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POLÍTICA | CAMPANHA »

Eles querem conquistar você

Candidatos ao GDF percorreram a cidade com promessas, beijos, apertos de mãos e abraços. Acompanhamos um dia de campanha dos quatro principais concorrentes ao Buriti e listamos as propostas de cada um

Leilane Menezes - Colunista Publicação:23/09/2014 13:56Atualização:23/09/2014 14:50

 (Gustavo Moreno e Breno Fortes /CB/DA Press)
O candidato cheio de energia aperta mais de 100 mãos desconhecidas, em uma tarde. Segundo povos do Egito Antigo, deuses estendiam a mão aos faraós para dar-lhes poder. O homem primitivo, sempre à caça, usava esse cumprimento em sinal de paz. Nos tempos de hoje, ao juntar sua palma à do eleitor, o político reconhece o poder de decisão, em cada rosto desconhecido. Cruzam-se ali linhas da vida que pouco se esbarram fora do período eleitoral.

Inimigos nas urnas, todos os candidatos adotam rotina semelhante. Acordam cedo, dormem tarde, comem na rua, bebem pouca água e não dispensam o corpo a corpo. Onde houver um candidato, haverá também seu grupo de seguidores – fiéis ou nem tanto. Com ou sem carros de som é fácil perceber a presença do candidato. Basta seguir o rastro.

Encontro Brasília acompanhou momentos da campanha ao governo do DF. A configuração do quadro político foi moldada por incertezas e mudanças. Horas antes do fechamento dessa edição, José Roberto Arruda (PR) seguia em primeiro lugar, com 37% das intenções de votos, mesmo condenado com base na Lei da Ficha Limpa. Pesa contra Arruda a condenação por improbidade administrativa, dano ao patrimônio público e enriquecimento ilícito. Arruda recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas sem confiança em obter êxito na Corte, aceitou ser substituído por Jofran Frejat, até então candidato a vice-governador, e pela mulher, Flávia Arruda, que agora assume a posição de vice. O anúncio se deu dois dias antes do prazo final fixado pela Justiça Eleitoral para trocas dessa natureza e abriu um novo cenário nas eleições do DF.

Quem, afinal, herdará os votos de Arruda?

*A equipe de Encontro Brasília tentou acompanhar o dia de campanha de Luiz Pitiman (PSDB), em 20 de agosto, mas o candidato cancelou compromissos nessa data, mesmo após ter confirmado a agenda.

José Roberto Arruda (PR), à direita, ao lado dos seus substitutos Flávia Peres e Jofran Frejat: 37% das intenções de votos, segundo pesquisa Datafolha, divulgada em 10 de setembro (Gustavo Moreno / CB / DA Press)
José Roberto Arruda (PR), à direita, ao lado dos seus substitutos Flávia Peres e Jofran Frejat: 37% das intenções de votos, segundo pesquisa Datafolha, divulgada em 10 de setembro
A poeira subia quando o helicóptero aproximava-se do chão e anunciava a presença do então governador José Roberto Arruda. Chegadas eram triunfais em qualquer evento, da inauguração de postes de energia elétrica à abertura de um novo centro de saúde. Os tempos de glória transformaram-se em lembranças. Mesmo assim, antes de desistir de concorrer ao governo do Distrito Federal, devido ao fracasso de seus recursos na Justiça Eleitoral, o então candidato acordava antes das 7h para se exercitar e seguir em campanha. Precisava de fôlego para reconquistar a confiança dos eleitores do DF. Ao anunciar a saída da chapa, prometeu manter o ritmo, com objetivo de ganhar votos para seus substitutos, Jofran Frejat e a mulher, Flávia Arruda, que disputará o lugar de vice. Portanto, Arruda ainda será visto nas ruas.

Num dia de campanha, seguido pela equipe de Encontro Brasília antes da renúncia, a versão mais discreta de Arruda aborda o eleitor com voz humilde e olhos marejados, quando um deles toca no assunto pesado: os dois meses de prisão na carceragem da Polícia Federal. De 11 de fevereiro a 12 de abril de 2010, Arruda ficou preso, acusado de atrapalhar investigações policiais sobre corrupção. Ao eleitor, se diz vítima de um golpe de opositores. “A gente é que nem João Bobo, eles tentam derrubar, mas a gente volta. Esperei cinco anos pelo momento de limpar minha imagem. Tem bastidores que só daqui a 50 anos vão saber. Eu olho para algumas pessoas que estão contra mim hoje, que se juntaram a Agnelo, e penso: quanta hipocrisia”, afirma.

