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Para fugir do trânsito e aproveitar melhor o tempo, brasilienses mudam o endereço e o estilo de vida para ter acesso a trabalho, estudo e serviços essenciais num raio de poucos quilômetros de casa

Dominique Lima - Redação Publicação:23/10/2014 12:00Atualização:23/10/2014 12:22

Estudante de medicina, 
Bruna Heinen saiu 
do Sudoeste para 
morar num apartamento que divide o muro com 
a faculdade, em Taguatinga: economia de três 
horas diárias  (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Estudante de medicina, Bruna Heinen saiu
do Sudoeste para morar num apartamento
que divide o muro com a faculdade, em
Taguatinga: economia de três horas diárias
Desde que se mudou para Águas Claras, onde fica a empresa que abriu, a rotina de Lúcia Soares transformou-se. O tempo antes gasto no trânsito entre a casa e o trabalho é usado em outras atividades. A academia que frequenta fica no condomínio onde mora. Em poucos minutos, mesmo a pé, ela encontra supermercado, padaria, farmácia e restaurante. A arquiteta Cynthia Rondelli, a estudante Bruna Heinen e a gerente de relações públicas Helena Azeredo fizeram a mesma opção de Lúcia: trabalho, compras, academia, tudo é feito num raio de poucos quilômetros de onde moram. A escolha trouxe uma série de benefícios e alguns desafios para cada uma delas.


O trabalho autônomo da arquiteta Cynthia Rondelli favorece uma rotina mais flexível. A recepção de clientes em casa e o desenvolvimento de projetos à noite, depois de os filhos dormirem, permitem maior tempo dedicado à família no resto do dia. Com o fim do uso de um escritório longe de casa, a fuga dos horários de congestionamento ficou mais fácil, o que contribuiu para a economia de tempo. Foi o passar dos anos na profissão e o consequente estabelecimento de nome no mercado que permitiram a maior liberdade, conquistada também por meio da contratação de auxiliares. Eles são, segundo ela, muito importantes para manter a engrenagem da rotina bem ajustada. Moradora do Lago Sul, ela conta que as transformações no dia a dia vieram da vontade de passar mais tempo com os dois filhos, de 12 e 9 anos de idade.


“Tive de fazer escolhas, deixar de lado algumas atividades em nome de outras. Hoje, consigo um dinamismo na execução das tarefas que não tinha antes”, conta. Em um dia normal, o início das manhãs é dedicado aos filhos. Logo depois, aproveita para se exercitar na esteira de casa, em vez de ir à academia. “Antes, o aparelho era usado como cabide”, brinca ela. Ao longo do dia, faz visitas a obras, recebe clientes. À noite, depois do tempo de interação com os familiares, dedica-se a leituras e ao desenvolvimento de projetos. O novo estilo de vida teve alguns contratempos, no entanto. A escola dos filhos, antes a três minutos de carro de sua casa, foi substituída por uma na Asa Norte. Mesmo assim, consegue economizar tempo graças à ajuda do marido, com quem divide a tarefa de levar e buscar os filhos.


A arquiteta Cynthia 
Rondelli transferiu o escritório para 
a casa: mais tempo para os filhos 
e proximidade 
com o verde (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A arquiteta Cynthia Rondelli transferiu o
escritório para a casa: mais tempo para os
filhos e proximidade com o verde
Cynthia Rondelli está há seis anos na casa onde mora atualmente, mas está no Lago Sul desde 1992. “Naquela época, a única opção de comércio e entretenimento era o Gilberto Salomão. Morava com meus pais e lembro que passávamos por uma estrada de terra para chegar em casa. Era muito cerrado. A padaria mais próxima ficava a 15 km”, descreve. Hoje, a realidade é outra. Apesar de ainda precisar do carro, poucos minutos a separam do supermercado. A construção da Ponte JK foi outro marco. Depois da nova ligação com o Plano Piloto, a economia é de até 40 minutos em cada traslado. Para a arquiteta, a grande vantagem de morar por lá é ter um quintal. “Adoro bicho e jardins, áreas verdes. Os espaços entre os vizinhos ainda permitem certa privacidade”, explica. Apesar de morar no Lago Sul há mais de duas décadas, Cynthia prefere não se considerar bairrista. “Sou mesmo é apaixonada por Brasília”, diz.


