..
  • (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Educação | Comportamento »

De volta à escola

Está aberta a temporada de inscrições para os cursos de pós-graduação que começam no segundo semestre. Saiba por que cada vez mais profissionais com carreiras consolidadas decidem retomar os estudos

Tereza Rodrigues - Publicação:28/07/2014 10:13Atualização:28/07/2014 10:45

Kleber Pina, superintendente da FGV em  Brasília, é professor e aluno: está fazendo  o curso de administração pública porque  'sempre acrescenta' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Kleber Pina, superintendente da FGV em
Brasília, é professor e aluno: está fazendo
o curso de administração pública porque
"sempre acrescenta"
Uma década se passou desde que Ruy Nagano se formou em administração de empresas na Universidade de Brasília (UnB). Mas nem a falta de tempo por causa do trabalho, nem o fato de estar há muitos anos longe dos estudos foram impedimento para ele buscar uma pós-graduação e “rever seus conceitos”, como ele mesmo diz quando justifica por que quis voltar à sala de aula. Ele trabalha com investimentos em um fundo de pensão e conta que teve o apoio da empresa para começar um MBA em finanças no Ibmec, escola que ele pesquisou e diz ter confiado na escolha pela qualidade dos professores e metodologia acertada: “Hoje o mercado exige mais qualificação e eu preferi investir em mim para não ficar de fora. Está valendo muito a pena”, relata.


Há diversas instituições reconhecidamente boas que oferecem cursos de pós-graduação em Brasília. Inclusive, em grande parte delas, turmas em diferentes áreas são abertas em agosto e setembro. Portanto, esta é uma boa hora para se pensar na possibilidade de reciclar ou aprimorar os conhecimentos.


No Ibmec, onde Ruy Nagano estuda com outros cerca de 500 colegas, em várias turmas, há 11 cursos ofertados (veja quadro). De acordo com Luiz Teixeira, diretor executivo do Ibmec-DF, as pessoas sempre fazem planos de começar um projeto novo na carreira – como investir em uma pós – no começo do ano. Mas agora é uma boa hora para melhorar o “cartão de visitas”: turbinar o currículo. “Metade dos nossos alunos muda de empresa ou recebe promoção nos três primeiros meses de curso. É que, estimulados, eles buscam soluções para problemas e com isso mostram que são capazes, que não estão acomodados”, diz.


'Hoje o mercado exige mais qualificação e  eu preferi investir em mim para não ficar  de fora', diz Ruy Nagano, que voltou a  estudar depois de dez anos  (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
"Hoje o mercado exige mais qualificação e
eu preferi investir em mim para não ficar
de fora", diz Ruy Nagano, que voltou a
estudar depois de dez anos
Muitos especialistas consideram que um curso de pós-graduação hoje equivale ao peso do que representava uma graduação nos anos 1980 – um pré-requisito para estar no mercado de trabalho. “Qualquer seleção de emprego com uma remuneração melhor exige especialização. Porque graduação todo mundo tem, então o candidato precisa ter um diferencial”, complementa Luiz Teixeira.


São diversas as razões para se recomendar que uma pessoa que já está trabalhando invista em um curso de pós-graduação: é uma reciclagem importante para quem quer aprimorar sua ocupação, já que as ferramentas de trabalho se modificam e evoluem com frequência; pode significar uma recolocação, tanto para quem quer mudar de área quanto para quem pensa em se aposentar em idade produtiva; e também é uma forma de realização para quem gosta de estudar. Os três motivos, em especial o último, levaram o auditor fiscal José Carlos Sampaio a procurar o curso de administração pública no início deste ano na Fundação Getulio Vargas (FGV). Aos 38 anos, o servidor público federal tem carreira consolidada, mas quis ampliar seus conhecimentos e sua rede de relacionamentos profissionais. “No meu caso, eu não vou ter ganho financeiro, mas é pelo network e por me especializar mais. Sou um profissional que sempre busca produzir melhor”, diz.


Atalá Correia, coordenador de pós-graduação  do IDP: 'O mercado precisa de especialistas,  mais do que generalistas' (Vinícius Santa Rosa / Encontro / DA Press)
Atalá Correia, coordenador de pós-graduação
do IDP: "O mercado precisa de especialistas,
mais do que generalistas"
Na mesma sala de José Carlos estuda o professor Kleber Pina, superintendente da FGV em Brasília. Ele também adora estar na posição de aluno, tanto que depois da graduação em letras já fez uma pós em gestão empresarial, mestrado em engenharia de produção e agora está terminando o doutorado em educação. “Eu quis fazer o curso de administração pública porque, como superintendente, gosto de ver como a coisa está acontecendo. Sempre acrescenta, inclusive nas aulas que ministro no curso de marketing”, conta Kleber Pina.


Estando dos dois lados, ele diz que a grande vantagem da especialização é ter contato com colegas que relatam suas experiências e acrescentam à teoria o que acontece na prática. “Temos vários estudos de caso em conversas de corredor, no cafezinho. É uma dinâmica muito bacana.” Kleber diz ainda que o mestrado e o doutorado são interessantes para quem quer ir para a academia: “Quem quer investir na prática, vai para uma pós”, compara.


