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Entrevista | Monge Sato »

"Algo (no poder) não cheirava bem"

Amigo do ex-presidente Lula, monge Sato deixou o poder para estudar o budismo. Hoje, carrega outras bandeiras, como transformar o Templo Budista, na Asa Sul, em patrimônio do Distrito Federal

Paloma Oliveto - Publicação:24/10/2014 12:00Atualização:24/10/2014 14:02

 (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Um samurai e um caipira convivem no interior de Ademar Kyotoshi Sato. Esses personagens, herdados da mãe e do pai, às vezes enfrentam-se; outras, complementam-se. São eles que ajudaram o hoje monge budista, responsável pelo Templo Shin Terra Pura, na Asa Sul, a viver uma trajetória pitoresca. Uma caminhada margeada por acontecimentos históricos, como a imigração japonesa, a Segunda Guerra Mundial, o golpe de 1964, o assassinato de Salvador Allende, a transformação de um operário de São Bernardo em presidente da República.


Nessa jornada singular, ora o religioso precisou da força guerreira da família materna, formada pelos antigos soldados da aristocracia do Japão, ora agiu em conformidade com o lado pacífico e cordial, fruto da personalidade do pai, um agricultor, filho de japoneses, que nasceu no interior paulista e foi obrigado a lutar na Manchúria durante a Segunda Guerra Mundial. De lá, voltou casado com uma prima que desconhecia, em 1941. No ano seguinte, nascia o futuro monge.
Quem hoje vê o nissei de 72 anos vestido com o traje de monge, de voz mansa, porém firme, acendendo incenso dentro do templo, não imagina que Sato já foi marxista. Da mesma forma que deveria causar espanto aos ex-companheiros de resistência esquerdista o fato de, poucos anos antes, ele ter sido um fiel integrante da juventude católica.


Aos 22 anos, Sato era um dos mais jovens professores da Universidade de São Paulo (USP), onde também atuava o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Assim como FHC, ele se autoexilou no Chile após o golpe militar — embora não atuasse diretamente no movimento de resistência, o jovem docente ajudava a esconder alunos. Administrador e economista, trabalhou no país de Allende pela Organização das Nações Unidas (ONU) e foi graças ao passaporte diplomático que escapou do fuzilamento no dia em que Augusto Pinochet tomou o poder.


De volta ao Brasil, Sato aproximou-se do movimento operário e de seu líder máximo — Luiz Inácio Lula da Silva, de quem se tornaria amigo. Duas tragédias, a morte do irmão e do primogênito, que sofreu um aneurisma cerebral com 7 anos, tornaram o retorno doloroso. O economista buscou na luta esquerdista a força para sair de uma depressão.


Em 1994, morando vizinho ao Templo Shin Terra Pura, no qual jamais havia pisado, Sato resolveu entrar. Na época, era diretor-presidente do extinto Instituto de Desenvolvimento Regional, órgão do GDF. Mas o poder político não mais o apetecia. Quatro anos depois do primeiro contato com o budismo, tornava-se monge, nomeado para comandar o templo, encomendado por Juscelino Kubitschek, mas inaugurado apenas em 1973, após sete anos de construção.


Hoje, Sato luta pelo reconhecimento do templo e do sino que faz parte do complexo como patrimônio de Brasília. Por um lado, o caipira paulistano que mora no monge fornece a paciência necessária para enfrentar toda a burocracia em torno do tombamento. Por outro, sobressai-se o samurai decidido: agraciado com o título de cidadão honorário, foi convidado pelo autor do projeto a oficializar a honraria com uma cerimônia pública. “Falei que só aceito no dia em que o templo for considerado patrimônio.”
 




O senhor recebeu uma educação muito rígida por parte de mãe?
Sem dúvida. Isso me marca até hoje. Por outro lado, essa coisa do caipira brasileiro, que dá um jeito nas coisas, sem fazer muito esforço, choca-se com a formação que tive da minha mãe. Fui para a esquerda por causa da minha mãe, que era tão direitista... A família dela era de samurais decadentes, completamente elitista. Quando começou a guerra, minha mãe não pôde voltar para o Japão, porque a situação econômica ficou pior do que quando ela saiu de lá e, com o fim da guerra, o Brasil começou a se industrializar. Mas acho que minha família ficou pela receptividade do povo brasileiro.

Mas, com o fim da guerra, os japoneses não sofreram preconceito no Brasil?
Preconceito sim, por causa da guerra e porque a elite brasileira e o próprio governo brasileiro, para agradar aos americanos, restringiu e oprimiu os caras-amarelas. O Eixo, que perdeu a guerra, não eram só os japoneses. Eram os italianos e alemães também. Mas os italianos e alemães estavam há mais tempo no Brasil e eram brancos. Não acho que é preconceito da sociedade brasileira, mas perseguição da elite. Uma parte da elite brasileira foi contra a imigração japonesa e só a aceitou porque não tinha mão de obra. Os japoneses eram dóceis, substituíam perfeitamente a escravidão negra, então a imigração japonesa era necessária.

