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Um gigante da economia

São 600 mil metros quadrados e 11 pavilhões. É na Ceasa que os produtores negociam frutas, verduras, flores e muitas outras mercadorias. O lugar, que também agrada a consumidores exigentes, passa por uma série de obras

Cecília Garcia - Redação Publicação:24/07/2014 10:13Atualização:24/07/2014 10:54

Em um dos pavilhões da Ceasa, 480 produtores comercializam cerca de 300 produtos cadastrados (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Em um dos pavilhões da Ceasa, 480 produtores comercializam cerca de 300 produtos cadastrados

Diretor técnico operacional da Ceasa,  Everaldo Firmino:  'Queriam 
realmente acabar  com ela, agora está numa fase de resgate' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Diretor técnico operacional da Ceasa,
Everaldo Firmino: "Queriam realmente acabar
com ela, agora está numa fase de resgate"
Uma manhã na Central de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa) não é como qualquer outra. Ela começa antes de as luzes serem acesas, às 4h. O horário oficial para início das vendas é às 5h. Às 8h, movimentar-se já é tarefa bastante complicada. O intenso trânsito de caminhões, intercalado com os funcionários puxando carrinhos de mão em idas e vindas para carregar e descarregar mercadorias, faz com que atravessar a rua seja uma missão difícil. Entender o que outra pessoa fala é quase impossível, tamanho o barulho.


A empresa de economia mista e parte do complexo administrativo do governo do Distrito Federal, conhecida dos consumidores em geral aos sábados, não é somente uma espécie de grande feira. Ela exerce funções importantes, como a redução de custos de comercialização de produtos hortifrutigranjeiros no atacado e a garantia de informações de mercado confiáveis. A Ceasa também tem um instrumento próprio de medida para demonstrar o movimento dos preços de atacado praticados no DF: é o Índice Ceasa do Distrito Federal (ICDF).


Maria Aparecida de Lima faz parte dos 70%  de produtores 
que vendem na Ceasa e são  do DF: trabalho sete dias por semana (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Maria Aparecida de Lima faz parte dos 70%
de produtores que vendem na Ceasa e são
do DF: trabalho sete dias por semana

Ruy Rosa Filho, o Gaúcho das Pimentas, é  referência na iguaria: 
'Eu vendo em conser-  va, na caixa, no quilo e até só uma, se  você quiser' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Ruy Rosa Filho, o Gaúcho das Pimentas, é
referência na iguaria: "Eu vendo em conser-
va, na caixa, no quilo e até só uma, se
você quiser"
O gigantesco local conta uma área de mais de 600 mil metros quadrados e é dividido em 11 pavilhões. Cada um deles é específico para uma função, como a venda de produtores agrícolas, serviços de apoio ou para empresas com permissão de uso. Há também um complexo frigorífico, um posto de combustíveis, um hipermercado atacadista e outras áreas de serviços de apoio aos trabalhos lá desenvolvidos.


A parte conhecida da maioria das pessoas é o pavilhão B8, ou Mercado Livre do Produtor. O local, também chamado de Pedra, funciona às segundas e quintas, em regime de atacado, e aos sábados, no varejo. Ao todo, são 480 produtores que comercializam cerca de 300 produtos cadastrados. Os compradores desses itens não são apenas do Distrito Federal. Além de Goiás e Minas Gerais, Piauí, Tocantins e Bahia são assíduos consumidores do que é produzido aqui.


Nas segundas e quintas, quase 8 mil pessoas transitam pela Central. Aos sábados, esse número pode chegar a 10 mil. Na Pedra, cada produtor recebe uma letra – um espaço demarcado no chão. Esse é uma espécie de showroom, onde colocam amostras daquilo que têm a oferecer no dia, e lá acontecem as negociações. A relação comercial é livre, sem interferência dos funcionários da Ceasa. Além dos produtores, existem comerciantes em regime de permissão de uso dos espaços físicos dentro e fora da Pedra. Ao todo, são 280 empresas. Esses contratos têm validade de 15 anos, renováveis por mais 15.


 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Apesar de ter mais de 40 anos – foi inaugurada em 11 de outubro de 1972 –, há apenas dois anos foi realizado o primeiro concurso. Foram aprovados 23 novos funcionários. “É uma empresa que nos últimos quatro anos vem passando por mudanças”, comenta o diretor técnico operacional Everaldo Firmino. “Passou por um período de liquidação por 12 anos. Queriam realmente acabar com a Ceasa e, agora, ela está numa fase de resgate, tanto do ponto de vista estrutural quanto organizacional.”


Hoje, há cinco obras em andamento: recuperação do pavilhão B8 e das calçadas, ampliação das coberturas dos pavilhões para carga e descarga de mercadorias, ampliação dos estacionamentos rotativos, reforma da caixa-d’água e instalação dos sistemas de segurança.


Até abril, foram comercializados no local quase 28 mil toneladas de produtos, que chegam à Pedra por meio dos produtores natos, aqueles que produzem e transportam a sua colheita, podendo ser patronal ou familiar. Há ainda o coletor, que não possui propriedade própria, e o atravessador, que intermedia a relação entre o produtor e o consumidor. José Lima Dutra é um produtor que usava os serviços de um atravessador. No momento, vende mandioca e quiabo, mas isso varia de acordo com a época de colheita de cada item. Vendendo diretamente ao comprador, o produtor consegue até R$ 8 mil por mês. Isso porque comercializa no local há apenas cinco meses.


