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Especial educação | Voluntariado »

Ensinando a ajudar

Escolas estimulam os alunos a serem voluntários e mostram que a doação de tempo, e não só de dinheiro, também é uma importante lição de solidariedade

Cecília Garcia - Redação Publicação:25/09/2014 09:00Atualização:25/09/2014 09:21

A coordenadora Norma Neide e a professora Ana Claudia Goldner estão à frente dos alunos no Colégio Salesiano Dom Bosco: o voluntariado os aproxima de atos de solidariedade (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A coordenadora Norma Neide e a professora Ana Claudia Goldner estão à frente dos alunos no Colégio Salesiano Dom Bosco: o voluntariado os aproxima de atos de solidariedade
Quem acha que o voluntariado não passa de um hobby para pessoas se engajarem nas horas vagas está enganado. A prática, inclusive, não tem relação intrínseca com o dinheiro. As doações de itens materiais ocorrem, e são necessárias, mas muitos jovens estão sendo estimulados pelas escolas a irem além, a serem solidários: doar mais seu tempo e atenção ao próximo, em vez de apenas passar para frente itens que estavam encostados em casa.


O Centro Educacional Leonardo da Vinci estimula seus alunos por meio de parceria com a organização não governamental Aconchego, no projeto Irmão Mais Velho. A ideia é levar os alunos para o convívio de crianças em situação de risco, que vivem em abrigos. Na unidade de Taguatinga, os 80 alunos voluntários são divididos em quatro grupos e cada um deles visita, quinzenalmente, determinado lugar. Participam do programa alunos do 8º ano do ensino fundamental a da 3ª série do ensino médio.


Os alunos Teodoro Guimarães e Alice Romagnoli participam de ações do Mackenzie Voluntário: programa traz motivação (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Os alunos Teodoro Guimarães e Alice
Romagnoli participam de ações do Mackenzie
Voluntário: programa traz motivação
Nas idas aos locais, são realizadas atividades com as crianças. Para conseguir recursos para a logística, os alunos fazem rifas, vão de sala em sala falando sobre o projeto, vendem produtos nos eventos da escola, entre outros meios. “Existe uma dedicação para arrecadar fundos e proporcionar algumas coisas para essas crianças”, conta a professora Sandra do Couto. “E as crianças do abrigo já sabem que eles vão de 15 em 15 dias e que não vão levar nada material. O vínculo é puramente afetivo.”


O estudante Daniel Bizzo Brandt diz que sua participação o fez encontrar outra realidade, com a qual geralmente não lida. “Vemos a nossa importância na vida deles. Podemos fazer diferença. Passamos a enxergar o mundo de outra forma.” Natan Brandão completa o pensamento dos amigos sobre aprendizados para o futuro: “Essas crianças têm tão pouco e, quando chegamos lá, estão sempre com um sorriso no rosto e nós, que temos tudo, às vezes ficamos reclamando.”


Um programa antigo de solidariedade em Brasília é o do Colégio Presbiteriano Mackenzie. Chamado Mackenzie Voluntário, envolve as ações sociais internas da escola e está na sua 11ª edição. A cada ano, os projetos mudam, mas a coordenação sempre tenta atrelar uma ação social a uma pedagógica. Quando discutiram a questão do câncer, por exemplo, tiveram a ideia para a campanha Peruca do Amor, de doação de cabelo. Assim, os projetos são pensados desde a educação infantil até o ensino médio. Alguns permanecem muitos anos, outros vão surgindo com novas necessidades. “E nisso vamos inventando para não ficar só no conhecimento, para que os meninos possam dividir aquilo que têm”, explica a professora de ensino religioso Illa Maria Guimarães.


Dependendo do projeto que a escola realiza, os alunos participam da entrega do que arrecadaram por meio das doações.


Em algumas situações, não há como ter a presença estudantil, como a vez em que doaram 800 kits de higiene e brinquedos para crianças do Haiti. Mas, sempre que podem, vivenciam.


Os alunos Natan Brandão, Daniel Brandt e Ana Julia Dornelas, do Centro 
Educacional Leonardo da Vinci, são voluntários em projetos sociais na escola (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Os alunos Natan Brandão, Daniel Brandt e
Ana Julia Dornelas, do Centro Educacional
Leonardo da Vinci, são voluntários em
projetos sociais na escola
A estudante do 5º ano Alice Romagnoli foi uma das 150 alunas que participaram do Peruca do Amor. Os cabelos lisos, que antes eram grandes, agora compõe um charmoso chanel. “Eu já tinha perguntado para minha mãe se eu podia cortar o cabelo para doar”, conta. Assim que surgiu a oportunidade, aproveitou. Já o aluno Teodoro Guimarães, do 7º ano, brinca que a única ação de que não participou foi a da doação de cabelo, mas sempre vai às entregas de arrecadações. O que mais gosta é o contato com as outras pessoas. “O que me motiva a ir é ver que eu posso ajudar quem necessita.”


