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Dez perguntas para | Fernando Maluf »

"O câncer é um bandido"

Um dos mais prestigiados oncologistas do país, Fernando Cotait Maluf lança livro e site em Brasília para esclarecer mais sobre a doença que será, no futuro, a maior causa de mortes no mundo

Dominique Lima - Redação Publicação:23/07/2014 08:00Atualização:23/07/2014 09:37

Câncer não é uma doença de um médico só. É uma doença para ser enfrentada por um time, que inclui profissionais de saúde, paciente, família e amigos. Com essa estratégia em mente, o oncologista Fernando Cotait Maluf, de 42 anos, atende pacientes em Brasília semanalmente há três anos. Um dos mais respeitados especialistas do país, o médico oncologista clínico é chefe do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, e atende pela Clínica Oncovida em Brasília.


Maluf se juntou aos médicos Antonio Carlos Buzaid e Drauzio Varella para lançar o projeto Vencer o Câncer, que inclui livro e portal na internet (www.vencerocancer.com.br). A ideia é informar mais, melhor e com maior precisão todos os envolvidos no processo de cura. E, acima de tudo, ressalta Maluf, alertar sobre o fator mais importante: a prevenção e o diagnóstico precoces continuam sendo as melhores armas na luta contra essa doença, que será a principal causa de morte na próxima década.

 (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
1 | ENCONTRO - Como surgiu o projeto Vencer o Câncer?
FERNANDO COTAIT MALUF - Há quatro anos, eu, Antonio Carlos Buzaid e Drauzio Varella criamos o projeto. A ideia era escrever um livro e criar um site, ambos complementares, para informar a população. Em especial, para a população saudável que quer fazer de tudo para evitar um câncer. Mas é também para pessoas que estão lutando contra a doença e para as que auxiliam os pacientes, como famílias, amigos e profissionais de saúde.

2 | O livro e o site são uma resposta confiável para quem procura informações na internet?
Todos os pacientes e os familiares deles entram na internet à procura de informação. O problema é que a internet pode ser útil ou não. É útil quando quem escreve são profissionais altamente abalizados, quando a escrita é clara e quando a procura remete para a situação daquele paciente. O que tentamos, com o livro e o site, é que essas três características estejam presentes. Nós travamos uma guerra contra o câncer; para mim, o câncer é um bandido. Você só consegue abater o inimigo se conhecer os pontos fortes e fracos dele.

3 | Qual a importância de pessoas saudáveis saberem mais sobre câncer?
Entre cinco e dez anos, o câncer será a maior causa de morte no mundo, passando as doenças cardiovasculares. À medida que a expectativa de vida aumenta, a população tem mais risco de desenvolver um tumor. Então, o objetivo desse projeto é sensibilizar, alertar a população. Com estilo de vida saudável e exames regulares, evita-se que alguém venha a ter a doença ou se consegue um diagnóstico muito precoce, em que as chances de cura são altas e os tratamentos, mais simples e de baixo custo.

4 | Os fatores ambientais são tão importantes quanto os genéticos como causas de câncer?
De cada dez tumores, somente um ou dois têm origem puramente genética – 85% dos tumores são originados por fatores ambientais. Cigarro, álcool em excesso e consumido regularmente, dietas inadequadas, obesidade, falta de exercício físico, exposição à luz solar sem proteção e ambientes poluídos levam parte da população a desenvolver câncer.

5 | Quais os avanços da medicina em relação ao diagnóstico de câncer?
Primeiro, o avanço no estudo do DNA de indivíduos saudáveis para tentar predizer com exatidão qual o tipo de doença que cada um vai desenvolver e a partir de qual faixa etária. Com isso, podemos, 20 anos antes de aparecer a doença, fazer uma intervenção, seja de hábitos, seja uma profilaxia medicamentosa, seja cirúrgica. Outra área em desenvolvimento é a do diagnóstico molecular do câncer, quando a pessoa tem o tumor removido e faz preventivamente um tratamento complementar para evitar que volte.


6 | E em tratamentos?
Há o desenvolvimento de drogas baseadas nas características moleculares do paciente. Ou seja, uma droga não é prescrita para todo mundo. A ideia é encontrar, para aquele paciente com determinado câncer, as características de fraqueza do tumor. Outro ponto importante é a melhoria das técnicas de radioterapia, mais específicas, que trazem menos danos aos tecidos vizinhos. Outro avanço são as cirurgias menores, que preservam os órgãos. No câncer de mama, por exemplo, o número de mastectomias caiu muito. Em câncer de rim, as nefrectomias radicais, em que você retira todo o rim, caíram bastante. Há os tratamentos minimamente invasivos, como o congelamento ou o aquecimento de tumores renais pequenos feito em ambulatório, além do tratamento para casos específicos de câncer de pulmão com agulhamento, em que você esquenta ou irradia o tumor sem cirurgia.

7 | Chegaremos à cura do câncer?
A dificuldade de curar o câncer é porque ele é extremamente heterogêneo. Se analisarmos 100 mulheres com câncer de mama, as alterações moleculares de cada uma delas serão diferentes. Então, diferentemente de outras doenças, como o vírus do HIV, que tem um ou dois pontos de fraqueza, no câncer as fraquezas são diferentes de paciente para paciente. É como estivéssemos brigando com uma série de bandidos, em que um é bom de caratê; outro, bom de jiu-jítsu; outro, de boxe. Para complicar, um tumor pode ter diferenças moleculares, ou seja, se fizermos a biópsia de duas áreas dele, encontraremos diferenças.


8 | Como avalia a estrutura de tratamento de câncer em Brasília? Como o paciente deve escolher o seu médico?
Brasília tem ótimos profissionais, mas poderia ter um desenvolvimento maior na área hospitalar e de tecnologia. O ideal para qualquer centro, seja de oncologia, seja de outra especialidade, é reunir, numa estrutura só, cirurgiões, oncologistas, patologistas, radioterapeutas, radiologistas, clínicos, intensivistas e enfermeiros. Todas essas pessoas precisam estar no mesmo ambiente, sob normas de excelência de conduta. O paciente deve escolher o médico pela sua formação e procurar os melhores serviços num primeiro momento, porque o primeiro tratamento é o mais importante. Além disso, tem de haver empatia e confiança.

9 | O câncer é uma doença agressiva. Como lida com essa realidade?
A primeira coisa a se pensar antes de fazer oncologia é sentar-se na cadeira de quem está doente. Isso é necessário para ter a dimensão do que a pessoa e a família dela passam. E, então, prover técnica apurada, excelência em assistência, mas também afeto. Para o paciente, é fundamental ter a percepção de que o médico está do lado dele. Isso aumenta a aderência aos tratamentos e aos exames. Eu me divirto com pacientes, brinco, dou risadas. O dia tem momentos de incrível alegria. Já recebi, por exemplo, uma paciente desenganada, com um câncer ginecológico metastático. Ela fez tratamento e está, há dois anos, em remissão completa. Isso é um baita prazer. Mas há tristezas também a cada batalha perdida.

10 | No livro e no site, há um espaço dedicado a tratamentos alternativos. Como a medicina convencional vê essas técnicas?
Se estou numa briga, eu uso todas as armas. Não tenho conhecimento sobre acupuntura ou reiki, mas eu sei que há situações em que essas técnicas podem ser benéficas, para complementar as tradicionais. Outro ponto importante é a nutrição. Sabemos que, para tumores de mama e intestino, além dos tratamentos convencionais, manter uma alimentação adequada é um fator potente para diminuir chance de recidiva. Câncer não é uma doença de um médico só.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017