Quem está há muito tempo nessa vida é Fábio Luiz Falqueto. Desde os 12 anos, ele trabalha na Ceasa com o  pai, vendendo a produção da fazenda Rochedinho, localizada no Núcleo Rural Tabatinga. Hoje, passados 20 anos, tomou para si a responsabilidade dos negócios de família. Ao passar por essas duas décadas de trabalho, Fábio consegue notar algumas diferenças no ambiente. Antes, de acordo com o rapaz, os espaços não eram tão concorridos e tão grandes. “Hoje está tudo mais organizado, mas não tem mais mão de obra”, comenta.


O produtor Fábio Luiz Falqueto trabalha na  Ceasa desde os 12 anos: 
depois de 20 anos,  é o chefe dos negócios da família
O produtor Fábio Luiz Falqueto trabalha na
Ceasa desde os 12 anos: depois de 20 anos,
é o chefe dos negócios da família
Os carregadores são escassos. Os poucos presentes na Ceasa dividem-se entre os produtores e passam o tempo todo correndo. Eles não puxam os carrinhos e, sim, os empurram. E nesse empurra-empurra aparecem os que se aproveitam da situação. Eles furtam os carregamentos aos poucos, até que juntam o suficiente para revender o que roubaram. São as chamadas caixas mistas. Esses pequenos furtos têm compradores certos. Na maioria dos casos, os funcionários da Ceasa conseguem interceptar essas sacolas. Elas são levadas para um escritório administrativo localizado na Pedra. De lá, são encaminhados para o Banco de Alimentos.


Este é o local que recebe, pré-processa e distribui alimentos para creches, asilos, casas de recuperação e outras entidades que atendem indivíduos em situação de vulnerabilidade. Os mantimentos são conseguidos por meio de programas sociais vinculados ao governo, como o Desperdício Zero. Apreensões realizadas por órgãos públicos, além das conseguidas pelos próprios funcionários da Ceasa, e doações oriundas de produtores que comercializam no local são outro modo de abastecimento do banco. Apenas em 2013, foram 155 entidades cadastradas.

 

Fábio Azevedo Areias ocupa um dos 60  boxes da Central de Flores: 
ornamentação  é um dos negócios do local (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Fábio Azevedo Areias ocupa um dos 60
boxes da Central de Flores: ornamentação
é um dos negócios do local
Entre os 20 produtos mais vendidos de abril estavam beterraba, chuchu e repolho. Maria Aparecida de Lima foi uma produtora que contribuiu com essa estatística. No Mercado Livre há quatro anos, trabalhando com a família, vai às segundas, quintas e sábados comercializar seus produtos, o que antes era feito por meio de atravessador. Às terças, quartas e sábados, participa da Feira do Produtor da Ceilândia. Domingo seria o único dia de descanso dos familiares de Maria, em sua propriedade no Incra 9, mas não é o que acontece. “Não temos folga. Domingo é dia de embalar a produção.”


Na Ceasa, 70% dos produtores vêm de propriedades localizadas no DF. Os outros 30% vêm do Entorno. Ao todo, são cerca de 400. Um deles é o Gaúcho da Pimenta. Sua produção divide-se entre Abadiânia, Alexânia e as proximidades de Padre Bernardo. Com nome de batismo Ruy Rosa Filho, o sulista veio para o Planalto Central, segundo ele, “para ver o homem que diz que cura, mas que não cura nada”. Aqui, conheceu a mulher e resolveu mudar-se de estado. Há cinco anos na Central, vende pimentas que, dependendo da época do ano, chegam a 28 tipos diferentes. “Aqui eu vendo em conserva, na caixa, no quilo e até só uma, se você quiser.”


José Lima Dutra vende mandioca e quiabo na Ceasa: produção rende R$ 8 mil por mês  (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
José Lima Dutra vende mandioca e quiabo na Ceasa: produção rende R$ 8 mil por mês
Em meio a tantos alimentos, uma parte da Ceasa chama bastante atenção. Há um local apenas para plantas. Trata-se da Central de Flores. Com mais de 60 boxes, é encontram-se arranjos, vasos, plantas ornamentais, flores avulsas. O local é climatizado, fresco, bem diferente do calor ocasionado pela agitação da Pedra. O ritmo também é outro. Não é frenético como os pavilhões próximos. As transações comerciais são feitas com calma. Ao entrar no recinto, o visitante é recebido com uma onda de perfumes variados. Não é à toa. Apenas em abril, foram vendidos 187 kg de flores, orquídeas e plantas ornamentais.


Até mesmo os dias de funcionamento são diferentes. Fábio Azevedo Areias é produtor e trabalha no local há cinco anos às terças, quintas e sextas. Os dois últimos são os mais movimentados no box Flora Santo Antônio. A flor de áster é o carro-chefe do seu negócio, que tem como público pessoas em busca de ornamentos para eventos e decoração doméstica. O ritmo diferente da Central de Flores propicia outro tipo de relacionamento entre os vendedores. “Aqui a relação é boa convivência. Todos se ajudam.”


Assim como o dia começa cedo na Ceasa, ele termina cedo. Às 11h, a maioria dos produtores agrícolas já se retirou. Os outros estão embalando a produção que não foi vendida. Os vegetais ainda nas caixas estão “feios”, como dizem os vendedores. Um tapete já se formou com as cascas, folhas e restos de alimento que caíram no chão. O movimento fica fraco até nas lojas que pouco têm a ver com a feira. Há pouca entrada e saída na lojinha de embalagens e na importadora que vende de queijos e vinhos a chocolate. Nesse horário, os carregadores andam mais devagar. O que resta a fazer é comer um pastel. Uma das poucas opções abertas depois das 11h30.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017