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Presente de grego?

Os filhos imploram por um animal de estimação, mas os cuidados sempre sobram para os pais. Ainda assim, a convivência com os bichinhos rende lições de responsabilidade

Maria Fernanda Seixas - Redação Publicação:23/07/2014 10:04Atualização:23/07/2014 10:16
É quase uma unanimidade no universo infantil o sonho de ter um animal de estimação. O desejo, reforçado pelas histórias dos livros, dos desenhos animados e de filmes, porém, não acompanha a compreensão de que ter um bicho é bom, mas dá trabalho. As crianças pedem o cachorrinho, o gato, o hamster, o peixinho ou algum outro amigo, fazem e refazem promessas de que cuidarão dos animais, mas a rotina de limpeza e passeios, muitas vezes, não agrada aos pequenos. Sobra, então, para os pais.  A questão é: elas realmente conseguem assumir essa responsabilidade?

Aos 11 anos, Fernanda 
é a responsável pela shih-tzu Bella: leva até ao veterinário quando 
a mascote está doente (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Aos 11 anos, Fernanda é a responsável pela shih-tzu Bella: leva até ao veterinário quando a mascote está doente
Para a psicóloga Clarissa Kahn, é preciso entender que a criança naturalmente precisará de ajuda e até mesmo incentivo para conseguir lidar com outro ser vivo. “O senso de responsabilidade depende da idade dela. Crianças com 7 anos ou mais podem ter atribuições sim, mas elas serão gradativas e fiscalizadas por um adulto”, explica. Clarissa reforça que os benefícios emocionais em ter um animal são vários, mas é importante manter uma coesão na educação do bicho. “Por exemplo, se os pais não usam palmada com a criança, não podem bater no animal também”, ensina.

Na casa da advogada Luciana Medeiros e do administrador de empresas Vítor Rezende, a experiência surpreendeu a família. Fernanda, de 11 anos, filha do casal, nutria o sonho de ter um cachorro desde muito pequena. “Uma das primeiras palavras dela foi au-au”, brinca a mãe. A paixão era tanta que Fernanda nunca deu bola para bonecas. Preferia gastar o tempo com sua coleção de cachorros de pelúcia. “Ela pedia diariamente um cachorro. Dizia que cuidaria e que não seria feliz se não tivesse um. Sempre fui resistente. Pensava: ela vai brincar uma semana com o cachorro e, depois, acaba o encanto”, previa. Fernanda insistia. Pedia para entrar em todos os pet shops que via e comprava coleiras, roupas e brinquedinhos para o seu futuro cachorro.

Certo dia, a pequena adotou uma cigarra que apareceu na sua janela. Fez uma pequena casinha com uma caixa de sapatos, com direito a caminha, cobertor e travesseiro. Depois da cigarra, vieram um passarinho ferido adotado, peixinhos de aquário, hamsters, tartarugas.

Aos poucos, a filha convenceu os pais de que a paixão não era passageira e que seu desejo de ter e cuidar de um cachorrinho era assunto sério. Um dia, chegaram em casa e a menina estava puxando o irmão mais novo por uma coleira. “Perguntamos o que era isso e ela respondeu: ‘é meu cachorrinho!’.” O pai, então, não resistiu. Finalmente, aos 8 anos, a Nanda ganhou a shih-tzu Bella.

Pedro e Luciana Portella com as filhas Cristina (de branco) e Natália: 
eles cuidam; as crianças brincam com a gatinha (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Pedro e Luciana Portella com as filhas Cristina (de branco) e Natália: eles cuidam; as crianças brincam com a gatinha
Hoje, Fernanda sabe que cuidar da cachorrinha não é tão fácil quanto imaginava, mas faz questão de participar de tudo que envolve a rotina da cadelinha. “É a Nanda que passeia, leva ao pet shop, compra presentes, dá remédios, leva para vacinar, comemora os aniversários. No último, até fez um bolo de ração e convidou os cachorros do prédio”, garante a mãe. “Cuido dela todos os dias. A Bella dorme no meu quarto, ao lado da minha cama. O que menos gosto é de levar ao veterinário quando ela está doente. Não gosto de vê-la quietinha e triste. Aprendi a ter muito mais responsabilidade e a organizar melhor minha rotina”, conta Fernanda, que sonha cursar  biologia e ter uma casa cheia de bichos. “Os principais valores fomos nós, pai e mãe, que aprendemos. A Bella é dócil, amorosa, companheira, fiel, é a primeira a nos receber quando chegamos em casa!”, derrete-se Luciana.

Já na família do advogado Pedro Portella e da empresária Luciana de Aragão, a escolha de presentear as filhas, Cristina, de 7 anos, e Natália Portella, de 3, com um gatinho já foi acompanhada da certeza de que as meninas não assumiriam toda a responsabilidade que prometeram. “A Cristina sempre gostou de bichos, mas tínhamos apenas cachorros grandes, dos quais ela nem chegava perto. Com 3 anos, ela começou a pedir um bicho de estimação. Disse que cuidaria do animal, mas, mesmo assim, a mãe não queria. Até eu prometi que assumiria a responsabilidade para convencê-la”, conta Pedro.

Depois de muita negociação, Pedro foi a um abrigo escolher uma gatinha. No início, as pequenas ajudavam em tudo. Mas, aos poucos, deixaram as obrigações de lado. “Já sabíamos que seria assim. Acho normal. Não é porque elas não cuidam da gatinha que têm menos carinho por ela”, afirma o pai.

Ainda assim, a família acredita que a gatinha, chamada Patricka, é uma constante lição de responsabilidade para todo mundo, além de uma possibilidade de ensinar às filhas a lidar com perdas inevitáveis. “Uma das principais lições de ter um bichinho é o fato de a criança saber que, um dia, ele não estará mais entre nós”, acredita Pedro.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017