Há quem se convença da inocência do político, mesmo após sucessivas condenações. “Chorava todo dia e rezava por esse homem, na época da prisão. Foi a maior injustiça do mundo. Sou apaixonada pelo meu velhinho careca”, diz Rogéria Sousa, moradora do Recanto das Emas. Até a calvície do candidato era usada como argumento eleitoral. “Careca vota em careca”, ele disse a um senhor sem cabelos. Deus também é palavra frequente nos discursos do ex-governador – que também é ex-seminarista, ex-professor de matemática e ex-engenheiro da CEB.
 
Arruda não hesita em sentar-se à mesa em qualquer botequim. Nem sempre a recepção é positiva. “Sabe o que me desanima? Esse seu sorriso na foto. Como tem coragem de rir?”, disse um eleitor. A poucos metros dali, um novo embate. “Não ouse me pedir voto, porque já passei fome por sua causa, você é muito é cara de pau”, esbravejou um homem dentro de uma barbearia no Recanto das Emas. Arruda insistiu em entregar santinho, mas foi rejeitado novamente. O rapaz reclamou do fim das vans do transporte alternativo e o acusou de favorecer empresários do setor de transporte. O então candidato discutiu em voz alta com o desafeto. “Eu queria a cidade organizada e você gosta de bagunça”, reclamou, enquanto era convencido a sair.

Na mesma caminhada pelo Recanto das Emas, em 12 de agosto, Arruda entrou em lojas de roupa, botecos, padarias, revendas de móveis usados e até em um sex shop. “Achei meu lugar preferido”, brincou. As vendedoras, com as bochechas coradas de vergonha, apertavam a mão dele, que dizia estar confiante na vitória. Naquele mesmo dia, o TRE barrou sua candidatura. A esta, seguiram-se sucessivas derrotas. Pressionado pelos aliados, cedeu espaço à dupla Jofran-Flávia e jurou usar todas as armas para beneficiar seus herdeiros políticos.

Agnelo Queiroz (PT), 19% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 10 de setembro (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Agnelo Queiroz (PT), 19% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 10 de setembro
Ao abordar o eleitor, Agnelo Queiroz passa a impressão de ser um velho amigo de cada um dos rostos sem nome que cumprimenta. Ficar ao lado do atual governador e candidato à reeleição é garantia de ganhar um abraço apertado e um beijo no rosto sem cerimônia. O candidato é famoso por distribuir intimidade por onde passa e também por ter dificuldade em discursar em público. Beijos e abraços não são suficientes.

Uma verdadeira comitiva acompanha o candidato do PT nas caminhadas em busca de votos. Carros de som, megafones e vozes treinadas para cantar as músicas da campanha garantem a atenção de quem passa. A agitação, entretanto, não garante o retorno desejado. “O governador liga para pobre?”, questiona uma das mulheres com bandeira em punho, em conversa com a colega ao lado.

Em meio às mais de 50 pessoas que seguem o atual governador e candidato à reeleição Agnelo Queiroz, um homem de cabelos brancos e rosto enrugado chama a atenção. Francisco Guedes, de 76 anos, diz ser filiado ao Partido dos Trabalhadores e afirma ter trabalhado em todas as campanhas, “desde quando o Lula era deputado federal”. A idade não impede que o militante caminhe debaixo de sol, com o número 13 estampado na bandeira que balança durante horas. Às vezes, ele se apoia em quem passa ao lado, para subir um degrau ou escapar de buracos no asfalto, mas nada que atrapalhe a empolgação.

A simpatia ao partido, porém, não é o único estímulo à participação. Francisco diz receber R$ 800 por mês, almoço e lanche, para ser cabo eleitoral, nas passeatas de apoio a Agnelo Queiroz. A maior parte dos apoiadores é paga, de acordo com ele. “Eu viria mesmo sem o dinheiro, porque o governador fez bem para a cidade e gosto do PT, mas tem muita gente aqui no meio que vai votar no Arruda. Isso me deixa doente de raiva”, desabafa Francisco.

