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Bebidas | Cerveja »

Loira gelada e com outros atributos

Demorou, mas o brasiliense está fugindo da ditadura da american pilsen, rainha dos bares, para embarcar numa viagem de novas texturas, aromas e sabores

Luciano Marques - Rônia Alves - redacao@encontrobrasilia.com.br Publicação:26/08/2014 09:00Atualização:26/08/2014 09:41

 (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
A cerveja é feita de água, cevada (malte) e lúpulo, certo? Não, não é bem assim. O brasileiro descobriu há pouco que a bebida que mais faz sucesso por aqui pode ter uma infinidade de ingredientes que a transforma em uma “bomba” artesanal de sensações. Chocolate, caramelo, aveia, café, toffee, frutas, castanhas, florais: as possibilidades são infinitas quando se trata de cerveja “de verdade” – algo que começou como moda por aqui e, hoje, mudou o hábito do consumidor no Distrito Federal.


Depois de anos acostumado à loira de boteco, as convencionais vendidas em cada esquina, o brasiliense aprendeu que vários países, incluindo o Brasil, produzem uma bebida cheia de personalidade, muitas vezes seguindo receitas de pureza seculares, e tomando o cuidado para levar à mesa um produto diferenciado. As nossas “standard” têm, sim, basicamente água, cevada, lúpulo e milho (infelizmente metade da composição tem esse cereal não maltado para baratear o custo e aumentar o lucro), mas outros milhares de rótulos elevam o nível da cerveja e proporcionam ao apreciador algo que muitos ainda não conheceram: a degustação.


Elas não são chamadas de especiais à toa. Diferentemente das cervejarias tradicionais, muitos produtores do mundo não medem esforços para engarrafar algo fora do comum. Não há correria (cada produto tem o próprio tempo, independente da demanda do mercado), os ingredientes são caros e selecionados, e a ciência dos mestres cervejeiros é quase artesanal – mesmo nas cervejarias com grande volume de distribuição. “A cerveja especial é para pessoas que buscam algo mais sofisticado, uma nova experiência. É a caça de novos sabores. O lema sempre foi beba menos, beba melhor. Quando você passa a degustar cervejas especiais, que são mais encorpadas e com maior teor alcoólico, percebe que não é preciso beber tanto”, explica Luciana Ferreira de Souza, esposa e sócia de Antônio Jorge, proprietário do Empório Soares & Souza.


Grace Ghesti tem mestrado em engenharia  cervejeira e presta consultoria 
para quem  quer abrir microcervejarias: o mercado em  Brasília está crescendo (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Grace Ghesti tem mestrado em engenharia
cervejeira e presta consultoria para quem
quer abrir microcervejarias: o mercado em
Brasília está crescendo
O apreciador de cerveja Bruno Barbosa é um dos brasilienses que descobriram a “moda” e que mergulharam em um universo que veio para ficar. A analogia que conseguiu encontrar vem do filme Matrix. No longa-metragem, o personagem Morpheus (Laurence Fishburne) oferece a “verdade” a Neo (Keanu Reeves) e mostra duas pílulas, uma azul e outra vermelha. Se ele tomar a segunda, acorda para uma nova realidade. “É parecido, só que em uma mão há milho (em referência a cervejas mainstream brasileiras e que tomam conta do mercado) e em outra, o lúpulo. Se você prova a que tem lúpulo de verdade, é um caminho sem volta. No bom sentido”, ressalta. “Você enxerga o mundo com outros olhos, apura o paladar e nunca mais quer provar outra coisa. É por isso que a moda virou costume, é uma viagem sem retorno.”


O sucesso das cervejas diferenciadas no Brasil é recente, uma vez que o surgimento das microcervejarias ocorreu há pouco mais de 20 anos. Nos Estados Unidos (com mais de 1.500 marcas) e na Europa, o setor já está consolidado, mas por aqui temos pouco mais de 200 empresas empenhadas em produzir algo peculiar. Brasília, no entanto, dá seus primeiros passos no mercado. Mesmo que poucos, há bares e lojas especializadas que apostam em uma carta com, pelo menos, 50 rótulos. As especiarias engarrafadas chegam timidamente às prateleiras dos supermercados há cerca de dois anos.


Luciana Ferreira e Antônio Jorge, proprie-  tários do Empório Soares & Souza: cervejas  especiais são para pessoas que buscam  novas experiências (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Luciana Ferreira e Antônio Jorge, proprie-
tários do Empório Soares & Souza: cervejas
especiais são para pessoas que buscam
novas experiências
“Hoje temos cerca de 200 microcervejarias ativas no país, das quais 40 se destacam por apostarem em vários estilos, e não apenas as de trigo e pilsen. Essas têm mais criatividade e maior distribuição”, aponta Mauricio Beltramelli, sommelier de cervejas e criador do site brejas.com.br.