O diretor de pós-graduação do Uniceub,  Rafael Aragão, não tem dúvidas de que um  curso alavanca a carreira: 'É um dos poucos  investimentos cujo retorno é garantido' (Vinícius Santa Rosa / Encontro / DA Press)
O diretor de pós-graduação do Uniceub,
Rafael Aragão, não tem dúvidas de que um
curso alavanca a carreira: "É um dos poucos
investimentos cujo retorno é garantido"
Não há números que registrem o aumento da procura por esse tipo de curso. O Ministério da Educação está atualmente fazendo um levantamento de quais e quantos cursos existem no Brasil, já que eles independem de autorização quando são ofertados por instituições reconhecidas. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, o Conselho Nacional de Educação estuda o novo marco regulatório. Mesmo assim, há uma percepção generalizada entre as instituições ouvidas por Encontro Brasília de que cada vez mais profissionais buscam especialização – de recém-formados a executivos.


No Uniceub, uma das mais antigas e tradicionais instituições da capital, o diretor de pós-graduação Rafael Aragão diz que a demanda é tão grande que, dos 36 cursos oferecidos atualmente, todos  têm turma aberta no segundo semestre. A novidade mais fresca é a oferta também de cursos on-line, em seis áreas. “É um dos poucos investimentos cujo retorno é garantido. Pode não ser imediato, mas ele vem. Porque tudo o que você aprende é seu, ninguém pode tomar”, comenta.


Gabriel Cardoso, assessor de pós-graduação  
e extensão do Centro Universitário UDF:  'Há muitas opções para quem quer  voltar a estudar' (Arquivo pessoal)
Gabriel Cardoso, assessor de pós-graduação
e extensão do Centro Universitário UDF:
"Há muitas opções para quem quer
voltar a estudar"
Por parte das empresas, há também procura por cursos fechados. E as instituições respondem ofertando turmas específicas, horários flexíveis e um dinamismo à altura do que é pedido. “Procuramos montar as grades de acordo com as necessidades mesmo. Especializações são menos ‘engessadas’ do que os cursos de graduação, então respondemos rápido ao que é pedido”, explica Rafael Aragão. Como exemplo, o Uniceub tem apostado com sucesso no curso gestão de pessoas e coaching, que mistura duas áreas em alta e estuda pelo menos dois novos cursos para o ano que vem.


No direito, uma das áreas que mais movimenta o setor de pós, não faltam oportunidades na capital. No Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), por exemplo, há 11 opções de especialização, das quais oito têm turma aberta em agosto. O professor Atalá Correia, coordenador de pós, destaca que a necessidade de se atualizar é realmente mais latente na área: “Frequentemente mudam-se as leis, os entendimentos nos tribunais, e há quase que uma obrigatoriedade de revisar o que se estudou na faculdade”. E diz mais: "Não basta uma nova leitura, é preciso aprofundar na área que se gosta mais. O mercado precisa de especialistas, mais do que generalistas."


Na UPIS, o diretor de pós-graduação, José Ronaldo, destaca a importância 
de buscar cursos com diferencial no mercado, como é o caso 
do de segurança da informação e perícias em crimes cibernéticos (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Na UPIS, o diretor de pós-graduação, José Ronaldo, destaca a importância de buscar cursos com diferencial no mercado, como é o caso do de segurança da informação e perícias em crimes cibernéticos
Há vantagem também para quem pretende investir em concurso público, já que alguns editais concedem pontos para quem tem mais do que graduação. A experiência de Luana Costa, no entanto, mostra que, mais que pontuação, uma pós vale para abrir caminhos. Como grande parte dos concursandos brasilienses, ela fez provas em diversas regiões do país e foi chamada mais de uma vez. Chegou a ir para Tocantins trabalhar no Ministério Público, mas resolveu se especializar em direito penal e descobriu que gosta mesmo é da área acadêmica. "Hoje sou 'captadora' de alunos, chamo todo mundo para estudar e conto da minha experiência bem-sucedida. Para mim, a pós só me fez crescer."

 

Na opinião de Luiz Teixeira, diretor execu-  tivo do Ibmec-DF, 
ter uma pós é quase uma  obrigatoriedade: 'Porque graduação 
todo  mundo tem, o candidato precisa ter  um diferencial' (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Na opinião de Luiz Teixeira, diretor execu-
tivo do Ibmec-DF, ter uma pós é quase uma
obrigatoriedade: "Porque graduação todo
mundo tem, o candidato precisa ter
um diferencial"
O professor Gabriel Cardoso, assessor de pós-graduação e extensão do Centro Universitário UDF, destaca que é importante haver uma orientação “de dentro para fora” antes de se decidir em que área investir: "Há muitas opções para quem quer voltar a estudar. Só no UDF são 35 cursos. Para ele, o primeiro passo é saber o que interessa mais, “e depois não perder tempo: correr atrás".


Algumas pós têm se destacado pelo ineditismo e é importante se atentar pelas oportunidades que representam. Uma delas é oferecida pela UPIS e tem tido boa procura – segurança da informação e perícias em crimes cibernéticos. O professor José Ronaldo, diretor de pós-graduação da instituição, conta que em casos como o desse curso a área de TI (Tecnologia da Informação) tem se misturado ao direito. “É uma pós interessante para quem quer atuar com processos de gestão de segurança da informação, investigação de crimes e perícias cibernéticas, por exemplo. Pois destacam-se políticas de segurança, estratégias de ataques e defesas, práticas forenses e auditorias”, explica. Para quem se interessar, o primeiro passo é pesquisar áreas, qualidade das instituições, duração dos cursos e preços. O que não falta em Brasília é oportunidade para quem quer ir além.

 

 

COMENTÁRIOS
Os comentários estão sob a responsabilidade do autor.

EDIÇÃO 58 | outubro de 2017