Uma iniciativa nova veio do Colégio Marista na Asa Sul. A Oficina de Ações e Projetos Solidários, chamada pelos alunos de Oficina de Solidariedade, começou no ano passado como laboratório. Neste ano tornou-se efetiva. Na escola, o projeto é tratado como parte da Instituição Marista. “Temos um perfil de estudante que precisa ser formado em um viés pesquisador, solidário e comunicativo. A Oficina de Solidariedade surgiu nesse sentido”, conta o professor de história e responsável pelo projeto, Reinaldo Córdova.


Os alunos se reúnem na oficina uma vez por semana, mas em dois grupos diferentes, em horário contrário ao das aulas. Normalmente, Reinaldo apresenta uma pauta, discute o tema, o local para onde irão e que tipo de ações serão realizadas lá. Depois os alunos fazem pesquisas e se preparam para a visita. Quando chegam ao lugar, descobrem as demandas de quem está lá. “Às vezes é conversar, às vezes é sentir-se querido.”

 

Reinaldo Córdova (em pé), responsável pelo projeto Oficina de Solidariedade, com seus alunos do Marista: formação em viés solidário e comunicativo (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Reinaldo Córdova (em pé), responsável pelo projeto Oficina de Solidariedade, com seus alunos do Marista: formação em viés solidário e comunicativo
 

Os alunos da 3ª série do ensino médio, turma J, estão em peso no projeto. Larissa Teixeira, por exemplo, o conheceu pelo canal interno de TV, interessou-se e levou as amigas de turma. Uma das visitas que mais marcou o grupo foi a ida ao asilo. “É uma realidade totalmente diferente. Ninguém aqui tem os avós num asilo, e lá deu para ver que eles estão bem, são bem cuidados, mas que ninguém está muito feliz.”


No Colégio Salesiano Dom Bosco, a solidariedade é ensinada em sala de aula. Os alunos do 7º ano há sete anos participam do projeto Desenvolvendo um Trabalho Beneficente. A campanha visa arrecadar alimentos, materiais de limpeza e brinquedos. Isso de acordo com a necessidade da instituição carente que será ajudada, sempre escolhida pela assistente social da escola. O trabalho é desenvolvido pela professora de língua portuguesa Norma Neide, em parceria com a coordenação do colégio. “A finalidade é nobre: tornar os alunos capazes de realizar atos de solidariedade”, conta.


A coordenadora Érika Kirchner, entre os alunos Thiago Vidal e Pamela Hansen, da Católica: doação de livros para creches (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A coordenadora Érika Kirchner, entre
os alunos Thiago Vidal e Pamela Hansen,
da Católica: doação de livros para creches
Os alunos da turma são separados em grupos entre os que moram mais próximos. Recolhem alimentos entre os vizinhos e trazem para o colégio, onde ficam armazenados, e depois realizam a entrega. Depois, os participantes redigem um texto relatando a experiência, mostrando aquilo em que podem melhorar. De acordo com a supervisora do ensino fundamental II e médio, Ana Cláudia Goldner, os alunos se mobilizam: “Eles voltam da experiência mais solidários. Até no intervalo notamos isso.”


Sem ter um programa especial de voluntariado, o Centro Educacional Católica de Brasília estimula a solidariedade e o voluntariado ao longo de todo o ano por meio de ações sociais interligadas às atividades do calendário escolar.  A coordenadora de Área e Pastoral, Érika Arrais Kirchner, explica que em todos os eventos há uma campanha de solidariedade atrelada. “Eles estão habituados, estão sendo educados com esse pensamento solidário. Faz parte do cotidiano deles, não é uma ação isolada.” Um exemplo é a doação de livros a instituições carentes. Há três frentes de solidariedade na escola, que geralmente puxam as ações sociais: os eventos, o grupo jovem Vida Católica e Catequese e as aulas de ensino religioso e ética.


Em 2013, os alunos foram a um orfanato para entregar brinquedos. Por meio de um grupo no Whatsapp eles compartilharam as experiências vividas. E mesmo sendo uma escola católica, Érika conta que os alunos de outras religiões também se envolvem bastante nas ações.


Thiago Vidal, da 3ª série do ensino médio, conta que a ação que mais o marcou foi a visita ao lar dos velhinhos. “Eles falam de jeito de diferente. Quando vamos visitar crianças, elas falam de futuro. Já os idosos, falam mais das experiências que devemos ter durante a vida.” Já para Pamela Hansen, também da 3ª série, destaca ações com crianças: “É muito gratificante. Podemos estar no pior dia da nossa vida, mas só de ver os sorrisos de felicidade delas, mudamos.”

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017