Não que o mercado brasileiro não seja promissor. De acordo com a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), o Brasil produziu 13,4 bilhões de litros de cerveja em 2013. Desse total, as microcervejarias representaram 1% da produção, cujos empreendimentos se concentram principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Ainda perdemos para China (35 bilhões de litros/ano) e Estados Unidos (24 bilhões de litros/ano), mas falta pouco para subirmos mais alto no pódio.


O vasto universo das cervejas especiais, com 120 estilos bastante peculiares (a nossa tradicional pilsen do bar, que na verdade é uma american lager, é apenas um deles), tem espaço para todos. Cada um que chega se descobre apaixonado por uma negra, uma vermelha, uma branca, doce, amarga, cítrica, defumada, enfim, alguma das dezenas de cervas diferentes do mercado mundial. Rapidamente você descobre que nossa “loira” anda por aí, há séculos, pintando o cabelo de marrom, negro, branco, vermelho, dourado e até âmbar.


O autor da Larousse da Cerveja, Ronaldo Morado, anima-se com 
o assunto: não faltam bons rótulos dos principais estilos da bebida (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
O autor da Larousse da Cerveja, Ronaldo Morado, anima-se com o assunto: não faltam bons rótulos dos principais estilos da bebida
Quando os degustadores dizem que a cerveja especial tem alma, personalidade, não jogam palavras ao vento. “Outro lado bacana desse mundo é que cada cerveja tem uma história para contar. Sou conhecido por todos como o ‘amigo da cerveja’, porque sempre tenho vários rótulos em casa. E o cara bebe uma cerveja de que gosta e quer saber a história por trás dela”, completa Gustavo Freire, outro amante de cervejas especiais.


 Saulo Campos, Felipe Duarte e Guilherme  Cabral: os sócios da MKB 
acreditam que  o público de Brasília está aprendendo a  apreciar cerveja    (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)

Saulo Campos, Felipe Duarte e Guilherme
Cabral: os sócios da MKB acreditam que
o público de Brasília está aprendendo a
apreciar cerveja

Descobrir qual é a sua praia faz parte da brincadeira. O Empório Soares & Souza tem hoje mais de mil rótulos cadastrados, mas sempre tem disponível cerca de 400 deles nas prateleiras. “Os clientes nos perguntam qual é a melhor cerveja, qual a mais gostosa e se já tomamos todas. Para as primeiras perguntas, não há resposta e, para a segunda, é não. Esse é o barato da cerveja especial. É poder viajar em um universo repleto de cervejas completamente diferentes. São tantos os rótulos que cada pessoa gosta de um, ou de um estilo diferente de cerveja. E o melhor de tudo? Sempre há uma novidade no mercado para provar”, explica Antônio Jorge.


Em Brasília, o Soares & Souza, o Grote Markt e a Boutique do Godofredo foram alguns dos estabelecimentos que cresceram e abriram caminho para outros empreendimentos, incluindo o recém-inaugurado bar Santuário. As novidades são constantes.


Depois de viajar pela Europa e ter contato com incontáveis cervejas especiais, o empresário Saulo Duarte decidiu que queria abrir um bar por aqui. Acabou chegando a uma “fórmula de sucesso” chamada MKB, especializado em cerveja de qualidade e inaugurado em fevereiro. Com o irmão, Felipe Campos, e o amigo Guilherme Cabral, ele fugiu do eixo Asa Sul / Asa Norte e foi para Águas Claras. “Brasília carece de serviços especializados. Temos aqui um público enorme que está aprendendo a apreciar a cerveja. E olha que o boom do mercado brasiliense ainda não aconteceu. Existem poucas lojas para o público em potencial. Percebemos isso Brasil afora, já que a cada dia são criadas novas feiras, concursos e microcervejarias”, aponta Saulo.


A professora Grace Ghesti tem mestrado em engenharia cervejeira e diz que, só este ano, recebeu 12 pedidos de consultoria de pessoas que estavam interessadas em montar microcervejarias por aqui. “É um investimento caro, por isso não é algo tão fácil de realizar. Mas a procura já indica que o mercado em Brasília está crescendo. Por enquanto, os interessados em criar uma cerveja estão alugando cervejarias para colocar um rótulo novo no mercado”, conta.


A evolução do mercado candango de cervejas especiais passa justamente pela fabricação de rótulos locais. Segundo os empresários do setor, a criação de microcervejarias por aqui vai ajudar a catapultar de uma vez por todas o negócio, como aconteceu em terras mineiras e paulistas.


Enquanto isso não acontece, o jeito é ir às casas especializadas, sentar e dar uma “volta ao mundo” com as cervejas especiais. Uma tarefa “chata” para passar o tempo enquanto o verdadeiro boom desse universo não chega.

 

 

 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017