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Cultura | Roteiro »

Vejo o Cristo da janela...

Com bares, restaurantes e festas inspirados na Cidade Maravilhosa, Brasília se tornou uma extensão do jeito carioca de aproveitar a vida

Jéssica Germano - Redação Publicação:29/09/2014 09:00Atualização:07/10/2014 14:27

Não é dezembro, os calçadões não estão lotados e o sol que se põe não tem o Arpoador no cenário. O samba, porém, está a postos em uma roda que busca manter o estilo tradicional dos encontros democráticos em território fluminense, o chope ganha espaço nas mesinhas voltadas para a rua e os sucos coloridos convidam a aproveitar o dia seco e ensolarado do lado de fora.


Conhecida por receber cidadãos do mundo todo, a capital do país guarda um pedaço especial da cidade eternizada pelos versos de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Cazuza e mostra que a distância até o Galeão pode ser bem menor do que a pouco mais de uma hora que já liga diariamente concreto e mar.

 

 

'Isso aqui é um bar carioca', diz Márcia Monteiro, ao lado do marido, Cláudio Carneiro, proprietários do Villa Carioca (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
"Isso aqui é um bar carioca", diz Márcia
Monteiro, ao lado do marido, Cláudio
Carneiro, proprietários do Villa Carioca
Para ficar claro!


Villa Carioca

“Eu acho que todo mundo que abre um barzinho quer imitar o Rio de Janeiro”, teoriza Márcia Monteiro, enquanto observa o movimento do boteco com ar de petiscaria que montou recentemente com o marido, Claudio Carneiro, em Águas Claras. O casal sempre teve nos moldes cariocas de servir cerveja e aperitivos
a base para o primeiro negócio comercial. Com direito a sardinha frita (R$ 35,90) e espetão misto – combinado de picanha bovina e suína, costela, linguiça de frango e de pernil e coxa e sobrecoxa assadas – (R$ 99), o cardápio enfatiza a influência, enquanto no telão e som ambiente os protagonistas são sambistas conhecidos. De Diogo Nogueira a Maria Rita, o ritmo predomina e embala o lugar que fez questão de dispor parte das mesas nas calçadas, e é cercado por casas. Formato pouco usual na cidade projetada com quadras comerciais e residenciais, assim separadas. “Isso aqui é um bar carioca”, diz a sócia-proprietária, que vem respaldada pelos termos de “aipim”, para mandioca, e “charque”, para carne seca, no menu. “Isso a gente deixa claro.”

 

Quadra 301, Conj. 10, lote 3, Águs Claras / (61) 3039-2469

 

 

 

De onde vem o batuque: a feijoada é o carro-chefe, mas o Armazém do Ferreira tem toda a cara de boteco antigo do Rio de Janeiro (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
De onde vem o batuque: a feijoada é o
carro-chefe, mas o Armazém do Ferreira
tem toda a cara de boteco antigo do
Rio de Janeiro
Feijoada e música, a dupla


Armazém do Ferreira

Há pelo menos dez anos os almoços no estabelecimento que ocupa um lado inteiro do bloco A da comercial da 202 Norte começam sem pressa para terminar. Isso porque, quando implantou o sistema de bufê de feijoada, batida de limão e samba, Jorge Ferreira tinha justamente o intuito de fazer com que os clientes ficassem mais tempo na casa. Funcionou. Com 11 caldeirões servindo diferentes tipos da receita à base de feijão, o negócio explora a forte relação que os brasilienses têm com a capital carioca. “A ideia do Jorge era remeter aos botecos de 1940, 1950 do Rio e de São Paulo. Por isso, o Armazém tem toda a cara de boteco antigo do Rio de Janeiro”, conta Mauro Calixhman, diretor executivo do Grupo Ferreira. Com direito a um “Baixo Jorjão”, em alusão à parte do Leblon onde o burburinho acontece no Rio, o bar/restaurante mantém sua referência e investe também no samba ao vivo. Todos os sábados, das 13h às 18h, o Grupo Candangueiro se apresenta ao lado da cantora Anna Christina, mostrando que os azulejos em preto e branco e as fotos de cartões-postais não representam sozinhos a Cidade Maravilhosa.