Dois bonecos gigantes feitos de pano, plástico e madeira dançam à frente da comitiva. Uma pessoa debaixo dos panos comanda o movimento do boneco. Só a cabeça pesa cerca de 3 kg. Rapazes jovens e da periferia aceitam o trabalho, em troca de R$ 80 por dia, para se fantasiar. De acordo com a coordenação da campanha de Agnelo Queiroz, a campanha é feita pela militância e não é possível informar quantos cabos eleitorais pagos trabalham nas ações, pois as passeatas envolvem também equipes de outros candidatos do PT.

Ceilândia, a maior cidade do DF, com mais de 450 mil habitantes, recebeu atenção especial dos candidatos. No Sol Nascente, Agnelo investiu na imagem de homem do povo, ao pedir em uma padaria pão com manteiga na chapa, acompanhado de café. Quase sempre ao lado da mulher, Ilza Queiroz, o candidato ouve queixas, especialmente sobre a condição dos hospitais públicos da capital. Os dois são médicos, e a profissão acabou transmitindo confiança ao eleitor em 2010.

Rodrigo Rollemberg (PSB), 18% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha, divulgada em 10 de setembro (Raimundo Sampaio/ENCDF/D.A Press)
Rodrigo Rollemberg (PSB), 18% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha, divulgada em 10 de setembro
Comer pastel de feira não faz parte da rotina do senador Rodrigo Rollemberg. O café da manhã costuma ser mais leve, nos dias de trabalho no Congresso Nacional. Já o candidato ao GDF Rodrigo Rollemberg come pastel ou outra comida de rua quase todos os dias. Foi às regiões administrativas para se apresentar ao povo. Aposta na tática de se aproximar dos hábitos mais cotidianos.

Está em feiras e em áreas de grande circulação de pessoas, entrega panfletos, conversa sobre propostas e repete incontáveis vezes o slogan de campanha: “Vamos renovar?”. Quem quiser encontrá-lo pode ir bem cedo à Rodoviária do Plano Piloto.

Rollemberg já dormiu na casa de militantes do PSB, nas cidades que visitou, para agilizar a campanha. Trabalha a partir das 7h, sem hora para terminar. Em meio à correria, é difícil encontrar tempo para a família. É da neta Mel, 1 ano, de quem ele mais se lembra.

Além de apertos de mão e pedidos de voto, ele aproveitou a passagem por lojas para comprar presentes para a menina. No Taguacenter, em Taguatinga, procurou um cavalo de plástico inflável para dar de presente. Escolheu o roxo e pechinchou desconto, mas sem sucesso. O saldo final foi a simpatia do dono do comércio e o sorriso da neta. “Ele sempre compra um presentinho para ela, já levou correntinha, boneca, Mel é quem mais lucra com a campanha”, diz um dos assessores.

Ao declarar seus bens ao Tribunal Superior Eleitoral, Rollemberg citou sete bonecos gigantes, no valor total de R$ 7 mil. São a marca de sua divulgação, desde a campanha de 1998, quando tentou eleger-se deputado distrital. Nas eleições deste ano, os adversários políticos do senador decidiram imitar a estratégia. Há Agnelos e Pitimans gigantes nas ruas de Brasília, assim como Rollembergs com mais de 2 m de altura.

Candidatos a distrital perseguem o senador, querem pegar carona rumo à popularidade. Assessores precisam pedir licença e orientar os aspirantes a distrital a deixar Rollemberg entrar e sair à frente da trupe, para ser filmado em primeiro plano por equipes de TV e fotografado com destaque por jornais.

Militantes pagos balançam bandeiras do PSB. São 70 contratados, que recebem R$ 900 mensais. Um deles abordou uma criança de 10 anos, com um panfleto, no Taguacenter. “Moça, eu ainda assisto ao Cartoon Network (canal por assinatura, de desenhos animados). Eu não voto”, explicou o garoto, levando a equipe à gargalhada. Logo à frente, Rollemberg faz campanha, em uma loja de doces. “Entrar aqui e sair sem nenhuma paçoquinha é tortura”, brinca. Quase na hora do almoço, uma parada para comer pastel e tomar caldo de cana. O candidato declara-se como “terceira via” para quem não quer votar em Arruda ou Agnelo. “Duvido que um deles possa andar no meio do povo, como eu, sem um forte esquema de segurança”, orgulha-se.