Quando seus pais chegaram e se estabeleceram em São Paulo, eles foram trabalhar com o quê?

Meu pai veio como empregado de uma empresa japonesa, aí perdeu o emprego porque as relações diplomáticas e comerciais com o Japão foram interrompidas. Se minha mãe não fosse samurai, não aguentaria. Ela era tão direitista, que quando eu soube que eu era amigo do Lula, disse: “Meu filho, como é que um operário pode ser presidente? Deixa essa amizade, não vai te fazer bem! Ainda mais operário barbudo, baixinho, feio!”. Fiquei com tanta raiva que um dia levei minha mãe para conhecê-lo. Foi antes de ele ser presidente. O Lula é um sedutor. Ele pegou minha mãe no colo, abraçou, beijou-a, fez agrado, deu bombom para ela. Aí, na volta eu perguntei: “O que a senhora achou?”. “Seu amigo é muito gentil, falou comigo, me abraçou... Mas não vai ser presidente, não.” Era puro preconceito. Gostou dele como pessoa, mas não pode ser presidente porque era operário.

A sua família era budista?
Os pais do meu pai eram budistas, mas, já que estavam no Brasil, batizavam os filhos, e depois voltavam ao budismo. Meu pai era cristão, não era católico nem budista. A religião japonesa chama-se xintoísmo do imperador, ou seja, o imperador é um deus xintoísta. Então, é uma veneração ao imperador. Quando  estive no Japão, eu me encontrei duas vezes com o atual imperador quando ainda era príncipe. O imperador é deus-vivo, então não se encontra mais conosco. Mas o príncipe herdeiro ainda é “pré-deus”, então atende delegações estrangeiras, etc. Mostrei uma foto para a minha mãe e ela não quis acreditar. Em 2008, o príncipe veio ao Brasil. Já não trabalhava mais com o Lula, mas ele me chamou.  “Olha aí, Sato, seu príncipe, dá a mão aí para ele!”, ele disse. E eu: “Não, Lula, não se dá a mão ao príncipe...”. Aí ele falou: “Olha aí, príncipe, esse é um companheiro meu, fundamos o PT e, de repente, ele me abandona para servir um tal de Buda, é um sem-vergonha!”.

E o tradutor suando frio...
Sim, assustado! Se mostrasse essa foto para minha mãe, ela ia dizer novamente que eu tinha montado! Como a maioria dos japoneses, ela venerava o imperador. Essa é uma religião. Na verdade, o xintoísmo e o budismo são linhas auxiliares dessa religião chamada Deus imperador. No altar da minha mãe, havia a fotografia do imperador, coisas do budismo, do xintoísmo e de Nossa Senhora Aparecida. Então, digamos que eu não tivesse nenhuma formação religiosa séria na minha infância.

Como foi o seu envolvimento com o marxismo?
Antes disso, eu me envolvi com o cristinanismo. Quando entrei na USP, aos 18 anos, uma das primeiras pessoas que me procurou para me arregimentar para a juventude católica foi o Valter Barelli, que depois foi ministro (do Trabalho, no governo Itamar Franco). Foi um período muito especial, porque era exatamente o Brasil novo do qual Brasília, por exemplo, faz parte. Era a época do Cinema Novo, da bossa-nova... A União Nacional dos Estudantes (UNE) estava ressurgindo, a juventude católica também estava se refortalecendo e aí embarquei de cabeça na juventude universitária católica, que achou que tomaria o poder. Então, veio o golpe de 1964. O pessoal da juventude católica tomou três rumos. Os mais religiosos foram para a teologia da libertação. Outros foram para movimentos de resistência à ditadura, até armada mesmo. O terceiro grupo era o pessoal menos aguerrido, não foi para nenhum dos dois lados. Esses acabaram tornando-se os primeiros ministros do Fernando Henrique Cardoso.

Em que momento o senhor se tornou esquerdista?

Embora eu não tenha sido preso, dei muita cobertura aos alunos, até aproveitando minha condição de professor universitário. Protegi, escondi aqueles que estavam sendo perseguidos pela ditadura. Só que eu vi que estava marcado e me exilei voluntariamente no Chile. Foi em janeiro de 1970, antes da eleição do Allende, como funcionário das Nações Unidas. Logo quando Allende foi eleito, eu larguei as Nações Unidas e fui trabalhar com ele. Fiquei muito atraído pela personalidade dele, pela proposta de tornar o Chile um país socialista sem ser pela luta armada, mas por uma transição democrática, por eleições.

Que trabalho o senhor fazia lá?

Eu trabalhei com um projeto de ajudar o planejamento das fábricas da área social. Foi essa a minha transição para o marxismo. Um governo de trabalhadores, as unidades econômicas sendo geridas pelos próprios trabalhadores. Eu não sabia que seria preso no dia do próprio golpe. Tanto é que fiquei no Chile quando vários brasileiros já tinham saído. Não sentia que corria perigo. Daí a surpresa quando fui preso.

