segundo a Confederação Brasileira de Hipismo (CBH). Até agora, os concorrentes já saltaram quatro etapas: em Florianópolis, em Natal, Brasília e São Paulo. Segundo a CBH, é necessário que o participante complete pelo menos duas etapas, além da disputa obrigatória do Campeonato Brasileiro, neste mês. Irão para Santiago os três primeiros colocados nas seletivas regionais, os três primeiros lugares do Campeonato Brasileiro e quatro candidatos selecionados de forma mais subjetiva, ou seja, aqueles que, apesar de não estarem entre os seis citados acima, têm um alto desempenho em sua categoria no Brasil.

 (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Para Jorge Dornelles, presidente da Federação Hípica de Brasília, a etapa em Brasília, entre os dias 23 e 25 de maio, foi uma oportunidade para cavaleiros e amazonas do Distrito Federal mostrarem seu trabalho em casa. “Trazer essa etapa para Brasília foi uma grande vitória”, comemora. Segundo ele, estiveram presentes na Sociedade Hípica mais de 100 concorrentes nos três dias de competição.

Com apenas 1,55 m, Siew, de  14 anos, já salta 1,30m: 'Não  me intimidam os saltos altos' (Minervino Júnior/Encontro/DA)
Com apenas 1,55 m, Siew, de
14 anos, já salta 1,30m: "Não
me intimidam os saltos altos"
A capital é apontada como uma das cidades com destaque no hipismo, em 2013. A Federação Hípica de Brasília ganhou três medalhas de ouro por equipe, cinco de prata e três de bronze. Individuais, foram quatro de ouro, quatro de prata e cinco de bronze. Os brasilienses perderam apenas para a Federação Paulista de Hipismo.

Também de olho em uma vaga no Sul-Americano está Siew Chiang, de 14 anos. Nas últimas seletivas, ela tem se destacado como uma candidata de Brasília com poucas faltas na pista. Apesar da pouca idade, a jovem, de descendência oriental, também acumula uma série de títulos importantes na carreira. Em 2013, foi campeã pelo Brasil na Copa das Nações, na Flórida, campeã do Sul-Americano do ano passado, em Rosário, na Argentina, campeã brasileira e brasiliense de sua categoria em 2012, entre outros. Inspirada em Reed Kessler, a amazona mais nova a participar de uma olimpíada, com 18 anos, Siew pensa em levar o hipismo para a vida toda.

“Esse é o meu futuro, quero um dia ir para as olimpíadas, talvez em 2020”, afirma. Em sua participação em Brasília, Siew acabou caindo do cavalo após o animal, que era reserva, tropeçar na pista. Segundo o pai, Jin Chiang, a garota quebrou a clavícula após a queda, mas não desistiu de saltar. “Ela tomou um analgésico e montou com a clavícula quebrada mesmo. E foi um sucesso, não fez nenhuma falta”, comemora o pai. Após uma cirurgia para colocar uma placa a parafusos, Siew se recupera para poder saltar no Campeonato Brasileiro neste mês, e tentar garantir a vaga para o Sul-Americano. “Estamos todos torcendo para ela estar recuperada e ir para Santiago. Ela quer se recuperar logo”, diz o pai.

Focada em morar fora do país quando terminar a escola, ela se prepara para estudar engenharia petrolífera nos Estados Unidos e ao mesmo tempo fazer parte da equipe de hipismo de uma universidade americana. De acordo com o pai, algumas faculdades acompanham o desempenho de Siew na escola e no salto, e o processo de mudança quando ela fizer 18 anos já está em negociação. Hoje, a relação com haras americanos é próxima, inclusive seus dois cavalos (Asterix e Up to you) são patrocinados por eles para que ela possa montar no Brasil. Em janeiro, mês em que há poucos campeonatos no Brasil, a jovem vai para Flórida treinar durante o mês todo no Santana Stables, um haras.

Com apenas 1,55 m, Siew já salta 1,30 m e garante que, apesar das quedas, não tem medo da altura do salto. “Não me intimidam os saltos altos. Já caí muitas vezes”, brinca. Quando fizer 15 anos, nada de festa. Ela quer mesmo, segundo o pai, é passar uma temporada na Europa para conhecer cavalos e, quem sabe, comprar um. “É apaixonada por isso. Quando criança, só dormia depois de se cansar naqueles cavalos motorizados dos shoppings. Aí sim voltava no carro dormindo. Todo dia era a mesma coisa”, lembra Jin.

Acostumada à rotina corrida entre a escola integral americana e os treinos diários, inclusive aos fins de semana, Siew não reclama. “Não tenho muito tempo livre, mas não sinto falta de outras coisas. O cavalo é um animal espetacular, requer sensibilidade e é meu companheiro”.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017