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Uma casa para dois artistas

Arquitetos e defensores do patrimônio cobram das autoridades uma solução para a construção da Fundação Athos Bulcão. A obra seria uma dupla homenagem: para Athos e para Lelé, arquiteto que projetou a sede e morreu em maio

Severino Francisco - Publicação:24/07/2014 14:19Atualização:24/07/2014 15:13

O arquiteto Lelé Filgueiras e o artista plástico Athos Bulcão formaram uma parceria tão afinada quanto a de Federico Fellini e Nino Rota, Glauber Rocha e Villa-Lobos, Pelé e Coutinho, Romário e Bebeto. Os dois se conheceram em 1959, numa festa na 106 Sul, quando veio a Brasília um avião com a turma do bar Vemelhinho, do Rio de Janeiro, para animar o grupo que construía a cidade com um pileque geral. Foram apresentados por Oscar Niemeyer e logo se tornaram amigos e parceiros em inúmeros projetos sob a inspiração dos valores modernistas de humanização dos espaços urbanos: “Eles se encontraram fazendo esta cidade”, lembra Valéria Cabral, secretária executiva da Fundação Athos Bulcão. “O Lelé nunca veio a Brasília sem falar com o Athos.”

Projeto de Lelé para a Fundação Athos Bulcão: sala multiuso, teatro e um museu para preservar a memória 
do grande artista de Brasília (IBTH/Reprodução)
Projeto de Lelé para a Fundação Athos Bulcão: sala multiuso, teatro e um museu para preservar a memória do grande artista de Brasília
Lelé, que morreu em maio em decorrência de um câncer, recebeu homenagem mundial durante a Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza de 2014. Seus projetos são simples, despojados, o que estabelece uma sintonia direta com a sensibilidade de Athos. Muitos arquitetos acreditam que a arte só deve entrar em um prédio depois que ele estiver pronto. Não era esta a visão de Lelé. Para ele, as intervenções de Athos nunca foram meramente decorativas, sempre interferiram em sua concepção de arquitetura. Não são quadros que se penduram nas paredes. Mas ele tinha em alta conta a sabedoria de Athos em intervir nos espaços, tanto que brincava: “Só faço os projetos de arquitetura para o Athos preencher com arte, para ele fazer bonito”. Com Lelé, Athos realizou relevos, divisórias e painéis: no Hospital Regional de Taguatinga; nas secretarias do Tribunal de Contas da União em Salvador, em Belo Horizonte, em Natal, em Vitória e em Aracaju; e nos hospitais da Rede Sarah em Brasília e em outras capitais.

Obra de Lelé Filgueira, o Hospital Regional  de Taguatinga: mais uma parceria com o  amigo Athos Bulcão   (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Obra de Lelé Filgueira, o Hospital Regional
de Taguatinga: mais uma parceria com o
amigo Athos Bulcão

Nesta perspectiva, merecem destaque as magníficas intervenções realizadas no Sarah em Brasília, com o objetivo de atenuar o peso do ambiente, inserir vibrações de cor, sugerir uma relação mais saudável com o espaço. Em uma ala de quartos, criou painéis constituídos por módulos coloridos, com pequenas aberturas, que entram em comunicação direta com os jardins. Na sala de espera da radiologia, usou as cores amarela e laranja, para provocar a sensação de alegria.

Um dos trabalhos que provocou maior prazer foi a série de bichos coloridos que Athos concebeu pensando nas crianças. O artista ficava muito contente com a reação positiva das crianças internadas no Sarah. Quando passam para tomar sol, são envolvidas por formas leves e vibrantes. Estabelecem uma relação afetiva com o local. Sem essa intervenção, aquele espaço seria tão cinzento quanto uma garagem de prédio.

Foto histórica: o calculista Roberto Vito-  rino, com a dupla de artistas Athos Bulcão  e Lelé Filgueiras (Arquivo Pessoal/Reprodução)
Foto histórica: o calculista Roberto Vito-
rino, com a dupla de artistas Athos Bulcão
e Lelé Filgueiras
Em 2 de julho de 2009, data da passagem dos 90 anos de Athos Bulcão, o GDF fez a doação simbólica de um terreno no Setor de Difusão Cultural, próximo à Torre de TV, para a construção da sede definitiva da Fundação Athos Bulcão. Valéria sugeriu Lelé para o projeto, em razão da sintonia dele com Athos: “Sempre acreditei nessa parceria porque ambos contemplavam, simultaneamente, a beleza, a biodiversidade, o arejamento e a luz nos projetos. Quando perguntei se faria o projeto, Lelé respondeu: ‘Farei com muita honra’. O Taurisano, dono da Disbrave, falou que pagaria o projeto e o Lelé comentou: “Não, você paga a fundação. Estou fazendo o projeto para um grande amigo”. Lelé desenhou um belíssimo prédio, mas o projeto está até hoje enredado em um labirinto burocrático. Com isso, o artista mais importante da história de Brasília e da história da integração arte-arquitetura em plano internacional se viu relegado quase à condição de sem-teto na cidade da qual é um dos mais ilustres fundadores.

Obra do artista plástico Athos Bulcão no  Sarah do Lago Norte: exemplo de arte  integrada à arquitetura (Paulo H. Carvalho/CB/D.A Press)
Obra do artista plástico Athos Bulcão no
Sarah do Lago Norte: exemplo de arte
integrada à arquitetura
Lelé gostava de presentear os amigos com projetos. Era, simultaneamente, um arquiteto humanista e tecnológico, sempre em busca de experimentar novos materiais. Quando estava construindo o Memorial Darcy Ribeiro, na UnB, ele ligou para Valéria Cabral e disse: “Estou com a fábrica montada e poderia aproveitar para fazer o pré-moldado para a sede. Não queria morrer sem deixar pronta a Fundação Athos”. Lelé morreu sem conseguir realizar o sonho. Mas a Fundação Athos Bulcão, os arquitetos de Brasília, os amigos do artista plástico e de Lelé estão empenhados em viabilizar a construção.