Antes do acidente de avião que matou o então presidenciável Eduardo Campos, menos gente nas ruas do DF associava a imagem de Campos à de Rollemberg. Após a tragédia, o candidato ao Buriti apareceu inúmeras vezes na televisão e em jornais, por ser amigo e companheiro de partido de Campos, sempre ao lado da família do ex-candidato e à frente de declarações sobre a tragédia. A agenda nas ruas foi cancelada até o sepultamento de Campos. Nas caminhadas posteriores, Rollemberg recebeu condolências diversas vezes e manifestações de apoio.

Toninho (PSol), 4% 
das intenções de voto, segundo a pesquisa  Datafolha divulgada em 10 de setembro (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Toninho (PSol), 4% das intenções de voto, segundo a pesquisa Datafolha divulgada em 10 de setembro
O candidato entra no salão de beleza e é observado com desconfiança por pessoas que pintam o cabelo, fazem as unhas ou leem uma revista. “Somos ficha limpa, não precisa ficar com medo”, diz Toninho do PSol, enquanto entrega panfletos com propostas de governo, na QNO, em Ceilândia. As andanças de Toninho são mais silenciosas e solitárias que as de Arruda, Agnelo e Rollemberg. Não há bandeiras ao redor, nenhuma manifestação de apoio pago ou megafones. Um estridente carro de som passa, faz propaganda de deputado distrital e irrita o candidato ao GDF. “Isso me tira do sério, uma música horrível, nessa altura”, reclama.

Na manhã de 27 de agosto, somente Maninha, casada com Toninho e candidata a distrital, uma assessora de imprensa voluntária e um candidato a deputado federal acompanhavam os passos do aspirante a governador. É a terceira vez que Toninho, morador da Asa Sul, psicólogo e servidor público aposentado, tenta ocupar a cadeira do Buriti. Sem fazer barulho, Toninho conquistou 14,5% dos votos, no primeiro turno da eleição de 2010. Um avanço desde sua primeira candidatura, quando somou apenas 4,5% dos votos.

Quem o apoia não se conforma com os resultados das pesquisas. “Os números não refletem o que vemos nas ruas. As pessoas reconhecem o Toninho, dizem que já votaram nele e vão votar novamente”, questiona Maninha, a mais fiel cabo eleitoral do marido. É ela quem ajuda na distribuição de panfletos e na formulação das propostas de campanha. O casal divide a vida e a ideologia política há 28 anos.

O tom de voz sereno de Toninho desaparece quando bate de frente com o discurso de que todos os políticos são corruptos e iguais. Ele perde a paciência com um homem agitado, que professa essa visão. “Se você pensa assim, então vai votar no Arruda, não é?”, provoca o candidato do PSol. Maninha acalma o marido, que encerra a discussão. “Serenidade e paciência, aprendi isso lá em Minas Gerais”, repete Toninho. Mais à frente, o candidato recebe um elogio e se acalma. “Nossa! Como ele é bonito, tem olho claro e um furinho no queixo”, diz uma vendedora antes de ser avisada pela colega da presença da mulher de Toninho. “Não tem problema, eu concordo com você”, avisa Maninha.

Toninho entra em uma farmácia e decide pesar-se. Emagreceu 2 kg desde o início da campanha. Além de caminhar bastante, não come tantos pastéis de feira quanto os adversários. O psicólogo considera-se adepto de uma política menos populista, sem manifestações pagas de apoio, por exemplo. “O PSol é ideológico e condena a ideia de militância paga. Nosso trabalho é mais difícil, mas eficaz”, diz.

Depois de visitar o comércio, Toninho segue para o Restaurante Comunitário de Ceilândia, também conhecido como Rorizão, para agonia dos adversários políticos do ex-governador Joaquim Roriz. Entrou no fim da enorme fila, debaixo do sol de meio-dia. Aproveitou a concentração de pessoas para panfletar. Toninho precisa subir nas pesquisas e ganhar apoio, para honrar as contas. Só a produção do programa eleitoral para TV custou R$ 130 mil. O valor ainda está em fase de arrecadação, com eventos. “É uma disputa muito desigual, mas insistimos por acreditar”, afirma, enquanto aguarda a sua vez, na fila do Rorizão.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017