Chegou a trabalhar pessoalmente com Salvador Allende?
Sim, eu fui preso justamente porque viajava muito no jatinho dele. Fui preso no dia do golpe, acusado de ser o agente chinês que o Mao Tsé Tung tinha enviado. Essa era a acusação. Fui levado para fuzilamento nos subterrâneos no Estado Maior do golpe, que era no Ministério da Defesa. Estava para ser fuzilado quando apareceu o Manuel Contreras para me interrogar (Contreras foi chefe da polícia secreta chilena no governo Pinochet, considerado o mais poderoso e temido homem do país). Ele falou: “Você vai morrer agora, mas antes eu quero conhecer o assessor chino do Allende”. Perguntei: “Quem é você para me matar?”. Aí ele disse que eu era o assessor chinês do Allende e respondi que não era chinês, mas brasileiro, e tinha o passaporte diplomático da ONU original. Dali a pouco, Contreras volta, pedindo desculpas: “Doutor, o senhor ia ser morto, ainda bem que eu vim aqui”. E ele me levou pessoalmente para casa.

O senhor perdeu um filho de 7 anos. Isso o levou ao budismo?

Perdi dois entes muito especiais depois de ter voltado ao Brasil. Primeiro, perdi, em 1975, meu irmão único, morreu em um acidente de carro depois de dar aula à noite, com 30 anos. Isso mexeu muito comigo. Depois, eu perdi meu filho, em 1978, que completaria 8 anos. Isso acabou me levando ao budismo também. Fiquei muito deprimido.

A luta pela democracia também o ajudou a superar?

Sim. Começava a movimentação do retorno à democracia, os movimentos em São Paulo, para onde retornei, para dar aula. Então, aproximei-me de São Bernardo, onde havia o novo sindicalismo, e conheci o Lula. Houve a fundação da CUT e a do PT, e as eleições indiretas. O Sarney tornou-se presidente e um ex-aluno meu foi chamado para ser ministro do Planejamento do Sarney, o João Sayad, e me chamou para ser secretário-geral adjunto. O Lula falou: “Vai lá, porque a gente não conhece nada de governo!”. Acabei ficando, esperando o Lula, participei de várias campanhas. Aí o PT chegou ao poder. Fui trabalhar com o Cristovam (Buarque), governador de Brasília. Passei pela experiência do poder. Comecei a sentir uma coisa esquisita no governo. Não do Cristovam, mas do governo em geral, do clima que cerca o poder. Algo me disse que deveria me afastar.

A política o decepcionou?

Não é decepção. Talvez eu ainda estivesse idealizando o poder… De alguma forma, a religião, até o budismo, é uma idealização da realidade. Só que tem de ser uma idealização no sentido de manter a esperança, manter o ideal, não uma idealização fanática. Muita gente diz: “Poxa, você é tão amigo do Lula, e deixa o poder assim…”. Mas talvez eu sentisse alguma coisa que não estava mais me cheirando bem. Depois, percebi que mesmo no mundo religioso existe a disputa pelo poder. Às vezes, até de forma mais sofisticada. Isso é o ser humano.

Como está o movimento para que o templo seja reconhecido como patrimônio de Brasília?
Apresentei um documento para o Conselho de Cultura e fiz a exposição de motivos para a Secretaria de Cultura para pedir o reconhecimento do templo. A história do templo é a seguinte: Juscelino Kubitschek chamou os japoneses para produzir verdura no DF e eles queriam um terreno para erigir um templo em Brazlândia. Mas Juscelino quis no Plano Piloto, porque o templo significava o ecumenismo que ele queria para Brasília. O templo faz parte do simbolismo de Brasília.

Hoje, quem são os frequentadores?

A maioria não é budista. Os budistas de verdade eram os nisseis, que foram morrendo. Excetuando a sede de São Paulo, dos 40 templos dessa ordem que existem no Brasil, o de Brasília é o mais bonito. Antes, o templo estava sempre fechado, só abria para a comunidade nas quermesses. A atividade religiosa era só para os japoneses, os monges não falavam português. De certa forma, era para dar um conforto espiritual aos japoneses. Os monges não se dirigiam aos que não eram de origem japonesa.

Isso foi mudar com o senhor?

Antes de mim, passaram três pessoas que falavam português. Um deles é o Murilo Nunes de Azevedo, que foi presidente da Sociedade Teosófica, depois se tornou monge. Ele se relacionava bem com a comunidade japonesa. Depois, veio outro monge, que se apaixonou por uma brasileira e aprendeu português. Em 1998, o bispo lá de São Paulo permitiu que eu me tornasse monge. Eu quis ser monge não para cuidar do templo, mas para estudar de forma sistemática.

Como foi sua formação de monge?
Geralmente, o processo é de quatro anos. Agora, como esse bispo tinha interesse que eu me tornasse responsável pelo templo, eu estive no Japão por seis meses e, nesse período, pude obter minha ordenação, depois de passar por exames de conhecimento. Excepcionalmente, permitiram que eu fosse ordenado sem o curso de quatro anos. Então, foi assim que acabei ficando aqui. Aposentei-me como funcionário público federal do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2006 e passei a me dedicar inteiramente ao templo.

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017