O projeto inclui um museu para exposição permanente do acervo doado por Athos e uma galeria para exposições temporárias, que poderia ser alugada e garantir recursos para manter o espaço. A Fundação Athos Bulcão já promoveu 12 edições do programa Teatro na Escola. Por isso, Lelé desenhou um teatro reversível, de teto móvel, equipado com dois camarins e com 180 assentos, que também poderia ser alugado para a realização de conferências: “Se você fecha o teto, a sala escurece e vira um teatro”, comenta Valéria. Além disso, dispõe de uma sala multiuso, escritórios, loja e café. Tudo foi, minuciosamente, concebido por Lelé para o lote 12 do Setor de Difusão Cultural, de 35 m X 35 m: “É um lote pequeno, não precisa ser imponente, precisa ser lindo e digno”, comenta Valéria Cabral. “Se conseguimos fazer a Fundação funcionar até hoje em espaços improvisados, imagine se tivermos um espaço bonito e digno, com o projeto do Lelé, para mostrar para a cidade inteira? Temos escolas que agendam visitas para conhecer a obra do Athos. É um espaço importante para uma cidade que tem poucos museus e poucos espaços vivos.”

A arte era fundamental nos projetos de arquitetura de Lelé: Athos Bulcão foi parceiro nas obras da Rede Sarah (Cadu Gomes/CB/DA Press)
A arte era fundamental nos projetos de arquitetura de Lelé: Athos Bulcão foi parceiro nas obras da Rede Sarah
Apesar da relevância, o projeto de construção da sede definitiva da Fundação Athos Bulcão tem esbarrado na incompreensão, no desconhecimento e na má vontade para a doação do terreno número 12, no Setor de Difusão Cultural. Na verdade, Athos passou por uma situação humilhante. A fundação que leva seu nome foi expulsa do espaço que ocupava na Fundação Ballet, no Setor de Autarquias Sul, e sofreu dois processos movidos pela própria Secretaria de Cultura do DF: um para devolver as salas e outro para pagar o valor correspondente a uma reforma não realizada: “Nós não conseguimos o dinheiro para a reforma, somos uma organização não governamental, sobrevivemos exclusivamente dos projetos”, explica Valéria.

Valéria Cabral, à frente da fundação, sobre  o imbróglio da doação do terreno:  'Por que  Athos Bulcão não é prioridade em Brasília  para nenhum governo?' (Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press)
Valéria Cabral, à frente da fundação, sobre
o imbróglio da doação do terreno: "Por que
Athos Bulcão não é prioridade em Brasília
para nenhum governo?"
O Ministério Público calculou o valor da reforma (R$ 362 mil), acrescentou juros e correção monetária, chegando à soma de R$ 1, 2 milhão. No entanto, a Fundação Athos Bulcão foi absolvida nos dois processos: “Agora, não temos nenhuma pendência, o GDF pode doar o terreno para a construção da sede”, comenta Valéria. “Seria uma homenagem ao Athos e ao Lelé, que tanto fizeram por esta cidade.” Agora, é o Ministério Público quem está cobrando a doação do terreno ao GDF. O promotor de Patrimônio e Meio Ambiente, Roberto Carlos Batista, enviou ofício à Secretaria de Cultura cobrando uma solução.

Em nota oficial, a Secretaria de Cultura do DF esclarece que a doação de um bem público a particulares, como a Fundação Athos Bulcão, só pode ser realizada se houver autorização da Câmara Legislativa e após realização de licitação. Por esse motivo, a Terracap negou o pedido por duas vezes em 1996. Em 2011, a Procuradoria Geral do Distrito Federal emitiu parecer pela não doação do imóvel. Recomendou que a opção mais acertada seria a concessão de uso por meio de licitação. O documento ainda ressalva que o uso fixado para o terreno pretendido pela fundação é coletivo e não institucional e, por isso, não poderia abrigar a sede de uma entidade privada.

A Secretaria de Cultura expôs a situação ao Ministério Público, em reunião realizada no gabinete do secretário em abril, buscando orientação quanto ao caso. Até o fechamento desta edição, não houve pronunciamento do Ministério Público, o que impede o andamento do processo. A secretária executiva da fundação, Valéria Cabral esclarece que, obviamente, a doação solicitada do terreno deveria ser na forma de concessão pública pelo período de 30 anos, renováveis depois do fim do contrato: “Não estou pedindo a doação para mim. É uma concessão para dar ao Athos um projeto digno, permitindo a continuidade de um trabalho de arte-educação para crianças e adolescentes. Por que Athos Bulcão não é prioridade em Brasília para nenhum governo?”, indaga.

Valéria lembra que Athos faz parte da identidade visual de Brasília. Suas obras aparecem em todos os portais que divulgavam a cidade para a Copa do Mundo. “A imagem do Athos é explorada em campanhas publicitárias para o IPTU, mas ao vosso reino nada. Falta amor à Brasília. É uma vitória que a equipe de oito pessoas da fundação consiga pagar o aluguel da sala na 404 Sul e remunerar o nosso trabalho. Os governantes precisam entender que Athos é uma referência internacional.”

 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017