As vantagens de morar em Águas Claras fizeram do bairro a melhor escolha para a família de Lúcia Soares Galindo. A empresária, o marido e os três filhos saíram do Sudoeste há um ano para viver num apartamento maior e mais afastado do Plano Piloto. Lúcia teve o benefício, ainda, de ficar perto do negócio, uma clínica de beleza. Além de estar a poucos minutos do trabalho, ela encontra opções diversas de serviços acessíveis a pé. Raras vezes sente a necessidade de ir ao centro de Brasília. Consultas médicas são uma das poucas atividades que a levam a dirigir os quilômetros que separam seu novo bairro da Asa Sul ou da Asa Norte.


A única mudança que sugere para o novo bairro é a construção de mais estacionamentos. “Para um comerciante, a falta de vagas é ainda mais difícil, porque afeta o acesso de clientes”, reclama. Mas Águas Claras traz vantagens para donos de lojas, segundo Lúcia. Muitas pessoas conhecem e passam a frequentar um estabelecimento depois de passarem na frente. Há por ali o hábito de explorar a cidade a pé e, por isso, de buscar serviços de forma mais localizada. “Temos opções de diversão, bares, um circuito gourmet. Águas Claras definitivamente não é mais uma cidade dormitório”, diz.


A empresária Lúcia Soares mudou-se para Águas Claras, local onde montou uma clínica de estética: só vai ao Plano Piloto para ir ao médico (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A empresária Lúcia Soares mudou-se para
Águas Claras, local onde montou uma clínica
de estética: só vai ao Plano Piloto para ir
ao médico
Na divisa entre Águas Claras e Taguatinga, a estudante de medicina da Universidade Católica de Brasília Bruna Gabriel Heinen aproveita a distância de poucos passos entre o prédio onde mora e a faculdade. De Goiânia, mudou-se para a capital federal há três anos para cursar medicina. Logo que chegou, foi morar com a irmã no Sudoeste. Porém, a rotina tornou-se muito cansativa, gastava até três horas por dia para ir e voltar de casa usando transporte público. Com a ajuda dos pais, encontrou, então, o apartamento, que compartilha um muro com a universidade onde estuda.


“A mudança na minha vida foi total. Antes, no primeiro semestre, eu tinha de levar comigo tudo o que fosse precisar para o dia inteiro: roupa de frio, comida, livros. Hoje, posso passar em casa nos intervalos entre as aulas, ficar na biblioteca até mais tarde sem me preocupar com trânsito”, diz. Um ponto negativo da nova moradia é a falta de estrutura de serviços por perto. O comércio oferece poucas opções para quem quiser sair a pé. Mesmo assim, com carro, que hoje tem, alguns minutos a separam das lojas e mercados.

 

 

 


Helena Azeredo estuda a poucos 
metros de casa e só usa o carro para 
sair à noite: 'Consigo ouvir os pássaros' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Helena Azeredo estuda a poucos metros
de casa e só usa o carro para sair à noite:
"Consigo ouvir os pássaros"
O novo estilo de vida incluiu ainda a experiência de viver sozinha pela primeira vez. O primeiro ano trouxe mais dificuldades, mas Bruna está muito bem adaptada. Até porque, segundo ela, o ambiente de Taguatinga a faz se lembrar de Goiânia. Apesar de visitar a cidade natal e os pais quase todos os fins de semana, ela já dedica alguns dias de folga à Brasília, para curtir a cidade e os amigos.


Mesmo não estando a um muro da faculdade, o trajeto linear que separa Helena Azeredo da faculdade onde estuda comunicação social, o Uniceub, pode ser percorrido a pé em poucos minutos, sob a sombra de muitas árvores. Formada em artes plásticas e atualmente gerente de relações públicas, ela decidiu voltar à universidade para se especializar na área que pretende seguir. Moradora da Asa Norte há 20 anos, ela enumera sem hesitar tudo o que encontra a alguns passos de casa: bons restaurantes, butiques, perfumaria, pet shop, verdurão e supermercado.


Para ir à academia, há diversas opções em que nem precisa atravessar a rua. Às aulas de inglês, vai de carro porque é mais seguro durante a noite, mas em poucos minutos completa o trajeto. Ex-moradora da Asa Sul e do Park Way, ela aponta o silêncio da vizinhança atual como uma enorme vantagem. Com as janelas voltadas para um amplo espaço verde, ela consegue ouvir os pássaros. “Meu próximo passo nesse estilo de vida de mais contato com a cidade é adotar a bicicleta. Seria muito bom se aquelas disponíveis para aluguel chegassem até o final da Asa Norte”, diz.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017