 

CLN 202, BL. 1, loja 57 / (61) 3327-8342

 

 

 

 

Itiberê Ribeiro, proprietário do Beco, trouxe para Brasília os costumes de uma cultura botequeira: 'No Rio, chama-se de pé limpo' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Itiberê Ribeiro, proprietário do Beco, trouxe para Brasília os costumes de uma cultura botequeira: "No Rio, chama-se de pé limpo"

 

A cultura botequeira


Beco - Bar, Restaurante e Lanchonete

A pesquisa para montar o próprio negócio durou dois anos e contou com visita in loco às principais capitais botequeiras do país: São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia e, como não, Rio de Janeiro. Da apuração vieram as decisões sobre a decoração, que remete ao final do século XVIII e início do XIX, quando os locais para beber
no país não passavam de bodegas, com salames para aperitivo. De estilo centenário, com piso de ladrilho hidráulico, grades de ferro e mesas de madeira, o negócio de Itiberê Ribeiro passaria facilmente por qualquer bar na Lapa ou em Santa Tereza. “Essa história nasceu exatamente pela vontade de trazer para Brasília os costumes de cultura botequeira, que no Rio chama-se de pé limpo”, explica o proprietário. Sem música ambiente, o estabelecimento investe fortemente na cultura do chope gelado e nos petiscos para acompanhar. Do cardápio democrático, que apresenta bem os reflexos das viagens para estudar o mercado, o Beco traz desde a carne em lata, famosa no Goiás, até o pastel, a empada e o croquete. “O Rio de Janeiro é o único lugar do Brasil onde se come empada como petisco”, destaca Ribeiro, bem-humorado, para contextualizar: “As pessoas param no centro do Rio, tomam um chopinho em pé, e pedem uma empadinha para acompanhar”.

 

CLS 407, Bloco A, lojas 34/36 / (61) 3343-7735

 

 

O prato Aragão é representativo no Rio Bistrô: carne seca, risoto de abóbora, mostarda refogada e crispy de mandioca (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
O prato Aragão é representativo no Rio
Bistrô: carne seca, risoto de abóbora,
mostarda refogada e crispy de mandioca
Tempero carioca

 

Rio Bistrô e Lounge


O conceito de comida boa sem muitas invenções sempre acompanhou a veia empreendedora de Frederico Bastos, desde  quando ainda estava no comando da franquia carioca Doce Delícia. Após o fechamento da casa, a receita permaneceu – só que dessa vez podendo ir até onde o restauranter quisesse. Com consultoria da chef brasiliense que morou nove anos no Rio de Janeiro, Tatiana Lisboa, o restaurante da 404 Sul continuou servindo porções fartas – bem aceitas pelos cariocas – e explorou a tendência da comida saudável, tudo com uma roupagem atual. Na decoração, o pé-direito alto, as almofadas coloridas, a parede de azulejos formando um calçadão e o pequeno jardim, com vista para os blocos residenciais, compõem a cena enquanto qualquer um dos pratos, com referência a nomes de personalidades relacionadas à capital carioca, chega à mesa. O (Jorge) Aragão aparece em versão de carne seca puxada na manteiga de garrafa, risoto de abóbora, folha de mostarda refogada e crispy de mandioca, enquanto o Cazuza vem representado por um hambúrguer de quinoa, mix de cogumelos salteados e salada verde (ambos R$ 39). Para acompanhar, qualquer um dos mais de 15 sucos da casa vai bem, mas são os diferentes, como o de laranja com framboesa (R$ 9), que mais lembram as barracas descoladas das praias cariocas. Para Bastos, a mudança deu mais do que certo. “Afinal, qual brasiliense não gosta do Rio?”, indaga.

 

CLS 404, Bl. A, loja 27 (61) 3321-1412

 

 

O sucesso do samba Semente da Vila confirma: Brasília tem uma relação muito grande com o Rio (Wendel Lopes/Divulgação)
O sucesso do samba Semente da Vila confirma: Brasília tem uma relação muito grande com o Rio

Sem fronteiras geográficas


Semente da Vila

Inspirado nos tradicionais Samba do Ouvidor e do Trabalhador, que acontecem no centro do Rio e no Andaraí, respectivamente, o Semente da Vila nasceu do encanto pelo samba que a produtora Ellen Fortes adquiriu após conhecer as principais rodas do ritmo na capital sudeste. “Além do gosto musical, nós reunimos no projeto tudo o que nós gostamos em um samba”, descreve a idealizadora, incluindo o amigo e sócio, Johaben Camargo. Desde 2011, o encontro acontece mensalmente no Rotary Club, comumente com edições temáticas e sempre homenageando alguma figura do ritmo. Ivone Lara, Noel Rosa, Martinho da Vila e Elza Soares fazem parte da lista. Não raramente, os músicos convidados para integrar a roda – que tem como base músicos brasilienses – são cariocas. Em um dos encontros, que têm uma média de 600 pessoas, o convidado foi Moacir Luz, idealizador do Samba do Trabalhador. Desse evento, Ellen tem uma de suas melhores lembranças do Semente. “Tem vídeo dele falando ‘isso aqui é o Rio de Janeiro!’”, lembra, com um tom de orgulho nítido na voz. Parte da parcela que acredita que a música permite romper barreiras geográficas, a produtora nem cogita abandonar a principal referência do projeto. “Não tem como. Brasília tem uma relação muito grande com o Rio”, constata.

 

Rotary Club – SCES Trecho 3, Lote 6, Asa Sul. (61) 9267-1108

 

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017